ISSN 1807-1783                atualizado em 11 de maio de 2011   


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O Livro Didático e o Professor de História: Divergências e Convergências na Educação

por Alexandre Vieira da Silva Melo

Sobre o autor[1]

Não é de hoje que se discute o livro didático (LD), o professor de História, e a importante relação deles para a educação brasileira. A real função do educador dentro da sala de aula é pauta em textos acadêmicos, não apenas em cursos de educação, mas também em diversas áreas do conhecimento científico. Para muitos, o livro didático seria um vilão, para outros um auxiliador na tarefa do professor. Entretanto, até que ponto o docente pode se valer do uso do LD? Será que este obedece aos parâmetros necessários para a formação de um conhecimento firme aos discentes brasileiros?

O LD é usado no Brasil desde a década de 1930, com o apoio do governo, e desde então se tornou item indispensável nas salas de aula brasileiras. É importante ressaltar que o LD é considerado o mais influente artifício no processo de aprendizagem de História, tanto no Ensino Fundamental, quanto no Médio. A praticidade e sistematização dos conteúdos da disciplina acarreta o despertar dos alunos à curiosidade sobre os assuntos tratados em suas páginas. Observando desta forma, o livro didático torna-se um utensílio de peso no tocante à educação, entretanto novos estudos destacam os cuidados que o educador deve tomar para evitar o uso exagerado do livro em classe.

Ezequiel Silva destaca que “[...] para uma boa parcela dos professores brasileiros, o livro didático se apresenta como uma insubstituível muleta. [...] a estes professores [...] sem a adoção do livro didático, não há como orientar a aprendizagem.”[2] A extrema dependência do LD tem empobrecido os conteúdos das aulas de História em todo o país, já que os educadores se valem do uso de uma única fonte, no caso um só livro, que acaba tornando-se um manual da “verdade absoluta”. Como reflexo, os alunos não constroem uma visão crítica sobre a História, tornando-se meros copiadores dos conceitos abordados no livro didático adotado em sua classe. Esta situação ocorre não somente pela má formação dos professores brasileiros, mas também pela eminente falta de estrutura pedagógica nas escolas públicas do Brasil.

Nicholas Davies comenta, em um de seus artigos, o problema infeliz que envolve a precária estrutura das escolas brasileiras: “Uma escola sem bibliotecas e outros recursos pedagógicos – em que o professor carece de sólida formação teórica e metodológica e condições de estudar para preparar aulas mais ricas [...] - acaba por atribuir ao LD um peso enorme.” [3] E de fato, a carência de livros específicos disponíveis nas bibliotecas, (os chamados paradidáticos) dificulta ainda mais a elaboração de aulas mais ricas e bem estruturadas com conhecimentos mais detalhados. Além disso, essa fragilidade também atinge os alunos, que terminam impossibilitados de buscarem mais detalhes sobre determinado assunto em outras referencias bibliográficas. Associado a isso surge a má remuneração dos professores, questão que já é um problema antigo no país, impossibilitando a compra de outros livros e materiais que não estão ao alcance dos docentes nas pobres bibliotecas públicas do país.

É importante que o educador possua além de um bom livro didático, a segurança do conhecimento a ser aplicado em classe, e também uma didática pedagógica que incentive o alunado a buscar o saber. Lembrando que as práticas didáticas mudam de turma em turma, e o professor deve sentir, através do convívio com os alunos, quais as características de determinada turma, e a partir daí elaborar um plano de aulas que seja triunfante para esta finalidade.

O conteúdo do LD é outra preocupação. Atualmente ele deve estar de acordo com o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), um guia elaborado pelo Governo Federal, desde 1985, cuja finalidade é uma análise técnica de livros e coleções didáticas para, a partir de alguns pressupostos estabelecidos pelos pesquisadores, auxiliar o professor na escolha do LD que será utilizado no ano letivo. O problema é que nem sempre é o educador quem escolhe o livro a ser trabalhado, em diversos casos, o livro é imposto ao professor pelas instituições de ensino, sejam elas públicas ou privadas. Como consequência, o LD imposto prejudicará o educador, pois ele poderá abordar o programa histórico de uma forma que se choque com as linhas pedagógica e ideológica defendidas pelo docente.

