ISSN 1807-1783                atualizado em 22 de março de 2011   


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As Contribuições da Epistemologia da História de Ibn Khaldun (1332-1406) para o Presente: Um Diálogo Possível

por Elaine Cristina Senko

Sobre a autora[1]

Na percepção dos atuais teóricos da historiografia, o conhecimento que podemos obter do passado deve ser orientado e construído por meio da crítica, da dúvida e da reflexão. Tais fundamentos, ademais, seriam essenciais para a própria caracterização e distinção do discurso histórico em relação aos outros tipos de relatos sobre o passado. No entanto, o que hoje consideramos como próprio de nossa epistemologia da história teve, no passado, de ser amplamente justificado, uma tarefa levada a cabo por vários pensadores da história. Um digno exemplo é o historiador muçulmano Ibn Khaldun (1332-1406), o qual desenvolveu em sua obra “Muqaddimah” uma severa metodologia que regulava a pesquisa e escrita dos eventos passados. Dessa forma, o presente artigo encaminha uma análise que busca avaliar as possíveis contribuições do pensamento khalduniano no presente, buscando justamente levantar a discussão, sempre pertinente, em torno do fazer histórico. Ao mesmo tempo, consentimos da importância em se valorizar a conciliadora voz de Khaldun num tempo que se faz marcado pelo medo ao muçulmano (incompreensões fomentadas por uma política unilateral européia e estadunidense), sendo de grande valia assim revelar as ligações entre Ocidente e Oriente por meio da cultura, mais especificamente, aqui, através de concepções historiográficas. Esclarecer-se, eis um dos propósitos motivadores desse estudo, ou como diria Georges Duby: “O historiador, por conseguinte, tem o dever de não se fechar no passado e de refletir assiduamente sobre os problemas de seu tempo”[2].

Iniciamos nosso estudo com a opinião de Julio Aróstegui, historiador contemporâneo e teórico da historiografia, para o qual seria necessário ao historiador criar um método, pois a teoria e a metodologia estariam juntas na prática científica[3]. Tal método seria construído à partir do conhecimento adquirido pelo historiador em sua formação, podendo se comunicar com outras disciplinas, mas buscando sempre manter-se específico em sua identificação. De fato, foi no século XIX que toda essa questão do método começou a ganhar notoriedade, época em que os estudiosos da história organizaram a base teórica de sua disciplina e se profissionalizaram, visando justamente uma atuação como professores nas universidades européias.

Khaldun, no entanto, já ressaltava a importância do emprego de um método lógico e racional para o estudo do social, sendo este o objeto da história – o qual deveria ser analisado seguindo parâmetros rígidos[4]. Postura semelhante também apresenta Aróstegui, para o qual essa pesquisa do social é a abertura para a interdisciplinaridade e para uma análise investigativa dos distintos fenômenos inerentes ao comportamento da sociedade no tempo:

Assim, pois, o método da pesquisa histórica é, sem dúvida, uma parte do método da pesquisa da sociedade, da pesquisa social ou, se preferirmos, da pesquisa histórico-social. Portanto, o método do historiador coincide, em boa medida, com o de outras disciplinas como a economia, a sociologia ou a antropologia, por exemplo. O historiador estuda, como o fazem os estudiosos dessas outras disciplinas, fenômenos sociais. Mas existe uma peculiaridade que dá ao método historiográfico sua especificidade inequívoca e é o fato de que o historiador estuda os fatos sociais sempre em relação com seu comportamento temporal. Isso significa que na historiografia é normal que não possa haver um procedimento de “observação direta” da realidade. Por essa e outras razões, é inegável que a historiografia é, sem dúvida, a disciplina social que na atualidade possui um método menos formalizado, menos estruturado sobre uma base “canônica”[5].

Khaldun estava interessado em demonstrar como se dava o processo histórico através de sua metodologia, formulando assim uma “nova ciência”, a ciência humana e social, e essa ciência deveria abrigar o modo correto de se analisar os fatos[6]. Criar um método próprio, o qual resulte numa rigorosa explanação e legitime os argumentos apresentados, torna-se a maior preocupação de nosso autor em relação às discussões epistemológicas no seu estudo. Dentro dessas discussões, claro, a consciência de que trabalhamos com o passado, ou seja, temporalidades diferentes através de informações (documentações) que devem sempre ser devidamente verificadas.

