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6.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em L’idée Républicaine en France, Claude Nicolet faz uma breve explanação
do conceito semântico da palavra revolução (1982: 85-86):
“A palavra ‘Revolução’ – que, no original, pertencia à linguagem da astronomia –
tinha passado, ao menos durante o século XVI, às linguagens da história e da
política. Mas o termo era empregado geralmente no plural, e sempre com
qualificativos históricos precisos: um gênero historiográfico havia nascido, na
virada do século XVII ao XVIII, consagrado às ‘revoluções’ de um ou outro país –
partindo das repúblicas antigas, e, sobretudo, Roma, até as monarquias modernas.
Nada de original no presente, assim como já havíamos dito: essas revoluções eram
simplesmente concebidas como uma das etapas de uma concepção cíclica da história
comum a toda a Antigüidade, ou como as articulações pontuais de uma evolução
dinástica ou política – as
Revoluções da Suécia, de Portugal. As revoluções são, na realidade,
agitações, para Montesquieu, características dos Estados despóticos”.
Dessa “concepção cíclica da história”, derivada dos antigos, enraizada na teoria
polibiana, e igualmente atada ao pensamento de Aristóteles, adentramos a
consciência política da França revolucionária: contudo, as “revoluções” aqui
desaparecem, e dão lugar a uma única revolução, que se verterá na revolução
por excelência. O que viria em seguida, na França ou noutros países, será,
para aqueles, apenas conseqüência daquela de 1789 (NICOLET 1982: 87). Mas tal
revolução não existiria sem Robespierre, Saint-Just, ou Danton – embora não
saibamos, é verdade, o que teria ocorrido caso o destino de cada um deles
tivesse sido outro. O mérito de Wajda foi criar uma narrativa que, por um lado,
abarca distintas visões e imagens do mesmo processo em curso, e por outro,
submete-as ao questionamento da História – tanto por parte dos franceses, quanto
pela Polônia de finais da Guerra Fria. A despeito do suposto favorecimento
concedido a Danton, sobressaltado aos olhos do público francês, Wajda monta um
cenário onde é possível engendrar variadas (e viciosas) teias de poder, mesmo
quando retrata a ala dantonista. Assim, é possível, através de suas cenas,
discernir duas atitudes opostas, duas representações de República aspiradas
pelos personagens, justapostas aos prós e contras que a elas são inerentes: a
Atenas democrática de Danton, ou a Esparta virtuosa de Robespierre. A construção
destes agentes históricos não foi, convém salientar, fruto do acaso, mas efeito
da efervescência política francesa, e da mentalidade proveniente do século das
Luzes.
Ora, o viés político da Enciclopédia teve, em Danton, seu “herói fundador”
(NICOLET 1982: 104). A ostentação de conforto e riqueza, a fartura dos jantares,
representam nada mais que os benefícios do pensamento burguês, afeito ao
progresso econômico e a valorização da propriedade. Isso não se alcançaria por
medidas socializantes de confisco de bens, sequer pela redistribuição de terras,
e sim pelo incentivo ao comércio, às artes e ao avanço tecnológico. O florescer
das máquinas, cada vez mais rápidas; a elevação dos artífices, receptores e
guardiães da técnica: tudo isso propalado enquanto bandeira da liberdade. Os
filhos do século desejam ter liberdade de competição, de trocas e de circulação
de bens. O deslindamento da civilização, já inevitável, corresponderá, por
conseguinte, ao desenvolvimento natural da alma: “a virtude iguala a
sociabilidade” (HAZARD 1974 vol.1: 222), e o homem é sociável, antes de tudo, em
vista da essência natural da sociedade.
Robespierre opõe-se a este movimento com veemência. Clamado como
“Incorruptível”, espelha-se na figura rousseauniana do bom legislador. A
concepção de história de Rousseau prende-se ao passado, resgatando Roma e
Esparta dos primórdios para manejá-las enquanto figuras modelares: vivem em
“feliz ignorância”, baseando-se em valores cívicos e economia rural, e cuja
organização funda-se no princípio da liberdade e ética. Esparta mantém-se
virtuosa, em contraste com Atenas, a qual serviria de espelho para a França
degenerada de Luís XIV e Luís XV. Ao descrever a sociedade espartana, Plutarco
construiria uma imagem de excelência moral. Sob a legislação de Licurgo, Esparta
é o primado da liberdade e da igualdade: o virtuosismo do legislador motivará a
adesão dos cidadãos aos empreendimentos, e a inibição da riqueza trará harmonia
entre eles, posto que permaneçam iguais. Robespierre adota, portanto, a postura
de Licurgo: avesso ao luxo e à vaidade, suplicante de justiça e patriotismo,
coloca as massas na ordem do dia – sobrepõe ao individualismo do liberal
burguês, a coletividade do interesse estatal.
Este artigo teve, por fim, analisar o contexto revolucionário francês sob
diferentes óticas historiográficas, sejam as fontes literárias de autores
modernos e antigos, seja pela obra cinematográfica de Wajda. Buscou-se
sobrepujar, ainda que sem desconsiderar, os contrastes estruturais (obras
impressas ou midiáticas) e cronológicos, a fim de estabelecer um diálogo entre
tais tipos de fontes. Para ratificar a tese de personificação dos ideais
clássicos através das ações empreendidas pelos personagens, depreendemos o
pensamento de Rousseau – imbuído, de seu lado, dos ensinamentos advindos de
Plutarco – dos trejeitos do Robespierre encenado por Pszoniak, bem como
interpretamos Danton na qualidade de confirmar os valores atenienses. Tem-se,
logo, um compêndio das plurais e controvertidas faces que vivenciaram aquele
momento histórico.
7.REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
7.1Fontes
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136 min.
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_______________________, "Do Contrato Social ou Princípios do Direito Político".
In: Rousseau (Os Pensadores), tradução de Lurdes Santos Machado,
introduções e notas de Paul Arbousse-Bastide e Lourival Gomes Machado. São
Paulo: Abril Cultural, 1973c.
7.2
Bibliografia geral
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