ISSN 1807-1783                atualizado em 09 de setembro de 2009   


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A memória marcista e a cisão do partido liberal moderado mineiro n’O Universal de Ouro Preto (1835-1836) (Parte 1)

por Ageu Quintino Mazilão Filho

Sobre o autor [1]

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Introdução

Através do mapeamento e análise do periódico O Universal (1825-1842) de Ouro Preto, precisamente seus números correspondentes aos anos de 1835 e 1836, juntamente com leitura de bibliografia teórica e historiográfica acerca do tema, desde conceitos operatórios até a peculiaridade da imprensa como fonte[2] buscamos levantar alguns dos motivos e argumentos que levaram à cisão do partido liberal moderado mineiro, dentre os quais, a memória marcista – referente aos fatos ocorridos por ocasião do conflito regencial de Minas Gerais: a Sedição de 22 de Março de 1833, também conhecida como Revolta do Ano da Fumaça.

Estes anos foram de muita esperança para os defensores do federalismo em Minas, no momento de implantação das propostas descentralizadoras conquistadas pelo Ato Adicional de 1834 e, como veremos, de tensões que resultariam na cisão da moderação. Pelo ângulo do principal periódico liberal-moderado mineiro, tentaremos demonstrar como se deu este fenômeno, que resultará no fortalecimento dos regressistas e, mais adiante, na revolta liberal de 1842.

Revisão de literatura

O processo inicial de formação da nação brasileira foi marcado, segundo Marcello Basile, por autênticas “guerras de opiniões” ou “guerras de doutrinas”, ocupando a imprensa um lugar privilegiado. Confrontam-se projetos diversos de Brasil, revelando concepções distintas sobre o que deveria ser esta nação em gestação[3]. No embate desses projetos, podemos perceber a configuração de um espaço público e de uma linguagem política peculiares, numa luta pela hegemonia política[4].

Partindo da premissa de que a imprensa surge motivada pela discussão política e simultânea a esta, nos lembra Hörner, devemos levar em consideração um caráter duplo expresso nos jornais: eles são, na grande maioria das vezes, ao mesmo tempo informativos e pedagógicos. Em outros termos, os periódicos da primeira metade do século XIX não pretendiam levar a seus leitores informações gerais. A proposta consistia em informar a respeito de assuntos de relevância provincial e nacional, ligados ao jogo político da Corte e das Assembléias Provinciais. Por meio desta “informação” pretendia-se unir ou atrair elementos para um determinado credo político e ensinar o funcionamento da política aos cidadãos em geral[5].

Nesse contexto de crise regencial, a imprensa surge como espaço privilegiado de disputa política, em especial na província de Minas de maioria moderada em rota de cisão e redefinição partidária[6].

Análise dos resultados:

O Universal, publicado todas as segundas, quartas e sexta-feiras, à época, inseria em seus números seções diversas como Interior, tratando de assuntos de interesse da Província – como a proposta de mudança da Capital (N° 1125) cujo texto finaliza convidando os colegas jornalistas a discutirem o tema, de modo que se forme a “opinião pública, o espírito provincial...”, numa clara percepção do papel da imprensa; seção Exterior, com notícias diversas transcritas de gazetas estrangeiras; artigos curiosos como o dos “Habitantes da Lua” (transcrita do Correio Official) apresentando as “últimas descobertas científicas, sobre a Lua, que contém árvores, animais, e seres inteligentes semelhantes a homens com asas de morcego”... (N° 71); e notícias das demais províncias do Império e suas revoltas, transcritas principalmente do Jornal do Comércio, da Corte que, segundo Ilmar Mattos, esteve quase que inteiramente alheio às paixões e disputas partidárias, mas difundindo opiniões e valores que agiam e reagiam sobre a sociedade, ganhando prestígio crescente, em especial na “boa sociedade”[7]. Havia também, seções de Variedades, tratando de temas os mais diversos, publicando textos de autores liberais como Russell, I. Droz, Beguillet, entre outros. Publicações de Correspondências sobre assuntos variados, cujos missivistas – alguns assinantes declarados d’O Universal – nem sempre se identificam, fazendo uso de pseudônimos. Anúncios diversos como fugas de escravos, vendas de imóveis, espetáculos de teatro, etc. Além de editais, decretos, leis da Presidência da Província e discussões das Assembléias Provincial e Geral.

