ISSN 1807-1783                atualizado em 05 de outubro de 2010   


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História e Sujeitos: Percursos Metodológicos no Fazer Biográfico

por Rômulo José Francisco de Oliveira Júnior

Sobre o autor[1]

Na década de 1970 Jacques Le Goff e outros historiadores popularizaram a expressão “Nova História” através do livro La Nouvelle Histoire[2], para se referir as várias perspectivas da escrita da História[3]. Muitas possibilidades de pesquisa e de construir trajetórias ganharam espaço entre os historiadores. Deste modo, o fazer biográfico também encarou mudanças significativas e sofreu grandes críticas. Passou-se a desacreditar na construção da trajetória do sujeito como a única possibilidade de entender o caminho por ele traçado e na certeza de uma narrativa total sobre o sujeito. Segundo a historiadora Vavy Pacheco o percurso da biografia no mundo ocidental não é algo novo:

Ao longo de mais ou menos dois milênios, autores acharam que contar a história de vida de alguém era algo distinto de uma “História”(que narra fatos coletivos e contava a verdade): as histórias “das vidas”(termo usado então pelos autores) serviam, desde o mundo greco-romano, para dar exemplos morais, negativos ou positivos – muitas vezes constituindo os panegíricos. Essa chamada biografia clássica punha um acento muito maior no caráter político, moral ou religioso do biografado do que em sua pessoa, em sua singularidade. No mundo medieval, a idéia dos exempla prolongou-se, configurando-se nas hagiografias e crônicas[4].

Ainda para Vavy Pacheco, a obra Life of Samuel Johnson LL.D, escrita por James Boswell, em 1971 é tida como o marco inicial dos trabalhos que hoje se preocupam em demonstrar um método investigativo da vida de sujeitos de destaque ou não para determinada sociedade, além de evitar o panegírico, e usando documentos, entrevistas e as escritas de si. Esta autora advoga que a maneira mais completa de biografar alguém é por meio da escrita de si, da não “psicologização” dos sujeitos e por meio do cruzamento de fontes entre informações dos familiares e documentos materiais: fotos, jornais, vídeos, literatura, objetos pessoais[5].

O historiador François Dosse sugere três fases para elaborar um percurso de vida: a primeira que denomina: “Idade heróica”, pois são biografias que sugerem modelos e valores para outras gerações; a segunda chamada “biografia modal”, na qual o sujeito apresenta importância diante do contexto social; e uma última fase que acredita ser a atualmente usada, em que o biógrafo se permite experimentar, ensaiar e construir através das fontes e da influência de outras disciplinas a vida dos indivíduos[6].

O sociólogo Pierre Bourdier apontou que a construção de narrativas de vida, é algo preso a uma ilusão biográfica, em que existe a tradição da cronologia dos homens, datada do nascimento até a morte, levando em consideração a função global dos acontecimentos, elencados como causa e conseqüência na vida de cada um. Bourdier sugere que para sair da tradição biográfica é indispensável reconstituir o contexto, a superfície social em que agiu o indivíduo, respeitando a variedade de campos e momentos da vida, estando atento às nominações dadas pelos documentos: registros civis, religiosos, presidiários, judiciais, entre outros e às redes de sociabilidade em que o indivíduo biografado esteve inserido[7].

O historiador Giovanni Levi também apontou caminhos para o fazer biográfico em seu artigo Usos da biografia[8]. Para ele existem algumas tipologias nessa produção. A primeira é a biografia modal, aquela que desperta o “interesse quando ilustra os comportamentos ou aparências ligadas às condições sociais estatisticamente mais freqüentes[9]”, é possível ver o singular e o comum em determinado grupo. É o que alguns historiadores chamam de prosopografia[10]. A segunda tipologia se refere a biografia e contexto, em que a época e o ambiente são bastante valorizados como fatores capazes de caracterizar a atmosfera que explicaria a singularidade do sujeito. Aqui, o contexto explicaria o que parece ser inexplicável. A terceira proposição de Levi alerta para a biografia e os casos extremos, na qual a vida do sujeito auxilia a compreender o contexto social de determinada área e época. O autor cita como exemplo o moleiro Menocchio, principal sujeito do livro de Carlo Ginzburg: O queijo e os vermes[11]. A última proposição tipológica apresentada pelo autor é a biografia e hermenêutica, cuja ação consiste na interpretação dos diálogos, descrições e processo de comunicação entre sujeitos e entre culturas.

