ISSN 1807-1783                atualizado em 22 de novembro de 2011   


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A relação entre narrativa e pesquisa na escrita da história

por Jussara Rodrigues da Silva

Sobre a autora[1]

Introdução

Falar de narrativa parece comumente cômodo desde que não estejamos a lidar com a ciência. Quando a indagação acerca do caráter narrativo sai da ficção para ocupar outro campo de estudos como a história, por exemplo, logo surgem suspeitas. Tal postura advém do fato de o interesse pela dimensão narrativa vir acompanhado do questionamento acerca da cientificidade da história.[2] Foi em nome do postulado científico da história que os Annalles se opuseram à história dita positivista, identificada com os fatos e foi também em nome desse mesmo postulado que a história passou a ser questionada. Tanto uma posição quanto a outra, no entanto, não chegaram a refletir efetivamente sobre o aspecto narrativo da história. Em nome de tal postulado, a história passou a preocupar-se muito mais com a pesquisa e com a definição de um método do que com a narrativa histórica.

O resultado da incursão da história nessa saga em busca de um tratamento científico fez com que a pesquisa histórica ganhasse um peso impressionante enquanto que a apresentação da mesma, ou seja, a exposição dos seus resultados ficou relegada a segundo e último plano. A pesquisa empírica acabou se tornando um refúgio para os historiadores se defenderem das críticas à disciplina, daí advêm todo o cuidado e atenção com que passou a ser tratada. A narrativa, por outro lado, foi vista por muitas gerações de historiadores como espaço de instabilidade, como uma instância que de certa forma não cabia a eles refletirem. A obrigação do historiador era dizer o que aconteceu, mas o como dizer não era objeto de reflexão. A história precisa ser escrita, mas a forma de escrevê-la nem sempre esteve na agenda dos historiadores.

A preocupação dos historiadores com a narrativa histórica saiu da formatação historiográfica para as regras da pesquisa, o que não impediu que em momentos diferentes alguns teóricos tivessem se colocado a fazer tal reflexão.

Estudos importantes têm sido feitos acerca da escrita da história, em todas as suas dimensões – incluída aí a narrativa histórica - que tem auxiliado os historiadores a lidarem com a difícil questão da relação entre pesquisa e escrita ou pesquisa e formatação historiográfica, que desemboca em questões mais específicas como o estilo [3] e a questão do caráter de verdade do discurso histórico. Entre os autores que tem contribuído para o debate destaco apenas alguns cujos trabalhos considero mais centrais para a discussão que proponho como Hayden White, Lawrence Stone, Peter Gay, Roland Barthes, Paul Veyne, Michel de Certeau, Paul Ricoeur, Jörn Rüsen, François Hartog.

A preocupação com a escrita da história e com a apresentação dos resultados da pesquisa, no entanto, não é privilégio dessa geração. Em outras épocas foram elaborados trabalhos significativos que abordavam tal questão. O objetivo deste ensaio é, portanto, discutir como a relação aparentemente paradoxal entre pesquisa e escrita tem sido enfrentada pelos historiadores. Os estudos sobre essa dimensão não foram feitos apenas com a reflexão de historiadores, mas privilegio aqueles que a discutem no âmbito historiográfico.

O percurso a ser traçado não segue uma seqüência cronológica, nem mesmo o pertencimento a uma tradição específica. A ordenação da discussão parte das contribuições de pensadores de outros campos cujos trabalhos foram significativos para que a dimensão narrativa voltasse a ocupar a agenda dos historiadores. Elenco, portanto, dois autores que não pertencem ao campo da história, White e Barthes, mas que discutiram as formas da historiografia e o real como referencial da história no âmbito narrativo respectivamente.

A escolha dos autores dá-se em virtude da combinação entre discutir no caso de White a narrativa como forma tradicional de apresentação dos resultados da pesquisa pelos historiadores e, no caso de Barthes de tocar exatamente no ponto que comumente é visto como o diferencial entre a narrativa histórica e a ficcional, ou seja, o real como referencial e, ao mesmo tempo a própria capacidade da narrativa de expressar esse real.

