ISSN 1807-1783                atualizado em 02 de dezembro de 2010   


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Nina Rodrigues e as “coletividades anormais”: uma interpretação do movimento de Canudos

por Andressa Marzani

Sobre a autora[1]

Introdução

O presente trabalho tem por objetivo analisar as representações do movimento de Canudos presentes no artigo do médico Raimundo Nina Rodrigues intitulado “A loucura epidêmica de Canudos. Antônio Conselheiro e os jagunços”. Nina Rodrigues, maranhense radicado em Salvador que ocupou a cadeira de professor adjunto da Faculdade de Medicina da Bahia, relacionou-se aos acontecimentos do arraial santo por ter-lhe sido enviado, para exame, a cabeça do líder do movimento Antônio Conselheiro, após a exumação do cadáver. De seus estudos resulta o artigo em questão, publicado originalmente em 1897, logo após o término da guerra e a destruição do arraial.

A opção pela utilização do artigo como fonte histórica decorre da proximidade geográfica e temporal do produtor do texto em relação aos acontecimentos, por estar envolvido em fatos relacionados ao desfecho e posteriores repercussões do ocorrido. Do mesmo modo, sua escolha documental perpassa o enquadramento do produtor enquanto médico participante de uma instituição universitária, portanto relacionado aos discursos acadêmicos e científicos da época; e membro de determinada elite intelectual, detentora de certas visões sobre o movimento e seus participantes. Desta maneira, seu testemunho reflete a visão de determinada camada social, a saber, uma das camadas dominantes e formadoras de opinião, que repercutiu, por sua vez, muito do que foi dito e pensado sobre Canudos na época e posteriormente.

Portanto, este trabalho se focará principalmente no relato enquanto testemunho do final do conflito e de suas repercussões, tentando abarcar o período imediatamente posterior a 1897, em que a imprensa e a intelectualidade fervilhavam opiniões sobre o ocorrido. Não se pretende demonstrar a totalidade dos acontecimentos ou mesmo a totalidade de visões sobre os fatos; notáveis foram manifestações a posteriori que emprestaram ao conflito outra dimensão, tais como o repúdio ao massacre de sertanejos demonstrado tanto por Rui Barbosa como pela obra Os Sertões, de Euclides da Cunha. O objetivo do trabalho é demonstrar uma visão elitizada e de cunho cientificista sobre Canudos, que acabou alcançando grande aceitação, influenciando outras visões.

O médico e o artigo

Raimundo Nina Rodrigues nasceu em Vargem Grande, no Maranhão, em 04 de dezembro de 1862, local aonde iniciou seus estudos, concluídos em 1887 na capital do então Império. Mas foi no estado da Bahia que obteve êxito e reconhecimento por seus trabalhos. Em 1895 passou a ocupar a cátedra de Medicinal Legal na Faculdade de Medicina da Bahia. Não apenas como médico ficou conhecido, mas também por trabalhos desenvolvidos em áreas de estudo nascentes no Brasil, como a antropologia e os estudos etnográficos sobre os negros. Por mais que seu estudo esteja datado e superado em certos aspectos, foi primordial seu impulso dado às pesquisas nestas áreas, considerado como o pesquisador que elevou a Medicina Legal ao status de especialidade com rigor científico, além do pioneirismo em outras áreas[2].

Trabalhando nos estudos da cabeça de Antônio Vicente Mendes Maciel, ou Conselheiro, como era chamado o líder do movimento de Canudos, Nina Rodrigues publicou em 1º de novembro de 1897 o artigo “A loucura epidêmica de Canudos. Antônio Conselheiro e os jagunços”, na Revista Brasileira. Este e outros artigos foram compilados mais tarde no livro As coletividades anormais.

Já ao início do artigo, o médico dá seu veredicto acerca do líder canudense: “Antonio Conselheiro e seguramente um simples louco”[3]. Mas, segundo o estudo, sua loucura não seria de caráter único, individual: seria uma espécie de loucura acometida em multidões, devido a características socioeconômicas específicas de um determinado meio. Seguindo essa lógica, Nina Rodrigues aporta um estudo da vida pregressa do Conselheiro, a fim de demonstrar a evolução de sua “patologia” e sua relação com os aspectos sociológicos do meio de que provinha.

