ISSN 1807-1783                atualizado em 10 de março de 2010   


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O riso recai sobre as Matronas – o caso de Juvenal (Parte 2)

por Silva, Lorena Pantaleão da

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Lembramos aqui novamente que diversos historiadores ressaltam a existência de uma crise relacionada a baixa fecundidade feminina nos grupos aristocráticos. Acreditamos que, considerando os aspectos do humor romano apresentados por Cícero (como o de não se criticar diretamente outro nobre, sob pena de ser considerado excessivamente agressivo), e também o motivo pelo qual, segundo Hodgart, as mulheres seriam tão presentes no estilo satírico (para serem culpadas pelas desgraças e problemas que afligem a sociedade) ao criticar as matronas especificamente, Juvenal está se referindo a um grupo mais amplo, da aristocracia romana.

O recurso à obscenidade, ou à diminuição dos valores dos personagens é recorrente no estilo satírico. Frisamos, assim, que as críticas apresentadas com esta conotação são majoritariamente dirigidas para o comportamento de matronas, ou seja, para um grupo muito específico dentro daquela sociedade. Além disso, ao compará-las com as mulheres provenientes de grupos populares, Juvenal apresenta uma análise valorativa das matronas, a qual é contrária àquela apresentada por alguns trabalhos historiográficos, como os citados anteriormente, na qual na maioria dos casos ela estava encerrada em um casamento sob o poder do pater familias.

Enfim, observamos ao longo da sexta sátira, e com os exemplos aqui apresentados, a construção de uma definição do que seria o comportamento das matronas romanas para Juvenal. Considerando as motivações que o levaram a escrever as sátiras, de estabelecer uma crítica a sociedade romana, acreditamos que seu olhar recai sobre as matronas em parte devido sua experiência pessoal, pois, conforme apontado anteriormente, não participava deste crescimento econômico, pelo contrário em diversos momentos ao longo de sua obra aponta para a miséria infligida aos poetas. Porém, tais fatores não negam a existência de um relato que aponta para uma liberdade feminina ou, minimamente, de um determinado grupo de mulheres.

Assim, chegamos a um ponto crucial: podemos afirmar que as relações entre homens e mulheres citadas na obra perpassam notoriamente o âmbito de relações sócio econômicas da sociedade romana. Mais do que a mera distinção biológica, ocorriam outras formas de diferenciação, ao nosso ver, considerando a análise proposta, as quais eram mais importantes do que a primeira. Não se pode assim afirmar que as relações eram iguais e sistemáticas, elas diferiam entre si conforme as personagens atuantes.

As críticas apresentadas pelo autor nos permitem estabelecer uma melhor interpretação de qual era o papel esperado das matronas romanas e, especialmente, a forma como elas foram ordenadas, em quais aspectos o comportamento das mesmas se distanciava do ideal. A construção de uma imagem que certamente não é um modelo a ser seguido aponta para outras possibilidades de interpretação, por exemplo, ao analisarmos quais eram os delitos cometidos que mais chamavam a atenção de nosso autor, e, portanto eram mais escandalosos, em geral ligados ao grupo social das personagens.

Neste caso as representantes deste grupo estabelecem práticas comportamentais que distam enormemente destes ideais de conduta. Por outro lado, é inegável a percepção de certa liberdade sexual e social feminina citada nas sátiras. Considerando que o humor como elemento destinado a destacar temas importantes e de conhecimento da população daquele período, acreditamos que estes dados, como a liberdade feminina, são relevantes para o autor e sua audiência. Ao mesmo tempo lembramos que o riso é causado pela rigidez pelo domínio da forma sobre a vida, logo, ao repetir inúmeras vezes como o dinheiro corrompe e como as matronas estão corrompidas o autor para além de estabelecer a crítica a um grupo superior, aponta tais comportamentos como naturais aquele grupo, como se este tivesse se deixado contaminar.

Notamos, por meio dos trechos aqui apresentados, duas construções distintas do autor sobre o papel feminino. O primeiro, está distante e idealizado, onde como um recurso retórico Juvenal cria um ideal, o qual deveria ser seguido por todas as demais. Em um segundo momento ele aponta os vícios e costumes que o incomodavam, por meio do cômico ele critica as posturas da sociedade do período, não apenas as femininas, mas daqueles que aceitavam estas ações.