Concomitante a tais reflexões ocorreram discussões que buscaram solucionar ou pelo menos se atentaram para as dimensões narrativa e investigativa no âmbito da história e adequada aos objetos de estudo dos historiadores. Passo então a demonstrar como alguns trabalhos preocupados com a escrita da história propuseram debater a relação pesquisa e narrativa, forma e conteúdo levando em consideração a especificidade da narrativa histórica e a pretensão de verdade em seu discurso como referencialidade própria à história.

A narrativa histórica e o “efeito de real” da narrativa: um diálogo com Hayden White e Roland Barthes

O que é narrar algo? Ou o que é narrativa? Ora, não precisamos ser especialistas para darmos ao menos uma resposta básica para essas duas perguntas. Mas ao tratarmos de um gênero específico, como é o caso da narrativa histórica, a definição de narrativa acaba por abrigar mais de uma possibilidade.

No entanto, se considero que a narrativa histórica é um gênero específico, o que a diferencia das outras narrativas? Tal questionamento é fundamental para uma reflexão que toma a própria história e seu estatuto de disciplina científica como problema de pesquisa. Esse movimento, reflexivo dentro da própria disciplina histórica instigou a discussão, por parte dos historiadores e de outros profissionais, sobre o que é a história e qual o papel do historiador.

A pergunta que se faz então é até que ponto o debate sobre a narrativa está relacionado com a função da história, seu estatuto e com a função do historiador? Neste trabalho adoto narrativa em seu sentido usual, ou seja, uma organização temporal, uma realização lingüística que tem por objetivo comunicar a um ou mais interlocutores eventos ou acontecimentos. Mas não somente, é essencial para a compreensão do que se pretende discutir aqui que a narrativa também seja entendida como operação basilar da consciência histórica, que ela seja vista como meio de correspondência com as carências de orientação da vida prática e principalmente como constituinte da relação dos historiadores com a sociedade e com seu público alvo.[4] Por isso, não discutir a dimensão narrativa da história é, por conseguinte, não prestar conta de nossas pesquisas e, principalmente, não nos importarmos para com quem escrevemos e da forma com que apresentamos os resultados de nossa pesquisa.

Considerar a narrativa como integrante da consciência histórica indica uma distinção da narrativa histórica das demais narrativas, uma vez que a primeira só é considerada histórica quando articulada com um lugar social da operação científica e quando institucional e tecnicamente ligada a uma prática de desvio.[5]

A distinção, contudo, entre narrativa histórica e outros tipos de narrativa permaneceu por um bom tempo alojada na dicotomia forma/conteúdo. Presumia-se que a obrigação da história era com o conteúdo, era mostrar o que aconteceu que o historiador apenas mostrava a verdade e que por isso se distinguia dos demais trabalhos que eventualmente se dirigissem ao passado. O compromisso com o real e com a verdade do passado servia como referencialidade para legitimar o discurso histórico.

Dois trabalhos, em especial, trouxeram a tona de forma significativa o debate sobre a relação entre ciência e a arte narrativa no âmbito da história. O primeiro deles foi o Meta-história publicado em 1973 e logo depois, em 1978, com a publicação de Trópicos do discurso. O primeiro trata da análise do pensamento histórico dos historiadores e filósofos da história mais representativos do século XIX: Hegel, Marx, Nietzsche e Croce como referentes teóricos e Michelet, Ranke, Tocqueville e Burckhardt como referentes propriamente historiográficos. A obra é em seu nível mais aparente um tratado de história intelectual em seu sentido mais clássico: uma exposição do pensamento e o influxo de seus autores através de uma análise contextualizada de seus escritos.

O ponto que mais polêmica em torno da obra de White é a aproximação que o autor faz entre literatura e história, entre a ciência histórica e a arte narrativa.