Sérgio Vilas Boas advoga que para elaborar trabalhos biográficos é preciso refletir sobre elementos inerentes a esta escrita. São eles: A descendência, cuja origem do indivíduo está construída pela suas influências familiares. O autor critica a idéia de muitos biógrafos que retratam as pessoas como necessariamente retrato do gene deixado pela família. É preciso evitar a edipização dos sujeitos; O fatalismo, cuja crítica se concentra nas biografias em que o sujeito está predestinado a ser herói e famoso, aquele que desde o berço foi alguém que o destino colocaria no rumo da visibilidade social. Para Boas, a noção de extraordinariedade, também está presente nas escritas biográficas, ele não concebe que pessoas sejam extraordinárias por essência, mas que as escolhas, as realizações, os acontecimentos, a mentalidade cultural e regional e as condições socioeconômicas foram de sobremodo, influência em tornar a pessoa extraordinária. Por último o pesquisador dos biografismos lembra que três elementos precisam ficar nítidos no trabalho do biógrafo: a noção de verdade, a transparência e o tempo. O primeiro sendo indicado como a certeza de que não retratará a verdade única sobre alguém, o segundo alertando os escritores para a necessidade de informar quais as fontes foram consultadas no trabalho e o terceiro para a possibilidade de quebrar a cronologia: nascer-viver-morrer. A análise que Sérgio Vilas Boas realizou sobre o processo de produção das biografias quase não é citado nas pesquisas realizadas pelos historiadores que adentraram no campo da escrita de vida.

A importância das análises do si e do outro devem ser realizadas não apenas nas concepções heróicas, narcisistas e psicológicas, mas devemos levar em consideração os tempos do ser que estará sendo biografado.

Fonte: Narciso. Ver. http://deltacat.blogs.sapo.pt/arquivo/981081.html em 12/09/10.

Sobre a perspectiva do tempo nas biografias, a historiadora Ângela de Castro Gomes defende que “o mesmo período da vida de uma pessoa pode ser “decomposto” em tempos com ritmos diversos: um tempo da casa, um tempo do trabalho, etc.[12] Ainda sobre a idéia de tempo, Jacques Le Goff ao biografar a vida de São Luis defende que é possível em certos limites ordenar o tempo e apresentar a idéia de “tempo plural”, em que o tempo de vida de determinado sujeito não é o mesmo de sua permanência na memória de determinada sociedade[13]. Por isso realizar uma biografia, seja de homens de destaque social ou de sujeitos comuns é preciso estar alerta para a fragmentação que o tempo pode sofrer conforme as fontes e conforme a fixação de sua imagem na sociedade, principalmente quando tal indivíduo é mitificado.

O relatar despretensioso, a informação exata, a não referência das fontes consultadas e o não apontar de possibilidades ou ao menos a reconstrução de contextos fica a margem do trabalho de muitos profissionais. O fazer biográfico é o ensaio de possibilidades que a análise documental proporciona, é construir uma metabiografia, pois as escolhas do biógrafo estão para além da vida do sujeito biografado. A seleção das fontes, as interpretações e produção do texto é um trabalho metabiográfico[14].

O exercício biográfico não abarca a totalidade do sujeito biografado, isso seria impossível de fazer, pois, assim como a escrita da história é uma resposta provisória sobre o passado, a escrita biográfica também é. Ambas carregaram suas verdades, impressões, amores, escolhas, angústias, conquistas e desafetos. Nunca poderemos conhecer um sujeito de forma completa e verdadeira. Segundo Viana Filho:

O biógrafo jamais conseguirá sair do seu trabalho com a satisfação dum matemático, que acaba de resolver uma equação e está seguro da exatidão dos resultados. Para ele, restará sempre margem de erro e de dúvida, conseqüência da nossa capacidade de discernir e destrinchar o que há de complexo em qualquer existência. (...) no estágio atual do conhecimento humano, poucas coisas poderiam ser tão jactanciosas, e por isso mesmo ridículas, quanto um biógrafo pretender haver escrito a “vida verdadeira” de alguém. Evidentemente, poderá fazê-lo, mas jamais poderá ter a certeza plena de o haver conseguido. Afirmar, portanto, que alcançará aquela meta seria apenas impostura[15].

Algumas questões me inquietam para realizar estes trabalhos biográficos. Como saber sobre um sujeito? Robert Darnton responderia que: “Só Deus sabe! O historiador sabe, mas imperfeitamente, por meio de documentos obscuros, e com a ajuda da insolência, brincando de ser Deus[16]”. Por que biografar alguém é importante? O que ele/ela tem de interessante a ponto de ser escrito um trabalho? É preciso defender a biografia para ampliar os estudos sobre a presença dos sujeitos na história e sair do jogo duplo de ora é bom ora é mau. Mas, acima de tudo, realizar o exercício da biografia é importante para perceber a trajetória de homens e mulheres do ponto de vista de serem sujeitos de natureza política, de visualizar o lado humanístico, de buscar perceber como os documentos os representaram ou como eles se permitiram se construir em textos escritos por outros ou por si mesmos.

É preciso criar uma narrativa elencando os episódios mais e menos conhecidos e quando as histórias forem relatadas em dois ou mais documentos devemos analisar as representações dos sujeitos. Assim, a narrativa é composta de tempos diversos, avançando em diferentes velocidades, apontando as representações partindo do tempo de cada pessoa que versou sobre os sujeitos biografados, procuremos unir o passado, o presente e o futuro, (re)direcionado nosso olhar. Pois, como bem advoga Roger Chartier o objeto central da História Cultural é perceber como determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler de formas diferentes[17]. Para este historiador francês, representar é uma prática, é a ação de apresentar algo ou alguém, levando em consideração que “as representações do mundo social são sempre determinadas pelos interesses dos grupos que as forjam[18]”, sejam elas de classes dominantes ou dominadas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BOAS, Sérgio Vilas. Biografismo: reflexões sobre as escritas da vida. São Paulo: UNESP, 2006.

