ISSN 1807-1783                atualizado em 08 de março de 2012   


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As vozes da CTMR: uma breve história da telefonia em Pelotas

por André Luís Borges Lopes

Sobre o artigo[1]

Sobre o autor[2]

A proposta deste artigo é reconstituir, ainda que resumidamente, a história da extinta Companhia Telefônica Melhoramento e Resistência (CTMR)[3] a partir dos depoimentos produzidos por alguns dos seus ex-funcionários. Estes relatos fazem parte do projeto de pesquisa denominado Museu de Vozes, que tinha por função constituir um banco de depoimentos orais sobre a CTMR[4].

O trabalho de construção desta pesquisa seguirá os princípios da micro-história em sua dimensão mais ampla, conferida por Ginzburg, utilizando-se do paradigma indiciário, que preconiza o mapeamento dos traços e vestígios, buscando chegar por meio de inferências mais amplas à totalidade. Conforme afirma Ginzburg, essa totalidade deve ser sempre buscada, argumentando o autor que, se as conexões entre os fenômenos por vezes não são possíveis de serem reconhecidas, existem sinais e indícios, que permitirão decifrá-la[5]. Nesse sentido, conforme Ginzburg, o trabalho do historiador se assemelha ao do médico e ao do detetive, pois tal como Freud ou Sherlock Holmes, o historiador recolherá sintomas, indícios e pistas que, combinados ou cruzados, permitirão a elaboração de inferências e deduções, desvelando assim significados.

A historiografia tradicional esteve durante muito tempo vinculada a história dos grandes vultos da nação e dos grandes líderes. Contudo, as constantes mudanças no campo da historiografia moderna tornaram possível aos historiadores a opção pela chamada "História vista de baixo", esta nova forma de "fazer-se a História" estava preocupada com as práticas e as concepções de mundo dos "homens comuns", das chamadas "classes populares", permitindo assim a recriação do passado a partir de pessoas simples[6]. Este novo posicionamento possibilitou que se resgatasse a ação dos indivíduos enquanto sujeitos da sua própria História. Com esta mudança de enfoque, os historiadores puderam ampliar seus estoques metodológicos e a oralidade foi novamente incorporada ao métier historiográfico[7].

A História Oral, enquanto metodologia de pesquisa, pode ser caracterizada como uma forma de captação de experiências de pessoas dispostas a falar sobre aspectos de sua vida, mantendo um compromisso com o contexto social mais amplo. A razão de ser desta história é exatamente a presença do passado no presente imediato das pessoas, por isso costuma-se dizer que a História Oral é sempre uma história do tempo presente, uma história viva[8]. No entanto, conforme nos lembra Bosi, "Lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com as imagens e idéias de hoje, as experiências do passado"[9].

Considerando-se a evocação do passado como substrato da memória, pode-se deduzir que em sua relação com a História, a memória constitui-se como uma forma de preservação e retenção do tempo, salvando-o do esquecimento e da perda. Mas esta preservação e retenção do tempo, é sempre mediada pela percepção no presente. Esta questão não é nova, ao longo do século XX vários pesquisadores se dedicaram ao estudo das relações entre a percepção e a memória.

O filósofo francês Henri Bergson (1859-1941), na tentativa de superar a dicotomia entre real e ideal, materialismo e idealismo, presentes em grande parte da tradição ocidental, sugere que toda percepção esta impregnada de lembranças. Aos dados imediatos e presentes de nossos sentidos, misturamos milhares de detalhes de nossa experiência passada. Na maioria das vezes, tais lembranças deslocam nossas percepções reais, das quais não retemos mais que algumas indicações, simples signos destinados a nos trazer à memória antigas imagens. Desse modo, o passado é incorporado continuamente pelo presente, para Bergson, a vida consiste num enrolar-se contínuo, visto que o passado cresce sem cessar a cada presente que ele incorpora em seu caminho, encerrando a imagem incessantemente crescente do passado e testemunhando a carga sempre mais pesada que arrastamos atrás de nós à medida que envelhecemos[10].

Em Matéria e memória, Bergson aprofunda seu conceito de memória, na tentativa de provar a realidade do espírito e da matéria[11]. Segundo este autor, a memória tem tanto uma dimensão material - visto que ela só é possível através da percepção - e outra espiritual, que vai além da materialidade herdada da percepção. Não há percepção sem memória, pois ela esta impregnada de lembranças, de milhares de detalhes de nossa experiência passada[12], desse modo, por mais breve que seja uma percepção, ela sempre ocupa uma certa duração, exigindo do sujeito um esforço de memória. É valido destacar que pela percepção se dá a materialidade da memória, haja vista que a percepção está tanto nos centros sensoriais, quanto nos centros motores do corpo, imagem-referência das outras imagens. Conforme Bergson, as imagens passadas completam a todo instante a experiência presente. Se há uma intuição quase instantânea, ela é ínfima em comparação com os acréscimos da memória na percepção[13].

