ISSN 1807-1783                atualizado em 19 de setembro de 2006   


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A Pederastia Ateniense no Período Clássico: Uma Análise de 'O Banquete De Platão'

por Luana Neres de Sousa



Foto de Virtual Books Online - (http://virtualbooks.terra.com.br/freebook/
didaticos/O_Banquete.htm)

Sobre a autora[1]

Nos séculos V e IV a.C., a cidade de Atenas vivenciou um tipo de relacionamento entre homens que exerceu bastante influência em sua constituição social, e que hoje é erroneamente comparada aos relacionamentos homossexuais da contemporaneidade. A pederastia possuía uma conotação pedagógica, destinada à preparação e à inserção do jovem futuro cidadão de Atenas no seio da sociedade. O objetivo deste artigo encontra-se na conceituação do termo pederastia e na apresentação da figuração que Platão atribui a tais práticas em sua obra O Banquete.

O contato sexual entre indivíduos do mesmo gênero era algo corrente na Grécia, havendo distinção no tratamento concedido às práticas homossexuais femininas e masculinas, sendo as últimas, naturalmente encaradas pela sociedade grega como possuidoras de diferentes conotações, dependendo do local onde eram praticadas. Mas no caso específico da cidade de Atenas, a prática sexual entre homens tinha como objetivo a educação do jovem, a sua preparação para a vida adulta e a contemplação do Amor que só entre os homens poderia ser conhecido, já que as mulheres, segundo o imaginário da época, eram desprovidas do intelecto e da sabedoria.

Oriunda do grego “Paiderastia”, que é a junção de outras duas expressões gregas – paîs (“criança”) e erân (“amar”) - o termo pederastia, de acordo com as pesquisas historiográficas atuais, denotava na Atenas do período clássico o sentido educativo, sendo a combinação do processo preparatório do futuro cidadão ateniense, com o amor metafísico só conhecido entre os homens. É importante salientar que os povos gregos não encaravam todos de maneira uniforme a pederastia, e que foi em Atenas que ela assumiu com maior esmero um papel ativo na formação social de seus cidadãos. A origem da pederastia é bem anterior ao período clássico, abrangendo quase toda a Grécia e sua história. Contudo, foi em Atenas que sua mais singular forma foi alcançada, devido ao valor que tal método obteve no seio da sociedade. Não há uma resposta definitiva na historiografia acerca da origem da pederastia, mas a tese mais aceita é a de que ela tenha se originado no estado militar dos dóricos e que tenha se difundido pelo mundo grego através da influência dórica (DOVER, 1994, p.254).

Não sendo análoga a “pedofilia”, a pederastia “denotava afeição espiritual de um homem adulto por um garoto, e por conseguinte, não possuía significado e conteúdo obscenos” (VRISSIMTZIS, 2002, p.100). Tinha o intuito pedagógico de preparação e inserção do rapaz na sociedade ateniense, para que o mesmo pudesse gozar de seus direitos e deveres de cidadão.

De acordo com Donaldo Schüller, em Eros: dialética e retórica, as relações pederásticas eram realizadas pelo erasta, que na obra platônica na maioria das vezes é traduzido por amante, e pelo erômeno, o amado (SCHÜLLLER, 2001, p.17). O erasta era um cidadão com papel ativo na sociedade, geralmente com mais de 30 anos, homem experiente e que sentia brotar em si uma vocação pedagógica ao tornar-se mestre de seu amado. O erômeno era um jovem de idade variante entre 12 e 18 anos, filho de cidadão, que tinha o direito de “escolher” o mestre que o formaria, já que cabia ao erômeno aceitar ou não o convite do seu erasta. Deve-se elucidar que as relações pederásticas ocorriam somente entre os cidadãos e futuros cidadãos de Atenas, os eupátridas; mulheres, metecos e escravos não participavam de tal processo e que “cidadãos” no período clássico eram considerados apenas os homens nascidos em Atenas e filhos de pais provenientes de famílias atenienses.