Sua definição do que são as narrativas históricas tocou na ferida de historiadores que consideram suas obras como o próprio passado ou como a verdade do passado por que utilizaram um método científico. Segundo White:

De um modo geral houve uma relutância em considerar as narrativas históricas como aquilo que elas manifestamente são: ficções verbais cujos conteúdos são tanto inventados quanto descobertos e cujas formas têm mais em comum com seus correspondentes na literatura do que com os seus correspondentes nas ciências.[6]

Ao identificar a forma de narração da história com a literatura, White postulou uma convergência disciplinar entre história e crítica literária.

A tese tinha como conseqüência que a única forma de apreender o passado seria por meio de um relato: a disciplina histórica se identificava com a narração e se distanciava dos modelos científicos como marxismo, estruturalismo e quantitativismo.

As conseqüências teóricas e práticas disso foi em primeiro lugar o que Stone denominou o “ressurgimento da narrativa” [7] os historiadores dedicaram maior atenção aos campos fronteiriços da história com a crítica literária e a invasão da disciplina por boa parte das teorias pós modernas associadas ao giro lingüístico, o giro cultural, o pós estruturalismo e o desconstrutivismo.[8]

A afirmação de White, contudo, provocou ainda outras conseqüências principalmente entre aqueles que fizeram uma má leitura de sua obra e que não souberam interpretar o que ele pretendia com tal afirmação.

A aproximação entre história e literatura promovida por White não tencionava, ao menos em minha leitura, criar uma dicotomia entre história e ciência. Em nenhum momento o crítico declara que a história seja literatura. O que se afirma é que quanto à forma, ambas as disciplinas se aproximam. Literatura e história compartilham algo que não pode ser negado: a dimensão narrativa.

White, contudo, tinha consciência de que ao tratar da narrativa histórica estava entrando em um terreno de disputa e de significação do que realmente era a história enquanto disciplina. Em um artigo publicado em 1991 na revista Estudos Históricos, White endossa tal conscientização:

Percebo que ao caracterizar o discurso histórico como interpretação e a interpretação histórica como narrativização, estou tomando posição num debate sobre a natureza do conhecimento histórico que contrapõe "narrativa" e "teoria", à maneira de uma oposição entre um pensamento que permanece em grande parte "literário" e até mesmo "mítico" e um pensamento que é ou aspira a ser científico. Mas é preciso sublinhar que estamos aqui considerando a questão, não dos métodos de pesquisa que deveriam ser usados para investigar o passado, e sim da escrita da história, do tipo de discursos realmente produzidos pelos historiadores no curso da longa carreira da história como disciplina. E o fato é que a narrativa sempre foi e continua sendo o modo predominante da escrita da história.[9]

No fundo, o que White diagnostica não é mais que a complexidade do acesso, o conhecimento e a narração do passado. Pela primeira vez, um teórico da história não colocava como principal questão o grau de realismo, de veracidade, de cientificidade de uma obra histórica – todos aspectos materiais – mas que baseava sua argumentação em aspectos formais, os que mais a assimilava às obras literárias. Não há lugar, portanto, para debater se a história é uma ciência ou não.[10]

Outro trabalho que ocupa um lugar importante nessa discussão é o Discurso da história de Roland Barthes. E por que ele ocupa tal posição nesse debate? Porque assim como White, embora não trace uma tropologia dos enunciados históricos, discute a narrativa histórica no âmbito da referencialidade do real no discurso histórico ou o seu “efeito de real”.