Inicialmente, segundo Nina Rodrigues, os problemas com os negócios e o casamento malsucedido o faziam ter acessos de loucura momentâneos e raros. O agravamento de seus problemas pessoais fez com que sua doença evoluísse para um “delírio de perseguição”, donde se encontraria o ato de peregrinar, fugindo de supostos inimigos, frutos de sua própria alucinação. A partir deste momento, seu quadro clínico só iria se agravar:

O batismo de Antonio Conselheiro, pelo qual o ministro ou enviado de Deus inicia a sua carreira de missionario e propagandista da fe, era o atrio apenas de onde a loucura religiosa o havia de elevar ao Bom Jesus Conselheiro, da fase megalomaniaca da sua psicose.[4]

Das tendências para a perturbação mental à mudança para um megalomaníaco contumaz, eis a transformação que sugere o médico maranhense em seu estudo sobre o líder canudense. A estas se sucedeu uma terceira fase de loucura, que o médico denominou “alienação religiosa”, acrescida dos já costumeiros “delírios de perseguição” anteriormente citados, entre eles o de perseguição aos maçons e à República. Essa progressão da doença culminaria no caráter posteriormente por todos conhecido do Conselheiro.

Para Nina Rodrigues o fato de reafirmar aspectos culturalmente válidos para o ambiente sertanejo – como a religiosidade e a não-aceitação de um Estado laico advindo da Proclamação da República – foi um dos fatores que levou multidões a seguir Antônio Maciel. Isto aliado às características peculiares da religiosidade do povo local – principalmente o mais humilde – que via no Conselheiro um “enviado de Deus”, o que, para o médico, não passa de uma faceta da patologia acima citada.

Conforme vai relatando a sucessão de fatos que culminaram com a Quarta Expedição a Canudos (iniciada por volta de abril de 1897), Nina Rodrigues demonstra crer que o local de formação do arraial foi escolhido propositalmente por Antônio Maciel, por ser de difícil acesso. Este, sentindo a aproximação do tempo em que teria de se submeter à lei, teria resolvido instalar-se em um local protegido pela acidentada geografia. Destarte, o médico reforça a ideia que apenas um “louco” não seria suficiente para resultar numa guerra em que sertanejos parcamente armados e preparados militarmente resistissem tanto. Ou seja, a loucura do Conselheiro “[...] achou combustível para atear o incêndio de uma verdadeira epidemia vesânica”[5], que teria se alastrado devido às características sociais do meio e da época.

Essa é a principal ideia defendida pelo autor no artigo: a de patologias de loucura coletiva. Para este, são necessários três fatores que a desencadeiem. O primeiro é um fator ativo (no caso estudado, a liderança de Antônio Conselheiro) que desencadeia a epidemia em um fator passivo (a multidão); um fator passivo que, embora aceite a loucura do fator ativo, reage a esta loucura, reafirmando-a e transformando-a. Em segundo lugar, um tempo e um espaço de convívio suficientes para fortalecer a patologia. E, por fim, o fato de que o contágio do delírio deve estar amparado em caracteres semelhantes à realidade, como ocorrências do passado ou temores do futuro. É curioso notar que, para Nina Rodrigues, no elemento passivo o contágio se faz de maneira superficial, bastando retirar do ambiente “contagioso” este elemento para sua “cura”.

Para o médico maranhense, a loucura do Conselheiro, espalhada na população, foi transformada e reconfigurada com base nas questões políticas e sociais do meio. Nestas questões estaria implicada a figura do “jagunço”, que o autor propõe ser o mestiço que habitava especificamente o sertão, fruto da fusão de raças “desiguais” (a raça branca, considerada “pura” ou “melhor”, em mistura com as raças indígena ou negra). O jagunço dos sertões teria então, para o médico, a degenerescência da mistura de raças como uma de suas características; porém, em contraposição com seu semelhante do litoral, traria mais forte a valentia e a virilidade, bem como o gosto pelo nomadismo e certo caráter indomável. Assim sendo, resistia mais bravamente que o litorâneo – para Rodrigues, mais fraco e degenerado – às intempéries da pobreza, e, ao mesmo tempo, de instinto guerreiro, seria mais difícil de domar. Essas configurações explicariam, portanto, a resistência dos sertanejos frente aos ataques militares.