Na relação homoerótica da atualidade, seriam “ativos” aqueles que penetram um indivíduo e “passivos” os que se permitem penetrar. Na relação pederasta, “ativo” seria o erasta, no sentido de fazer a corte ao jovem, de transmitir seus conhecimentos, de exercer um papel de destaque na sociedade. Os “passivos” seriam os erômenos, uma vez que ainda não poderiam desfrutar dos encargos político-militares de Atenas, deveriam aguardar que um erasta se manifestasse a seu favor e nunca o contrário, e reconhecer sua submissão ante a sabedoria dos homens mais velhos. Na relação pederasta “ativo” e “passivo”, longe de indicar qual posição o homem ou o rapaz ocuparia na relação sexual, era o que de acordo com a regra da moral de um cidadão, determinava qual a função de cada um no processo educacional.

Durante o período clássico, os atenienses estavam se tornando cada vez mais refinados, e os estudos de filosofia, música, atletismo e poesia desenvolviam-se de forma significativa. Entretanto, nas escolas, eram ministrados apenas ensinos básicos, como a leitura e a aritmética. Havia, então, a necessidade de continuidade das práticas educacionais; esse papel ficava a cargo do erasta que, no decorrer do período destinado à pederastia, era o único a deter o direito de ensino do erômeno.

A pederastia ateniense possuía certas especialidades em relação à praticada em outras Cidades-Estado gregas, como Esparta, e na ilha de Creta. Havia todo um controle moral acerca da metodologia utilizada para o cumprimento da relação, tais como o delineamento das faixas etárias envolvidas, o status social, os ritos de cortejo, o envolvimento sexual, o ensino filosófico, dentre outros.

Em Atenas, nos séculos V e IV a.C., o contato sexual entre homens possuía uma particularidade: apesar de ocorrer com freqüência, em hipótese alguma os envolvidos poderiam denotar alguma feminilidade, recusar sua masculinidade, travestir-se ou comportar-se como uma mulher, diferentemente de alguns grupos homossexuais contemporâneos, que se vestem caracteristicamente de forma afeminada, transformam seu corpo com o uso de hormônios femininos e até mudam de sexo por meio de intervenções cirúrgicas. Um cidadão ateniense, ao se comportar como uma mulher, estaria se sujeitando a uma posição aquém daquela a qual pertencia, rejeitando sua cidadania e seus direitos, e assim, não teria condições, segundo o pensamento da época, de exercer plenamente sua cidadania.

Na sociedade ateniense, a mulher não possuía um papel proeminente; suas atividades restringiam-se ao matrimônio, aos afazeres domésticos e à geração de descendentes saudáveis. A partir do momento em que homem, cidadão por direito e exercício, travestia-se e se comportava como uma mulher, passava do grupo mais elevado da sociedade para um outro menos prestigiado. O homem “efeminado”, como era chamado pelos próprios atenienses, era ridicularizado em público e em outras diversas manifestações artísticas e culturais e, caso viesse a ser comprovado algum tipo de prostituição, este era levado a julgamento, podendo perder até mesmo o direito de cidadão e de participação na vida pública. O caso se agravava quando a prostituição fosse feita por um cidadão a um escravo ou a um meteco.

A preferência sexual inclinada somente aos rapazes não era condenada por se tratar de uma anomalia, como muitas vezes é concebida atualmente. A questão preconceituosa concentrava-se à submissão humana a libido, na atividade sexual desenfreada, na fraqueza do homem diante do sexo. O auto-controle sexual pode ser entendido como reflexo do comportamento do cidadão na sociedade, ou seja, se este não possuísse domínio sobre seus impulsos sexuais, logo, não teria um bom desempenho na Assembléia, nem em sua vida particular, na relação com outros eupátridas, etc...

A relação pederástica encontrava apoio tanto na opinião popular quanto em leis regidas pelo Estado. Era valorizada pela cultura local que a registrava das mais diversas formas, seja através da literatura, das cerâmicas ou da filosofia. Apesar de tal naturalidade, o amor pederasta despertou inúmeras discussões e uma preocupação moral que regiam regras e moldes para tal relação, a fim de que as mesmas não perdessem seu caráter legítimo. (FOUCAULT, 1994, p.170 -171).