Uma das especificidades do método historiográfico apontadas por Aróstegui é a natureza das fontes de informação[7]. O historiador, para a realização de seu trabalho, inicialmente deve possuir um conjunto de fontes, as quais podem se apresentar sob diferentes formas, por exemplo: os relatos escritos, os vestígios arquitetônicos e de materiais humanos, relatos orais, textos administrativos e jurídicos. No entanto, o historiador não deve apenas transmitir as informações que encontra nas fontes, tendo uma atitude passiva diante da narrativa, pelo contrário: “Pesquisar a História não é, de modo algum, transcrever o que as fontes existentes dizem... A exposição da História, que é o resultado final do método de pesquisa, tem de tornar inteligível e explicável o que as fontes oferecem como informação”[8].

Os fatos, portanto, devem ser conhecidos e depois explorados, questionados e construídos pelo pesquisador. Ora, é a importância que damos ao trabalho de construção metodológica da pesquisa histórica que fornece seu caráter de procedimento científico. Claro, existe um local apropriado para o exercício da subjetividade, mas a objetividade dos dados e a construção da narrativa histórica devem ter uma lógica interpessoal, pois cada afirmação do historiador deve estar pautada em provas, ou seja, pela indicação de suas fontes de informação para fins de comprovação. Segundo o historiador Antoine Prost, a importância dada às fontes de informação advém de longa tradição: “Da escola metódica à escola dos Annales, a opinião é unânime em relação a este ponto: trata-se realmente de uma regra comum da profissão”[9]. A importância que ganha a narrativa do historiador é, em grande parte, devido ao seu trato preciso das informações que encontra, ou seja, os dados que passam pelo seu crivo crítico. Nesse sentido mesmo, Khaldun já havia sido severo na crítica aos historiadores de seu tempo:

Tiraram da História dos séculos passados um aglomerado de narrativas que se podem considerar como vãos simulacros desprovidos de substância, ou, como bainhas vazias de suas lâminas de aço; narrações que o leitor está no dever de aceitar com desconfiança, impossibilitado de saber se são fatos antigos (comprovados), ou se são modernos (e inventados). Porque estes escritores, ao relatarem os fatos, deixaram de apontar-lhes as causas próprias e não se aprimoraram na escolha das informações, nem na verificação dos pormenores. [...] O leitor procura em vão inteirar-se da origem dos acontecimentos, de sua importância e repercussão, e das causas que os geraram, quer simultaneamente, quer sucessivamente; nem sabe levantar o véu que encobre as diferenças ou as analogias que os fatos podem apresentar em relação uns aos outros[10].

A concepção metodológica em torno de uma possível verdade que se quer próxima à objetividade e que se pauta em fatos concretos permanece como mote e constitutiva de nossos esforços investigativos na história. De fato, não há fatos sem questionamentos prévios. Esse aspecto da investigação e crítica das informações – tal como acima Khaldun afirmou, “o leitor está no dever de aceitar com desconfiança” – é o princípio da dúvida fomentadora da problemática, da questão, e fator principal que impele nossa iniciativa de colocar à vista a evidência de nossas postulações. A crítica, portanto, deve ser ensinada ao historiador, fazendo parte de uma atitude apreendida que o prepara para lidar com suas fontes. Segundo o historiador Marc Bloch, os indícios devem ser cuidadosamente observados, pois são resultados de um raciocínio próprio:

Acima de tudo, esses indícios que, sem premeditação, o passado deixa cair ao longo de sua estrada não apenas nos permitem suplementar esses relatos, quando estes apresentam lacunas, ou controlá-los, caso sua veracidade seja suspeita; eles afastam de nossos estudos um perigo mais mortal do que a ignorância ou a inexatidão: o de uma irremediável esclerose. Sem seu socorro, com efeito, não veríamos inevitavelmente o historiador, a cada vez que se debruça sobre gerações desaparecidas, logo tornar-se prisioneiro de preconceitos, das falsas prudências, das miopias de que a própria visão dessas gerações sofrera[11].

