Sobre as autoras[1]
Introdução
Este
artigo procura analisar a trajetória da estilista mineira Zuzu Angel, utilizando
como fundamento teórico-metodológico a biografia histórica e a moda numa
perspectiva da história cultural, entendida como representação e produção de
sentidos, ou seja, a moda enquanto tradutora de posições e interesses dos atores
sociais.
Atualmente, o gênero biográfico vem sendo repensado, provocando reflexões sobre
suas produções, principalmente as relacionadas ao campo do conhecimento
histórico. Há tempos atrás o gênero biográfico era utilizado para promover e
exaltar grandes heróis nacionais, mas hoje isso não é mais regra.
A
historiografia vem dando maior atenção à atuação dos sujeitos na história. Não
se valoriza mais apenas as grandes estruturas sociais e econômicas,
principalmente depois do do advento da Nova História.
Isto
não significa que a história deixa de se preocupar com as estruturas mais
profundas que compõem uma sociedade, mas que estas serão buscadas a partir de um
evento, uma vida ou uma prática social, partindo-se da idéia de que não há um
olhar homogêneo, absoluto, ou seja, a “história global” foi substituída pela
“história em migalhas” (REIS, 2000).
Partindo dessas balizas teóricas, podemos definir a biografia como a história de
um indivíduo redigida por outro, mas com a preocupação em revelar, não apenas a
vida do sujeito biografado, mas a relação de seus atos com os fatos históricos.
Em
razão disso, a biografia histórica não se restringe mais em apenas destacar os
grandes feitos do sujeito abordado, mas também deve levar em conta as suas
representações sociais, encarar o biografado através de sua trajetória pessoal
como a via de acesso para a compreensão de questões e contextos mais amplos,
combinando elementos biográficos com significados sociais.
O
biógrafo precisa expressar ao leitor, através de sua narrativa biográfica, como
o contexto histórico influencia os atos efetuados pelo personagem abordado. Para
isso, deve ter o cuidado de não apresentar a trajetória de seu personagem com
uma coerência linear, afinal, a existência de um indivíduo é sempre descontínua
e fragmentada. (AZEVEDO, 2000, p.132)
A
importância do contexto nas biografias é outra questão que necessita de uma
atenção especial, pois não podemos deixar de considerar que o indivíduo deve
estar inserido no seu contexto, ou seja, ele mantém uma relação de exterioridade
com o tempo em que viveu, caso contrário este se transformaria em um autômato
apenas colocado num espaço já formatado. (SCHMIDT, 2000)
Benito
Bisso Schmidt (2000), com relação a esta questão, diz que existe uma tensão
entre o sistema normativo de uma sociedade e a liberdade de ação dos indivíduos,
tensão esta que seria fundante do pensamento ocidental e que as biografias
seriam uma forma privilegiada para se pensar esta questão.
Ao
mesmo tempo em que a biografia histórica vem sendo revista, os estudos sobre a
moda nacional iniciam uma trajetória ascendente, ou seja, alguns historiadores
brasileiros vem se debruçando sobre a moda numa perspectiva da história
cultural, procurando compreende-la como representação social.
Zuzu
Angel: a trajetória do anjo
Zuleika
de Souza Netto nasceu na cidade de Curvelo, Minas Gerais, em 5 de junho de 1921,
mas. mudou-se para Belo Horizonte ainda menina. Aos 22 anos, casou-se com o
canadense, naturalizado americano, Norman Angel Jones. Após o casamento, o casal
foi morar em Salvador, onde tiveram o seu primogênito, Stuart Edgard Angel
Jones, em 1946. Em 1947, mudaram-se para o Rio de Janeiro, onde nasceram as duas
filhas do casal, Ana Cristina e Hildegard. (SILVA, 2006, p.40)
Em
Minas, Zuleika já fazia roupas para suas primas, o que a fez trabalhar
profissionalmente como costureira nos meados dos anos 50. Por intermédio de uma
tia, que era amiga de Sara Kubitschek, esposa do presidente Juscelino
Kubitschek, Zuleika, que passou a usar o nome de Zuzu Angel, entra para o grupo
Obra das Pioneiras Sociais, fundado pela primeira-dama, onde várias senhoras
reuniam-se pra confeccionar uniformes para crianças carentes.