Durante o período clássico, de acordo com Werner Jaeger no livro Paidéia: a formação do homem grego, a boa imagem da pederastia em Atenas entrou em declínio, pois seus praticantes haviam perdido a preocupação com a moral e a ética necessárias ao bom desenvolvimento desta relação e se rendido aos prazeres do corpo (JAEGER, 2001, p.729). A função pedagógica da pederastia ofuscou-se diante do contato meramente sexual, inquietando aqueles que acreditavam no papel de formação desempenhado pelas relações entre erastas e erômenos. Platão, filósofo e defensor da moral pederástica, escreve O Banquete como forma de orientar a juventude de como deveria ser a relação entre erastas e erômenos. Os filósofos observam a sociedade e buscam refletir sobre a mesma. Platão surge, dessa forma, como a “luz” que viria iluminar as trevas da juventude corrompida, fazendo alusão à “Alegoria da Caverna” que este mesmo pensador apresenta no livro VII de outra obra sua, A República.

Platão nasceu em Atenas por volta de 427 a. C e seu verdadeiro nome era Aristócles. Tornou-se discípulo de Sócrates aos vinte anos, passando a ser seu maior porta-voz, exercendo, posteriormente, fortes influências na filosofia, literatura, língua e religião gregas. Após a morte de Sócrates, em 399 a.C, abandonou Atenas e partiu em uma viagem que durou doze anos. Ao retornar a Atenas, por volta de 387 a.C., funda a Academia e ali permanece até sua morte, em 347 a.C.

Em sua obra, Platão discorre sobre as virtudes que um jovem deveria possuir para que as relações chamadas “pederásticas” pudessem ser legitimadas. Havia toda uma questão moral a ser seguida e as parte envolvidas, tanto o jovem quanto seu mestre, jamais deveriam colocar em risco sua “masculinidade”, autenticando sua superioridade em relação às mulheres. Estes jamais poderiam transitar pela cidade travestidos ou possuir atitudes afeminadas, pois agindo dessa forma, estariam renegando sua cidadania. Através da análise realizada em O Banquete, chegamos a conclusão de que, mais que uma simplesrelação afetiva, erastas e erômenos comprometiam-se, ainda que inconscientemente, com a manutenção do regime democrático ateniense através dos padrões sociais estabelecidos tendo como esteio a pederastia.

Ao redigir O Banquete, Platão utilizou-se de personalidades da época como o comediante Aristófanes, o poeta Agatão, o médico Erixímaco, para servir de porta-vozes de seu pensamento, servindo de exemplos para os leitores da obra.

Escrito aproximadamente antes de 384 a. C, O Banquete é constituído por sete discursos em louvor a Eros, deus do amor, antecedidos pela apresentação dos personagens e finalizados pelo discurso de Sócrates, que conclui o simpósio. O diálogo se encerra quando Alcebíades, estratego do exército ateniense, fingindo estar embriagado, faz uma declaração de amor a Sócrates.

Platão narra, através de uma conversa entre Apolodoro e um companheiro, um banquete ocorrido na casa de Agatão, poeta ateniense. Tal jantar ocorrera muitos anos antes da narração de Apolodoro, que tomou conhecimento de tal fato através de Aristodemo, um dos presentes.

Sócrates foi convidado por Agatão a participar de um banquete em sua casa, e arrumou-se da melhor maneira que pôde, a fim de que ficasse o mais belo possível. Aristodemo, ao encontrá-lo, se surpreende com a forma pela qual Sócrates arrumara-se, já que era comum vê-lo transitando descalço pelas ruas de Atenas.

Após um pedido por parte de Aristodemo para acompanhar Sócrates ao banquete, ambos partem. Todavia, somente Aristodemo chega ao seu destino, haja visto que Sócrates tinha ficado para trás por ter encontrado algumas pessoas no caminho e com elas iniciado uma conversa. Como esse era um hábito já conhecido por seus companheiros, iniciou-se o jantar mesmo sem a presença do mestre.

