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INTRODUÇÃO
O presente artigo[2]
busca traçar considerações sobre as intricadas alianças e ações travadas entre a
Igreja e o Estado republicano brasileiro, destacado na figura de Getúlio Vargas
(1882-1954), no que concerne à criação de uma profunda simbologia nacional em
torno da imagem sacra venerada na Basílica da cidade de Aparecida (São Paulo),
“surgida” nas águas do rio Paraíba do Sul em 1717. Assim, pretende-se, sem
tentar esgotar a temática, delinear uma série de articulações que estariam por
trás desta construção imagético-política capaz de fazer com que atos como a
Coroação, em 1904, e a Proclamação de Nossa Senhora Aparecida como Rainha e
Padroeira do Brasil, em 1931, intentassem proporções cuja abrangência
extrapolasse qualquer nível de devoção local ou regional[3].
Contudo, faz-se necessário, inicialmente, apontar algumas características sobre
a atuação da Igreja Católica no Brasil e seu envolvimento com o Estado, seja
português ou brasileiro (pensando-a dentro do contexto republicano,
especialmente varguista), possibilitando assim qualquer consideração posterior.
De fato, o Brasil é um país profundamente marcado pela religião e, desde
cedo, encontrou no catolicismo uma série de valores, crenças e práticas
institucionalmente organizadas e incontrastadamente hegemônicas que, por cerca
de quatro séculos, definiram de modo coerente os limites e as intersecções entre
as vidas pública e privada (MONTES, 1998). Estes valores e influências foram
usados pela Igreja, buscando sempre proteger seus interesses organizacionais,
como elementos chave no seu envolvimento com a política, mesmo que, durante
grande período de sua existência no Brasil, estivesse atrelada ao poder e ao
mando do Estado. Deste modo, é de se compreender que todas as alterações na
instituição Igreja são verdadeiros reflexos de tentativas de defesa de seus
interesses e de expansão de sua influência. Se em certo período há proximidade
com as elites, como o que ocorre a partir de 1916, em outros, isto se torna um
empecilho, como o novo modelo de Igreja Popular inaugurado na década de 1960,
que luta em prol da justiça social e da cidadania.
Nesta linha, a obra A Igreja Católica e a Política no Brasil, de Scott
Mainwaring (1989), fornece um profundo leque de discussões sobre as
transformações políticas da Igreja latino-americana ao afirmar que a questão do
envolvimento da Igreja na política não é o importante, mas sim o modo como este
se procede. É este, portanto, o postulado que delineará este trabalho. A Igreja
mostra-se como uma instituição basicamente ligada à fé, instrumento a partir da
qual se propaga toda sua mensagem religiosa. Contudo, preocupa-se com a defesa
de sua instituição e, conseqüentemente, de seus interesses frente à sociedade e
ao Estado. Isso mostra que, apesar de ser uma organização que defende, em
princípio, a religiosidade (fé), também se preocupa com sua imagem e influência
no meio que a rodeia. Ligada a esta atitude transcendental, a Igreja desenvolve
um caráter de expansão, quando se propõe tornar-se o único caminho para a
salvação.
Durante o Padroado, a Igreja, implantada com bases naquela existente na
pátria-lusa, viveu certo período de estabilidade, visto que o Estado Português
gozava de ótimas relações com a Cúria Romana a partir do momento em que este
levava o catolicismo como bandeira primeira em suas colonizações[4],
fazendo com que a Igreja implantada estivesse sob sua total dependência. Durante
a colônia, o Estado buscava que “a Igreja se mantivesse frágil e subordinada.
Eram frágeis os vínculos da Igreja Brasileira com a Igreja Universal” (LIMA,
1979: 14), de modo que este era responsável, como já o era anteriormente, pela
construção de igrejas, monastérios, assim como provê-los de padres e religiosos,
nomear bispos; e ela, por sua vez, apoiava as atitudes da expansão colonizadora,
“assumindo um forte papel desbravador” (BRUNEAU, 1974: 34).
Desde a colonização, tanto Igreja quanto Estado buscariam incutir, tanto na
elite quanto no povo, suas próprias necessidades. Mesmo assim, a presença “real”
da Igreja sempre foi pouco marcada no Brasil, noção que aparece pela presença
das regras do Estado em detrimento das instruções do Vaticano, que só chegariam
ao Brasil por volta dos anos de 1830.
Para entender a implantação do catolicismo, Eduardo Hoornaert fornece “roteiros”
para os três primeiros séculos da história, mesmo que para isso tenha avançado
para problemáticas do século XIX (considerado por ele como um período de
intensas mudanças cultural-religiosas), trazendo uma Igreja mais fraca em sua
influência devido às fortes restrições dos tempos pombalinos. Por “roteiros”, o
autor distingue três fases da implantação religiosa na colônia: a primeira,
conduzida de Portugal para o Brasil com os navegadores, marca a fase do
catolicismo guerreiro, da implantação da fé pela força. A segunda acompanha
o estabelecimento e organização dos locais agrícolas, e depois mineiros,
baseados na escravidão, marcando o período do catolicismo patriarcal,
caracterizado pela sacralização da sociedade, da ordem estabelecida. Por fim, a
terceira fase, ápice de todo o processo, a do catolicismo dito popular, o
qual exprime a vida e o pensamento dos “vencidos” e deportados pela empresa
colonial: índios, africanos e seus descendentes (HOORNAERT, 1974).
Seria sobre esta última forma de catolicismo que a Igreja e o Estado buscariam
formas de legitimar e conseguir poder, através, principalmente, de
elementos inculcados na tradição religiosa americana, como a devoção mariana.
Este tipo de ligação que cimenta a noção de unidade nacional, na qual as
diferenças étnicas ou de classe são relegadas a um segundo plano, não é um caso
específico brasileiro, aparecendo, igualmente, na realidade argentina com a
Virgem de Lujan (estatizada por excelência), ou, no México, com Guadalupe
(notadamente Nacional). No Brasil, esta toma caráter específico, pois une
questões locais e regionais às nacionais e estatais, já que todos os argentinos,
os brasileiros ou os mexicanos “são um em sua devoção a Virgem Maria” (MARTÍN,
1998).
