ISSN 1807-1783                atualizado em 10 de março de 2010   


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ntigos ou Modernos? O movimento republicano na França de Danton (Parte 2)

por Gláucia Gajardoni de Lemos e Alex da Silva Martire

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6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em L’idée Républicaine en France, Claude Nicolet faz uma breve explanação do conceito semântico da palavra revolução (1982: 85-86):

“A palavra ‘Revolução’ – que, no original, pertencia à linguagem da astronomia – tinha passado, ao menos durante o século XVI, às linguagens da história e da política. Mas o termo era empregado geralmente no plural, e sempre com qualificativos históricos precisos: um gênero historiográfico havia nascido, na virada do século XVII ao XVIII, consagrado às ‘revoluções’ de um ou outro país – partindo das repúblicas antigas, e, sobretudo, Roma, até as monarquias modernas. Nada de original no presente, assim como já havíamos dito: essas revoluções eram simplesmente concebidas como uma das etapas de uma concepção cíclica da história comum a toda a Antigüidade, ou como as articulações pontuais de uma evolução dinástica ou política – as Revoluções da Suécia, de Portugal. As revoluções são, na realidade, agitações, para Montesquieu, características dos Estados despóticos”.

Dessa “concepção cíclica da história”, derivada dos antigos, enraizada na teoria polibiana, e igualmente atada ao pensamento de Aristóteles, adentramos a consciência política da França revolucionária: contudo, as “revoluções” aqui desaparecem, e dão lugar a uma única revolução, que se verterá na revolução por excelência. O que viria em seguida, na França ou noutros países, será, para aqueles, apenas conseqüência daquela de 1789 (NICOLET 1982: 87). Mas tal revolução não existiria sem Robespierre, Saint-Just, ou Danton – embora não saibamos, é verdade, o que teria ocorrido caso o destino de cada um deles tivesse sido outro. O mérito de Wajda foi criar uma narrativa que, por um lado, abarca distintas visões e imagens do mesmo processo em curso, e por outro, submete-as ao questionamento da História – tanto por parte dos franceses, quanto pela Polônia de finais da Guerra Fria. A despeito do suposto favorecimento concedido a Danton, sobressaltado aos olhos do público francês, Wajda monta um cenário onde é possível engendrar variadas (e viciosas) teias de poder, mesmo quando retrata a ala dantonista. Assim, é possível, através de suas cenas, discernir duas atitudes opostas, duas representações de República aspiradas pelos personagens, justapostas aos prós e contras que a elas são inerentes: a Atenas democrática de Danton, ou a Esparta virtuosa de Robespierre. A construção destes agentes históricos não foi, convém salientar, fruto do acaso, mas efeito da efervescência política francesa, e da mentalidade proveniente do século das Luzes.

Ora, o viés político da Enciclopédia teve, em Danton, seu “herói fundador” (NICOLET 1982: 104). A ostentação de conforto e riqueza, a fartura dos jantares, representam nada mais que os benefícios do pensamento burguês, afeito ao progresso econômico e a valorização da propriedade. Isso não se alcançaria por medidas socializantes de confisco de bens, sequer pela redistribuição de terras, e sim pelo incentivo ao comércio, às artes e ao avanço tecnológico. O florescer das máquinas, cada vez mais rápidas; a elevação dos artífices, receptores e guardiães da técnica: tudo isso propalado enquanto bandeira da liberdade. Os filhos do século desejam ter liberdade de competição, de trocas e de circulação de bens. O deslindamento da civilização, já inevitável, corresponderá, por conseguinte, ao desenvolvimento natural da alma: “a virtude iguala a sociabilidade” (HAZARD 1974 vol.1: 222), e o homem é sociável, antes de tudo, em vista da essência natural da sociedade.

Robespierre opõe-se a este movimento com veemência. Clamado como “Incorruptível”, espelha-se na figura rousseauniana do bom legislador. A concepção de história de Rousseau prende-se ao passado, resgatando Roma e Esparta dos primórdios para manejá-las enquanto figuras modelares: vivem em “feliz ignorância”, baseando-se em valores cívicos e economia rural, e cuja organização funda-se no princípio da liberdade e ética. Esparta mantém-se virtuosa, em contraste com Atenas, a qual serviria de espelho para a França degenerada de Luís XIV e Luís XV. Ao descrever a sociedade espartana, Plutarco construiria uma imagem de excelência moral. Sob a legislação de Licurgo, Esparta é o primado da liberdade e da igualdade: o virtuosismo do legislador motivará a adesão dos cidadãos aos empreendimentos, e a inibição da riqueza trará harmonia entre eles, posto que permaneçam iguais. Robespierre adota, portanto, a postura de Licurgo: avesso ao luxo e à vaidade, suplicante de justiça e patriotismo, coloca as massas na ordem do dia – sobrepõe ao individualismo do liberal burguês, a coletividade do interesse estatal.