Em outros casos, é atribuída ao educador, a oportunidade da escolha do livro didático, contudo a seleção não é bem sucedida. Bárbara Freitag reflete sobre o assunto:

“A desinformação do professor decorrente dos seus próprios hábitos – não ler, ou pouco ler – são [...] uma possível explicação para a dificuldade [...] de avaliar e escolher o seu livro didático criteriosamente, justificando mal sua escolha, ou não a justificando de todo.” (FREITAG. 1997:114)[4]

Selva Guimarães Fonseca destaca outro ponto de preocupação com relação aos conteúdos dos LDs que é a inevitável simplificação dos conteúdos históricos. Sobre este assunto ela afirma: “A necessidade de simplificação, para alguns especialistas, tem uma função didática: auxiliar na implementação dos programas de ensino, nos planejamentos de unidade e na sequencia lógica dos conteúdos.”[5] Entende-se portanto que esta simplificação tem como intuito a possibilidade de concepção, pelos alunos, de “toda a História” dentro das páginas do LD, algo que é simplesmente impossível. A autora critica tais atitudes, pois estas determinam o que fica e o que sai da memória coletiva, de acordo geralmente, por critérios políticos.

Há, entretanto, professores que se preocupam com o a situação desta dependência do LD, aderindo ao uso de complementos paradidáticos, uma alternativa bastante interessante e que proporciona uma maior gama de conhecimento.

A Nova História Cultural abriu um enorme leque para o mercado da História, revistas de História, filmes, canais de TV por assinatura dedicados à ciência histórica e inúmeros títulos de livros paradidáticos, que contemplam as especificidades históricas, e até mesmo, de uma forma divertida. O problema maior é a situação dos alunos carentes das escolas públicas, que não possuem condições para adquirir estes paradidáticos, e que geralmente não são distribuídos pelo governo.

Hoje a venda de livros didáticos é o seguimento de maior lucro nas editoras nacionais, o mercado editorial brasileiro cresceu muito nos últimos anos, principalmente por conta da “obrigatoriedade” do LD em classe. Neste assunto, o Estado, com a política de distribuição de materiais didáticos para as escolas públicas do país, é o grande responsável por este “boom” editorial, sendo justamente ele o maior comprador, e grande parceiro das grandes editoras brasileiras. Um negócio bastante rentável, tanto para editoras quanto aos autores, visto que “um autor pode vender um milhão de livros de uma só vez”[6]. E é a partir desta relação comercial entre o Estado e as editoras que surge outro problema: A falta de variedades entre os LDs, já que todos devem seguir o PNLD apresentado pelo Governo do Brasil. “Desta forma, o Estado interfere no processo de produção do livro didático, [...] na fase de planejamento da mercadoria livro, determinando o seu conteúdo, e [...] no final do processo produtivo, transformando-se em comprador.”[7]. Fica então a questão: Será que o PNLD realmente resolve o problema dos fracos conteúdos dos LDs?

É inegável a preocupação dos profissionais da educação em melhorar a qualidade dos livros no ensino do Brasil. Por exemplo, após as severas críticas, que nos últimos anos vem acompanhando a elaboração dos exercícios propostos pelos autores dos livros didáticos, gradativamente as mudanças estão acontecendo. Os exercícios de “fixação” estão cedendo espaço para questões mais construtivas e que estimulem o aluno a pensar. Também neste aspecto, pode-se perceber que os autores já associam o tema histórico com o contexto social atual na construção das atividades propostas. Já são encontrados livros que trazem, além de exercícios bem elaborados, algumas sugestões de debates reflexivos em classe.

A inserção de temas que destaquem a cultura afro-brasileira e indígena dentro dos LDs também merece destaque neste artigo, pois apesar dos conteúdos dos livros, em sua grande maioria, ainda estarem atados aos padrões “eurocêntricos”, a cultura e historia de figuras étnicas tão importantes para a formação nacional brasileira finalmente receberam um lugar, no LD, ainda que feito por obrigatoriedade.