Durante o predomínio liberal-moderado, o governo provincial escolheu O Universal para “porta-voz”. A Folha de tendência moderada esteve sob os aconselhamentos de Bernardo Pereira de Vasconcelos até 1835, ano de sua transferência para José Pedro Dias de Carvalho, seu último proprietário. Quando Vasconcelos deixou a edição d’O Universal, simultaneamente, preparava o movimento regressista. O Universal já estava com tal capital simbólico que seu nome, por si, já era relacionado aos liberais-moderados e, logo, aos liberais. De fato, era mais fácil desligar-se de um periódico e mudar de partido, do que alterar o conteúdo simbólico associado ao impresso. Seu nome representava todo um programa[8].

O liberalismo constitui-se no duplo movimento que distinguia esta sociedade no momento em questão: a construção do Estado imperial e a constituição da classe senhorial. Se destaca, sobretudo a sua versão utilitarista, tais idéias permitiram sublinhar com maior ênfase os monopólios da mão-de-obra e da terra; dos negócios e da política; e também dos homens por meio da administração civil e militar, leiga e eclesiástica[9].

Desde 1835, começa a dar sinais de enfraquecimento a hegemonia liberal-moderada na província de Minas Gerais, consolidada desde a derrota dos “restauradores”, ou “caramurus”, denominados de “partido retrógrado”, no conflito regencial de Minas, a Sedição de 22 de Março de 1833. Na também chamada Revolta do Ano da Fumaça, “Tropa e Povo” tomaram o poder provincial na capital Ouro Preto, alçando ao cargo de presidente o conselheiro Manoel Soares do Couto e à direção da tropa o brigadeiro Manoel Alves Toledo Ribas. O movimento ocorrera a pretexto da ausência do presidente moderado Manoel Ignacio de Mello e Souza, que estava em Mariana, como eleitor de uma vaga de deputado à Assembléia Geral. Distando da cidade de Mariana apenas duas léguas da capital, Mello e Souza não designara como substituto o vice Bernardo Pereira de Vasconcellos. Na ausência do presidente, por volta das 22 horas, deu-se a sublevação da tropa de primeira linha. Houve a soltura de presos militares e rebates na praça principal de Ouro Preto. Como motivo do movimento foi declarado a oposição a práticas despóticas do grupo no poder. Os revoltosos fazem chegar ao Conselho de Governo um ultimatum, exigindo a deposição do Presidente Mello e Souza, demissão e prisão do Vice-presidente Bernardo Pereira de Vasconcellos e do Conselheiro de Governo, padre José Bento Leite Ferreira de Mello[10].

Enquanto as tropas legalistas retiravam os revoltosos de Ouro Preto, o governo provincial foi transferido, provisoriamente, para São João Del Rei. Dois meses foram o necessário para as “tropas da legalidade” acalmar a cidade de Ouro Preto e libertá-la dos “caramurus”. Este foi também o prazo em que as discussões moderadas e exaltadas convergiram, o que colaborou para que as eleições da nova legislatura acontecessem sem maiores transtornos[11].

Nesse episódio, a imprensa moderada reforçou a identidade liberal da província, delineando como restaurador um movimento que reunia insatisfações diversas, entre as quais supostas arbitrariedades dos moderados, a proibição de enterros na igreja, a taxação da aguardente e até a participação de alguns ex-líderes moderados. Os moderados fizeram valer sua pedagogia e impuseram a interpretação do movimento como restaurador, identificando-o a qualquer “anarquia”[12].

Ainda em 1834, um acontecimento concorre para mudar a face do horizonte político: no dia 24 de setembro, morre no palácio de Queluz em Lisboa o ex-imperador do Brasil Dom Pedro I (D. Pedro IV em Portugal). Para o redator d’O Universal, a morte do Duque de Bragança “dera o ultimo golpe no partido restaurador, contra o qual estavão ligadas todas as forças dos Brasileiros, e que fizera tolerar muitas omissões, (...) diante de um perigo maior, o da restauração”[13].