A PRESENÇA MARIANA NO CONTEXTO IBÉRICO: IGREJA E ESTADO
Baseado em uma antiga tradição mariana, pode-se pensar as possíveis implicações
resultantes da “aparição” de uma imagem da Virgem Maria, no Rio Paraíba do Sul,
em 1717. Porém, a efígie encontrada, antes de tudo, remete-se a uma imagem de
Nossa Senhora da Conceição, dogma mariano proclamado pelo Papa Pio IX, em 8 de
dezembro de 1854 (bula Ineffabilis Dei). Em Portugal, como na maioria dos
países católicos, a devoção a Nossa Senhora da Conceição era a mais importante,
fator percebido pela provisão de 25 de março 1646, quando D. João IV
(1767-1826), rei de Portugal, proclamou a Virgem da Conceição como padroeira do
reino e de seus domínios (AMARAL, 2000: 122).
Esta tradição em torno da imagem de Maria, a qual se relaciona também à
legitimação do poder real mediante apoio pela Igreja, acabou extravasando o
Reino de Portugal e atingindo suas colônias. No Brasil, a devoção mariana e seu
padroado, trazida pelos portugueses e seus missionários, configurou-se como um
excelente instrumento e grande impulsionadora do processo de catequização dos
povos indígenas e, depois, dos próprios negros. Este fator pode explicar a
ratificação do padroado da Imaculada Conceição sobre o Brasil, por Dom Pedro I,
em 1º de novembro de 1822, mesmo após sua independência. Como coloca o
historiador Júlio Brustoloni,
(...) o culto à Imaculada Conceição de Maria penetrou por todo o Brasil, criando
profundas raízes e imprimindo características próprias à religiosidade do nosso
povo. A Imaculada Conceição de Maria foi tema de inspiração para as artes e as
letras. Imagens artísticas foram executadas pelos melhores artistas portugueses
e brasileiros em madeira e terracota; pintores célebres puseram nome e fama às
telas da Imaculada Conceição que executaram. Entre elas está a imagem de Nossa
Senhora da Conceição Aparecida, cuja invocação passa a ser cultuada na primeira
metade do século XVIII.
(BRUSTOLONI, 1998: 17)
RELATO DO ACHADO DA IMAGEM E OS PRIMEIROS ANOS DO CULTO
A história da “aparição” ou “achado” da imagem, de modo sintético, remonta ao
panorama do Brasil do século XVII e início do XVIII, marcado pela economia
aurífera. A descoberta de jazidas na região de Minas Gerais fez com que a região
paulista do Vale do rio Paraíba do Sul passasse por um intenso processo de
colonização e circulação de riquezas. Dentro deste panorama, a criação de
capelas e oratórios caseiros tomou novos impulsos, fazendo com que a circulação
de imagens entre sítios, fazendas, bairros e vilas aumentassem gradativamente.
Em 1640, tornando-se caminho e entreposto dos migrantes que procuravam ouro na
região do rio das Mortes, nas Minas Gerais, fundou-se a vila de Guaratinguetá,
beneficiada pela descoberta do ouro. Devido às grandes turbulências econômicas e
sociais do início do século XVIII, a Coroa Portuguesa unificou as capitanias de
Minas Gerais e de São Paulo, tendo como governador o capitão-general D. Pedro de
Almeida Portugal, 4º Conde de Assumar, depois Vice-Rei da Índia, que se dispôs a
atravessar o Vale do Paraíba na intenção de acalmar os ânimos dos colonos. Sua
viagem, iniciada em 27 de setembro de 1717, teve como um dos pontos de parada a
Vila de Guaratinguetá, onde ficou por cerca de 13 dias, na época em que
governava a vila o Capitão-mor Domingos Antunes Fialho[5].
Este foi o momento histórico do encontro e início da veneração da Imagem de
Nossa Senhora Aparecida, uma vez que a estadia do Conde gerou uma grande
movimentação na Vila para que pudessem suprir as necessidades dele e de sua
comitiva. Por ordem da Câmara Administrativa da Vila de Santo Antônio de
Guaratinguetá, três pescadores foram incumbidos de pescar para o banquete dos
estrangeiros: João Alves, Domingos Martins Garcia e Felipe Pedroso[6].
Pelos relatos, o que não se podia imaginar é que, além de peixes, se pescaria,
no porto Itaguaçu, uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, “aparecida”,
primeiramente o corpo e depois a cabeça, nas águas do rio Paraíba. Em relação à
data exata do achado, pouco se sabe, mas se costuma apontar o período de
permanência do Conde na Vila, ou seja, de 17 a 30 de outubro de 1717.
A fama da imagem da santa negra, “da cor do povo sofrido”, começaria a se
espalhar por toda a região, alcançando, também, as províncias de São Paulo,
Minas Gerais, Paraná, chegando logo depois para o Centro-Oeste e para o Sul do
país. Com isso, criou-se uma pequena capela (não oficial) erguida por Atanásio
Pedroso, na região do porto Itaguaçu, estimulando, ainda mais, a devoção em
torno da Virgem “Aparecida”, uma vez que, pela estrada real, passavam indivíduos
de inúmeras regiões brasileiras, fato que auxiliou na divulgação e consolidação
do culto.
Tal disposição estratégica fez com que inúmeras capelas dedicadas a Nossa
Senhora Aparecida começassem a aparecer desde a segunda metade do século XVIII,
fama levada, sobretudo, por sertanistas, mineradores e tropeiros. Foi dentro
desta perspectiva que se idealizou, desde 1732, a construção de uma igreja para
a santa, noção corroborada com a aprovação oficial do culto em 5 de maio de
1743, como já ordenavam as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia de
1707[7].
Assim, surge, em 26 de julho de 1745, a ‘Capela da Conceição Aparecida’[8],
pequena ermida de taipa de pilão construída por escravos sob a direção do
Capitão Antônio Raposo Leme e orientação do Padre José Alves Vilella. Este ato,
realizado sob a concessão da Igreja por meio da provisão concedida pelo Bispo do
Rio de Janeiro, Dom Frei João da Cruz, em 22 de maio de 1945, aprovava e dava
início oficial ao culto público e litúrgico de Nossa Senhora da Conceição
Aparecida. A intenção era erguer o templo em um local que pudesse ser visto de
todo o vale do Paraíba, devendo ser próximo da sede da paróquia de Santo Antônio
de Guaratinguetá e propício para a construção de um povoado, optando-se, para
tanto, pelo cume do Morro dos Coqueiros (BRUSTOLONI, 1998). Neste local, surge
posteriormente um templo maior, a chamada Basílica Velha de Aparecida, cuja
construção foi finalizada e dedicada em 1888, sob provisão do bispo Dom Lino
Deodato e com auxílio do célebre Missionário Apostólico Monsenhor Miguel
Martins, sob grande festa e devoção por parte dos fiéis.