Para Nina Rodrigues, não só suas características sociais, mas a própria configuração da religiosidade das populações do sertão contribuíram para a propagação da “loucura coletiva”. Como denota o médico, utilizando-se de outros de seus estudos, o fetichismo animista característico das religiões africanas e indígenas, repassado pelos caracteres de raça aos seus descendentes (os “jagunços”) e mesclados no contato com a religião cristã, encontraram vazão na figura de Antônio Conselheiro. Por não poderem essas populações mestiças assimilar de todo o catolicismo, e ainda conservando traços de suas religiões “primitivas”, a “loucura” oriunda de Antônio Conselheiro seria uma das formas encontradas para apaziguar o sentimento religioso que lhes é característico.

Por fim, vale ressaltar a avaliação de “monarquistas” que o médico dá aos “jagunços” estudados. Para o primeiro, estes seriam monarquistas não por envolvimento político, mas por terem participado somente de uma espécie de governo, a Monarquia, que lhes trouxe as bases de seu tradicionalismo religioso. Por excessiva religiosidade, a separação entre Igreja e Estado oriunda da República era considerada como “falsa”, “errada”. Nesse sentido, faltava-lhes o discernimento necessário para compreender os benefícios trazidos pelo novo regime.

Interpretações

A partir desses dados sobre o artigo, repensemos suas implicações. Ao declarar Antônio Conselheiro como “louco” ou “fanático religioso”, Nina Rodrigues refletia uma opinião provinda de várias vozes, desde antes do início dos conflitos. Tomando como exemplo o caso demonstrado pela Professora da USP Walnice Galvão, um jornalista de nome João Brígido, que convivera com Antônio Maciel na infância, publica em fevereiro de 1897 – antes, portanto, do texto do médico maranhense – um texto em que demonstra a opinião de que o casamento arruinado e a falência dos negócios tomaram o juízo de Antônio[6].

Por outro lado, Nina Rodrigues não apenas reflete uma tendência geral da época, ao estranhar indivíduos de conduta social ou religiosa diversa da estabelecida como “loucos” e “subversivos”, como reforça esta tendência, a partir do momento em que fala do ponto de vista de um médico, inserindo sua visão em uma análise acadêmica. Seu discurso, tido como científico e, portanto, amparado em bases de conhecimento reconhecidas e respeitáveis, transforma uma opinião corrente em verdade irrefutável.

A própria configuração da sociedade da época fazia com que esses discursos ditos científicos se desenvolvessem e ocupassem grande importância. Ao fim do século XIX, período em que o artigo aqui estudado foi escrito, observa-se uma sociedade – mundial como um todo, e brasileira em particular – tomada por um caráter cada vez mais cientificista. Os avanços tecnológicos trazidos pela Revolução Industrial no século XVIII e as posteriores transformações por que passou o capitalismo, bem como as mudanças ideológicas, políticas e sociais refletidas pelo chamado “Século das Luzes” implicaram em uma mudança da maneira como se via a ciência e como se pesquisava em ciência, transformando esta em discurso cada vez mais importante. Especialmente no Brasil de fins do XIX, que se transformou intensamente com o fim da estrutura tradicional da economia escravista e da política monárquica para uma república com pequenas modernizações industriais e tecnológicas advindas com a dinâmica da economia cafeeira. No âmbito político fervilhavam discussões de novas ideias como o liberalismo e o positivismo, alguns com características notadamente cientificistas, como o demonstra Maria de Lourdes Janotti[7].