A morte de D. Pedro será usada, segundo O Universal, como fundamento da mudança de opinião do deputado geral por Minas Gerais e redator da Aurora Fluminense, Evaristo Ferreira da Veiga[14], que buscou justificar as comutações das penas de réus da Sedição de Março e defender a anistia aos crimes políticos, sendo que em 1834 “na sua folha e na tribuna pugnou tão fortemente contra a amnistia”[15].

Os decretos da Regência sobre as comutação das penas de sediciosos como Bilstein (um dos cabeças da Sedição de 22 de Março) chegaram a Ouro Preto em fins de 1834, e sua execução encontrou resistência, sendo o então liberal moderado Bernardo Pereira de Vasconcellos (a quem a redação d’O Universal da época é atribuída) acusado pelo periódico Mutuca[16] de intervir no ato do presidente da província Limpo de Abreu

“que tendo a escolher entre o cumprimento do Decreto e o seu desconceito na Província, ou a sua demissão e a obediencia ao Poder Supremo do Estado, não duvidou apesar de todos os sacrifícios assas conhecidos, (...) preferio sem hesitação a sua retirada; e dando a sua demissão ao mesmo passo que representava contra a impolitica do Decreto não podia justificar mais plenamente assim a sua submissão as Authoridades Superiores, como o seu afinco da opinião da Província a que preside.”[17]

O resultado desta resistência do presidente em cumprir o decreto de comutação, chegando a pedir sua demissão do cargo, foi que, na manhã do dia 29 de dezembro de 1834, chegou a Ouro Preto o Correio com dois decretos: o da demissão de Limpo de Abreu do cargo de presidente da província, e o da comutação da pena do réu Bilstein. À tarde, grande número de pessoas se reuniu na Câmara, aumentando depois que se tocou o sino da cadeia, a fim de

“representar ao Governo Central contra a impolitica demissão do sr. Limpo d’Abreu, e contra a commutação do Bilstein. (...) o número das pessoas reunidas em a Caza da Câmara, e junto della era de 200 a 300 pessoas: entretanto o dos assignados não passava de cento e tantas: (...).”[18]

No dia 30 de dezembro de 1834

“os Cidadãos dirigirão-se em silêncio, e na melhor ordem ao Palácio do Governo, e ahi por intermédio de um dos Juízes de Paz fizerão chegar ao conhecimento do Presidente a sua satisfação, pelo verem continuar na administração da Província. Lida que fosse a sua felicitação, forão dados os Vivas Nacionaes na Porta do Palácio, a que o povo correspondeo com muito entusiasmo, e a Muzica tocou o Himno Constitucional, D`ahi mesmo se dispersarão todos, e cada um tomou o seu destino.”[19].

Nota-se aqui, a preocupação de se passar uma imagem dos liberais moderados como seguidores fiéis da Lei e da Ordem, em oposição aos caramurus, acusados de todo tipo de crimes. O outro impasse, motivador de discórdia que concorreu para a cisão moderada, foi a proposta de Anistia dos crimes políticos que entrou em discussão na Sessão das Assembléia Geral de 1835. O Universal entra na campanha contra a proposta, que por sua vez é defendida dentre outros, pela Aurora Fluminense do deputado por Minas Evaristo Ferreira da Veiga, que por isso sofre grandes censuras do periódico de Ouro Preto.