Sócrates comparece ao encontro após a refeição já se encontrar pela metade, e senta-se ao lado de Agatão, anfitrião do banquete. É então sugerido por Erixímaco que, como maneira de controlar a bebedeira, se iniciasse o simpósio com o Amor como temática. A partir de então, Platão utiliza-se em seu texto de personagens, como o médico Erixímaco, o comediante Aristófanes e o poeta Agatão, pessoas do circuito social de Atenas, para expor o pensamento dos cidadãos da época acerca do Amor.

Somente no final da obra, Platão permite a Sócrates elucidar seu pensamento sobre a temática, mas isso não se faz de forma direta. Esse método garante ao diálogo um caráter pedagógico, pois sendo Sócrates um filósofo, de acordo com a doutrina platônica, este tinha como papel resgatar a verdade na alma dos homens.

O primeiro dos convivas a elaborar seu discurso acerca do amor é Fedro. Ele inicia sua fala afirmando que o Amor era um grande deus admirado pelos homens e pelos deuses (PLATÃO. O Banquete, 178 a). Nesse caso, o Amor seria o próprio deus Eros, exercendo influência tanto no mundo mortal quanto no divino. Jager afima sobre o discurso de Fedro:

“O eros usual e corrente, o instinto irrefetido e vulgar, é vil e repudiável, porque tende à mera satisfação dos apetites sensuais; em contrapartida, o outro é de origem divina e  impulsiona o zelo de servir ao verdadeiro bem e à perfeição do amado. Este segundo eros pretende ser uma força educadora, não só no sentido negativo de desviar os amantes das ações vis, o que o discurso de Fedro realça, mas também em toda sua essência, como força que serve ao amigoe o ajuda a expandir a sua personalidade” (JAEGER, 2001, p.727).

O segundo a discursar sobe Eros é Pausânias. A idéia principal de sua oratória é a de que não existe só um amor, mas dois:

“Não me parece bela, ó Fedro, a maneira como nos foi proposto o discurso, essa simples prescrição de um elogio ao Amor. Se, com efeito, um só fosse o Amor, muito bem estaria; na realidade porém, não é ele um só; e não sendo um só, é mais acertado primeiro dizer qual o Amor que se deve elogiar” (PLATÃO. O Banquete, 180 c – d).

Esse trecho sustenta a afirmação de que não existe apenas uma natureza de amor para os gregos e que somente uma destas é digna de receber louvores. No primeiro capítulo dessa monografia foi afirmado que unicamente era considerado Eros - o deus elogiado em O Banquete - as relações estabelecidas entre um homem e um rapaz.

Pausânias prossegue, classificando os dois tipos de Amor existentes, pois são gerados pelas duas espécies de Afrodite que há: a Afrodite Urânia e a Afrodite Pandêmia. O Amor de Afrodite Pandêmia é o amor banal, destinados a qualquer pessoa, incluindo as mulheres; o Amor de Afrodite Urânia, que existe apenas entre os homens, prende-se à inteligência e não ao corpo, ao contrário do de Pandemia.

“Ora pois, o Amor de Afrodite Pandêmia é realmente popular e faz o que lhe ocorre; é a ele que os homens vulgares amam. E amam tais pessoas, primeiramente não menos as mulheres que os jovens, e depois o que neles amam é mais o corpo que a alma, e ainda dos mais desprovidos de inteligência, tendo em mira apenas efetuar o ato, sem se preocupar se é decentemente ou não; daí resulta então que eles fazem o que lhes ocorre, tanto o que é bom como o seu contrário. Trata-se com efeito do amor proveniente da deusa que é mais jovem que a outra e que em sua geração participa da fêmea e do macho. O outro porém é o da Urânia, que primeiramente não participa da fêmea mas só do macho – e é este o amor aos jovens – e depois é a mais velha, isenta de violência; daí então é que se voltam ao que é másculo os inspirados deste amor, afeiçoando-se ao que é de natureza mais forte e que tem mais inteligência.” (PLATÃO. O Banquete, 181 b – c).