A repetição, o uso da idéia de fantoche, imprime o caráter cômico da sátira, onde ao invés de indivíduos ainda que com grande diversidade de personagens, o que as une é a similaridade no comportamento, o menosprezo que autor imputa as suas personagens pelos outrora reinantes costumes da moral romana. Contudo ao apresentar esta seqüência de dados, Juvenal cita estas mulheres como personagens livres e ativas naquela sociedade, fato corroborado pelo profundo desprezo que o autor demonstra por estas, como se sua obra servisse como um alerta para as mudanças do período, para os perigos que este poder que, quando deixado em mãos femininas, poderia inverter a lógica presente naquela sociedade. Consideramos, pois que o discurso apresentado por Juvenal, para além da expressão de sua indignação e da advertência para aristocracia era um alerta para as modificações em relação ao espaço das mulheres que, caso continuassem ocorrendo naquela sociedade, poderia comprometer os ideais de conduta que ele considera válidos.

Considerações finais

Apresentado como misógino por alguns de seus comentadores, Juvenal constrói uma ampla gama de figuras femininas em suas sátiras, o que nos permitiu realizar a análise aqui apresentada. Suas críticas enfáticas contra costumes da sociedade romana permitem que analisemos situações que não aparecem em outros textos literários.

Um último aspecto a ser apresentado é a multiplicidade de figuras femininas que surgem na obra analisada. Mesmo delimitando o nosso objeto de estudo em um grupo bastante restrito, o das matronas romanas, observa-se uma grande pluralidade de situações que as personagens estão dispostas com características bastante individuais. Lembramos aqui que esta perspectiva foi ignorada em detrimento de uma valoração dicotômica da sociedade romana e, conseqüentemente, dos grupos femininos, entre a elite e a plebe, matronas e prostitutas. Tal aplicação de um modelo teórico exterior ressalta a necessidade de se observar estas personagens por meio de uma perspectiva de gênero, a fim de evitar a transposição de modelos normativos anacrônicos para a Antigüidade.

A construção do ideal apontado pelo autor não corresponde ao que ocorre no seu presente, pelo contrário faz com que essa se torne mais clara aos olhos de seus ouvintes, destacando o quanto as mulheres daquele momento estão distantes do mesmo. Ao apontar o comportamento destas não era a intenção deste autor deixar um legado de como elas estavam mais livres, mas de mostrar seus erros bem como os problemas que este comportamento mais ativo e liberto trazia pra sociedade romana. Lembramos que apenas com os estudos de gênero invertendo o foco do contexto para como este autor pertencente a um determinado grupo social, constrói imagens que ele considera aproximadas da realidade romana do período pudemos desenvolver esta pesquisa.

Entre as figuras femininas apresentadas na obra estão presentes matronas, concubinas, filhas, esposas, sogras entre outras, com características bastante individualizadas, nos permitindo analisá-las constituindo relações de poder entre si e com o restante da sociedade. Por estes motivos enfatizamos a necessidade em se observar o estudo desta obra interdisciplinarmente, para que as interpretações nos permitam observar aspectos mais profundos do período em questão.

Agradecimentos:

Agradecemos ao departamento de História da UFPR, sobretudo às professoras Renata Senna Garraffoni e Ana Paula Vosne Martins, ao departamento de Letras Clássicas da UFPR, especialmente ao Professor Rodrigo Gonçalves por permitir que eu freqüentasse as aulas de latim. Foi fundamental para o desenvolvimento deste trabalho a participação no projeto coordenado pelos professores Dr. Pedro Funari e Dr.ª Margareth Rago e financiado pelo CNPq, bem como a ida à Unicamp em 2006, momento no qual tive acesso a parte da bibliografia utilizada para produção desta pesquisa. Finalmente sou grata ao CNPq, pela bolsa de iniciação científica durante a graduação e a Capes pelo auxílio financeiro no período de julho 2009 – fevereiro 2010 para o mestrado. Todas as idéias são de responsabilidade da autora.

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