Como armas na cruzada contra a anistia que beneficiaria os réus da Sedição de Março, O universal apresenta artigos que demonstram os males em potencial de tal medida, e discursos de deputados contrários ao projeto, como o do deputado mineiro Pe. Bheringue[20] que se levanta “com grande repugnância” para falar do projeto da anistia absoluta, “o mais funesto presente, que imaginar se pode” à sua pátria. Depois de considerar o projeto ofensivo à Constituição do Estado, o deputado moderado nos apresenta uma interessante coleção de argumentos usados para sustentar as posições dos deputados pró e contra o projeto:

“Disse um Sr. Deputado, que os sediciosos de Minas forão julgados pelos cidadãos do partido vencedor, e que por isso devem ser amnistiados: não entendo, Sr. Presidente, a força deste argumento. O illustre Deputado, que produzio este argumento conhece muito bem que o nosso Código do Processo não acautellou as hipotheses, que se tem realisado em alguns pontos do Império, como Minas, Pará, Matto Grosso etc.. não há Tribunal especial para estes casos; o que deseja pois o illustre Deputado? O que deve desejar é a reforma da nossa Legislação, e não a amnistia. Feliz é a condição do homem turbulento, e inquieto! Se vence no campo da revolta, é proclamado heróe; se fica vencido, ou é julgado pelos seus cúmplices, neste caso será deserto absolvido; se pelos seus vencedores, que em massa se reunirão para suplantarem a revolta neste ultimo caso deve ser amnistiado no entender do illustre Deputado! Que lógica!

[...]

Fez se o paralello entre a sedição de Minas, e do Pará, e notou-se a diferença daquella: não posso contestar esta verdade; mas compre me fazer à este respeito uma observação. No Ouro Preto o plano, que se havia traçado era tanto, ou mais horroroso, que o do Pará. A segurança do Palácio do Ouro Preto; ou para explicar melhor a visível proteção da Província salvou das garras dos sediciosos o Vice-presidente e alguns patriotas cujas cabeças erão pedidas em altas voses pelos seus inimigos, com se vê do celebre manifesto, que dirigirão a Província. Hoje se arrependem de não haverem praticado as mesmas barbaridades acontecidas no Pará.

Alguns Srs. Deputados tem procurado desafiar a nossa sensibilidade em prol da cauza, que defendem; persuado-me, Sr. Presidente, que este não é o meio próprio, de que deve lançar mão um Legislador na confeição das Leis. Eu poderia a imitação desses Srs, apresentar com cores bem vivas o quadro melancólico da noite de 22 de Março: poderia mostrar-lhes, que a sedição deixou a minha Província, viúvas e órfãos desvalidos, que ainda não merecerão as simpathias desta caza. E que direis Vos da barbaridade, com que os sediciosos cercavão o Palácio do Governo, procurando invadi-lo de todas as partes, para arrastarem a praça publica o Vice-presidente, e os Patriotas, que ahi se achavão encerrados: da sanha canibal, com que corrião as ruas levando o susto, e a consternação ao seio das famílias innocentes; honra seja feita a esse Mineiro honrado que pode salvar a vida desse Patriota, à que o Brasil tanto deve pelos relevantes serviços, que lhe tem prestado com sacrifícios da sua própria existência.

Mas a vossa sensibilidade é toda a favor dos perturbadores da Ordem publica; ella não se choca a vista da viuvez, da orphandade, e nem mesmo à vista do sangue dos nossos irmãos derramado nos Campos de José Correia. Aos vossos olhos as lagrimas da viúva e do orphão são objetos indiferentes. Sympathias unicamente com os criminosos em desgraça, quando devia com preferência attrahir vossas affeições a iinnocencia em abandono. Sim vós offereceis todas as garantias aos perturbadores da ordem, e tudo negais aos Cidadãos pacíficos, e amigos da prosperidade do seu paiz. (...). Voto contra o Projeto”.[21]

O discurso de Bhering busca incessantemente destituir de fundamento os argumentos dos nobres colegas favoráveis à anistia, rebatendo-os com evidências que justificam não a anistia, mas a reforma da Legislação; desmentindo acusações de perseguições aos sediciosos nos tribunais, apontando a obtenção de todos os recursos que lhes concede o Código do Processo e absolvições; negando qualquer tipo de perseguição ou afeição particular aos réus. O deputado rebate ainda qualquer espírito de perseguição por parte dos Juízes de Paz e dos Jurados, oferecendo como prova disso o fato de estes processados estarem sendo todos absolvidos. Observa ainda, comparando a Sedição de Minas com a do Pará, que “no Ouro Preto o plano, que se havia traçado era tanto ou mais horroroso que o do Pará”. Cabe lembrar aqui, que no Sumário de Culpa da Devassa procedida em razão da Sedição, não surge o tema da restauração[22]. Contesta ainda o apelo à sensibilidade exercido por alguns deputados, “em favor dos perturbadores da ordem pública, não se chocando a vista da viuvez, da orfandade e do sangue dos irmãos derramados no campo de batalha”. E conclui votando contra o projeto de anistia aos marcistas.