Khaldun apresentava todo esse teor de crítica ao diferenciar fábulas da história alegando que as fábulas eram advindas da imaginação e não passavam pelo teste de definição próprio a uma narrativa histórica. Atualmente, porém, a literatura e as artes visuais ganharam outra representatividade dentro da perspectiva histórica, sendo tomadas, com todas as precauções, como fontes para o historiador, conforme bem aponta Antoine Prost:

Entretanto, observamos que a crítica dos depoimentos orais e a das fotografias ou filmes não diferem da crítica histórica clássica. Trata-se do mesmo método, aplicado a outra documentação que, às vezes, utiliza saberes específicos – por exemplo, um conhecimento preciso das condições de filmagem, em determinada época. Mas é, fundamentalmente, um modo de operar semelhante ao do medievalista diante de seus documentos. O método crítico é, conforme veremos mais adiante, o único apropriado à história[12].

Outra especificidade do método historiográfico é a questão da temporalidade, também discutida por Khaldun no trecho já citado[13], no qual afirmou que o tempo pode ser conhecido “quer simultaneamente, quer sucessivamente”. Esse entendimento khalduniano torna-se muito pertinente na historiografia atual, pois demonstra uma consciência em torno da pluralidade do tempo e da relação sincronia/diacronia. É exatamente essa consciência do historiador que também deve lembrá-lo que seu estudo não apenas contempla fatos específicos e presos no passado, mas que eles igualmente evoluem e chegam até o presente, transformados, através do tempo. A seguinte afirmação de Khaldun reitera todo esse pensamento: “Desde ele [o historiador] saber o que no presente subsiste de todas estas contingências para compará-lo com o passado; indicar os pontos de semelhança ou de discordância; dar a razão destas analogias ou divergências”[14]. O resultado do passado seria, em suma, a nossa sociedade presente, através da mudança social progressiva, por isso a necessidade técnica da cronologia, não determinante, mas balizadora dos fatos. De fato, o historiador escreve no vaivém entre passado e presente, como se fosse um caminho longo a ser percorrido. Por ser o historiador também um homem de seu tempo, tenta se afastar deste para alcançar uma imagem do passado por meio das balizas metodológicas próprias ao seu ofício.

No que se refere ao estudo da sociedade, procuramos sempre estabelecer uma metodologia que busque contemplar, de modo cada vez mais abrangente e dentro de uma realidade global, os fenômenos inerentes à ela: “Quer dizer, a história de uma sociedade reúne em si todas as atividades que os homens realizam e que estão entrelaçadas de forma indissolúvel”[15]. No conjunto maior, as sociedades dialogam e trocam idéias, fazem comércio, disputam políticas, estimulam guerras, apontam acordos e convivem. Noção próxima à isso tudo é a de “umran” (civilização) para Khaldun: “Al-Umran, isto é, a sociabilidade, o sentimento que leva os homens a morarem juntos, seja em cidades, seja debaixo de tendas. O que os induz a isso é sua inclinação para a sociabilidade [...]”[16]. Ou seja, o estudo da sociabilidade abre perspectivas ao entendimento dos mecanismos de convívio dos homens, dentro de seu conjunto social, bem como da relação das sociedades entre si.

De fato, a proposta dessa história total[17] aponta para um intercâmbio erudito em torno de se conhecer novas realidades; inclusive Khaldun apontava a necessidade de se entender os diferentes povos e religiões: “É preciso, pois, que o historiador conheça [...], as diferenças que apresentam as nações, os países e os tempos, no que diz respeito aos costumes, aos usos, à conduta, às opiniões, aos sentimentos religiosos e à toda as circunstâncias que exercem qualquer influência sobre a sociedade”[18]. No entanto, atualmente no campo da pesquisa em história ocorre a inevitável fragmentação em especialidades, a qual acaba prejudicando a identidade de nossa ciência histórica. Claro, nesse meio é necessário o contato com as outras disciplinas, mas deve-se conter também a dissolução em vertentes específicas de estudo – principalmente àquelas que, por sua especificidade, não dialoguem com outras perspectivas. Khaldun, na sua escrita da “Muqaddimah”, apresentou três temáticas principais constituintes de sua abordagem histórica: o poder, a sociedade e a erudição. Vemos, pelo exemplo do historiador islâmico, uma tentativa de condensar a gama das informações que a sociabilidade dos homens ocasiona. Porém, toda essa questão ainda está em aberto, motivo ainda de novas reflexões e direcionamentos que podem contribuir no aperfeiçoamento metodológico inerente ao nosso ofício.