Ora, a diferenciação comum entre narrativa histórica e ficcional não é justamente o caráter de verdade que as obras históricas guardam? O que Barthes discute é exatamente esse “real”. Isso porque se pressupunha que o resultado do trabalho do historiador em sua materialidade constituído enquanto obra era a própria verdade do passado, era o próprio passado. Para Barthes:

(...) esse mesmo “real” passa a ser a referência essencial da narrativa histórica, que se supõe que relate “aquilo que se passou realmente”: (...) o “real concreto” torna-se a justificativa suficiente do dizer. (...) Tudo isso diz que ao “real” é reputado bastar-se a si mesmo, que é bastante forte para desmentir qualquer idéia de “função”, que sua enunciação não precisa ser integrada numa estrutura e que o “ter-estado-presente” das coisas é um princípio suficiente da palavra.[11]

A indagação de Barthes reside na questão do real com relação não somente às narrativas históricas, mas no tocante à narrativa em geral visto que ela é um modo de discurso presente tanto nas culturas históricas quanto nas culturas não históricas, e que por ela predominar nos discursos míticos e ficcionais carregaria uma carga de suspeita quanto a possibilidade de dizer o real. A acusação do autor quanto a historiografia do século XIX advêm do fato dela ver na “relação pura e simples dos fatos” a melhor prova desses fatos, e instituir a narrativa como significante privilegiado do real. Fecha-se, assim, segundo Barthes, o círculo paradoxal: “ a estrutura narrativa, elaborada no cadinho das ficções (através dos mitos e das primeiras epopéias) torna-se, a uma só vez, signo e prova da realidade.[12] (...) a narração histórica morre porque o signo da História é doravante menos o real do que o inteligível”.[13]

A postura de Barthes toca em dois pontos que pertencem também ao campo da história: a narrativa e a pretensão de real da história. Ao suspeitar da própria capacidade da narrativa em representar o real, Barthes coloca em xeque não apenas a referencialidade do discurso histórico, mas também a forma tradicional – a narrativa – de apresentação dos resultados das pesquisas dos historiadores.

Tal posicionamento, no entanto, contribui para que os historiadores advoguem medidas alternativas e até mesmo façam uso da teoria literária para tornarem mais inteligíveis os seus trabalhos. Essas alternativas têm de ser elaboradas no âmbito da própria história e das discussões sobre a escrita da história relacionando-a com a ciência histórica. O que se deseja, portanto, é uma teoria crítica elaborada a partir da própria necessidade dos historiadores, levando em consideração as especificidades do campo e adequada ao seu objeto de estudo.

Veremos agora como que o problema da relação da narrativa histórica com a pesquisa histórica tem sido pensado por aqueles que o discutem conforme as especificidades do ofício do historiador e como essa relação, antes de estabelecer uma dicotomia, é tomada como condição necessária para a realização do fazer historiográfico.

Pesquisa e escrita da história: as contribuições de Certeau, Ricoeur, Rüsen e Hartog

Na década de 1970 viria à luz um livro cuja indagação de um dos capítulos seria definitiva para que os historiadores enfrentassem de maneira consistente a acusação de que a história era apenas um relato e que não era possível que ela fosse ciência já que seu objeto – o homem – não se explica.[14]

O livro A escrita da história de Michel de Certeau vem não só afirmar a cientificidade da história, mas também busca refletir sobre o ofício do historiador e sua relação com a sociedade. A pergunta formulada por Certeau: o que é que faz o historiador quando se torna escritor, incitou debates no interior da disciplina e fora dela que tentaram responder à pergunta. Afinal, escrever a história e fazer a história seriam coincidentes?

É preciso retomar a noção de operação historiográfica formulada por Certeau ao definir o que é um trabalho historiográfico:

Encarar a história como uma operação será tentar, de maneira necessariamente limitada, compreendê-la como a relação entre um lugar (um recrutamento, um meio, uma profissão, etc.), procedimentos de análise (uma disciplina) e a construção de um texto (uma literatura). É admitir que ela faz parte da "realidade" da qual trata, e que essa realidade pode ser apropriada "enquanto atividade humana", "enquanto prática". Nesta perspectiva, gostaria de mostrar que a operação histórica se refere à combinação de um lugar social, de práticas "científicas" e de uma escrita .[15]

A definição do que faz o historiador para Certeau combina três componentes: o lugar social, a prática e a escrita. A união dos três componentes atestaria a produção de um texto propriamente historiográfico.