Em tal contexto brevemente explanado, os discursos científicos detinham grande aceitação e repercussão. E é neste sentido que devemos repensar as avaliações do médico maranhense acerca do líder de Canudos e dos sertanejos. Suas ideias, embora apoiadas em métodos de pesquisa do discurso científico, hoje representam, ao menos para o que este estudo se propõe, uma visão ultrapassada e preconceituosa. Ao mesmo tempo em que a ciência, neste período, se firmava como principal fonte de saber, seus estudos e pesquisas ainda se pautavam, em muito, em bases de pensamento anteriores a determinações de regras científicas e em preconceitos da época. Como exemplo, do qual o artigo de Nina Rodrigues não escapa, relembremos a ideia da diferenciação das raças (branca, ameríndia, negra), surgida em contextos anteriores ao da ciência propriamente dita, e pautada em relações de força e subjugação, como o antigo sistema colonial escravista. Com o advento do cientificismo, este preceito reformula-se em termos de uma justificativa para tal diferenciação: a ideia de raças biologicamente constituídas, cada qual portando suas características próprias, e tendo algumas “valor maior” – em termos biológicos, morais, sociais – do que outras. Tal sistema, denominado “darwinismo social”, propunha a evolução de raças com a preponderância da raça branca sobre as demais.

As idéias de Nina Rodrigues sobre os “jagunços” demonstram claramente as preposições científicas da época. Ao delimitar o sertanejo como produto de uma “fusão inviável de civilizações muito desiguais”[8], em que o conceito de raças diferenciadas é característica mais visível, o médico reflete os preceitos da época; preceitos estes que influenciaram em muito as relações sociais, fortalecendo as desigualdades e o racismo, com reflexos até hoje, ainda que amenos. Assim sendo, a visão de Antônio Conselheiro como “louco” ou “fanático”, bem como das multidões que o seguiram como “jagunços passivos” contaminados pela loucura de seu líder, está perpassada pelo racismo científico, e não resiste como ideia válida cientificamente em um modelo atual de interpretação[9].

De maneira semelhante se posicionam as ideias denotadas por Nina Rodrigues se o lembrarmos como membro de uma elite intelectual, comprometido de uma forma ou outra com a ordem social e política vigente. Deste modo, se retomarmos seus escritos no ponto tocante à característica “monárquica” dos conselheiristas, perceberemos implicações políticas em sua fala. Não há provas de que Nina Rodrigues estive comprometido diretamente com o advento ou a governabilidade da República. Nem este deixa entrever em seus escritos, como fizeram muitos de seus contemporâneos, a crença em uma grande “conspiração monárquica” para a retomada de poder, de que Canudos seria só o início[10].

Porém, ao reafirmar a ignorância ou falta de capacidade dos sertanejos em mudar suas crenças e ver a república federalista como uma possível solução para a manutenção de tão vasto território, Nina Rodrigues deixa entrever seus princípios. Mesmo inativo politicamente falando (no sentido de não participar como membro de um partido ou atuar na esfera política), demonstra a crença na república enquanto solução para os problemas brasileiros, refletindo, como discute o historiador José Murilo de Carvalho, o pensamento da maior parte da elite intelectual da qual provinha, mesmo com as dificuldades e a fragilidade da República em seu primeiro decênio[11].

Além disso, vale lembrar que a própria acusação de Canudos como uma iniciativa monarquista é reflexo de uma manipulação política maior, de que os diversos modos de republicanismo atuantes na esfera política e ainda delimitando o tipo de República a ser seguida faziam parte, tal como o movimento dos chamados jacobinos, ou radicais[12]. Destarte, essas acusações serviram para acirrar e confrontar a opinião pública contra uma possível – mas pouco provável – tentativa de restauração monárquica, bem como contra os últimos monarquistas, de que o empastelamento de alguns jornais e o assassinato de Gentil de Castro, por ocasião da derrota de uma das expedições a Canudos, foi exemplo. Do mesmo modo, acirravam-se as disputas entre os florianistas, partidários de um militarismo no comando da República, e outras divisões republicanas, tais como a dos civis, que partilhavam do apoio da burguesia cafeeira ascendente. A tentativa de assassinato de Prudente de Morais, presidente civil, ocorrida em novembro de 1897, foi outro exemplo dessas disputas[13].