O preparo técnico ainda hoje é imprescindível ao trabalho do historiador, mas atenção: não se pode confundir esta função de preparo, a técnica, com a metodologia específica que deve ser aplicado ao estudo de uma fonte. Julio Aróstegui explicita melhor tal contraposição ao salientar que “o método é um conjunto de princípios sempre ligados à teoria, enquanto as técnicas, que são as que realmente devem se adaptar em cada caso à natureza do objeto investigado, podem ser compartilhadas e são intercambiáveis entre as diferentes disciplinas [...]”[19]. Nosso exemplo do passado, Khaldun, se utilizava de técnicas e outros conhecimentos para construir sua própria metodologia histórica, tal como o auxílio da jurisprudência, da filosofia e da gramática, visando sempre o aperfeiçoamento de sua investigação.

Como já afirmamos anteriormente, é a dúvida que move o trabalho do historiador. Este, a partir de sua análise da fonte, levanta hipóteses para solucionar as questões e problemas encontrados. Nesse momento, lembremos do que Lucien Febvre afirmou: “É que pôr um problema é precisamente o começo e o fim de toda a história. Se não há problemas, não há história. Apenas narrações, compilações”[20]. Por isso, consentimos da necessidade de reflexão que ilumine sempre a investigação. Khaldun propunha o uso da reflexão direcionada como algo imprescindível ao pesquisador, evitando as abstrações e erros de afirmação:

Mas, como calarmos, vendo homens, cuja palavra faz autoridade, e compiladores de tradições históricas tropeçarem e caírem nestes erros e acreditarem em tão extravagantes opiniões? As informações mentirosas gravaram-se-lhes no espírito e a maioria dos leitores, que se compõe de homens nada criteriosos e pouco dispostos a empregar as regras da crítica, deles recebe estes contos igualmente sem reserva e sem reflexão. Tudo isso indo incorporar-se à massa dos conhecimentos adquiridos, transformou a História numa mistura de inverossimilhanças e de erros, que atravancam a mente, deixando o leitor perplexo nas suas conclusões, além de rebaixar o historiador ao nível do contista popular[21].

Khaldun nos indica percepções sobre a epistemologia da história que ainda hoje provocam discussões. O uso da crítica e da reflexão tornara-se, diante das vicissitudes inerentes à época do autor, matrizes imprescindíveis da ciência histórica. Porém essa proposta de objetividade estabelecida pelo historiador Khaldun talvez hoje estivesse por ser retomada, tendo em vista que a abrangência de objetos e a relatividade acrítica dos pontos de vista estilhaçou essa vertente que defende a coerência em torno da busca e aproximação de uma certa realidade histórica. É necessário atualmente retomar a identidade de nossa disciplina, um sentimento próximo ao de Khaldun no século XIV – uma época em que sequer existia a história como disciplina. Assim, parece que a história ainda busca incansavelmente uma nova e forte base teórica, pois ela foi tão aberta no século XX às jovens ciências como a sociologia e a antropologia que acabou sendo escamoteada pelos próprios historiadores. Já foi dito da importância da interdisciplinaridade neste estudo, mas o que não devemos deixar de fazer é refletir, a criticar e a se dedicar ao formato de nossa História. Diante disso, Ciro Flamarion Cardoso alerta:

Mas, na medida mesma em que continuou existente e atuante a dimensão social, coletiva no sentido forte, do humano, demandas urgentes decorreram de transformações agora muito mais claras em seus contornos do que apareciam em 1970 (de seus aspectos perversos mas também de suas virtualidades coibidas). [...] A situação de que resultou, no passado, uma História profissional mostra-se, hoje em dia, abalada em profundidade, o que, em muito menos do que os trinta anos previstos por Bentley, obrigará o avestruz, diretamente ameaçado em seus próprios interesses e em suas fontes de renda, a tirar a cabeça da areia[22].