Segue-se, a lista dos que votaram a favor e contra o Projeto, aprovado por 57 votos contra 28, na sessão da Assembléia Geral de 22 de maio de 1835. Os que votaram a favor foram:

“Os Srs. Odorico, Nabuco, Rafael de Carvalho, Monte, Vianna, Rodrigues Torres, Hollanda, Bispo de Cuiabá, Maria de Moura, Lima e Silva, Corrêa Pacheco, Rodrigues Barboza, Fernandes da Silveira, Azevedo e Brito, Cornélio França, Ernesto, Messias de Leão, Ferreira da Veiga, Paula Araújo, Belizário, Ramiro, Souza e Oliveira, Araújo Vianna, Visconde de Goiana, Moniz Barreto, Seara, Luiz Cavalcanti, Maranhão, Guerra, P. Costa, Fortuna, Macedo, Duarte e Silva, Paim, Manso, Paula Albuquerque, Francisco do Rego, José Florindo, Baptista de Oliveira, Maciel Monteiro, Rezende, Pontes, C. Vasconcellos, Fontes, Sebastião do Rego, Gonçalves Martins, Veiga Pessoa, Fernandes de Barros, Vasconcellos Pessoa, Vital, Costa Machado, Teixeira Peixoto, Barboza Cordeiro, Galvão, Ibiapina, Figueira de Mello.”

Os que votaram contra:

“...Os Srs. Climaco, Mello, Costa Miranda, Bhering, Vasconcellos, Souza Martins, Cerqueira Leite, Mendes dos Santos, Marcondes, Alvarenga Ferreira, Chichorro da Gama, Álvares Machado, Alcibíades, Quadros Aranha, Baptista Caetano, Fernandes Torres, José Pedro, Lessa, Santa Bárbara, Pinto Peixoto, Paranhos, Vieira Souto, José Marianno, Limpo d’Abreo, Custodio Dias, Oliveira Braga, Gomes da Fonseca, Dias de Toledo.”[23] (grifos meus).

Segue, no mesmo número, artigo lamentando a aprovação da anistia e prevendo que ela também passará com a maior presteza no Senado, como de fato. É importante – como nos lembra Pocock, que o estudo da linguagem política tome como ponto de partida as linguagens dos grupos que articulam seus interesses e são tendenciosos a favor deles. Mas é também importante o fato de que, quanto mais institucionalizada for a linguagem e quanto mais pública ela se tornar, mais ela estará disponível para os propósitos de diversos locutores articulando diversas preocupações[24].

Em um Artigo Comunicado[25], “Um Mineiro” critica a mudança de opinião do deputado Evaristo Ferreira da Veiga, comparando artigos publicados no periódico do deputado no ano de 1834, quando era contrário à anistia, com os publicados em 1835, na qual defende a proposta aprovada com seu voto como se vê na lista anterior.

“(...) tratando particularmente do caso de Minas, limitarnos-hemos à conparar opiniões do Sr, Ferreira da Veiga com alguns artigos da mesma Aurora, (...). É no seu N.º 933 de 12 de Setembro de 1834 que se lê o seguinte.

[...]