A IGREJA E O ESTADO NA REPÚBLICA
Durante o século XIX, a Igreja passaria por profundas transformações. O
processo de independência do Brasil não mudaria a relação de controle e
regulação, tanto temporal quanto espiritual, que o Estado exercia na Igreja,
porém esta continuava com suas regalias econômicas, sociais e religiosas.
Diversas atividades que eram do controle do próprio clero foram proibidas ou
passadas para o Estado, como a administração dos santuários e o impedimento das
ordens religiosas de receberem noviços. Contudo, durante o papado de Pio IX
(1846-1878), a Igreja Romana intentaria trazer a brasileira de volta a seu
controle, empenhando, especialmente, bispos do país na luta de religar os
contatos com o Vaticano: este processo, denominado de “Catolicismo
Ultramontano”,
buscava uma centralização episcopal da Igreja brasileira sob a bandeira
“tridentina, romanista, episcopal e clerical”[9].
Assim, a Igreja entraria em crise contra o Estado Imperial, iniciada pela
célebre Questão Religiosa de 1847, já que ela “não sente mais no Estado (...) a
instituição apta a apoiá-la na sua missão e o Estado perde o interesse em
reformar e modificar a Igreja, passando muito mais a lutar para diminuir sua
influência e afastá-la dos negócios do Estado” (BEOZZO, 1986: 273). Isto
desembocaria na separação da Igreja do Estado, a partir do decreto n.119-A, em
1890, um ano após a proclamação da República no Brasil. Segundo o documento de 7
de janeiro, ficava proibida qualquer intervenção, seja federal ou estadual, em
assuntos ligados à matéria religiosa (seja vedando-a ou aprovando-a),
consagrando ao país a liberdade de culto e extinguindo o padroado, algo que
seria visto sob enfoques diferenciados[10].
Este processo é considerado por muitos autores, como Mainwaring, Bruneau,
Beozzo e Márcio Moreira Alves como de grande importância, pois a Igreja poderia,
ao livrar-se do poder e mando do Estado, organizar-se estruturalmente, criando
estratégias para acumular forças. Para tanto, ela partiria das elites, as quais
poderiam dar-lhe o sustento político e econômico, e das massas, utilizando uma
pregação sentimental, diferentemente de quando estava unida ao Estado, sendo que
o último buscava, cada vez mais, meios que o separasse dos laços que ainda
apareciam entre eles.
Um aspecto importante é que no alvorecer do século XX, o povo já se
apresentava como um elemento de desejo tanto da Igreja quanto do Estado,
aparecendo como constituidor de sua própria liberdade política. No desejo de
arraigar estes grupos, a Igreja colocava-se como representante e fonte da
própria civilização e do progresso moderno, enquanto o Estado “para afirmar-se
soberano, vai buscar, no discurso positivista, meios de mostrar a Igreja como
representante do passado, conservadora, reacionária e contra o progresso da
Nação” (ALVES, 2005: 28). Como mencionado, o clero desejava adentrar e
influenciar “todos os níveis da sociedade, mas com a separação e a subseqüente
falta de recursos e estruturas do Estado, isto não era possível” (BRUNEAU, 1974:
72). O que de fato ocorria é que a Igreja sofria certa desorganização e
descentralização durante o processo de separação com o Estado, continuando
apenas a fusão com a família, o poder e os agrupamentos sociais, locais e
regionais.
Neste período, ocorreria também certo “descarte” da tradição religiosa da
Igreja, passando a sofrer influências diretas dos padrões citados pelo
catolicismo romano no Concílio Vaticano I (1869-1870). Assim, esta nova forma de
religião entra em luta com os costumes e tradições do povo; e, nos santuários
tradicionais, trava-se um conflito surdo entre os missionários vindos da Europa
e a prática do povo rotulada de ignorância e superstição, quando não de
fanatismo (BEOZZO, 1986).
No que concernia aos santuários, o processo de romanização teve grande
impacto, uma vez que seu controle voltou para as mãos da Igreja. O empenho do
clero em trazer congregações européias para atuar no Brasil foi intenso, o que
gerou profundos conflitos entre os religiosos portadores de ideais tridentinos e
da ortodoxia da Igreja e dos romeiros brasileiros, profundamente imbuídos de
tradições populares, muitas vezes consideradas ‘profanas’, ‘supersticiosas’, e,
até mesmo, ‘incorretas’. Entre estas ações, tem-se a do bispo de São Paulo, D.
Lino Deodato, que, por intermédio de seu bispo coadjutor, Dom Joaquim Arcoverde
Cavalcanti, buscava trazer religiosos da Congregação do Santíssimo Redentor[11]
da Baviera, conhecidos como redentoristas, para administrar o Santuário de
Aparecida, já considerado um dos principais centros de devoção popular do
Brasil.
A chegada do grupo ocorre em 28 de outubro de 1894, sendo a entrega da
administração interina do Episcopal Santuário firmada apenas em 1985 (AZZI,
1986: 71). A promoção e incentivo de devoções e associações vinculadas ao
espírito tridentino constituiu uma orientação fundamental aos redentoristas em
Aparecida, sendo as Missões Populares uma grande arma para arraigar fieis e
trazê-los para o seio da Igreja, a partir de um viés mais popular e sentimental,
buscando reorganizar o culto e reinserir a doutrina dos sacramentos. Além disso,
seguiam os valores que eram encabeçados pelos bispos reformadores, valorizando a
pregação, a catequese e os valores do catolicismo reformado como o mês de Maria,
do Rosário e do Sagrado Coração de Jesus, maneiras de revitalizar a vertente
popular da religião.
Mesmo assim, nesta acumulação de forças, a Igreja, agora com uma relação
“normal” com a Santa Sé, passou a buscar artifícios, a fim de conseguir
recolocar-se no panorama brasileiro após forte momento de consolidação de
reformas internas. Isto aconteceria a partir de um processo de recristianização
da sociedade, com amplo florescimento na década de 1920, principalmente sob a
liderança do Cardeal D. Sebastião Leme da Silveira Cintra (1882-1942), arcebispo
do Rio de Janeiro; dos líderes leigos do Centro Dom Vital, um instituto católico
pequeno, mas de grande influência no desenvolvimento da Igreja e na política, e
de publicações como a Revista Ordem no Rio, criada por Jackson de
Figueiredo em 1921 (MAINWARING, 1989: 46).
Seria, contudo, a partir de 1930 que a situação mudaria. Para Thomas
Bruneau, a Revolução de 1930 deve ser entendida como o momento de reintegração
da Igreja no Estado brasileiro. Isto ocorre, pois no período entre 1916 e 1945,
líderes católicos passariam a utilizar a política como um meio eficaz de
atuação, buscando uma aliança com o Estado a fim de influenciar a sociedade.