Quando um historiador vê ameaçada sua disciplina ele retoma os princípios da pró-atividade e deseja que todos os outros o façam. Caracterizar as balizas da história, portanto, é simultaneamente dar uma identidade ao historiador. Khaldun no início da obra “Muqaddimah” (Introdução) se considera o responsável em sua própria época por reavaliar o fazer histórico: “Após ler os livros de nossos escritores e sondar as profundezas do passado e do presente, consegui despertar meu espírito e arrancá-lo à apatia e à preguiça, e, ainda que pobre de saber, eu fiz comigo mesmo excelente negócio ao decidir-me a compor esta obra”[23]. Foi exatamente essa atitude de renovação, junto à consciência do uso da crítica e reflexão, que tornou a epistemologia khalduniana famosa até os dias de hoje. Ela, por tudo que aqui constatamos, pode e deve ser considerada uma das pontes de encontro entre as perspectivas de uma historiografia oriental com a ocidental, sendo prova da superação de fronteiras no campo do saber.

Em síntese, apontamos que a epistemologia khalduniana encontra ainda um diálogo profícuo com os historiadores atuais em termos de vários aspectos: no que concerne ao entendimento da história como um processo, tendo como objeto muitas vezes os aspectos sociais; no que se refere à história como uma ciência diferenciada, mas mantendo contato com os outros saberes; na consideração de que a história pode ter balizas universais ao lado das particulares (os acidentes); e, principalmente, no que tange ao uso da reflexão na construção histórica e da análise crítica quando observamos as evidências deixadas pelo passado. Essa conversa com a epistemologia atual, realizada através de autores como Julio Aróstegui e Antoine Prost, somente foi possível graças ao fato de que esses historiadores, entre outros, ainda buscam essa compreensão histórica crítica, mais ampla, inter-cultural. Entender a produção escrita da história no medievo e, conseqüentemente, na contemporaneidade, compreende caracterizar a inteligibilidade das propostas e dos diferentes estilos narrativos apresentados pelos autores e o que das suas idéias prosseguem ou não, mesmo que transformadas, através dos tempos. Aqui, procuramos definir um contato historiográfico que demonstrou ser pertinente e muito proveitoso, estimulando sob diferentes formas nossa reflexão acerca da epistemologia da história.

O presente estudo também visa contribuir para reforçar as relações históricas entre o Oriente/ Ocidente através do contato historiográfico. De fato, é notório observar que depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 a produção sobre o Islã, nos mais variados temas, aumentou vertiginosamente. No entanto, houve tanto de um lado como do outro o surgimento de escritos de forte caráter parcial, descompromissados com a reflexão e que acentuaram, perigosamente, uma pretensa rivalidade entre Ocidente e Oriente. O que devemos fazer, independente de quaisquer posicionamentos, é manter o rigor em nossa análise histórica buscando esclarecer-se criticamente através dos encontros e desencontros entre o Islã e o Ocidente[24]. Não houve e nem há apenas enfrentamentos entre os dois lados, prova disso já constatamos com um breve olhar no processo histórico, conforme demonstrado por Edward W. Said:

Uma razão a mais para sua persistência é a crescente presença de muçulmanos em toda a Europa e nos Estados Unidos. Pensem nas populações hoje da França, da Itália, da Alemanha, da Espanha, da Grã-Bretanha, dos Estados Unidos e até mesmo da Suécia, e vocês deverão concordar que o Islã não está mais nas bordas do Ocidente, mas sim em seu centro. Mas o que é tão ameaçador sobre essa presença? Enterradas na cultura coletiva estão as memórias das primeiras grandes conquistas árabe-islâmicas, que começaram século VII e que como o ilustre historiador belga Henri Pirenne escreveu em seu importante livro Mohammad and Charlemagne (1939), romperam de uma vez por todas com a unidade antiga do Mediterrâneo, destruíram a síntese cristã-romana e possibilitaram a ascenção da nova civilização, dominada pelas potências do norte (a Alemanha e a França carolíngias), que tinham como missão – ele parecia estar dizendo – retomar a defesa do ‘Ocidente’ contra seus inimigos históricos e culturais. O que Pirenne deixou de fora, aliás, foi que, para criar essa nova linha de defesa, o Ocidente recorreu ao humanismo, à ciência, à filosofia, à sociologia e à historiografia do Islã, que já tinha se colocado entre o mundo de Carlos Magno e a Antiguidade Clássica. O Islã está dentro do Ocidente desde o começo, e até mesmo Dante, grande inimigo de Maomé, tinha que concordar com isso quando colocou o profeta no próprio centro de seu inferno[25].