Na Sessão de 4 de Setembro, em discussão e por grande maioria de vottos, foi rejeitada na Câmara dos Deputados a Resolução vinda do Senado, dando amnistia aos criminosos na sedição de 22 de Março, em Minas. Grande tem sido o empenho das influencias retrógradas em fazer passar a amnistia de Minas: já no anno de 1833, por mais de uma vez o tentarão, já este anno um projecto semelhante fora apresentado na Câmara dos Deputados, onde não se julgou objecto de deliberação. (...) Em verdade, quem ignora que esses réos forão induzidos ao dilicto por suggestões recebidas dos conspiradores do Rio de Janeiro, e mesmo por agentes que daqui forão mandados? Quem ignora que a revolta de 22 de Março foi um annel da grande cadeia de rebeliões, que devião então romper em vários pontos do Império, derribar o Governo estabelecido, e facilitar a D. Pedro o regresso ao Brasil? A epocha das eleições tinha sido escolhida pelos restauradores para o desenvolvimento de seus planos, e nos vimos com quanta insolência elles então se mostrarão no Rio de Janeiro, contando seguros com a victoria.(...) Eis que os principaes motores do delicto, os chefes da facção retrograda da Capital do Império, procurão estender a mão à quelles que deixarão no perigo sem auxilio e que vilmente comprometterão. Daqui, tantas anciedade pela amnistia para Minas; daqui o esforço com que tem trabalhado por arrastar a este acto o Senado, a Câmara dos Deputados e o Governo. (...) As razões offerecidas em appoio da medida indicada, reduzem-se todas a generalidades, (...). No Senado, os Srs. Paula Souza, Vergueiro e outros exhuberantemente mostrarão que estas condições se não davão no cazo presente, na Câmara dos Deputados, a matéria fora já muito debatida em 1833, e o silencio da Câmara em 1834, e sua decisão provão que está plenamente convencida dos argumentos, que naquella epocha tiverão a victoria; A amnistia para os réos de 22 de Março foi rejeitada por grande maioria dos vottos.”[26]

Vê-se claramente que Ferreira da Veiga, enquanto era contra a anistia, se utilizava do mesmo estratagema de associar os sediciosos de Minas aos restauradores, não só da província, como também da Corte – o que estaria servindo de motor para a entrada de tal discussão em pauta na Assembléia Geral e no Senado. Em seguida, o autor do artigo comunicado – Um Mineiro - tece sua análise sobre este e outros artigos do deputado Ferreira da Veiga transcritos da Aurora Fluminense:

“E essa mesma amnistia, cuja concessão foi tão combatida no anno de 1834 pelo Redactor da Aurora, essa mesma amnystia então rejeitada por grande maioria de votos na Camara dos Deputados, esse mesmo acto excepcional pelo qual se empenharão as influencias retrogradas, e que outro effeito não deveria produzir senão arrancar os réos do poder da Justiça, e alentar o partido restaurador, e inimigo da Liberdade do Brasil, será no anno de 1835 um acto urgente, aconselhado pela humanidade, e pelo bem do Estado? (...) Não devem porem servir hoje de obstáculo á concessão da amnistia todas as rasões produzidas nos Artigos da própria Aurora, que aqui fielmente se transcreverão: ellas perderão hoje toda a força no juízo do mesmo sr. Ferreira da Veiga pela grande mudança, que ultimamente se operou nos negócios políticos do Brasil. (...)”

Aprovada a Anistia, e decretada em 19 de junho de 1835, um correspondente d’O Universal – O Observador“não desejando, que o Estafeta e o Pão de Assucar desfigurem o facto”, faz uma interessante exposição do que ocorrera por ocasião da execução da anistia em Ouro Preto. Segundo o correspondente,