Ora, tal afirmativa já indica uma ruptura com o posicionamento daqueles que consideravam que a narrativa não deveria ser objeto de reflexão dos historiadores e que sua preocupação deveria se concentrar na execução de um método que garantisse a cientificidade da história.

A partir da noção de operação historiográfica é possível pensar no ofício do historiador como relação íntima com a sociedade da qual ele pertence uma vez que depende das condições e regras do meio, respeita as especificidades mesma do saber historiográfico e necessita da elaboração de um texto como forma de apresentar os resultados da pesquisa à sociedade ou ao público alvo a que se destina.

Como componente importante, a operação historiográfica de Michel de Certeau propõe articular duas dimensões que há representou um problema na tarefa dos historiadores, a saber a relação entre pesquisa e escrita, representada em muitos pontos como uma relação confusa entre cientificidade e arte historiográfica.

Em um estágio anterior, Ranke viu a formatação historiográfica do saber obtido na pesquisa como uma conseqüência automática da pesquisa. O que fez com que Rüsen se indagasse se a historiografia é função da pesquisa ou a pesquisa é função da historiografia?[16] A resposta para a pergunta pode ser encontrada mesmo na noção de operação historiográfica, uma vez que ambos os seus componentes são dependentes uns dos outros. Ou seja, nem a pesquisa é função da escrita e nem a escrita é função da pesquisa. É na união das duas dimensões que é possível fabricar um trabalho historiográfico. Discutir a escrita da história não significa, contudo, reduzir a história à sua dimensão retórico-discursiva. É pertinente, portanto, retomarmos aqui a definição de historiografia tal como definida por Ricoeur a partir de Certeau:

A fim de preservar a amplitude do emprego do termo historiografia, eu não designo escrita da história à terceira fase, mas fase literária e escritural, na medida em que se trata da exposição, da demonstração, da exibição da intenção da história colocada na unidade de suas fases, a saber, a representação presente das coisas ausentes do passado. A escrita, com efeito, é o limiar de linguagem que o conhecimento histórico desde sempre transpôs ao se afastar da memória para percorrer a tripla aventura do arquivamento, da explicação e da representação. A história é, de ponta a ponta, escrita. A este respeito, os arquivos constituem a primeira escrita com a qual a história é confrontada, antes de terminar ela mesma em escrita sob o modo literário.[17]

É preciso considerar, ainda com Ricoeur, que a intencionalidade da história em produzir um discurso verdadeiro sobre determinada realidade não deixa de estar presente em nenhuma de suas fases operatórias, do trabalho documental nos arquivos, passando pela configuração explicativa até a escritura propriamente dita. Disto decorre a referencialidade própria do regime historiográfico, traço distintivo do texto do historiador frente ao texto de ficção, e que, em última instância, estabelece os limites de uma leitura que incida unicamente em seu nível retórico: “[...] essa especificidade não pode ser identificada apenas no plano do funcionamento das figuras retóricas do discurso histórico, mas deve transitar através da prova documentária, da explicação causal e da tessitura em forma literária. Este triplo conjunto de fatores permanece sendo o segredo do conhecimento histórico”.[18]

Tanto Certeau quanto Ricoeur abordam a escrita da história não como a pesquisa ou como a escrita, mas como a união dessas dimensões que representam propriamente a especificidade do trabalho historiográfico.

A indagação acerca da relação aparentemente paradoxal entre pesquisa e apresentação da pesquisa, contudo, não é privilégio dessa geração composta por Certeau, Ricoeur e Rüsen. Em um momento anterior da evolução da ciência, pesquisa e apresentação podiam ser subsumidas em um conceito abrangente de método. Um bom exemplo disso é a primeira versão da Teoria da História de Droysen em que ele considerava a apresentação como uma operação cognitiva que poderia ser associada sem restrições à operação interpretativa.[19]

Da mesma maneira como tudo que move o nosso espírito exige a sua respectiva expressão para que se configure, assim também o que é historicamente pesquisado exige formas de apresentação (Heródoto, Historia, I, 1.), para que nessas formas a pesquisa forneça, por assim dizer, a prestação de contas de seu propósito e de seus resultados.[20]

A proposição de Droysen quanto à necessidade de apresentação dos resultados da pesquisa está pautada nas diversas dimensões da consciência histórica dos destinatários. O trabalho escrito, portanto, deve manter uma relação com a sociedade e com o público.