Este, “percebendo que tinha muito a ganhar com a Igreja, segurou essa
oportunidade de negociar alguns privilégios em troca de sanção religiosa”
(MAINWARING, 1989: 47). Além disso, apoiada e autorizada pelas Encíclicas de
Leão XIII, como a Rerum Novarum (15 de novembro de 1891), a Igreja sairia
do isolamento e voltaria a procurar apoio no Governo, corroborada pelas linhas
de renovação do pensamento católico, a principal delas do Cardeal Sebastião
Leme. Porém, esta ligação seria ainda mais forte e cheia de privilégios durante
o governo de Getúlio Vargas, já que a afinidade política apresentava-se mais
evidente mediante um líder que, formado na política oligarquista, buscava apoio
nos grupos tradicionais: houve uma cooperação mútua entre a Igreja e Vargas,
mesmo havendo a separação de poderes, cada qual em busca de seus interesses.
Como é visível, todo o processo que levaria à Revolução de 1930, colocaria como
ponto de ordem para Vargas a necessidade de encontrar um meio de chegar, de modo
mais eficaz, até as massas, noção alcançada por meio de uma nova e resistente
política social. A própria criação do Ministério do Trabalho refletiria este
tipo de pensamento, que incidiria, diretamente, na necessidade de alterar os
rumos da política trabalhista, previdenciária e sindical até então adotada. Isto
se dava, pois, segundo a avaliação de Vargas e de seu governo, havia chegado o
momento de instaurar uma política forte e atuante frente à questão social, vista
como grande base para o governo. Assim, greves, crises, desemprego,
manifestações contra a fome, ações sindicais, todas elas deveriam ser ceifadas
em prol de um Estado forte, que deveria gerir o país e levar à população aquilo
que ela necessitava.
Partia-se, portanto, da idéia de que apenas com a intervenção direta e ativa do
poder público seria possível amortecer os conflitos entre capital e trabalho,
presentes nas novas relações propostas pela dinâmica do mundo moderno. Com isso,
colocava como noção básica, baseado em certa “cooptação” das massas, o
corporativismo, rompendo com o pluralismo sindical, em que apenas um sindicato
por categoria profissional seria reconhecido pelo Estado. Várias críticas
surgiram contra este modelo de “enquadramento”, principalmente por parte de
lideranças católicas, empresariais e de trabalhadores. A Igreja, por exemplo,
acreditava que esta ação do Estado inviabilizaria toda a ação do nascente
movimento sindical católico dos anos de 1930. Mesmo assim, sua relação com o
governo de Vargas mostrou-se, entre outros, como extremamente frutífera, pois
alcançou para ela nova posição de destaque e um aumento em sua atuação.
O governo de Getúlio Vargas, desde a tomada de poder pela revolução, vai
repercutir numa série de atitudes e idéias que já estavam em curso desde os anos
de 1910. Neste período, o campo da cultura era dominado por uma discussão sobre
para onde iria o Brasil e sobre a questão da identidade desta nova nação, que,
segundo Vargas, era “nova”, rompendo com um modelo oligárquico cafeeiro
dominante no século XIX. A própria ideologia revolucionária que foi formulada
nos primeiros anos da Era Vargas, fortalecida por seus discursos vivificantes,
revelou ligações diretas com as propostas antiliberais, desde então defendidas
por intelectuais como Oliveira Viana, Azevedo Amaral e Francisco Campos, os
quais acreditavam que os problemas e crises pelos quais passavam o Brasil eram
resultantes da ação das oligarquias, que haviam se apoderado da política
nacional desde a década de 80 do século XIX. Neste mesmo campo de discussão
cultural e identitária, deve-se também demonstrar que, na década de 1930, houve
um debate intelectual e político sobre que matriz regional expressaria melhor a
nacionalidade, alicerçado, entre outros, pelos textos de Gilberto Freyre.
NOSSA SENHORA APARECIDA: SÍMBOLO NACIONAL
Com o fim do Império e da ligação Igreja-Estado, a preocupação com a
sobrevivência e reestruturação da instituição religiosa caminhou paralelamente
às discussões sobre pontos ligados à formação do Estado-Nação. Era claro o
desejo das autoridades eclesiásticas de que a sociedade brasileira, por meio de
medidas oficiais, apresentasse sinais de cristianização. Além disso, era
evidente o desejo por algo que fosse capaz de unir a população, facilitando a
ação da Igreja em um território onde grande parte do povo ainda estava
espalhada. Era necessário um imaginário social coletivo forte que representasse
a nova nação brasileira aos moldes católicos.
A importância da utilização e uso de símbolos ou alegorias na implantação
e legitimação do novo regime era também partilhada pelos republicanos, noção
que, ao entendimento de José Murilo de Carvalho possibilitou a construção de um
corpo da nação, seu povo, sua gente, enfim, a própria sociedade nacional:
Para que funcionasse a república antiga, para que os cidadãos aceitassem a
liberdade pública em troca da liberdade individual; para que funcionasse a
república moderna, para que os cidadãos renunciassem em boa parte à influência
sobre os negócios públicos em favor da liberdade individual – para isso, talvez
fosse necessária a existência anterior do sentimento de comunidade, de
identidade coletiva, que antigamente podia ser o de pertencer a uma cidade e que
modernamente é o de pertencer a uma nação.
(CARVALHO, 1990: 32)
Dentre os vários elementos levantados por Carvalho, um ponto importante no
imaginário republicano brasileiro, cuja influência francesa é marcante,
corresponde à alegoria feminina. Presente desde a Revolução Francesa, de
inspiração romana, a mulher tornou-se símbolo máximo da liberdade, sendo que os
brasileiros, partilhando desta orientação, iriam buscar na riqueza de imagens e
símbolos subsídios para caracterizar o modelo brasileiro. Mesmo sob críticas,
tal modelo seria profundamente difundido, porém a realidade laica francesa não
teria força dentro de um panorama religioso como o do Brasil. Assim, uma
“mariolatria católica” passaria a ocupar espaço, sendo que caberia à Virgem de
Aparecida conseguir dar um sentido de comunhão nacional a vastos setores da
população. Isto é marcante na realidade do país que, a partir de incentivos ao
culto a Maria por parte da hierarquia eclesiástica, devoção profundamente
enraizada desde o princípio da colonização do Brasil, iria coroar oficialmente
com as insignes de Rainha do Brasil, diante de todo o episcopado brasileiro e
uma multidão de fiéis, a Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida no ano
de 1904.