“chegou o Correio no dia 28 depois das nove horas da noite, e logo no dia seguinte pela manhã correo a noticia de ter chegado o fatal Decreto, que sanccionou a Amnistia, (...). Eu fui testemunha, sr. Redactor, do que se passou nesta Cidade, minha curiosidade ao ouvir que havia muita gente reunida na Praça, me chamou também ao mesmo lugar da reunião: erão nove horas, quando ali cheguei, e na verdade achei reunido algum povo, isto é observei em roda da Praça pretas velhas de capas verdes, azues, pretas, e vermelhas, e alguns apaniguados, dos que havião recebido a amnistia, que se conservarão sentados pelas portas até as duas horas, momento em que sahirão entre applausos da gentalha, dessa mesma gentalha, que se chamou, na noite de 22 de Março, o povo do Ouro-Preto. Eu vi toda esta pathetica scena, e não deixei de observar em uns, certo ar ameaçador, e como que julgando se dignos de maior indulgência, em outros eu divisei os remorsos do próprio crime. Em suma toda a festa, que talvez appareça mui brilhante no Estafeta, e Pão de Assucar consistio em a reunião de capas de diversas cores, e estas trazidas por um estratagema, que faz honra aos seus inventores, qual o de se espalhar logo demanhã que o Exm. Bispo tinha mandado 200U000 reis para ser repartidos pelos pobres, e que estava encarregado esta commissão o Padre Viegas, (...); consistio também em a reunião, a de alguns reformados, safados, e vadios, próprios para solemnisarem a sahida dos seus Comparces; (...). A noite, sr. Redactor, também hpuve illuminação em todas as casas dos amigos dos agraciados, que assim testemunharão, de quanto são capazes; não me cansarei em referir seus nomes, basta, que os verdadeiros Liberaes os ficassam conhecendo. (...) – O Observador – Ouro Preto, 1º de Julho de 1835.”[27]

Em tal relato, é interessante notar a desconsideração ao “povo” que, junto a tropa tomara o poder provincial em março de 1833: a “gentalha”, composta de pretas velhas com suas capas coloridas e demais pobres iludidos pelo boato de distribuição de dinheiro pelo Bispo. Mattos nos lembra a distinção que ambos os partidos faziam entre os movimentos levados a efeito pela “flor da sociedade brasileira” e os demais, da “escória da população”, levando a acusações recíprocas de utilização de “gente sem qualificação” para a consecução de seus propósitos.[28] Em correspondência seguinte, o mesmo Observador afirma

“que depois que os Sediciosos de 22 de março forão amnistiados, tem aparecido nesta cidade (Ouro Preto) alguns excessos criminosos, cujos excessos se tem affirmado e divulgado que são praticados pelos Liberaes. (...) A noite passada foi encontrado pela patrulha um Francisco da Costa Campos, cujo único officio é o jogo, (...) armado com uma Clavina, e pistolas carregadas, (...) sendo por isso immediatamente prezo, (...) o que queria o bom homem fazer (...)? a resposta é bem fácil; mas respondão os Caramurús, (...) digão, se os excessos são da parte dos Liberaes, ou se são da parte d’aquelles mesmos, que devião estar abatidos, e bem convertidos.”[29]

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[1] Historiador formado pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), graduado em História (Licenciatura Plena em 2007 e Bacharelado em 2009), cursando atualmente Mestrado em Educação stricto sensu, da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ) – contato: ageumazilao@yahoo.com.br

[2] LUCA, Tânia Regina de. História dos, nos e por meio dos periódicos. In: PINSKY, Carla Bassanezi. (org.) Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005.

[3] BASILE, Marcello. Projetos Políticos e nações imaginadas na imprensa da Corte (1831-1837). In: Política, Nação e Edição: o lugar dos impressos na construção da vida política no Brasil, Europa e Américas nos séculos XVIII-XIX. São Paulo: ANNABLUME, 2006, p. 619.

[4] Ver PAIVA, Maria Arair Pinto. Fundamentos teóricos. In: Espaço público e representação política. Niterói: EDUFF, 2000; BERSTEIN, Serge. A cultura política. In: RIOUX, Jean Pierre & SIRINELLI, Jean François Para uma história cultural. Lisboa: Estampa, 1998; POCOCK, J.G.A. O conceito de linguagem e o métier d’historien & Virtudes, direitos e maneiras: um modelo para historiadores do pensamento político. In: Linguagens do ideário político. São Paulo: EDUSP, 2003; e GRAMSCI, Antônio. Apontamentos para uma introdução e um encaminhamento ao estudo da filosofia e da história da cultura. In: Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

[5] HÖRNER, Erik. A tribuna em praça pública: o debate político na imprensa periódica paulista (1838/1842). In: OLIVEIRA, Cecília Helena de S., PRADO, Maria Lígia C. e JANOTTI, Maria de Lourdes M. (orgs.). A história na política, a política na história. São Paulo: Alameda, 2006, p. 102.