Este artigo teve, por fim, analisar o contexto revolucionário francês sob diferentes óticas historiográficas, sejam as fontes literárias de autores modernos e antigos, seja pela obra cinematográfica de Wajda. Buscou-se sobrepujar, ainda que sem desconsiderar, os contrastes estruturais (obras impressas ou midiáticas) e cronológicos, a fim de estabelecer um diálogo entre tais tipos de fontes. Para ratificar a tese de personificação dos ideais clássicos através das ações empreendidas pelos personagens, depreendemos o pensamento de Rousseau – imbuído, de seu lado, dos ensinamentos advindos de Plutarco – dos trejeitos do Robespierre encenado por Pszoniak, bem como interpretamos Danton na qualidade de confirmar os valores atenienses. Tem-se, logo, um compêndio das plurais e controvertidas faces que vivenciaram aquele momento histórico.

7.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

7.1Fontes

Danton. 1983/França–Polônia/Em cores. Diretor: Andrzej Wajda; Produtora: Margaret Menegoz; Roteiro: Jean-Claude Carrière, Andrzej Wajda, Agnieszka Holland, Boleslaw Michalek, Jacek Gasiorowski; Estúdio: Gaumont; Vídeo: Politel; Duração: 136 min.

PLUTARCO, “Licurgo”. In: Vidas Paralelas, tradução, introdução geral e notas de Aurelio Pérez Jiménez. Madrid: Editorial Gredos, 1985, tomo I.

__________, Obras Morales y de Costumbres (Moralia), tradução de Mercedes López Salvá, introduções e notas de Mercedes López Salvá e María Antonia Medel. Madrid: Editorial Gredos, 1987, tomo III.

ROUSSEAU, Jean-Jacques, "Discurso sobre as Ciências e as Artes". In: Rousseau (Os Pensadores), tradução de Lurdes Santos Machado, introduções e notas de Paul Arbousse-Bastide e Lourival Gomes Machado. São Paulo: Abril Cultural, 1973a.

_______________________, “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens”. In: Rousseau (Os Pensadores), tradução de Lurdes Santos Machado, introduções e notas de Paul Arbousse-Bastide e Lourival Gomes Machado. São Paulo: Abril Cultural, 1973b.

_______________________, "Do Contrato Social ou Princípios do Direito Político". In: Rousseau (Os Pensadores), tradução de Lurdes Santos Machado, introduções e notas de Paul Arbousse-Bastide e Lourival Gomes Machado. São Paulo: Abril Cultural, 1973c.

7.2 Bibliografia geral

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CASSIRER, Ernst, A Questão Jean-Jacques Rousseau. São Paulo: Editora UNESP, 1999.

DARNTON, Robert, “Danton: o processo da Revolução”. In: Mark C. Carnes (org.), Passado Imperfeito. A História no Cinema. Rio de Janeiro: Record, 1997.

FALKOWSKA, Janina, The political films of Andrzej Wajda: dialogism in Man of marble, Man of iron, and Danton. Oxford: Berghahn Books, 1996.

FILHO, Mário Miranda, “Politeia e Virtude: As Origens do Pensamento Republicano Clássico”. Conferência realizada no Instituto de Estudos Avançados, 1996. Disponível no site: http://www.iea.usp.br/iea/textos/mirandafilhopoliteiaevirtude.pdf. Acessado em 19/6/2009.

FORTES, Luiz R. Salinas, Rousseau: o bom selvagem. São Paulo: FTD, 1989.

GAY, Peter, “Introdução”. In: Ernst Cassirer, A Questão Jean-Jacques Rousseau. São Paulo: Editora UNESP, 1999.

__________, The Enlightenment: an interpretation. Nova York/Londres: Norton & Company, 1977.

HARTOG, François, “Regime de Historicidade”. In: Time, History and the writing of History: the order of time, KVHAA Konferenser. Estocolmo: 1996, v. 37, pp. 95-113. Traduzido por Francisco Murari Pires, o artigo está disponível no site: http://www.fflch.usp.br/dh/heros/excerpta/hartog/hartog.html. Acessado em 19/6/2009.

HAZARD, Paul, O Pensamento Europeu no Século XVIII: De Montesquieu a Lessing, tradução de Carlos Grifo Babo. Lisboa: Editorial Presença, 1974, 2 vol.

JAEGER, Werner, Paideia: los ideales de la cultura griega. México: Fondo de Cultura Economica, 1996.

KANT, Immanuel, “Crítica da razão pura”. In: Kant (Os Pensadores), tradução de Valério Rohden e Udo Baldur Moosburger. São Paulo: Nova Cultural, 1987, 3ª ed.

NICOLET, Claude, L’idée Républicaine en France. Paris: Éditions Gallimard, 1982.

PARRY, Geraint, “Émile: Learning to Be Men, Women, and Citizens”. In: Patrick Riley (ed.), The Cambridge Companion to Rousseau. Cambridge/New York: Cambridge University Press, 2001, capítulo 9.

POLÍBIO, História. Tradução de Mário da Gama Kury. Brasília: Ed. UnB, 1985.

RILEY, Patrick (ed.), The Cambridge Companion to Rousseau. Cambridge/New York: Cambridge University Press, 2001, capítulo 9.

ROUSSEAU, Jean-Jacques, Emílio ou Da educação. Tradução de Roberto Leal Ferreira. São Paulo: Martins Fontes, 2004, 3ª ed.

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