Em
1957, já residindo no Rio de Janeiro, Zuzu inaugurou seu primeiro ateliê no
apartamento que morava em Ipanema. Sua participação naquele grupo solidário
mineiro contribuiu para a ampliação de seu circulo de amizades, favorecendo o
aumento de clientela.
Inicialmente, as peças que começaram a lhe dar maior destaque foram as saias,
que Zuzu fazia com tecidos de colchão, algo incomum para a época. A aceitação
foi tanta, que a partir de então, a estilista passa a ser conhecida como “Zuzu
Saias”.
Além
das saias, Zuzu passou a produzir blusas de variadas formas; e os acessórios
passaram a fazer parte de seus modelos. Para tanto, ela contava com a ajuda de
algumas colaboradoras que montavam cintos, colares e sandálias.
Zuzu
criava sua moda com uma linguagem muito pessoal. Ela tinha como inspiração a
peculiaridade dos materiais que transmitiam uma “brasilidade” para as peças.
Dentre esses materiais estava o pano de colchão, fitas de gorgorão, rendas,
chitas, bambu, conchas, pedras, entre outros. Essa brasilidade potencializava-se
com temas regionalistas e folclóricos, além de destacar a fauna e a flora
através de cores alegres e animais, como pássaros, borboletas e papagaios.
Este
início de carreira da estilista, nos anos 50, foi marcado, no Brasil, pelo
suicídio de Getulio Vargas e pela ascensão de Juscelino Kubistchek à presidência
da República.
A
década de 50 prenunciou as mudanças de comportamento e valores que iriam marcar
os anos 60. O tema que centralizava a atenção era o desenvolvimento do país,
isto é, superação dos problemas sociais, do atraso econômico e cultural.
Neste
período, o Brasil é impulsionado por uma onda de modernização, causando profunda
modificação na sociedade brasileira. Essa modernização é resposta, em parte, à
corrente de pensamento de maior influência dos anos 50, o nacionalismo,
incorporado ao projeto desenvolvimentista do Estado.
O país
vivia num clima de esperança com o desenvolvimento da industrialização. Grande
parte da população que vivia no campo deslocou-se para as cidades em busca de
emprego, promovendo também, o desenvolvimento urbano.
Politicamente, o país foi chefiado por fortes líderes populistas, sendo eles
Getulio Vargas, “Pai da Pátria e Pai dos Pobres”, e Juscelino Kubitschek, “50
Anos em 5”.
Vargas,
em seu segundo governo (1951 – 1954), promoveu medidas de grande amplitude
econômica, aprofundando políticas nacionalistas e articulando perspectivas
desenvolvimentistas. Para se legitimar, Vargas conferiu significativa
importância às massas: o proletário urbano e as camadas médias.
Kubitschek (1956 – 1961), em seu programa de governo, tinha como perspectiva
básica a modernização nacional, abrindo o país ao capital externo através de
estímulos estatais, promovendo a importação de indústrias e tecnologias. O
slogan do governo era “50 Anos em 5”; e o capital externo, o quesito básico para
a concretização dessa meta.
Este
slogan sintetizou a política econômica de JK, segundo Fausto (2001) “[...] foram
anos de otimismo, embalados por altos índices de crescimento econômico, pelo
sonho realizado da construção de Brasília.” (p.233) A modernização não ficou
restrita às camadas altas da população, foi o “descobrimento” dos
eletrodomésticos, a chegada da TV e do rádio, o aumento do consumo, mudança de
comportamento. Surgem os primeiros supermercados no Brasil e as comidas
enlatadas completavam o sonho da dona-de-casa. Foi uma revolução nos padrões de
vida dos brasileiros, acompanhando uma tendência mundial.
Zuzu
Angel já era bastante politizada, o que era raro naquele tempo para uma mãe de
família. Ela era uma mulher à frente do seu tempo, como as atitudes tomadas por
ela ao longo de sua vida demonstraram.