[6] Ver BASILE, Marcello. Projetos políticos e nações imaginadas na imprensa da Corte (1831-1837). In: DUTRA, Eliana de Freitas et alii (orgs.) Política, nação e edição: o lugar dos impressos na construção da vida política no Brasil, Europa e Américas nos séculos XVIII-XIX. São Paulo: Annablume, 2006; MATTOS, Ilmar Rohloff de. O tempo Saquarema. São Paulo: Hucitec, 2004; MOREIRA, Luciano da Silva. Imprensa e política. Dissertação de mestrado. Belo Horizonte, UFMG, 2006; OLIVEIRA, Isabel Cristiane Gomes de. Do jogo político à constituição de um partido: a composição do grupo e ideário luzia (1830-1844). Dissertação de mestrado. Belo Horizonte, UFMG, 2003; SILVA, Wlamir. “Toucinheiros”: breve taxonomia da elite política liberal-moderada mineira. In: RESENDE, Maria Leônia Chaves de, BRÜGGER, Maria Silvia Jardim (orgs.). Caminhos Gerais: estudos históricos sobre Minas (séc. XVIII-XIX). São João del-Rei:UFSJ, 2005, A imprensa e a pedagogia liberal na província de Minas Gerais (1825-1842). In: NEVES, Lúcia Maria B.P., MOREL, Marco & FERREIRA, Tânia Maria B.da C. (orgs.). História e imprensa: representações culturais e práticas de poder. Rio de Janeiro: DP&A: FAPERJ, 2006 e Liberais e Povo: a construção da hegemonia liberal-moderada na província de Minas Gerais (1830-1844). Rio de Janeiro, IFCS/UFRJ, tese de doutorado, 2002.

[7] MATTOS, Ilmar Rohloff, op. cit., p. 189.

[8] SILVA MOREIRA, Luciano da, op. cit., p. 29.

[9] MATTOS, Ilmar Rohloff de, op. cit, p. 127.

[10] SILVA, Wlamir. Liberais e Povo, op. cit., capítulo 7.

[11] GOMES DE OLIVEIRA, I. C., op. cit., p. 88.

[12] SILVA, W. A Imprensa e a pedagogia liberal na Província de Minas Gerais, op. cit.

[13] O Universal - nº. 1142 de 09/02/1835 – Artigo Interior.

[14] Idem, nº. 2000 (seria 1200) de 30/06/1835 – Artigo Communicado (anexo ao periódico).

[15] Idem, nº. 1133 de 19/01/1835 – Artigo Interior.

[16] Idem, nº. 1132 de 16/01/1835 – Artigo O NEGOCIO DO BILSTEIN.

[17] Idem, nº. 1132 de 16/01/1835 – Artigo O NEGOCIO DO BILSTEIN.

[18] Idem, nº. 1142 de 09/02/1835 – Artigo Interior.

[19] Idem, nº. 1142 de 09/02/1835 – Artigo Interior.

[20] Idem, nº. 1191 de 08/06/1835 – Discurso do Sr. Deputado Bheringue.

[21] Idem, nº. 1191 de 08/06/1835 – Discurso do Sr. Deputado Bheringue.

[22] Ver SILVA, Wlamir. “Liberais e Povo”, op. cit., p. 329.

[23] O Universal - nº. 1191 de 08/06/1835 – Discurso do Sr. Deputado Bheringue.

[24] POCOCK, J. G. A., op. cit., p. 68.

[25] Idem, nº. 2000 (seria 1200) de 30/06/1835 – Artigo Communicado (anexo ao periódico).

[26] Idem, nº. 2000 (seria 1200) de 30/06/1835 – Artigo Communicado (anexo ao periódico).

[27] Idem, nº. 2002 de 04/07/1835 – Correspondência.

[28] MATTOS, Ilmar Rohloff de, op. cit., p. 124.

[29] Idem, nº. 2009 de 20/07/1835 – Correspondência.