No entanto, quanto mais se refinava a análise do regramento do conhecimento histórico, que o define como processo de pesquisa, tanto mais se distinguia dele a apresentação, como tipo próprio. Essa distinção consiste no fato de que a pesquisa se refere por princípio aos conteúdos da experiência do passado e de que a apresentação histórica se dirige ao público do presente.[21] É preciso que não se perca de vista tal distinção. Evidentemente pesquisa e formatação historiográfica são atividades diferentes, mas devem ser entendidas como componentes do fazer histórico que define o ofício do historiador. Distingui-los é um mero artifício. Toda pesquisa tem por objetivo transformar-se me historiografia, não só porque seus resultados necessitam ser expressos em linguagem, mas também porque eles funcionam como componentes de uma história e assim são vistos. As questões resolvidas pela pesquisa estão sempre enquadradas em história. Inversamente, não há historiografia que não pretenda ser verdadeira, o que a remete forçosamente à pesquisa. Pesquisa e formatação historiográfica são dois processos distintos de um mesmo procedimento amplo e diferenciado de constituição narrativa do sentido da experiência histórica. Segundo Jörn Rüsen:

Por mais que a pesquisa e a historiografia se entrelacem ou sejam lados de uma mesma coisa, é perfeitamente plausível distingui-las como duas fases do processo histórico de conhecimento. Essa distinção se baseia nos dois princípios já mencionados: no princípio da relação com a experiência (que o conhecimento histórico mantém na pesquisa) e no princípio da relação ao público-alvo (na apresentação histórica). Ambos os princípios determinam aspectos formais do conhecimento histórico. Na pesquisa trata-se de uma forma cognitiva, de uma estrutura de pensamento, baseada nas regras dos procedimentos adotados para lidar com a experiência, ou seja, em princípios metódicos. Na apresentação, trata-se de uma forma expressiva, de formatação lingüístico-literária, baseada nas regras dos procedimentos adotados para lidar com o interesse histórico, ou seja, em princípios estéticos e retóricos.[22]

Jörn Rüsen aponta como com o desenvolvimento da ciência da história a pesquisa ganhou peso próprio no processo do conhecimento histórico. A formatação historiográfica dos resultados da pesquisa, no entanto, pareceu secundária, até mesmo mera função da pesquisa. A pesquisa por carregar o signo da confiabilidade passou a estar mais identificada com a ciência e a escrita permaneceu ainda atrelada ao âmbito literário e retórico.

Desde de meados dos anos de 1980, no entanto, verifica-se a emergência de uma preocupação historiográfica no interior da disciplina histórica, ao que, por sua vez, atribui-se uma crescente aproximação entre epistemologia e historiografia nos textos dos historiadores em que se buscava desfazer a sua identificação com a memória.[23]

Por outro lado, este movimento reflexivo costuma ser interpretado como uma reação à falência dos grandes modelos explicativos dos anos de 1960 e, de modo mais abrangente, como um dos sintomas da crise do regime moderno de historicidade.[24]

Neste caso, o que estaria em questão seria uma determinada forma de relação com o tempo, precisamente aquelas regidas pelas categorias de futuro e de progresso que, destituídas de sua força de sentido e de persuasão, cederiam lugar a um regime em que o presente, cada vez mais inchado, hipertrofiado, transforma-se em horizonte explicativo suficiente em si mesmo.

O que se vislumbra como perspectiva de análise decorrente desses debates é o Hartog chamou de epistemologia historiográfica ou historiografia epistemológica, que longe de se constituir em método ou subdisciplina remeteria a um questionamento cuja amplitude ultrapassaria os domínios da história.