Segundo depoimento de sua filha mais velha,
Zuzu
sempre foi politiqueira. Era juscelinista. Participou dos comitês de mulheres
pró-JK. Era anti-lacerdista até o último fio de cabelo. Anti-UDN. Quando havia o
risco de Juscelino ser preso, ela nos levou para fazer vigília no apartamento
dele, em Ipanema. Assim como fomos levá-lo ao aeroporto, cantando o Peixe Vivo,
quando foi embora do país. [...] (Hildegard Angel, filha de Zuzu Angel para a
revista encontro. Disponível em
http://www.revistaencontro.com.br/
dezembro05/entrevista.asp Acesso em
26/04/2008)
Já a
moda nos anos 50 caracterizou-se pela juventude rebelde, que acompanhava o ritmo
do rock do ídolo Elvis Presley e seu guarda-roupa peculiar e irreverente para a
época: o colorido das roupas, as calças rancheiras, jaquetas de couro e o topete
inspirado no cantor. A juventude voltava o olhar para os Estados Unidos, a moda
já não era mais ditada apenas pelos estilistas europeus. Foi o início do
movimento das tribos urbanas. O estilo rock’n’roll tomava força, não só
como movimento musical, mas como moda e comportamento, principalmente. Nélson
Motta afirma que o aparecimento desse novo gênero musical “[...] marca a
definitiva ruptura com os padrões tradicionais, e pela primeira vez um gênero
musical consegue se transformar em agente e veículo de uma violenta
transformação no modo de vestir, pensar e agir de milhões de jovens.” (MOTTA
apud GONTIJO, 1987, p.78)
Para as
moças a moda eram saias rodadas marcando a cintura, inspiradas no New Look
de Christian Dior, do final da década de 40. Esse estilista europeu propunha
vestidos com inúmeros metros de tecido, formando uma silhueta bastante feminina
que remetia à corola das flores, completamente nova e oposta àquela adotada nas
décadas anteriores.
Em
1961, um ano após sua separação, Zuzu e os filhos mudaram-se para uma nova casa
em Ipanema elevou para lá seu “ateliê de garagem”. A partir deste momento, com a
ajuda das amigas colaboradoras, Zuzu viu seu trabalho ganhar novas proporções,
principalmente depois de sua participação no 2º Salão de Moda da feira
Brasileira do Atlântico, no Rio de Janeiro, em 1966. (SILVA, 2006)
A
década de 1960 é marcada pelas efervescências políticas e culturais em vários
países, o que não foi diferente aqui no Brasil. Neste período, o país vivenciou
uma das fases mais importantes de sua história política.
Em
1961, o povo brasileiro foi atingido por uma onda de descrença no sistema
político em razão da renúncia do presidente Jânio Quadros. Em seguida, o governo
do vice-presidente João Goulart foi marcado por turbulências relacionadas ao
regime parlamentarista, que acabou caindo por terra com um plebiscito que pedia
a volta do regime presidencial, em 1963.
Situações como a dívida externa, a desvalorização da moeda, o desequilíbrio
entre a procura e a oferta de produtos, a inflação, a alta do custo de vida, o
desemprego, assolavam a maioria da população, provocando manifestações de vários
movimentos, sendo alguns deles o operário; o Movimento das Ligas Camponesas, que
reivindicavam a reforma agrária; os estudantes; os intelectuais; os artistas;
entre outros. (BRANDÃO, 1990, p.60)
Em
março de 1964, grupos de direita liderados por militares consumam o golpe
militar de 64, levando o general Humberto de Alencar Castello Branco à
presidência da República. Com os militares no poder, a burguesia nacional
(latifundiários e grandes empresários) foi privilegiada pela política econômica
instaurada, que tinha por objetivo recolocar o Brasil nos eixos do processo de
modernização.
Os
grupos sociais de esquerda, durante o governo militar, foram fortemente
reprimidos, sendo instituída a dissolução de muitos deles (UNE, CGT, PUA, etc.).
Dessa maneira, para a esquerda restava apenas a via da militância cultural,
protestando contra a ordem vigente. Mesmo com os militares no poder, essa
militância marcaria, até o final da década, a cultura do país – principalmente
em relação à música popular. (Ibidem, p.63)
Na
produção artístico-cultural da intelectualidade de esquerda dos anos 60, além
das produções de “protesto”, surgiram outras formas de denúncia e crítica à
ordem vigente, como o movimento tropicalista, por exemplo.