Pode-se interpretar a palavra “violência” nessa citação como sendo a apropriação do corpo do outro como obtenção do prazer sexual. É conclusivo, portanto, que apesar das relações pederastas envolverem um certo tipo de sensualidade por parte dos envolvidos, o que realmente estava em foco era o conhecimento passado do erasta para o erômeno, o desenvolvimento intelectual do jovem.

A seguir, o médico Erixímaco realiza sua fala em louvor a Eros, sendo seguido pelo poeta Aristófanes, que elabora um dos discursos mais importantes dessa obra para a análise das relações pederastas em Atenas neste período: O Mito dos Andróginos. Aristófanes afirma que no princípio existiam três gêneros humanos: o masculino, o feminino e o andrógino. Esse último era um ser duplo, com duas faces e oito membros, possuindo uma grande força. Havia andróginos com uma metade masculina e outra feminina, e outros com as duas metades masculinas ou duas femininas. Certo dia, os andróginos revoltaram-se contra os deuses e foram divididos em dois, sendo assim condenados por Zeus a procurarem por toda a humanidade a sua metade verdadeira. Desde então, as pessoas passam a buscar na sua “outra metade” aquilo que não encontram em si; a esse desejo, Sócrates em Lísis,dá o nome de philia.

Após relatar a estória dos andróginos, Aristófanes eleva a honra e moral dos que procuram sua outra metade nos rapazes, afirmando que, ao invés de ser uma atitude vergonhosa, é uma prova de audácia e coragem por parte de quem a pratica:

“E todos os que são corte de um macho perseguem o macho, e enquanto são crianças, como cortículos do macho, gostam dos homens e se comprazem em deitar-se com os homens e a eles se enlaçar, e são estes os melhores meninos e adolescentes, os de natural mais corajoso. Dizem alguns, é verdade, que eles são despudorados, mas estão mentindo; pois não é por despudor que fazem isso, mas por audácia, coragem e masculinidade, porque acolhem o que lhes é semelhante. (...) E quando se tornam homens, são os jovens que eles amam, e a casamentos e procriação naturalmente eles não lhe dão atenção, embora por lei a isso sejam forçados, mas se contentam em passar a vida um com o outro, solteiros.” (PLATÃO. O Banquete, 191e – 192 b).

Este trecho do discurso parece fazer uma certa apologia aos contatos sexuais entre homens em Atenas, porém o próprio Aristófanes assinala mais adiante que apesar de tal afeição entre os homens e os rapazes, em momento algum se pode afirmar que houvesse uma união sexual entre eles:

“Quando então se encontra com aquele mesmo que é a sua própria metade, tanto o amante do jovem como qualquer outro, então extraordinárias são as emoções que sentem, de amizade, intimidade e amor, a ponto de não quererem por assim dizer separar-se um do outro nem por um pequeno momento. (...) A ninguém com efeito pareceria que se trata de união sexual.” (PLATÃO. O Banquete, 192 b - c).

Fica evidente que Platão transmite através de Aristófanes a idéia que uma união amorosa não era, necessariamente, sexual. Esse era o princípio das relações ideiais entre erastas e erômenos: amar-se sem estabelecer um contato sexual entre si. Logo, era desonroso ao erasta e ao erômeno se submeterem ao descontrole sexual. O mito dos andróginos não faz alusão à duas almas que buscam completar-se sexualmente, mas aperfeiçoar-se em sua essência com o auxílio de outro.