Pregação durante a
cerimônia de Coroação da imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida em 08 de
setembro de 1904, realizada em frente à Matriz Basílica Velha de Aparecida.
Foto: CDM – Centro de Documentação e Memória/Santuário Nacional. Disponível em:
Revista de Aparecida, ano 9, n°100, julho de 2010. p 20.
A coroação da Imagem de Nossa Senhora Aparecida foi concedida pelo então
papa Pio X, mediante pedido dos Bispos da Província Meridional do Brasil.
Contudo, tal disposição só poderia ser exercida pelo Cabido da Basílica
Vaticana, sendo que, devido a sua ausência, foi nomeado, através da ação do
cardeal italiano Marianno Rampolla, o Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Joaquim
Arcoverde, como o delegado que procederia a coroação. Este, por sua vez,
subdelegou ao Bispo de São Paulo, Dom José de Camargo Barros (1858-1906), a
tarefa de colocar sobre a imagem uma coroa de ouro, ricamente adornada de
diamantes, doada pela Princesa Isabel quando de sua visita ao Santuário em 8 de
dezembro de 1868. Segundo a justificativa presente no livro publicado pelo, na
época, Monsenhor José Marcondes Homem de Melo (1860-1937), responsável por
documentar todos os eventos em torno da Coroação da Imagem no livro Coroação
de Nossa Senhora Apparecida a 8 de setembro de 1904,
a
Coroação de Nossa Senhora Apparecida significa que a Santa Igreja approva
solemnemente o culto de veneração, de piedade e de confiança que os fieis de
longa data tributam á Imagem de Nossa Senhora Apparecida, e symbolisa essa sua
approvação coroando com uma imagem de ouro tão sagrada e veneranda Imagem.
A Coroação é portanto uma ceremonia symbolica e deve por isso ter a sua razão
natural, e é o que entramos a dar. (...) D’esta maneira a santa Igreja se
rejuvenece com estes banhos do passado, a fé se inflamma com estas illuminações,
e o povo fica comprehendendo que na santa Igreja tudo é grande; que as suas
ceremonias têm a sancção da palavra divina, a sancção dos seculos, a sancção da
arte e a sancção da fé das multidões.
(HOMEM DE MELO, 1905: VI-VII)
Vale a pena ressaltar que a cerimônia de coroação foi marcada a fim de
coincidir com a Conferência dos Bispos que acontecia em Aparecida, sendo que, no
dia da Coroação, grande parte dos bispos e do clero brasileiro estava reunida e
participou da celebração cheia de pompas e de caráter Pontifical, com homilia
proferida no mais puro latim, juntamente com Dom Julio Tonti, Arcebispo de
Ancyra e Núncio Apostólico no Brasil. Com isso, como afirma Alves, “a Igreja
dava uma demonstração de capacidade de liderança e de organização” (ALVES, 2005:
52). Este desejo por um novo levante da alma católica vai ser demonstrado no
discurso final da Missa Pontifical, por Dom João Francisco Braga (1868-1937),
bispo de Petrópolis, que, na língua nacional, afirma que
RELIGIÃO E PATRIA; BRASIL E MARIA: são ideaes queridissimos do coração
brazileiro.
Quer-se-á uma prova?
Hontem, agitou-se ainda uma vez, a alma popular, ao recordar a data historica da
emnacipação política do Brasil.
INDEPENDENCIA OU MORTE, foi o primeiro grito de Pedro Primeiro, constituindo a
nação: SENHORA DA CONCEIÇÃO PADROEIRA DO BRASIL, foi o segundo grito,
contemporâneo, do monarcha Fundador.
(...) Hontem, celebrávamos a fundação da nação Brasileira; hoje, e aqui,
celebramos a Padroeira desta grande nação, sob um de seus titulos mimosos:
VIRGEM APPARECIDA. E eis porque eu ouço a voz profunda e melodiosa de uma nação
inteira, de uma grande nação, a voz do BRAZIL querido.
(BRAGA, D. João Francisco apud HOMEM DE MELO, 1905: 44)
Assim, a Igreja, ao apresentar Nossa Senhora como Rainha, relembrando uma
expressão da monarquia recém extirpada, por meio da coroação solene e grandiosa,
parece buscar evidenciar sua força e tornar a demonstrar e recolocar sua
presença na vida do país frente às limitações impostas pelo novo regime, pois,
ao mesmo tempo em que não rejeita a figura do rei e não anuncia sua aliança com
a República, torna evidente a disputa. Como coloca Carvalho, a data e o título
devem ser levados em consideração: “um dia após a comemoração da independência,
uma designação monárquica. Não havia como ocultar a competição entre a Igreja e
o novo regime pela representação da nação” (CARVALHO, 1990: 93-94).
A Igreja, ao concorrer com o Estado a representação da nação, disputa
também com este o apoio e a simpatia do povo[12]
(base no viés de renovação europeu que visa o reconhecimento do povo e do Estado
e em ser essencial sua presença na sociedade brasileira), sujeito que legitima e
fortalece o poder, seja temporal ou espiritual, de certa forma não para
ajudá-lo, mas para usar a sua força. Assim, com a coroação oficial da Imagem de
Nossa Senhora Aparecida, agora símbolo sagrado sustentado por um sentimento
nacional-patriótico, o projeto católico de não perder espaço frente a um Estado
laico começou a tomar novo fôlego. Porém, a ação maior da Igreja aconteceria a
partir da década de 1930, quando ela, ocupando um determinado “vazio” que a
Revolução de 1930 havia deixado, conseguiria do papa Pio XI, no mesmo ano,
acionado pelo episcopado brasileiro, a proclamação de Nossa Senhora Aparecida
como Padroeira do Brasil[13].
A escolha da Imagem não foi ao acaso, já que a devoção crescia por meio mais de
uma dinâmica que o povo inseria sobre ela do que de uma postura da Igreja após
sua aprovação como devoção oficial.
O Estado Varguista, eleito como “conciliador” após a revolução, por sua vez,
buscando também o apoio das massas, acabou por se aproveitar de tal situação, já
que isso poderia auxiliá-lo no intento de construção de um sentimento nacional
com interesses coletivos. Inicialmente, seguindo a mesma linha de atuação, o
Estado havia, com a criação do Ministério do Trabalho, tentado “ganhar para si o
concurso e o apoio da classe operária, neutralizando, porém, uma política
autônoma da classe e submetendo-a duramente a partir de 1935” (BEOZZO, 1989:
293). Dessa forma, delineava-se um panorama de confluência de interesses, em que
tanto Igreja quanto Estado buscavam, entre si, fatores que alicerçassem suas
estruturas[14],
o que pode ser facilmente identificado com o episódio da declaração de Nossa
Senhora Aparecida como Rainha e Padroeira do Brasil em 1930 (oficializada no
Brasil em 1931 sob grande presença popular).