O
Tropicalismo foi um movimento cultural de ruptura que sacudiu o ambiente da
música popular e da cultura brasileira entre 1967 e 1968. Ele surgiu sob a
influência de correntes artísticas de vanguarda e da cultura popular nacional e
estrangeira, e incorporou inovações estéticas radicais. Suas manifestações
tiveram maior representatividade na música, mas também teve representantes nas
artes plásticas, no cinema e no teatro nacional.
Com a
decretação do Ato Institucional nº5 (AI-5) pelo presidente Costa e Silva, em
dezembro de 68, iniciou-se um período de forte repressão aos meios de expressão.
Neste contexto, vários artistas foram perseguidos e muitos estudantes se
envolveram na luta contra o regime, como o filho de Zuzu Stuart Edgard Angel
Jones que era estudante de Economia e por volta de 1968, tornou-se militante do
Movimento Revolucionário 8 de Outubro, MR-8, movimento estudantil de
resistência, que tinha como objetivo derrubar o governo militar e implantar o
socialismo no Brasil. Inicialmente, Stuart participava da conscientização de
outras pessoas através de discursos e panfletagens. Com o tempo, ele passou a
fazer parte da ala mais radical do movimento, acabando por aderir à luta armada.
Da
mesma forma que a política brasileira mudou radicalmente nos anos 60, a moda
também passou por mudanças muito significativas. Se a elegância e a alta-costura
dominaram nos anos 50, a década seguinte foi marcada pela divisão entre os
ateliês de alta-costura e o prêt-à-porter.
Outra
mudança marcante foi a troca de referências de lançadores de moda. Não era mais
a moda parisiense que imperava, a grande referência de moda passou a vir de
Londres, fortalecida com a imagem dos ídolos mundiais, os Beatles. Foi lá,
também, que Mary Quant inventou a minissaia. A moda continua buscando inspiração
no rock, surge o polêmico biquíni e a moda unissex. O movimento hippie começou a
tomar forma com o lema “Paz e Amor”, era a contracultura contestadora e
comunitária, que no Brasil tomou maior força na década seguinte. As roupas eram
inspiradas na cultura indiana, com batas e saias muito longas. Assim, as
tendências, antes muito duradouras, entraram no frenesi das mudanças. (GONTIJO,
1987)
O
jeans, outra novidade daquele momento, começou a ser utilizado pelas classes
mais baixas da população, como vestimenta para os mineradores de ouro e,
posteriormente, os cowboys americanos também o adotaram, por ser um
tecido extremamente resistente. As calças confeccionadas com esse tecido, ao
serem adotadas como uniforme jovem, foram feitas de todas as maneiras
imagináveis: justíssimas ou pantalonas, gastas, rasgadas ou compradas em brechó,
lojas que se popularizaram naquele momento. (Ibidem)
O
Brasil seguia as tendências mundiais, mas, graças à política e movimentos
estudantis em oposição à ditadura, algumas adaptações foram feitas.
Ao
mesmo tempo em que a carreira profissional da estilista mineira decolava, o
Brasil vivia uma ditadura militar, que iniciou em 31 de março de 1964, com um
golpe que se originou numa grave crise político-militar que se instaurara no
Brasil. A explicação para o golpe, dada pelo General Mourão Filho, foi a
intenção de fazer cumprir a constituição de 1946, alegando legitimidade como uma
forma de restauração da democracia e desenvolvimento econômico promovido
juntamente com justiça social e segurança. Segundo Rezende (2001), “no plano da
ação política assistia-se, ao mesmo tempo, à negação absoluta da democracia e à
busca de legitimidade através da formulação de um pretenso sistema de idéias e
valores sobre ela.” (p.68)
As
atitudes por parte do governo que se seguiram, direcionaram seus esforços ao
combate das “forças comunistas” que eram consideradas ameaça à segurança
nacional, taxando-as como antidemocráticas, já que a democracia deturpada pelos
ideais militares consistia na liberdade de combater o comunismo ou qualquer
esforço de oposição ao governo corrente.