Gaston Bachelard (1884-1962), por sua vez, continuou as premissas bergsonianas, na medida em que este pensador vê a concepção de tempo, como algo intrínseco ao sujeito, ou seja, como uma tendência que situa o tempo na alma - ou se preferir-mos - na consciência de cada indivíduo. Em Dialética da duração, este autor concebe uma nova interpretação a duração bergsoniana. Como ele mesmo diz, sua interpretação é fundar um "bergsonismo descontínuo", através da "Ritmanálise"[14].

Para Bachelard, a única realidade temporal é a do instante, de um tempo fundamentalmente descontínuo. Os fenômenos temporais não duram todos do mesmo modo e a concepção de tempo único corresponde a uma visão que não aprende a diversidade temporal dos fenômenos[15], segundo ele, ha lacunas na duração e a vida complexa baseia-se numa pluralidade de durações que não tem o mesmo ritmo, nem a mesma solidez de encadeamento, nem o mesmo poder de continuidade[16].

Com relação às lembranças que temos do passado, Bachelard afirma, seguindo Bergson, que nosso passado inteiro vela atrás de nosso presente. Nesse sentido, a diferença entre Bergson e Bachelard é que, no primeiro, a memória provém da duração contínua, ao passo que, no segundo, surge de uma duração carregada de intervalos e obedecendo a diferentes ritmos de duração.

A contribuição destes dois pensadores acrescenta-se as reflexões do sociólogo Maurice Halbwachs (1877-1945). Este autor nos alerta que as lembranças são imagens, que são construídas pelos materiais que estão, agora, a nossa disposição, no conjunto de representações que povoam nossa consciência atual; conforme Halbwachs, "se lembramos, é porque os outros, a situação presente, nos fazem lembrar: O maior número de nossas lembranças nos vem quando nossos pais, nossos amigos, ou outros homens, no-las provocam"[17], pois a memória do indivíduo, depende de seu relacionamento com a família, com a classe social, com a escola, com a igreja, com a profissão; em fim com os grupos de convívio e os grupos de referência peculiares a esse indivíduo[18]. Deste modo, Halbwachs nos mostra que a memória é um fenômeno coletivo, formado a partir de determinados quadros e/ou molduras sociais que são compartilhados pelos indivíduos no presente. Sendo assim, a memória é constantemente reconstruída e reavaliada.

As reflexões destes três pensadores são de uma importância impar para os historiadores da oralidade, pois eles nos chamam a atenção para a questão de que o passado, constantemente evocado pelos depoentes, é mais do que tudo, uma construção simbólica, necessária para a afirmação de seus lugares no mundo. Dessa Forma, nem o passado é passível de ser apreendido em sua totalidade, posto que concebido no campo da subjetividade, nem tampouco desliza, transcorre na lembrança, numa uniformidade temporal.

Contudo, mesmo sabendo de todos os impasses e ambigüidades que são característicos do trabalho de rememorização, a utilização dos relatos de vida é extremamente significativa, na medida em que eles adensam a compreensão de um período, revelando-nos uma atmosfera que é em si particular e que dificilmente poderia ser captada a partir de uma macroperspectiva da sociedade. Assim sendo, a utilização dos testemunhos orais nos permitem elucidar como a partir de uma escala micro, se manifestam os condicionantes da estrutura objetiva, aprofundando a análise e dando-lhe agora uma densidade interna, carregada pelas paixões, ilusões e sonhos daqueles que vivenciaram a época no qual se baseia o estudo em questão.

Em A invenção do cotidiano: artes do fazer I, Michel de Certeau coloca aos historiadores esta necessidade de assumir uma nova perspectiva diante da realidade, não de um olhar divino, totalizante ou panóptico, mas sim de uma perspectiva ao nível do solo, que de conta dos barulhos da rua, das diferentes falas dos transeuntes confundidas ao ruído dos automóveis. Uma história que não apague as diversidades e as contradições do mundo do vivido quotidiano[19].

O trabalho com os relatos orais dos ex - funcionários da CTMR nos propiciam este "outro olhar" sobre o processo de modernização da companhia. Através da análise destes depoimentos poderemos conhecer e avaliar suas percepções sobre o processo de automatização dos serviços telefônicos, bem como também, eles podem nos fornecer subsídios para avaliar o exato impacto da introdução desta nova técnica. Vejamos alguns destes depoimentos:

"Em 1957, entrei como funcionário de qualquer tipo de serviço simples, como trabalhar em valetas, fazer tubulação para os cabos, colocar cabos essas coisas assim, depois fui para o serviço de instalação. Lá eu consertava telefone e instalava"[20].

"Quando entrei (1939) eu era guria, a principio quase fiquei louca, mas aprendi em seguida. Não que eu não gostasse do serviço (...) Mas eu achava que tinha que saber tanto quanto as outras telefonistas. Mas aprendi rápido o serviço"[21].

"Entrei em 1956, eu não era daqui de Pelotas, eu era de fora. Entrei cavando de picareta. Naquele tempo, eu abria as valetas para botar os cabos subterrâneos. Eu comecei por ai (...) trabalhei mais ou menos uns quatro meses e daí passei para a manutenção e instalação dos telefones. Depois de um certo tempo fui trabalhar na instalação das redes"[22].