Sob ação do clero brasileiro, coube ao papa Pio XI, em 1930, proclamar Nossa
Senhora da Conceição Aparecida como Padroeira do Brasil. Uma grande preparação
foi executada para a data da cerimônia, cujo intuito era, mais uma vez, reforçar
o poder da Igreja e o desejo por uma aproximação aos anseios e sentimentos do
povo. Para tanto, a Imagem foi transladada para a Capital Federal, partindo de
trem em uma espécie de vagão-capela na noite do dia 30 para 31 de maio de 1931,
acompanhada pelo Arcebispo Dom Duarte Leopoldo e Silva, o Cabido de São Paulo e
vários padres redentoristas. Contudo, a grande ação veio por parte do Cardeal
Leme, cuja ideia era
fazer a proclamação de Nossa Sra. Apparecida como Padroeira do Brasil inteiro na
Capital Federal do modo mais solemne para o povo todo ficar mais compenetrado do
Padroado de N. Sra. Apparecida. Para esse fim quer ordenar no Rio uma quinzena
de festas em louvor de N. Sra. Apparecida, sendo 8 dias de festas parochiais e 8
dias de festas diocesanas
(CÚRIA METROPOLITANA DE APARECIDA. Livro do Tombo nº 3 da Paróquia de Nossa
Senhora Aparecida 1914-1933. fls 139v e 140. Sessão 5. Parte 8. Grupo 3).
Ao chegar ao Rio de Janeiro, a imagem foi levada para uma missa campal realizada
na porta da igreja de São Francisco de Paula, contando com grande apoio e
manifestações populares, além da presença de autoridades civis e militares, do
Corpo Diplomático e do presidente Getúlio Vargas. Após a missa, foi realiza uma
procissão,
que foi sem exagero a maior manifestação de fé desde o descobrimento não só do
Brasil, mas da América do Sul, é impossível. 23 bispos e arcebispos e 2 abades
andaram na procissão; 11 arcebispos e 26 bispos fizeram-se apresentar. E tudo
correu sem o mínimo incidente; o que se viu em todos os semblantes foi alegria,
devoção e compenetração do acto único na história do Brasil. É absolutamente
certo de que o dia 31 de maio será um dos dias mais memoráveis na História
Ecclesiástica da Terra de Sta. Cruz.
(CÚRIA METROPOLITANA DE APARECIDA. Livro do Tombo nº 3 da Paróquia de Nossa
Senhora Aparecida 1914-1933. fls 140v e 141v. Sessão 5. Parte 8. Grupo 3).
Como afirmou Alves,
nesta ação, é possível notar o empenho da Igreja em edificar a ‘aliança’ com o
Estado [personificado pela presença de Getúlio Vargas], deixando transparecer
esse desejo, nas representações das festividades e na certeza de ter Nossa
Senhora Aparecida como padroeira oficial do Brasil, com o respaldo estatal e
eclesiástico.
(ALVES, 2005: 83)
A partir disso, neste jogo de interesses em que Igreja e Estado apropriaram-se
da pequena imagem de terracota da Santa, a cidade de Aparecida e o Brasil
tornaram-se uma só coisa: por meio do sentimento patriótico e religioso, a nação
passou a ser representada através de um símbolo católico constituído, Nossa
Senhora da Conceição Aparecida, grande mãe da nação em estado de caos.

Missa campal no Rio
de Janeiro, capital do país, na ocasião da proclamação de Nossa Senhora
Aparecida como Rainha e Padroeira do Brasil através de decreto do Papa Pio XI.
Foto: CDM – Centro de Documentação e Memória/Santuário Nacional. Disponível em:
Revista de Aparecida, ano 9, n°100, julho de 2010. p 21.
Assim, a Igreja, encabeçada pela força do Cardeal Leme, “emprestaria” parte de
sua força já estruturada (configurada pela ação das massas desde 1904) para o
Estado, quando soube que poderia usufruir da situação que a sua volta à política
possibilitaria. Segundo Alves, a ação de 1931 teria surgido, portanto,
com a crise do liberalismo e o movimento da nova cristandade, foi uma nova
perspectiva, uma reação contra a concepção de Igreja por demais extrínseca,
jurídica e apologética, em favor de uma imagem eclesiástica que recupera as
dimensões sobrenaturais e místicas, desenvolvendo a inovadora eclesiologia do
Corpo Místico, a qual se expressa não só no campo teológico, como também na
renovação litúrgica e na pastoral da Igreja.
(ALVES, 2005: 69)
Esta noção está presente na obra de Alcir Lenharo, Sacralização da Política
(1986). Segundo o autor, o governo foi capaz de se apropriar de símbolos,
figuras, entre outros elementos pertencentes ao universo teológico,
secularizando-os e os transformando em matéria de domínio público. A própria
ideia do corpo, de “povo uno”, a partir de um viés paulino, que se reconhecesse
identitariamente, seria muito utilizada no período por atender as especificações
do Estado como instituição maior da nação que mediava, regulava, direcionava e
proporcionava o encontro da lei com a justiça dentro do quadro da “nova
democracia” proposta por Vargas[15].
A aproximação e apoio com a proclamação como Padroeira do Brasil seria aceita
pelo governo, que reconheceria o forte apelo popular da pequena imagem, cheia de
fortes signos sociais: virgem, negra e pobre, fator que “ficava ainda mais
acentuado pela ‘condição social’ da imagem popular na sua expressão, mas não
identificada com traços de uma classe social apenas” (LENHARO, 1986: 173).
Assim, as camadas clericais e do Estado buscaram as melhores relações,
principalmente nas figuras do Cardeal Sebastião Leme e Getúlio Vargas, durante
toda a era Vargas. Tais alianças tiveram seus resultados, como a incorporação de
medidas favoráveis à Igreja na Constituição de 1934 (ALVES, 2005: 81).