Outro
objetivo alegado pelos militares era garantir a segurança e o desenvolvimento do
país e, para isso, foi criado o Sistema Nacional de Informações - SNI que,
segundo Colling (1997), transformou-se em um superministério, intocado e
intocável (p. 27), que influenciava diretamente o âmbito social, cultural,
político, econômico e militar. Dentre os diversos centros de informação
dirigidos pelo SNI, surgiu em 1969 a OBAN (Operação Bandeirantes), que
posteriormente deu origem ao DOI-CODI (Departamento de Operações Internas -
Centro de Operações de Defesa Interna), que foi o órgão responsável pela tortura
praticada em presos políticos.
A
perseguição política iniciou “pelos próprios militares, [...] seguida de
sindicalistas, estudantes, políticos, jornalistas e religiosos.” (COLLING, 1997,
p. 30) Ao final da década de 60, com o aumento da repressão, iniciou-se o
confronto armado contra o governo, que foi fomentada, principalmente, no meio
acadêmico, onde havia um elevado nível de discussão de idéias revolucionárias.
A
juventude universitária, de onde se recrutava a maioria dos militantes de
esquerda, fazia da política um modo de viver. As organizações formavam guetos.
Além de discussão política, as festas eram do partido, as diversões ocorriam no
âmbito do partido [comunista], assim como também os namoros. Cinema e teatro só
se fossem engajados politicamente, música também. (COLLING, 1997, p. 32)
O ano
de 1967 foi emblemático para a sua carreira, pois, em plena ditadura militar,
ela realizou um desfile com o nome Fashion and Freedom (Moda e Liberdade)
o que representava claramente uma crítica ao regime. Ela começou a fazer
prêt-à-porter, uma inovação para a época, e passou a dividir sua coleção em
dois grupos: uma para o dia-a-dia, composto de vestidos e conjuntos práticos
para a mulher ativa que trabalhava fora, e outra para a noite, com vestidos mais
sofisticados de tecidos nobres. No mesmo ano elaborou o primeiro figurino para o
filme Todas as Mulheres do Mundo. Posteriormente elaborou, também, o figurino de
outros filmes e peças de teatro.
Nesse
mesmo ano conquistou duas de suas clientes mais importantes, as atrizes
americanas Kim Novak e Joan Crawford, a segunda tendo sido contatada pela
estilista em eventual visita ao Brasil, e convidada a conhecer seu atelier onde
Joan encomendou um vestido que Zuzu confeccionou imediatamente. (SILVA, 2006)
A moda
de Zuzu era inspirada, mostrava suas raízes, era alegre e rebuscada, colorida.
Ela estampava a brasilidade em suas peças através da sua percepção do que era
originalmente brasileiro. Foi pioneira na utilização de rendas do nordeste e
chitão para roupas com apelo de moda, foi verdadeiramente a primeira a utilizar
o Brasil como temática de suas coleções. Ela acreditava em moda como uma forma
de comunicação, em uma época em que a preocupação com a moda era vista como
futilidade feminina, visão esta carregada de todo o preconceito possível, em uma
época em que a repressão tolhia a criatividade e a liberdade de expressão.
Zuzu
possuía uma visão empreendedora, que demonstrou, principalmente, ao divulgar sua
marca própria, o Anjo, coisa que nenhum estilista brasileiro havia feito até
aquele momento. Fazia uma moda com influência regional bastante forte, mas
estava em sintonia com as tendências internacionais. Em uma de suas primeiras
coleções, por exemplo, utilizou um aviamento que aparecia nas coleções de
grandes estilistas de Paris, como lembra Silva (2006):
A
observação sobre o detalhe do aviamento que estava sendo usado em Paris, mostra
como Zuzu Angel estava em sintonia com o que estava sendo lançado pela capital
da moda. E quando, ainda em 1966, ela chamou de Soignée, a coleção que
desfilou no Clube de Decoradores, no Copacabana Palace, é possível que, ao usar
esse nome, estivesse querendo deixar explícita essa ligação. (SILVA, 2006, p.47)
Em
1968, Zuzu Angel visitou os EUA e ficou hospedada na casa da então amiga Joan
Crawford, que realizou um coquetel em sua homenagem e, nessa ocasião, lhe foram
apresentadas personalidades importantes. A estilista apresentou sua primeira
coleção fora do país, na feira de San Antonio no Texas, já iniciando sua
inserção no mercado americano. Na mesma viagem foi para Nova York, onde assistiu
a desfiles de alta-costura e entrou em contato com empresas americanas para
fornecer suas coleções de prêt-à-porter. (SILVA, 2006).