O próximo a falar é o anfitrião do banquete, o poeta Agatão. Para essa pesquisa, o ponto mais relevante deste discurso são as características que Agatão atribui ao Amor: beleza, juventude, coragem, sapiência, justiça e temperança, todas as qualidades que os erastas buscavam em seus erômenos para que o mesmo fosse digno da pederastia. Em relação à juventude, Agatão afirma que Eros:

 “é o mais jovens dos deuses, ó Fedro. E uma grande prova do que digo ele próprio fornece, quando em fuga foge da velhice, que é rápida evidentemente, e que em todo caso, mais rápida do que devia, para nós se encaminha”. (PLATÃO. O Banquete, 195 a – b).

Eros foge da velhice; logo seu objetivo maior são os jovens, dotados do vigor e da beleza da vida que ainda se inicia, necessitando orientação e cuidados especiais.

Após todos os convivas elaborarem seus hinos em exaltação ao Amor, Sócrates resolve por fim falar. Todavia, não discursa utilizando-se de palavras próprias, mas fazendo uso da fala da sacerdotisa Diotima de Mantidéia. É inusitado o emprego da figura feminina para a elaboração de uma fala tão importante quanto a de Diotima, uma vez que as mulheres eram tidas como isentas de intelecto. No entanto, é através dela que Platão apresenta sua concepção de amor nesta obra, afirmando ser Eros um intermediário entre os homens e os deuses, um “daimon”, que serviria de ponte entre o mundo humano e o divino, assim como o papel do filósofo para Platão, que ocupa um lugar intermediário entre a sabedoria e a ignorância.

O final do diálogo ocorre quando Alcebíades - estratego de Atenas, muito belo e também egoísta – adentra o recinto, fingindo estar embriagado. Esse trecho da obra é um pouco confuso, pois não se sabe ao certo se foi Alcebíades o erômeno de Sócrates, ou o contrário. De acordo com as regras da pederastia, Sócrates, sendo mais velho e mais sábio, era quem deveria ocupar o papel de amante na relação; contudo, a fala de Alcebíades deixa margem para outra interpretação, pois em vários fragmentos é o estratego quem faz côrte ao filósofo e tenta conquistá-lo. Este foi um recurso utilizado por Platão para ilustrar que a verdadeira beleza provém de uma alma virtuosa, e que um homem considerado estéticamente feio como Sócrates, pode ser muito amado por outros.

Decidido a elaborar um elogio em favor de Sócrates, Alcebíades relata experiências que tiveram no passado, enquanto ainda ocorria a pederastia entre os mesmos. Fatos interessantes, como a recusa de Sócrates em se deitar com Alcebíades, fazem parte deste discurso e ilustram como ocorriam os contatos “sexuais” entre erastas e erômenos. Depois de terem dormido juntos a sós, nenhum contato sexual ter se efetivado, Alcebíades relata: “(...) quando me levantei com Sócrates, foi após um sono em nada mais extraordinário do que se eu tivesse dormido com meu pai ou um irmão mais velho”. (PLATÃO. O Banquete, 219 d).

Sobre os que apresentavam ser inclinados ao desejo exclusivo pelos rapazes, ou se comportassem de forma afeminada, Platão deixa transparecer um certo preconceito, tanto para os que tinham essa conduta, quanto para os que se compraziam deles: “Veremos um apaixonado perseguir os efeminados e não os fortes, os que tenham sido criados numa penumbra doentia, não quem tenha crescido à luz do sol (...)” (PLATÃO. Fedro, 239 c). Assim sendo, para Platão, tanto os efeminados quanto seus amantes eram desprovidos da luz suprema proveniente da sabedoria, pois estavam muito mais preocupados com a carne que com a alma.

Chegamos ao final deste artigo com a consciência de que O Banquete, assim como qualquer outra fonte, foi produzido de acordo com os interesses de quem o redigiu. Como filósofo, Platão muitas vezes, não relata a realidade como esta realmente foi, mas como ele gostaria que fosse, em nome da honra do homem e do bom funcionamento do Estado. Todavia, esta obra nos aproxima do modo sobre o qual a pederastia ateniense era praticada durante o período clássico e como configurava na vida dos cidadãos de Atenas neste período.

 

BIBLIOGRAFIA

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[1] Mestranda em História Antiga – UFG – neresluana@yahoo.com.br