Para o historiador Diego Melo Carrasco, é justamente a história a responsável por resolver esses equívocos tão laboriosamente traçados por uma ideologia ocidental até os dias de hoje contra os muçulmanos:

Creo que la historia tiene una responsabilidad fundamental en el tratar de aclarar estos errores y en enmendar unos daños que se han hecho ya sea producto de cuestiones religiosas, ideológicas, o políticas, etc. Los acontecimientos no son productos de una sola causa; pero tampoco podemos pensar en la existencia de un antagonismo violento manifestado en todos los siglos de coexistencia del islam con el mundo Europeo. Es la historia la que nos muestra unos ciclos más o menos definidos que coinciden con factores diversos: debilidad interna, preeminencia de un mundo sobre el otro, purismo religioso, etc. Es cierto que hemos llegado a un momento en el cual muchas situaciones se han tensado en extremo producto de las distintas manifestaciones terroristas que ha asumido un sector del mundo islámico y las acciones tomadas por ‘occidente’ como respuesta a estas problemáticas, pero ese no debe ser el norte a seguir, ahí, al menos, no se visualizan esperanzas[26].

É necessário, portanto, um direcionamento do conhecimento histórico para essa função de clarificar e apaziguar as relações entre o Islã e o Ocidente. O caminho que escolhemos no presente estudo foi o da erudição: demonstrar através da história produzida por um autor medieval islâmico, Ibn Khaldun, que podemos sim abrir um diálogo possível com a epistemologia da história ocidental. Inclusive, dessa perspectiva, poderíamos pensar na plausibilidade de uma identidade erudita maior inerente ao período medieval que transcenda a contraposição religiosa cristãos/muçulmanos.

Nesse aspecto, o Mediterrâneo foi o local não somente de embates ao longo da história, mas revelador de um ambiente de relações mútuas entre cristãos e muçulmanos. Por meio dessa constatação podemos levantar a hipótese da existência de trocas em torno dos escritos historiográficos entre um mundo cristão e um dito islâmico. Nossa proposta é compreender, para além dos embates militares do período, a possibilidade real desses contatos e, ademais, do resgate da tradição clássica grega do fazer histórico. Isso corrobora com o pensamento da historiadora Aline Dias da Silveira, quando esta aborda uma nova tendência na análise historiográfica medieval:

Um exemplo de tema abordado nestes trabalhos é o trânsito de intelectuais pertencentes às três religiões na Idade Média e seu trabalho conjunto nas traduções (BORGOLTE, 2006, p. 562-584). Séculos antes da obra de Aristóteles ser discutida na Paris do século XIII, muçulmanos, cristãos e judeus já trabalhavam em conjunto na tradução e interpretação de textos aristotélicos na escola de tradução de Bagdá (séculos VII-IX d. C.). A mesma colaboração é documentada na escola de tradução de Toledo (século XII-XIII), a qual traduziu os trabalhos do árabe para o latim. A necessidade de utilizar intelectuais de diferentes idiomas no trabalho de tradução formou uma comunidade de tradutores e comentadores multicultural ao longo destes quatrocentos anos na área mediterrânica. Estes intelectuais escreveram os comentários das obras traduzidas e empreenderam discussões entorno das fontes helenísticas, cristãs, judaicas e islâmicas[27].

O estilo de Khaldun é fruto de um contexto que pode ter sido influenciado por estilos anteriores como da oralidade para os anais, dos anais para as crônicas, das crônicas para a História local, da História local para a História universal. Esse modo de reinterpretação da escrita khalduniana se faz necessário para nos aprofundarmos acerca da concepção khalduniana de História. Sua escrita pode ser estudada, depois de definida sua concepção historiográfica, ao lado das crônicas redigidas próximas ao seu contexto. Nesse sentido vislumbramos a hipótese de uma provável troca de estilos, o que também ressalta e caracteriza uma identidade erudita mediterrânica.