Também
no ano de 1968, quando o General Costa e Silva assumiu a presidência da
República, Zuzu passou a confeccionar modelos para a nova primeira dama, D.
Yolanda, a exemplo de Sara Kubitschek e da primeira dama americana Jackeline
Kennedy, que vestiam a moda produzida em seus países como forma de valorização
do produto nacional. Segundo Hildegard Angel (apud Silva, 2006),
[...]
sua mãe via a aproximação com a primeira-dama, como uma espécie de segurança
para o filho Stuart que já estava na militância contra o regime da ditadura
militar. No entanto esse relacionamento não evitou a prisão de Stuart, sobretudo
porque quando esta aconteceu, Costa e Silva não era mais o presidente. (SILVA,
2006, p.61)
A vinda
da rainha Elisabeth, no mesmo ano de 1968, levou a primeira dama brasileira a
encomendar de Zuzu uma capa que seria presenteada à rainha. A capa foi elaborada
com materiais nacionais, como o tecido e o bordado feito com pedras preciosas e
ouro e executado pela joalheria H. Stern, apesar disso, por motivos
desconhecidos, foi presenteada à rainha uma jóia em lugar da capa.
Zuzu
também ficou conhecida como a “rainha dos caftans”, em função da venda feita por
ela à Kim Novak de uma dessa peças do vestuário que foi muito divulgada no
período. (SILVA, 2006)
Segundo
Silva (2006), finalizando o excelente ano de negócios para Zuzu Angel, ela
recebeu em dezembro de 1968 um diploma como sendo uma das dez mulheres que mais
se destacou no sentido de promover o envolvimento da mulher com relação ao
desenvolvimento nacional. O diploma foi entregue pelo Conselho Nacional de
Mulheres.
Em 1969
Zuzu dá um importante passo para a sua consagração nos Estados Unidos, pois
passou a fazer parte de um grupo de mulheres formado em 1928, chamado Fashion
Group, com sede em Nova York. Esse grupo tinha como objetivo promover o
desenvolvimento profissional de seus membros, bem como o reconhecimento das
conquistas femininas no ramo de moda. Zuzu foi a primeira latino-americana a
pertencer a ele. (SILVA, 2006) Passou a integrar, também no mesmo ano, o
International Counciel of Women, organização não-governamental, que existe
desde 1888 com os objetivos de ajudar as mulheres a ajudar elas mesmas; promover
direitos e deveres iguais a homens e mulheres; promover reconhecimento e
respeito pelos Direitos Humanos; apoiar todos os esforços pela paz; unir as
mulheres de todos os continentes com unidade dentro da diversidade; encorajar a
integração de mulheres no desenvolvimento. (http://www.icw-cif.org/ Acesso em
05/10/2008)
Nos
anos 70, Zuzu passou de separada à desquitada, o que era mal-visto pela
sociedade da época. Era, portanto à frente do seu tempo, e não só nesse aspecto
ou mesmo em suas criações, mas também na educação dos filhos, incentivando
sempre o desenvolvimento profissional enquanto tradicionalmente a menina era
educada para casar e cuidar da casa e dos filhos. (SILVA, 2006).
Seu
desfile de maior importância no cenário internacional no ano de 1970 foi
realizado em Nova York, patrocinado pela loja Bergdorf Goodman, sob o título de
International Dateline Colection I, sendo esse desfile dividido em três
temáticas nacionais: as baianas, Lampião e Maria Bonita e as rendeiras. A
coleção era composta por vestidos de algodão colorido, bordados com pedras
semipreciosas de Minas Gerais, e rendas do Norte, estampados em temas regionais,
como o cangaço. A coleção foi um imenso sucesso, e as peças foram vendidas nas
lojas Bergdorf Goodman. Meses depois, já em 1971, Zuzu realizou outro
desfile com uma coleção que chamou International Dateline Colection II, e
passou a vender, também, na loja Neiman Marcus. Essa segunda coleção, que
era bastante variada, trazia desde biquínis até vestido de noiva, tinha valores
que regulavam entre US$ 40 e US$ 500, sendo inclusive mais caras do que peças de
outros estilistas contemporâneos a ela e que eram muito conhecidos como Oscar de
La Renta. (SILVA, 2006)
No início da década de 70, período também conhecido como “os anos de chumbo”,
foram os anos mais repressivos da
ditadura militar
no Brasil, estendendo-se basicamente do fim de 1968, com a edição do AI-5 em
dezembro, até o final do governo Médici, em março de 1974.