A idéia de uma historiografia epistemológica marca, portanto, uma inflexão relevante para investigar como se produz o conhecimento histórico. A junção dos dois termos aponta para a possibilidade de um estudo de história da história em que obras e autores são tomados como objetos de uma reflexão teórica acerca das condições que presidem a construção do saber historiográfico. Isso só é possível porque embora se distinga o momento da pesquisa do momento da escrita como instâncias do trabalho do historiador, ambos só podem configura-se como propriamente históricos se articulados um com o outro. A noção de uma historiografia, ou escrita da história, epistemológica denota que a produção do conhecimento histórico demanda pesquisa e narrativa como componentes de um fazer científico. A narrativa pode então ser considerada como operação basilar da consciência histórica onde, por meio da constituição narrativa de sentido da experiência do passado, ela transforma passado em história.

É por meio da narrativa que a pesquisa histórica chega ao público a que se destina e é em consideração a esse público que os historiadores não podem abrir mão de refletir sobre essa dimensão ou fase da operação historiográfica. A apresentação historiográfica é um modo da constituição narrativa de sentido, no qual domina o fator da relação ao público-alvo, de dirigir-se a alguém mediante o pensamento histórico. É determinante desse modo e de sua especificidade científica o ponto de vista da relevância comunicativa. Ela diz respeito à receptividade das histórias. Ela consiste em que a recepção do saber histórico apresentado pela historiografia possa ocorrer, na vida prática, de modo sustentável.[25]

A passagem, contudo, da dimensão prática para a dimensão escrita é aparentemente estranha, pois, enquanto a primeira representa um trabalho quase que infinito nos arquivos instigada pela falta, a outra antes mesmo do seu início já pressupõe um fim.[26] Dito de outra maneira, através de um conjunto de figuras de relatos e de nomes próprios, toma presente aquilo que a prática percebe como seu limite, como exceção ou como diferença, como passa. Por estes poucos traços – a inversão da ordem, o encerramento do texto, a substituição de um trabalho de lacuna por uma presença de sentido – pode-se medir a "servidão" que o discurso impõe à pesquisa.[27] O que seria então a escrita, a inversão da pesquisa? Para responder tal perguntar deve-se indagar acerca do que é a tarefa do historiador e de que maneira as duas dimensões se relacionam. Mas é possível trazer de volta a indagação de Certeau que ainda permanece sem resposta: O que é que o historiador fabrica quando se torna escritor? E o próprio Certeau responde: Seu próprio discurso deve revelá-lo.[28]

Somente tendo em vista as características da disciplina histórica que essa relação pode ser pensada e refletida de maneira adequada aos objetos históricos.

A indagação acerca da narrativa na história não representa, no momento, um risco de perda da cientificidade da história como antes se afirmava. Refletir sobre como escrever a história é sim obrigação dos historiadores e a teoria literária tem indicado possibilidades para que os resultados da pesquisa histórica cheguem ao público de maneira inteligível e em acordo com as diferentes consciências históricas dos destinatários.

É impossível não afirmar que a pesquisa empírica continua a ser um dispositivo de legitimação do trabalho historiográfico e da disciplina histórica como uma disciplina científica. No entanto, os historiadores têm a consciência de que ainda nos dias de hoje a narrativa ainda é o meio mais utilizado por eles para a apresentação de seus resultados e também funciona como legitimadora de um trabalho que pretenda ser acolhido pela sociedade a qual pertence. A relação pesquisa/escrita, representada durante um bom tempo pela dicotomia ciência/literatura permanece, contudo, como uma relação paradoxal da escrita da história, mas mostra-se ao mesmo tempo necessária para o desenvolvimento do ofício do historiador. Não obstante, atualmente, convém evitar a alternativa improdutiva “ciência” ou “literatura” e, talvez, renovar a proposta rankeana da unidade de ciência e literatura.[29] Renová-la não no sentido de igualar dois campos tão distintos do conhecimento, mas fazer uso daquilo que a literatura e a história compartilham há tanto tempo: a narrativa.