Por fim, vale repensar o epíteto de fanatismo que a religiosidade local ganhou. Considerada uma deturpação, com “influências nocivas” do animismo das religiões africanas e indígenas, a religião praticada pelos populares sertanejos foi retratada como “anomalia”, e nunca considerada em sua originalidade. Ao longo do século passado, muitas foram as interpretações dadas aos acontecimentos de Canudos; algumas renovadoras, sem dúvida, posto que superaram a alcunha de “loucura coletiva” ou “fanatismo” contida nas primeiras opiniões a respeito do tema. Como mostra Jacqueline Hermann[14] em sua breve retrospectiva historiográfica, as interpretações sobre o movimento tomaram diversas formas ao longo do século XX, passando de considerações sobre o caráter socializante do movimento para uma abordagem que privilegiava a suposta origem sebastianista ou messiânica de Canudos.

Tais interpretações, conquanto válidas, também trazem marcas do período em que foram escritas. Marco Antonio Villa, em seu estudo Canudos: o povo da terra[15], demonstra que o sentido comunitário, bem como a religiosidade do arraial canudense detinham uma particularidade que vai além de um messianismo ou de uma suposta sociedade de base socialista. Tal peculiaridade não está assentada nos termos de fanatismo, nem mesmo nos termos de uma mistura ou degenerescência de raças, ideias, como vimos, caracterizadas em muito por um preconceito social e racial com relação aos sertanejos. Está pautada nos termos de uma sociabilidade e uma religiosidade com dinâmicas próprias, desenvolvidas devido às especificidades da região. Era caracterizada por uma simbiose do sagrado com o profano, com danças e festejos pouco afeitos ao universo austero da religião oficial. Assim sendo, a relação dos populares com a religião era mais intensa, vívida, diferente do que ocorria com o catolicismo oficial, que em seus ritos e dogmas se fazia sentir cada vez mais vazio de significado para os sertanejos.

Assim sendo, para o autor não há, em Canudos, provas contundentes de que era inspirada por um messianismo (entendido aqui como a existência de uma figura representativa de um messias a conduzir o povo), nem de milenarismo (a espera de mudanças advindas com um novo milênio) ou sebastianismo (a crença de origem portuguesa do retorno ou “desencantamento” do rei D. Sebastião), tal como aparece em outras obras. Pode ser, segundo o autor, que houvesse pronunciamentos ou crenças individuais com relação a um destes três aspectos. Por exemplo, seguindo as citações do autor que se baseiam nos escritos de Euclides da Cunha em Os sertões, foram encontrados versinhos populares (os chamados ABC’s) que identificavam Antônio Conselheiro com D. Sebastião ou até mesmo com o Messias esperado. Mas, para o autor, tal fato não pode ser considerado prova contundente de que o Conselheiro se visse ou se apresentasse enquanto tal, visto que tantos seus únicos documentos escritos deixados, bem como os testemunhos posteriores de sobreviventes, não denotam tal tratamento. A mesma lógica é seguida no já citado texto de Walnice Galvão, que indica a diferenciação entre a posição em que se colocava o líder canudense e as considerações pessoais de alguns de seus seguidores[16].

Prosseguindo a discussão, Marco Antonio Villa critica Maria I. P. Queiroz pela cunhagem do termo “catolicismo rústico”[17] para definir a religiosidade sertaneja. Para o autor, uma religião rústica significa a coexistência de outra mais sofisticada em detrimento da primeira e, portanto, provinda de uma classe dominante. Desta maneira, sem o querer fazer, a autora estaria detratando a religiosidade de Canudos como “inferior”, de certo modo, à religião oficial, e não como forma original e alternativa. À luz dessas considerações trazidas pelo autor, se faz necessário repensar o movimento ocorrido no sertão baiano conquanto provindo de uma forma de religião que não se caracteriza por ser na totalidade diferente do catolicismo oficial, mas apenas uma releitura específica, localizada. Não “rústica” – portanto inferior, incompleta – mas detentora de uma originalidade, a ser considerada válida enquanto expressão cultural de uma parcela da sociedade.