BORGES, Vavy Pacheco. Grandezas e misérias da biografia. In: PINSKY, Carla B. (org.) Fontes históricas. São Paulo: Contexto. 2008. p.205.

BOURDIER, Pierre. A ilusão biográfica. In: FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína. (orgs.). Usos e abusos da História Oral. Rio de Janeiro: FGV, 2002. p.183-191.

BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989): a revolução francesa da historiografia. São Paulo: UNESP. 1997.

CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 2002.

DARNTON, Robert. Os esqueletos no armário; como os historiadores brincam de ser Deus. In: Os dentes falsos de George Washington: um guia não convencional para ao século XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 2000.

DOSSE, François. Le pari biographie: écrive une vie, Paris: La Découverte, 2005.

GINZBURG, Carlo. O Queijo e os Vermes. O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. 12ª ed. São Paulo: Companhia da Letras, 1987.

GOMES, Ângela de Castro (org). Escrita de si, escrita da história. Rio de Janeiro: FGV, 2004. p. 13.

LE GOFF, Jacques. La Nouvelle Historie. Paris: Retz, 1978.

LE GOFF, Jacques. São Luis: Biografia. Rio de Janeiro: Record, 2002.

LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre (Orgs.). História: novos problemas. Rio de Janeiro: Ed. F. Alves. 1976.

LEVI, Giovanni. Usos da biografia. In: FERREIRA, Marieta de Moraes & AMADO, Janaína. Usos e abusos da história Oral. Rio de Janeiro: FGV, 2002. p.167-182.

OLIVEIRA JÚNIOR, Rômulo José F. de. Antonio Silvino: “de governador dos sertões a governador da Detenção” (1875-1944). Dissertação de mestrado. Recife: UFRPE, 2010.

REIS, José Carlos. Escola dos Annales: a inovação em história. Rio de Janeiro: Paz e terra, 2000.

REVEL, Jacques (Org.) Jogos de Escala: a experiência da microanálise. 1ª edição. Rio de Janeiro: FGV, 1998.

VIANA FILHO, Luiz. A verdade na biografia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1945.


[1] Mestre em História pela UFRPE. Professor da Faculdade Líder (FAL-PE). Este artigo é parte integrante de minha dissertação de mestrado intitulada: Antonio Silvino: “de governador dos sertões a governador da Detenção” (1875-1944). Recife: UFRPE, 2010. e-mail: romulojunior7@hotmail.com

[2] Cf. LE GOFF, Jacques. La Nouvelle Historie. Paris: Retz, 1978.

[3] Sobre a fundação da Escola dos Annales e suas gerações ver: BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989): a revolução francesa da historiografia. São Paulo: UNESP. 1997. E REIS, José Carlos. Escola dos Annales: a inovação em história. Rio de Janeiro: Paz e terra, 2000.

[4] BORGES, Vavy Pacheco. Grandezas e misérias da biografia. In: PINSKY, Carla B. (org.) Fontes históricas. São Paulo: Contexto. 2008. p.205.

[5] Idem. p. 214.

[6] DOSSE, François. Le pari biographie: écrive une vie, Paris: La Découverte, 2005.

[7] Cf. BOURDIER, Pierre. A ilusão biográfica. In: FERREIRA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína. (orgs.). Usos e abusos da História Oral. Rio de Janeiro: FGV, 2002. p.183-191.

[8] LEVI, Giovanni. Usos da biografia. In: FERREIRA, Marieta de Moraes & AMADO, Janaína. Usos e abusos da história Oral. Rio de Janeiro: FGV, 2002. p.167-182. p.174.

[9] Idem. p.174. A respeito deste debate biográfico ver também: LORIGA, Sabina. A biografia como problema. In: REVEL, Jacques (Org.) Jogos de Escala: a experiência da microanálise. 1ª edição. Rio de Janeiro: FGV, 1998.

[10] Uma obra que trabalha nessa perspectiva de produção histórica é HEINZ, Flávio M.(org.) Por outra História das elites. Rio de Janeiro: FGV, 2006.

[11] Cf. GINZBURG, Carlo. O Queijo e os Vermes. O cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. 12ª ed. São Paulo: Companhia da Letras, 1987.

[12] GOMES, Ângela de Castro (org). Escrita de si, escrita da história. Rio de Janeiro: FGV, 2004. p. 13.

[13] Cf. LE GOFF, Jacques. São Luis: Biografia. Rio de Janeiro: Record, 2002.

[14] Sobre o conceito de metabiografia ver: BOAS, Sérgio Vilas. Biografismo: reflexões sobre as escritas da vida. São Paulo: UNESP, 2006.

[15] VIANA FILHO, Luiz. A verdade na biografia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1945. p. 53-54 e 57.

[16] DARNTON, Robert. Os esqueletos no armário; como os historiadores brincam de ser Deus. In: Os dentes falsos de George Washington: um guia não convencional para ao século XVIII. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 2000.

[17] CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Lisboa: Difel, 2002. p.17.

[18] Idem.