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[1] Aluna de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em História Social das Relações Políticas da Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisadora do Laboratório de Estudos em História Políticas e das Idéias (LEPHI-UFES). Bolsista CAPES.

[2] LIMA, Luiz Costa. Aguarrás do tempo. Rio de Janeiro: Rocco, 1989, p. 16.

[3] GAY, Peter. O estilo na história. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 17.

[4] RÜSEN, Jörn. Tópica. In: História Viva. Teoria da história: formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: Editora da UnB, 2007, p. 15.

[5] CERTEAU, Michel de. A operação historiográfica. In: A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002, p. 92.

[6] WHITE, Hayden. Teoria literária e escrita da história. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, Vol. 7, n. 13, 1994, p. 98.

[7] STONE, Lawrence. O ressurgimento da narrativa. Revista de História. N - 2/3, IFCH, UNICAMP, 1991, p. 03.

[8] AURELL, Jayme. Hayden White y La naturaleza narrativa de la historia. Anuário Filosófico. XXXIX(3), 2006, p. 03.

[9] WHITE, Hayden. Teoria literária e escrita da história. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, Vol. 7, n. 13, 1994, p. 03.

[10] AURELL, Jayme. Hayden White y La naturaleza narrativa de la historia. Anuário Filosófico. XXXIX(3), 2006, p. 13.

[11] BARTHES, Roland. O discurso da história. In: O rumor da língua. São Paulo: Brasiliense, 1988, p. 188.

[12] BARTHES, Roland. O discurso da história. In: O rumor da língua. São Paulo: Brasiliense, 1988, p .179.

[13] Ibidem, p. 180.

[14] VEYNE, Paul. Como se escreve a história. Trad. António J. da Silva Lisboa. Lisboa: Edições 70, 1983, p. 12.

[15] CERTEAU, Michel de. A operação historiográfica. In: A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002, p. 56.

[16] RÜSEN, Jörn. Tópica. In: História Viva. Teoria da história: formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: Editora da UnB, 2007, p. 19.

[17] RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas, São Paulo: Editora da UNICAMP, 2007, p. 171.

[18] RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Campinas, São Paulo: Editora da UNICAMP, 2007, p .323.

[19] RÜSEN, Jörn. Tópica. In: História Viva. Teoria da história: formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: Editora da UnB, 2007, p. 19.

[20] DROYSEN, Johann G. Manual de teoria da história. Trad. Sara Baldus e Julio Bentivoglio. Petrópolis: Vozes, 2009, p. 61.

[21] RÜSEN, Jörn. Tópica. In: História Viva. Teoria da história: formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: Editora da UnB, 2007, p. 20.

[22] Ibidem, p. 22.

[23] HARTOG, François. O século XIX e a história: o caso Fustel de Coulanges. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2003, p. 22.

[24] A noção de regime de historicidade tal como a define François Hartog denota os diferentes modos de articulação das categorias de passado, presente e futuro em uma formulação que modela nossos modos de dizer e de viver nosso próprio tempo. “Um regime de historicidade abre e circunscreve um espaço de trabalho e de pensamento. Ele ritma a escritura do tempo, representa uma ordem do tempo”. HARTOG, François. O tempo desorientado. Tempo e história. “Como escrever a história da França? Anos 90, Porto Alegre, N. 7, julho de 1997, p. 8.

[25] RÜSEN, Jörn. Tópica. In: História Viva. Teoria da história: formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: Editora da UnB, 2007, p. 28.

[26] CERTEAU, Michel de. A operação historiográfica. In: A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002, p. 93.

[27] CERTEAU, Michel de. A operação historiográfica. In: A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002, p. 93.

[28] Ibidem, p. 94.

[29] RÜSEN, Jörn. Tópica. In: História Viva. Teoria da história: formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: Editora da UnB, 2007, p. 20.