A cada dia surgem novas práticas que visam uma formação crítica e consciente do alunado, e é neste emaranhado de situações que envolvem o livro didático, o professor e o aluno que a educação brasileira está inserida. Uns defendem a reformulação dos conteúdos dos Livros, outros a extinção dos mesmos. Criticas ao LD sempre existirão, entretanto a condenação dele é impensável. Deve-se entender como ele pode se constituir em um auxiliador e não em um formador de conhecimento. É inegável a sua importância no trabalho do profissional da educação, cabe no entanto saber lidar com os conteúdos a serem trabalhados durante o ano letivo, proporcionando uma perspectiva crítica do assunto estudado, diversificando as fontes de pesquisa, observando não apenas uma visão dos fatos, mas analisando todo um contexto histórico social da época estudada, e nunca defendendo verdades absolutas, como bem argumentou Roger Chartier, ao destacar o objetivo da História Cultural como o de “[...] identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler”[8] Por fim, cabe às autoridades responsáveis pela educação no país, a melhor estruturação das escolas e bibliotecas públicas, juntamente com a valorização do educador, e principalmente, a sua melhor remuneração, tendo vista a grande responsabilidade exercida por ele na formação do povo brasileiro, além de um aprimoramento mais do que necessário nos conteúdos dos livros didáticos do país.

REFERÊNCIAL BIBLIOGRÁFICO:

BRASIL/SECRETARIA DA EDUCAÇÃO BÁSICA. Guia de livros didáticos: PNLD 2010: História, Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2009.

CHARTIER, Roger. A História Cultural Entre Práticas e Representações. 2ª Edição, Lisboa: DIFEL, 2002

DAVIES, Nicholas. Livro didático: apoio ao professor ou vilão do ensino de história? [on line] Site:http://www.uff.br/departamentos/docs/_politica_mural/livro_didatico.doc

Acessado e capturado em 16 /09/2009

ÉPOCA. Maior segmento do mercado editorial é o de livros didáticos. [on line] 2007

Site: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/1,,EDG79649-5856,00.html Acessado e capturado em 14/09 /2009

FONSECA, Selva Guimarães. Didática e prática de ensino de história: Experiências, Reflexões e Aprendizados. 4ª ed. São Paulo: Papirus Editora, 2005

FREITAG, Bárbara. et al O Livro didático em questão. 3ª ed. São Paulo: Cortez Editora, 1997

SILVA, Ezequiel T da. Livro didático: do ritual de passagem à ultrapassagem. In Em aberto, [on line] Brasília, ano 16, n 69 jan/mar. 1996

Site: http://www.rbep.inep.gov.br/index.php/emaberto/issue/view/76 Acessado e capturado em 12/09/2009


[1] Graduando do curso de Licenciatura Plena em História/UFRPE, integrante do Grupo de Estudo em História Social e Cultural (Gehisc.)

[2] Ver em SILVA, Ezequiel T da. Livro didático: do ritual de passagem à ultrapassagem. In Em aberto, [on line] Brasília, ano 16, n 69 jan/mar. 1996

[3] Ver em Livro didático: apoio ao professor ou vilão do ensino de história? [on line] 2009:2

[4] FREITAG, Bárbara. et al O Livro didático em questão. 3ª ed. São Paulo: Cortez Editora, 1997

[5] FONSECA, Selva Guimarães. Didática e prática de ensino de história: Experiências, Reflexões e Aprendizados. 4ª ed. São Paulo: Papirus Editora, 2005:53

[6] Em ÉPOCA. Maior segmento do mercado editorial é o de livros didáticos. [on line] 2007

[7] FREITAG, Bárbara. et al O Livro didático em questão. 3ª ed. São Paulo: Cortez Editora, 1997:52

[8] CHARTIER, Roger. A História Cultural Entre Práticas e Representações. 2ª Edição, Lisboa: DIFEL, 2002:17