A própria recepção da imagem pelo presidente Vargas no Rio de Janeiro, então
capital do país, no final do mês de maio de 1931, revelava esta atitude frente à
Igreja, quando, ao recebê-la, ele a beija solenemente, demonstrando sua adesão
ao projeto nacionalista que a Igreja, ao unir o povo e a religião à Pátria num
só sentimento de devoção, fé, amor e força, desde os anos de 1910, já vinha
articulando. Neste ato de proclamação, o governo via uma forma de conter
movimentos e assegurar o não avanço de outros como do comunismo. De fato,
a história de toda uma década em que o Estado brasileiro se centralizou e
modernizou e em que a Igreja buscou paralelamente criar estruturas nacionais,
abrangendo o conjunto do país, inaugura-se com a unificação espiritual do povo
brasileiro debaixo de uma Padroeira nacional sob a invocação da Virgem de
Aparecida
(BEOZZO, 1986: 296).
Vale também notar que o apelo entre Igreja e Estado ainda seria observado neste
mesmo ano de 1931, quando, em 12 de outubro[16],
inaugurou-se, também no Rio de Janeiro, a estátua do Cristo Redentor, no alto do
Corcovado. Tal solenidade contaria com a presença do presidente Getúlio Vargas,
ministros, autoridades civis e militares, representantes do Papa e o Cardeal Dom
Leme que, anteriormente havia consagrado a Nação à proteção da Virgem da
Conceição Aparecida (certo padroado às avessas), volta agora a refazer os votos
ao Coração Sacratíssimo de Jesus, reconhecendo-o “para sempre como seu Rei e
Senhor”.
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Segunda Página
[1]
Aluno do curso de graduação em História do IFCH/UNICAMP e bolsista de
Iniciação Científica (PIBIC-CNPq), sob orientação da Profa. Dra. Eliane
Moura da Silva (IFCH-UNICAMP). E-mail de contato:
jpberto@hotmail.com.
[2]Este artigo é uma versão aprofundada do trabalho de
conclusão da disciplina História do Brasil IV, ministrada pelo Prof. Dr.
Fernando Teixeira da Silva no 2º Semestre de 2009, no Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP. É embasado nas pesquisas que
realizo em meu projeto de iniciação científica sobre o Santuário
Nacional de Nossa Senhora Aparecida, sob a supervisão da Profa.
Dra. Eliane Moura da Silva (Departamento de História -
IFCH/UNICAMP): “Sob o Símbolo da Jerusalém Celeste: Cláudio
Pastro e o Santuário de Nossa Senhora da Conceição Aparecida
(1997-2009)”, PIBIC/CNPq. Agradeço também a toda ajuda, ideias e
dedicação de Ana Cláudia Cermaria Soares da Silva na montagem e correção
deste texto.
[3]
O texto não busca compreender quais foram as respostas das camadas
populares frente aos atos institucionais, tanto da Igreja quanto do
Estado, e se o desejo de uma identidade religiosa em torno de Aparecida
teve o êxito esperado. Busca-se, apenas, compreender quais foram os
mecanismos utilizados neste processo em concomitância com o contexto
brasileiro e quais desejos estavam por trás disso. Assim, não se
analisarão os setores populares e suas relações atores/sujeitos com a
política de Getúlio Vargas, já que isto demandaria outras fontes de
pesquisa. Para esta análise, entre várias levantadas, Rubem César
Fernandes afirma que, por exemplo, mesmo com os processos de instituição
de parâmetros e títulos, “Aparecida é efetivamente reconhecida como
devoção principal apenas no Centro-Sul do país. Desde o princípio, no
século XVIII, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais (um triângulo
aliás importante também para a política nacional) foram o círculo básico
da influência de Aparecida. Devotos baianos voltam-se em primeiro lugar
para Bom Jesus da Lapa, N. Sra. Da Conceição da Praia ou o Senhor do
Bonfim. A imagem controvertida do Padre Cícero ainda domina no nordeste.
N. Sra. de Nazaré, em Belém do Pará, centraliza as atenções do Norte”.
Segundo suas análises o país seria frágil devocionalmente no centro no
que diz respeito a uma geografia religiosa, o que acarretaria diversos
problemas em afirmar uma identidade nacional de Aparecida entre o povo
brasileiro como um todo. Ver FERNANDES, Rubem César. Aparecida: nossa
rainha, senhora e mãe, saravá! In: SACHS, Viola (et al). Brasil & EUA:
religião e identidade nacional. Rio de Janeiro: Graal, 1988. pp.
87-88.
[4]
A Igreja já havia percebido a necessidade de concessões de direitos a
certos reinos, pois estes poderiam beneficiá-la a partir de um processo
de salvação da Cristandade, ato que seria alavancado a partir do
Concílio Tridentino. No caso de Portugal, a primeira bula concedida
neste aspecto, “Romanus Pontifex”, de 1455, foi emitida por Nicolau V a
Afonso V como recompensa pela derrota dos mouros, por descobrir novas
terras e trazer novas almas para a Igreja. Para mais, ver LIMA, Luiz
Gonzaga de Souza. Evolução Política dos Católicos e da Igreja no
Brasil: hipóteses para uma interpretação. Petrópolis: Editora Vozes,
1979.
[5]
Diario da Jornada que fes o Exmº. Senhor Dom Pedro desde o Rio de
Janeiro athé a cide de São Paulo, e desta athe as Minas anno
de 1717. Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(SPHAN), 1939, nº 3, pp 295-316. O documento, contudo, mesmo sendo de
importância para a compreensão do panorama do Brasil do início do século
XVIII, não faz nenhuma referência, apesar da minúcia do padre jesuíta
que acompanhava a viagem e fazia os relatos, à pesca da imagem ou de
qualquer outro detalhe que faça alusão a ela.
[6]
Segundo pesquisas de Júlio J. Brustoloni, a figura dos pescadores pode
ser de fato constatada por meio de documentos de batismo e casamento das
personagens disponíveis nos arquivos da paróquia de Guaratinguetá. Para
mais, BRUSTOLONI, Júlio J. História de Nossa Senhora da Conceição:
a imagem, o santuário e as romairas. 10ª edição. Aparecida: Editora
Santuário: 1998.
[7]
Segundo Mirian Moura Lott, com o objetivo de tentar adequar as normas e
advertências do Concílio de Trento (1545-1563) às realidades
brasileiras, as Constituições apresentam-se formadas por cinco livros
que pretendem contemplar tanto as questões dogmáticas (da fé), como as
atitudes frente às “coisas sagradas”, o comportamento dos fiéis no
cotidiano, o procedimento desejável do clero e por último institui as
sanções determinadas pelo descumprimento das orientações dadas. Para
mais, ver LOTT, Miriam Moura. “Constituições Primeiras do Arcebispado da
Bahia”. Texto apresentado no VII Simpósio da Associação Brasileira de
História das Religiões, realizado na Universidade Católica de Minas
Gerais. Belo Horizonte – MG. 2005.