Considerações finais

Concluímos que os escritos deixados pelo médico maranhense, embora dotados do rigor de análise científica da época em que foi escrito e oriundo de um âmbito maior de discursos acadêmicos e oficiais, implica em representações do movimento de Canudos e de seus participantes datadas e já ultrapassadas. Nessas representações, encontram-se marcadamente as visões preconceituosas do racismo científico que considerava manifestações populares destoantes em termos de loucura, fanatismo e degenerescência de raças; visões próprias da elite de que provinha o autor e pela qual o mesmo se expressava. Deste modo, faz-se necessário uma reavaliação dos escritos, considerando-se seu momento histórico.

A partir dessas reconsiderações, percebemos a importância do artigo enquanto expressão de determinadas representações do movimento feitas a partir de determinada camada social, a saber, a elite intelectual e científica que influenciava os debates da época. Desta forma, apresenta um retrato parcial, não apenas dos fatos ocorridos, mas também da própria parcela social que o produziu, de que provém, com suas crenças, medos, preconceitos, códigos representativos. Não deve ser analisado, portanto, em termos de verdade ou de totalidade dos fatos, mas por seu valor de portador de uma visão específica.

Nesse sentido, o artigo deve ser levado em conta juntamente com outros documentos, provenientes de outros produtores, de outros discursos, para que se possa resgatar a história do movimento de Canudos sem os preconceitos ou visões limitantes. A historiografia sempre renovada demonstra que o tema não se esgotou; pelo contrário, os autores e suas interpretações aqui mostrados abrem novas possibilidades de pesquisa, que fazem enriquecer cada vez mais a discussão.

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VILLA, Marco Antonio. Canudos: o povo da terra. São Paulo: Ática, 1997, 2ª. ed.


[1] Graduanda em História pela Universidade Federal do Paraná.

[2] MAIO, Marcos C. A medicina de Nina Rodrigues: análise de uma trajetória científica. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, abril/ junho de 1995, pp. 226-237. Disponível em: < http://www.scribd.com/doc/6936875/A-Medicina-de-Nina-Rodrigues >. Acesso em: 20.set.2010.

[3] NINA RODRIGUES, Raimundo. A loucura epidêmica de Canudos. Transcrito integralmente no artigo Nina Rodrigues e a loucura epidêmica de Canudos, de Ana Maria Galdini Raimundo Oda. Rev. Latinoam. Psicop. Fund., III, 2, 139-144. Disponível em:< http://www.fundamentalpsychopathology.org/art/jun0/loucura_epidemica.pdf >. Acesso em: 18.set.2010.

[4] Idem, Ibidem, p. 147.

[5] Ibidem, p. 151.

[6] GALVÃO, Walnice Nogueira. O império do Belo Monte: vida e morte de Canudos. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001. (Coleção História do povo brasileiro). p. 19-22.

[7] JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco. Os subversivos da república. São Paulo: Brasiliense, 1986.

[8] NINA RODRIGUES, Raimundo. Loc. cit.

[9] CHAVES, Evenice Santos. Nina Rodrigues: sua interpretação do evolucionismo social e da psicologia das massas nos primórdios da psicologia social brasileira. Psicol. estud., Maringá, v. 8, n. 2,dez. 2003. Disponível em:<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722003000200004&lng=en&nrm=iso >. Acesso em: 20.set.2010.

[10] JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco. Op.cit., p. 134-158.

[11] CARVALHO, José Murilo de. O bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

[12] GALVÂO, Walnice Nogueira. Op. cit., p. 78.

[13] MACEDO, José Rivair; MAESTRI, Mário. Belo Monte: uma história da Guerra de Canudos. São Paulo: Moderna, 1997. (Coleção Polêmica). p. 80-81.

[14] HERMANN, Jacqueline. Religião e política no alvorecer da República: os movimentos de Juazeiro, Canudos e Contestado. In: FERREIRA, J. e DELGADO, L.A.N. (Org.). O tempo do liberalismo excludente: da Proclamação à República de 1930. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. pp. 121-160.

[15] VILLA, Marco Antonio. Canudos: o povo da terra. São Paulo: Ática, 1997, 2ª. ed.

[16] GALVÃO, Walnice Nogueira. Op. cit, p. 105-110.

[17] QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Movimentos messiânicos rústicos. In: O messianismo no Brasil e no mundo. São Paulo: Dominus Editora, 1965, pp. 193-306.