O presidente Médici governava por decretos-leis, apoiando-se quase que
exclusivamente no CSN (Conselho de Segurança Nacional), protegido pelo AI-5, da
Lei de Segurança Nacional, da censura e do pesado aparato repressivo.(HABERT,
1996, p.25) O chamado “combate à subversão” passou a justificar a total
liberdade de ação do sistema repressivo militar, espalhando terror sobre a
sociedade. A censura se estendeu em todas as áreas – jornais, livros, revistas,
televisão, rádio, filmes, teatro, música, ensino, sindicatos.
Em maio
de 1971 Stuart Angel Jones, filho de Zuzu, que fazia parte da juventude
universitária revoltada contra a repressão imposta pelos militares, foi preso,
sendo mais tarde torturado e assassinado pela ditadura militar. Zuzu Angel
inicia, assim, sua luta por legitimidade, por lhe ser concedido o direito de
enterrar seu filho, enquanto os governantes negavam qualquer envolvimento no
desaparecimento do filho.
Em
setembro de 1971 fez um desfile na casa do cônsul brasileiro em Nova York
intitulado International Dateline Collection III – Hollyday and Resort.
(O desfile foi realizado na casa do cônsul, pois era proibido falar mal do
Brasil fora do país, e a casa do cônsul era considerada território nacional)
Zuzu Angel acreditava na eficácia desse desfile protesto, pois o tio-avô de
Norman, pai de Stuart, era chefe da corte suprema de Nova York na época. Este
desfile trazia os mesmos vestidos e saias, mas no lugar de suas tradicionais
estampas de borboletas e flores, apareceram desenhos infantis representando
tanques de guerra, canhões, pássaros engaiolados e pombas negras. Entre eles, a
figura de um anjo, sua marca registrada, amordaçado em homenagem ao filho
desaparecido. Registrou-se, assim, o primeiro desfile de moda política que se
teve notícia. A coleção acabou dividida em três momentos: roupas para viagem,
como sugere a palavra resort, roupas para festas, inclusive vestidos de
noiva, como sugere a palavra hollyday e, por último, o desfile protesto,
esse sim, contendo os elementos descritos acima. Outro fato marcante relativo ao
desfile protesto, foi que, a partir dele, Zuzu passou a desenvolver as próprias
estampas. (SILVA, 2006)
A
repercussão do desfile foi grande, conforme palavras da estilista:
No dia
seguinte os jornais falaram do meu desfile destacando aquilo que eu mais queria,
‘Designer de moda pede pelo filho desaparecido’. Contaram o caso do meu filho e
descreveram a roupa de mais impacto, em que substituí pássaros, borboletas e
flores por símbolos guerreiros. [...] ‘A coleção de protesto de uma mãe’, como
disseram, incluía vestidos com braçadeiras pretas. Apesar da estamparia alegre,
o luto estava nessas braçadeiras, nas minhas olheiras e na colorida plumagem dos
pássaros substituída por preto. A matéria do Chicago Tribune dizia: ‘A
própria designer se apresentou em um longo preto, com um cinto formado por mais
de cem cruzes e um anjo de porcelana no pescoço’ [...] Continuarei a bater em
todas as portas e anunciarei ao mundo, com a minha moda, o que está acontecendo
no Brasil. É esta a minha arma. (ANGEL, apud VALLI, 1986, p. 52,53)
Zuzu se
utilizou da moda para protestar, esta foi a maneira encontrada por ela para se
manifestar contra uma situação de autoritarismo extremo no qual seu filho estava
envolvido.
Depois
do episódio envolvendo seu filho, suas coleções se transformaram: a alegria foi
substituída pela dor e pelo protesto, entretanto, a brasilidade não foi
abandonada, apenas elevada a um nível de inconformismo, de contestação,
ratificando, através da moda, aquilo que a música já havia provado, que a
melodia triste despertava no brasileiro a coragem, e que a criatividade e a
vontade de revolucionar aumentavam na mesma proporção que aumentava o
sofrimento. Em suas criações as estampas passaram a contar com elementos de
guerra como tanques, jeeps, quépis, canhões disparando contra anjos, pássaros
engaiolados, meninos aprisionados, sol atrás das grades, anjos amordaçados.