[8]
Até cerca de 1930, o povo conhecia o Santuário e a cidade que se
desenvolveu ao seu redor apenas como ‘Capela da Aparecida’ ou como
‘Aparecida’. Para mais, ver BRUSTOLONI. Op cit.
[9]
Entenda-se por Ultramontano aquele que segue a orientação de Roma, do
papa; Roma está no ultramontes, além dos montes, nos
Alpes. Esse movimento que configurou-se em meados do século XIX, nasceu
de raízes conservadoras, sob o impacto das revoluções liberais européias
e o desenvolvimento filosófico e científico que agitaram Roma e o trono
pontifício. Esse catolicismo foi marcado pelo centralismo institucional
e por um fechamento da Igreja sobre si mesma, recusando o contato com o
mundo moderno. Para mais, ver CRUZ, André. “O Pensamento Católico à
Procura de Lugar na Primeira República Brasileira” (disponível em
http://www.abhr.org.br/wp-content/uploads/2008/12/cruz-andre-gp01.pdf,
acesso em 05/11/2009.
[10]
De fato, este processo de separação entre Igreja e Estado possibilitaria
um grande avanço da Igreja em diversos setores que antes cabiam somente
ao poder temporal. Em Aparecida isto incidiria diretamente na
Administração da então capela (sob jurisdição da Paróquia de
Guaratinguetá) na criação, em 17 de janeiro de 1890, pelas mãos de Dom
Lino Deodato Rodrigues de Carvalho, bispo de São Paulo, de uma junta
administrativa independente da Matriz de Guaratinguetá, composta de três
membros, cuja função era administrar os bens e rendas eclesiásticas da
Capela. Esta provisão, dando maior liberdade ao pequeno Santuário, que
passaria a atuar também na vida civil de Aparecida (construção de
calçadas, casa dos romeiros, cemitério, abertura e iluminação de ruas),
auxiliaria no desejo da criação, por parte da diocese de São Paulo, de
uma Escola Apostólica em Aparecida, o que daria maior autonomia para a
capela que receberia o título de “Episcopal Santuário” em 28 de novembro
de 1893, desligando-se, assim, da jurisdição paroquial de Guaratinguetá
a partir da criação do curato de Aparecida. (CÚRIA METROPOLITANA DE
APARECIDA. Documentos e Crônicas da Capela de N. S. A. – vol. II –
compilação realizada pelo Pe. Julio Brustoloni).
[11]
A Congregação do Santíssimo Redentor foi fundada na Itália em 9 de
novembro de 1732 por Santo Afonso Maria de Ligório em Amalfi, Itália,
com o objetivo de trabalhar entre os negligenciados e nas redondezas de
Nápoles. A vinda deste grupo para o Brasil, distribuídos em outras
regiões como em Goiás e em Mariana, serviu para dar base a implantação
da reforma católica iniciada durante o período imperial pelo movimento
dos bispos reformadores, contando com a participação de diversos outros
grupos de religioso. Um ponto importante nesta congregação é a ênfase no
trabalho de catequese popular através da pregação das sagradas missões,
além de serem os primeiros religiosos a assumir a direção dos santuários
de devoção popular, iniciativa cara ao episcopado brasileiro que via
nestes lugares um grande apelo aos sentimentos e devoções do povo desde
a separação com o Estado em 1890. Para mais, ver BRUSTOLONI, Júlio J.
op cit. e WUEST, Joseph. "Redemptorists." The Catholic Encyclopedia.
New York: Robert Appleton Company,. Acesso em 14 de dezembro de 2009, em
http://www.newadvent.org/cathen/12683a.htm.
[12]
Ainda segundo o discurso de Dom João Braga, transcrito por Homem de
Melo, entre todas as vozes que ouvia clamando pela força que só proviria
da Igreja, a do povo era uma “voz profunda e melodiosa... É a voz de um
Povo, de um povo immenso, cujos dominios se extendem do Amazonas ao
Prata, do Oceano aos Andes. É o BRAZIL! Ei-lo neste momento
solemnissimo, aqui prostrado em espírito e representado por muitos de
seus pastores Supremos e por esta muldidão, respeitável, tocante e
eloquentissima, advinda do sympathico torrão Paulista, honra e orgulho
de nossa Pátria” (BRAGA, Dom João apud HOMEM DE MELO, 1905:
43-44).
[13]
O fim da monarquia não alterou o santo padroeiro do Brasil, escolhido e
nomeado pela família imperial, São Pedro de Alcântara, “por força do
nome do primeiro e do segundo imperador do Brasil, ambos com o nome de
Pedro. Impunha-se à nação o santo protetor da casa reinante, de escassa
penetração popular” (BEOZZO, 1986: 294). Porém, principalmente com o
novo contexto que é reforçado com a Revolução de 1930, este cedeu espaço
para as devoções que realmente estavam dentro das invocações conhecidas
do povo brasileiro, tornando-se padroeiro secundário.
[14]
Para mais informações sobre a relação Igreja e Estado no início do
século XX, ver ALVES, Andréa Maria Flanklin de Queiroz. Pintando uma
Imagem Nossa Senhora Aparecida – 1931: Igreja e Estado na construção
de um símbolo nacional. Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.
Dourados: 2005.
[15]
Segundo análise das proposições de Vargas, o plano de ação sugerido por
uma democracia liberal nos governos anteriores acabou por destruir a
identidade do corpo político da Nação, sendo necessário reencontrar uma
noção perdida de um “povo uno”. No Brasil, isto poderia acontecer
mediante o corporativismo, já que, assim como o cristianismo se
utilizava do “corpo de Cristo” em sua liturgia, há uma sacralização do
“corpo que trabalha” no entendimento de Lenharo. Este corpo, que é a
Nação completa, corresponde a uma metáfora orgânica em que a cabeça é o
Estado, ou seja, o próprio Vargas que tudo gere e coordena, e, os
membros, os trabalhadores, partes que só funcionam corretamente quando
estão juntas e em harmonia com o que dita a cabeça (ideia utópica da
possibilidade do exercício da plena participação política). Para mais,
ver LENHARO, Alcir. Sacralização da Política. 2ª edição.
Campinas, SP: Papirus, 1986.
[16]
Em 1980, por resolução da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e
com o aval do governo federal, o dia litúrgico da Padroeira do Brasil
foi alterado para esta data. Como afirma Fernandes, isto a afastava da
festa da Independência e a colocava mais próxima da festa da
“descoberta” das Américas. Para mais, ver FERNANDES, Rubem César.
Aparecida: nossa rainha, senhora e mãe, saravá! op cit.