Portanto, Khaldun ensina a nós, jovens historiadores de hoje, que somente poderemos valorizar nosso conhecimento historiográfico enfrentando e questionando os destoantes e críticos de nosso ofício; para isso não devemos mais nos amparar em “muletas” teóricas que regulam e determinam os resultados de nossas pesquisas, mas sim trabalhar no sentido de um constante diálogo historiográfico, priorizando a construção de metodologias e perspectivas históricas críticas, reflexivas e, sempre que possível, inovadoras.

Bibliografia:

Fontes escritas:

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integral e direta do árabe por José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia, 1958-1960.

KHALDUN, Ibn. Autobiografia. In: Muqaddimah – Os prolegômenos (tomo I). Tradução integral e direta do árabe por José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia, 1958.

KHALDUN, Ibn. Edição de TRABULSE, Elias. Introducción a la historia universal (Al-Muqaddimah). México: Fondo de Cultura Econômica, 1997.

Leituras:

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BLOCH, Marc Leopold Benjamin. Apologia da história, ou, O ofício de historiador. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

CARDOSO, Ciro Flamarion. Um historiador fala de teoria e metodologia: ensaios. Bauru, SP: Edusc, 2005.

CARRASCO, Diego Melo. A modo de introducción: Europa y El Islam, dinâmicas de encuentro y desencuentro. In: CARRASCO, Diego Melo; ASLA, Fernando Laiseca. Europa y el Mediterráneo Musulmán. Dinámicas de encuentro e desencuentro. Viña del Mar/Chile: Ediciones Altazor, pp. 17-35, 2010.

DUBY, Georges. Ano 1000 ano 2000: na pista de nossos medos. Tradução Eugênio Michel da Silva, Maria Regina Lucena Borges-Osório; revisão do texto em português Ester Mambrini. São Paulo: Editora UNESP/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1999.

FEBVRE, Lucien. Combates pela história. Tradução de Leonor M. Simões e Gisela Moniz. Lisboa: Editorial Presença, 1987.

KHALIDI, Tarif. Arabic historical thought in the classic period. New York: Cambridge University Press, 2004.

PROST, Antoine. Doze lições sobre a história. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008.

REIS, José Carlos. Escola dos Annales – a inovação em história. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

SAID, Edward W. Cultura e Política. Tradução de Luiz Bernardo Pericás. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003.

SILVEIRA, Aline Dias. Cristãos, Muçulmanos e Judeus na Medievalística Alemã: reflexões “para um novo conceito de Idade Média”. Revista Aedos. UFRGS, pp. 403-411, 2009.


[1] Mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná. Membro discente do NEMED (Núcleo de Estudos Mediterrânicos) e sob orientação da Professora Doutora Marcella Lopes Guimarães.

[2] DUBY, Georges. Ano 1000 ano 2000: na pista de nossos medos. Tradução Eugênio Michel da Silva, Maria Regina Lucena Borges-Osório; revisão do texto em português Ester Mambrini. São Paulo: Editora UNESP/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1999, p.9.

[3] ARÓSTEGUI, Julio. A pesquisa histórica: teoria e método. Tradução Andréa Doré. Bauru, SP: Edusc, 2006, p.91.

[4] Segundo Ibn Khaldun: “A História se propõe, como verdadeiro objetivo, fazer-nos compreender o estado social do homem, isto é, a civilização, e explicar-nos os fenômenos que estão ligados naturalmente com ela, a saber: a vida selvagem, a humanização dos costumes, o espírito de família e de casta, os diversos tipos de superioridade que os povos conseguem obter uns sobre os outros e que dão origem aos impérios e as dinastias, a distinção dos grupos e dignidades, as ocupações a que os homens dedicam seus trabalhos e seus esforços, tais como as profissões lucrativas, os ofícios de que se vive, as ciências, as artes; enfim, todas as modificações que a natureza das coisas pode operar no caráter da sociedade”. In: KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os Prolegômenos (tomo I). Tradução integral e direta do árabe por José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia, 1958-1960, p.85.

[5] ARÓSTEGUI, Julio. A pesquisa histórica: teoria e método. op. cit., p.93.

[6] KHALIDI, Tarif. Arabic historical thought in the classic period. New York: Cambridge University Press, 2004, p.226-227.