(http://desaparecidospoliticos.org.br Acesso em 20/08/2008)
Em 1972
realizou outro desfile com o nome International Dateline Collection IV – The
Helpless Angel, mais uma vez em Nova York, mantendo os elementos de moda
política. No mesmo ano apareceu no Fashion Calender e venceu o concurso
do Cotton Ball. A moda de Zuzu já podia ser encontrada em diversas lojas
nos EUA e Canadá e sua popularidade se multiplicava.(SILVA, 2006)
Em 1973
abriu sua loja no Leblon, que passou a ser um local muito freqüentado, pois
todos queriam conhecer “essa louca chamada Zuzu Angel”. Na elaboração da loja
Zuzu teve a preocupação com a unidade visual com a marca e seu logotipo, o anjo.
Essa iniciativa já era comum no exterior, mas no Brasil só seria visto na década
seguinte. (SILVA, 2006)
No ano
de 1973, Zuzu lançou duas coleções International Dateline Collection V e
VI, e optou por realizar o lançamento primeiramente no Brasil e só depois
em Nova York, pois ela alegava que queria vestir a mulher brasileira da mesma
forma que estava vestindo a americana. Nesse mesmo ano passou a receber ameaças
contra sua vida, começou a ser seguida, mas não se intimidou. Continuou fazendo
a sua moda e buscando o paradeiro do filho. (SILVA, 2006)
Em 1974
lançou a coleção Dateline Collection VII – Contemporary Classic. Em 1975
lança a Coleção Brazilian Butterfly, que passava a trazer estampas
florais e com borboletas, não mais apenas anjos. (Ibidem)
No
início de 1976, Zuzu fez a sua última coleção internacional, que se chamou
Once Zuzu, Always Zuzu. Em 14 de abril do mesmo ano a estilista morreu em um
acidente de carro suspeito. O laudo médico da época declarou acidente, mas hoje
já se sabe que sua morte foi encomendada pelo regime militar, já que a estilista
representava uma ameaça à ordem vigente.
Considerações finais
Em
tempos em que a brasilidade é tema de diversos debates, é importante lembrar
sujeitos que foram pioneiros nessa discussão. Zuzu Angel foi um deles, pois
“usou” o Brasil em um tempo em que a moda nacional estava muito mais voltada
para o exterior e era considerado um bom estilista aquele que copiava melhor o
que vinha de fora. Zuzu foi ousada, criou uma moda com identidade e foi um
sucesso.
Entretanto, partindo-se da biografia de Zuzu Angel e levando-se em consideração
o contexto histórico do período em que ela viveu, podemos dizer que essa
personagem da história do Brasil pode ser considerada um marco, pois além de ser
uma das precursoras de uma moda com identidade nacional ela inaugurou a primeira
“moda política” que se tem notícia.
Percebemos, porém, que a sua trajetória profissional está diretamente ligada à
sua história de vida, pois provavelmente seu trabalho teria tomado um rumo muito
distinto do que tomou se seu filho não tivesse sido preso e morto pela ditadura
militar.
Hoje,
Zuzu é muito mais conhecida por sua militância política do que por seu trabalho
de estilista, mas acreditamos que a reconstrução de sua trajetória pessoal possa
ter desvendado questões até então pouco ou nada conhecidas pelos brasileiros.
Essa
trajetória nos permite observar como os indivíduos podem adotar atitudes que
caracterizam uma capacidade transformadora, salientando-se como protagonistas em
lugar de apenas personagens aprisionados pelas estruturas sociais.
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[1]
Gabriela é bacharel em Design de Moda e Tecnologia pelo Centro
Universitário Feevale (Novo Hamburgo/RS); Cíntia é acadêmica do curso de
História do Centro Universitário Feevale (Novo Hamburgo/RS) e bolsista
de iniciação científica e Claudia é doutora em História e professora dos
cursos de História e Design de Moda e Tecnologia do Centro Universitário
Feevale (Novo Hamburgo/RS)