[7] ARÓSTEGUI, Julio. A pesquisa histórica: teoria e método. op. cit., p.93-95.

[8] Idem, p.95.

[9] PROST, Antoine. Doze lições sobre a história. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008, p.55.

[10] KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os Prolegômenos (tomo I). Tradução integral e direta do árabe por José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia, 1958-1960, p.10.

[11] BLOCH, Marc Leopold Benjamin. Apologia da história, ou, O ofício de historiador. Tradução André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p.77-78.

[12] PROST, Antoine. Doze lições sobre a história. op. cit., p.64.

[13] KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os Prolegômenos (tomo I). op. cit., p.10.

[14] Idem, p.67.

[15] ARÓSTEGUI, Julio. A pesquisa histórica: teoria e método. op. cit., p.95.

[16] KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os Prolegômenos (tomo I). op. cit., p.101.

[17] Conforme José Carlos Reis: “Essa expressão tem, a nosso ver, dois sentidos: pode querer dizer ‘tudo’ e ‘todo’. No primeiro sentido, seria a consideração de que ‘tudo é história’, não havendo mais regiões que seriam interditadas ao historiador; no segundo, seria a ambição de apreender o ‘todo’ de uma época, seria uma abordagem holística de uma sociedade, o que levaria, talvez, a uma contradição com a história-problema”. In: REIS, José Carlos. Escola dos Annales – a inovação em história. São Paulo: Paz e Terra, 2000, p.78.

[18] KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os Prolegômenos (tomo I). op. cit., p.67.

[19] ARÓSTEGUI, Julio. A pesquisa histórica: teoria e método. op. cit., p.96.

[20] FEBVRE, Lucien. Combates pela história. Tradução de Leonor M. Simões e Gisela Moniz. Lisboa: Editorial Presença, 1987, p.31.

[21] KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os Prolegômenos (tomo I). op. cit., p.67.

[22] CARDOSO, Ciro Flamarion. Um historiador fala de teoria e metodologia: ensaios. Bauru, SP: Edusc, 2005, p.168.

[23] KHALDUN, Ibn. Muqaddimah – Os Prolegômenos (tomo I). op. cit., p.11.

[24] Said nos indica: “Segundo Huntington, o desafio para os formuladores de política do Ocidente é assegurar que o Ocidente se torne mais forte e resista a todos os outros, ao Islã em particular. Mais perturbadora é sua presunção de que sua perspectiva, ou seja, examinar o mundo inteiro desvinculando de ligações comuns e de lealdades escondidas, é a correta, como se todo mundo estivesse correndo de um lado ao outro em busca das respostas que ele já encontrou. Na realidade, Huntington é um ideólogo, alguém que quer transformar ‘civilizações’ e ‘identidades’ no que elas não são: entidades fechadas, lacradas, que foram expurgadas da miríade de correntes e contracorrentes que animam a história humana, e que ao longo dos séculos tornaram possível para essa história incluir não apenas guerras de religião e conquista imperial, mas também ser uma história de trocas, fertilização mútua e compartilhamento. Essa história menos visível é ignorada, na ânsia de dar ênfase de forma grotescamente comprimida e restrita aos conflitos que, segundo: a teoria do ‘choque de civilizações’, seriam a realidade”. In: SAID, Edward W. O choque da ignorância. Cultura e Política. Tradução de Luiz Bernardo Pericás. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003, p.43.

[25] SAID, Edward W. O choque da ignorância. Cultura e Política. Tradução de Luiz Bernardo Pericás. São Paulo: Boitempo Editorial, 2003, p.46-47.

[26] CARRASCO, Diego Melo. A modo de introducción: Europa y El Islam, dinâmicas de encuentro y desencuentro. In: CARRASCO, Diego Melo; ASLA, Fernando Laiseca. Europa y el Mediterráneo Musulmán. Dinámicas de encuentro e desencuentro. Viña del Mar/Chile: Ediciones Altazor, 2010, p.19.

[27] SILVEIRA, Aline Dias. Cristãos, Muçulmanos e Judeus na Medievalística Alemã: reflexões “para um novo conceito de Idade Média”. Revista Aedos. UFRGS, p. 405, 2009.