"Entrei para companhia em 1953, eu tinha 28 anos. Mas desde os 11 anos eu já sabia trabalhar. Eu tinha uma professora que trabalhava no centro telefônico, então eu a ajudava. Às vezes acontecia dela tá dando aula e o telefone chamava. Ela tinha que sair da aula para atender. Então eu ajudava ela, foi assim que eu aprendi o trabalho de telefonista"[23].

A leitura destes relatos nos permite refletir um pouco sobre o processo de recrutamento do pessoal que trabalhava na companhia. Durante os anos 40 e 50, o mercado de trabalho para os trabalhadores das telecomunicações estava em franca expansão devido a ampliação dos serviços telefônicos em várias cidades do país[24]. Entretanto, como a categoria dos profissionais da área de telefonia não estava regulamentada, havia uma grande carência de mão de obra especializada na função. Deste modo, verifica-se que um grande número dos recursos humanos da CTMR foi recrutado entre os próprios "quadros inferiores" da companhia; que após adquirirem certa experiência de trabalho, foram alçados a postos superiores. Uma outra reflexão é a de que muitas vezes, estes profissionais ao serem contratados não possuíam uma exata dimensão de como era efetuado o trabalho, deste modo o aprendizado do ofício, era realizado mediante ao desempenho prático da função.

No entanto, seria ingênuo pensarmos que uma companhia telefônica como a Melhoramento e Resistência, trabalhasse sem nenhuma lógica no recrutamento de seu pessoal, afinal ela operava segundo objetivos que em princípio deveriam ser atingidos. Por outro lado, é inócuo imaginarmos uma sociedade sem estratificação social, onde os mecanismos de integração prescindiriam das relações de classe social, ou no caso preciso da sociedade brasileira, das relações de apadrinhamento. Nesse caso em especifico, o depoimento de Maria da Graça Bento Lima, nos é revelador:

"Meus pais moravam na Hidráulica[25], eles tinham um armazém e uma leitaria. Nessa época a situação começou a ficar meio difícil na minha casa, então o meu pai e a minha mãe resolveram arrumar um emprego para o meu irmão, e como a minha família conhecia o diretor da CTMR, o Manequinha, minha mãe veio solicitar um emprego pro meu irmão. Mas nesse meio tempo, ligaram para minha casa, avisando que tinha uma vaga para mim. No outro dia, eu já ingressei na CTMR "[26].

Conforme se observa em outros depoimentos esta prática de recrutamento da mão de obra era muito comum, muitos dos funcionários que eram selecionados para trabalhar na companhia eram contratados via indicação de algum amigo ou parente, que já exercia um cargo na empresa[27]. Em alguns momentos verifica-se que gerações inteiras de uma mesma família trabalhavam na empresa. Segundo vários depoentes a estratégia era de que, "quando um pegava na companhia, ele ia levando os outros. Era irmão, pai, mãe, sobrinho e etc."[28] Este fato fazia com que a companhia tivesse um perfil de "empresa familiar", não só pelo fato de nela trabalharem várias famílias, mas como também pelo tipo de relacionamento entre os funcionários e as chefias. Ainda que reconheçam os conflitos, sobretudo aqueles de ordem trabalhista, a evocação presente nos relatos orais, é de um lugar onde a proteção e o companheirismo são estruturantes. Segundo o depoimento de Ruy Dorow, os funcionários da CTMR:

"Nunca ficaram desamparados pela empresa. Ela dava todo o apoio que se precisasse. Se por um acaso um filho ou a esposa em casa, adoecesse não tinha problema, a empresa dava todo o suporte. Nós éramos bem tratados. Se eu adoecesse eu seria amparado; para o tratamento de saúde eles eram muito bons, se um funcionário tava mal no hospital os patrões iam até visitá-lo. Hoje não se vê isso em lugar nenhum"[29].

O testemunho deste depoente nos leva a crer que não existiam pontos de tensão no relacionamento entre as chefias da CTMR e os seus empregados. Contudo, ao se trabalhar com a oralidade, percebe-se que esta relativização do passado, esse enaltecimento daquilo que era positivo, são elementos da própria evocação, na qual a memória é, acima de tudo, essa reinterpretação do passado[30]. No presente ao recordarem o tempo do trabalho, os conflitos são atenuados. Assim, ao serem perguntados sobre que vantagens tinha o sujeito ao trabalhar na CTMR, todos os depoentes são unânimes em afirmar que o salário "não era muito mais dava"; não havia um plano de saúde, mas um acordo que vigorou por algum tempo entre a companhia e o Hospital da Santa Casa de Misericórdia de Pelotas[31].

É esse caráter de pai-patrão, de exigente, mas justo, que aparece organizando as recordações, atenuando, portanto, comportamentos autoritários por parte da direção da companhia. Na verdade, como afirma Portelli, trabalhar com fontes orais significa conviver com a ambivalência, com a contraditoriedade manifesta nos relatos, mover-se, tal como afirma o autor, entre a desejada assepsia dos documentos e a consciência de tratar materiais infectados (sic) no momento de sua formação[32]

As memórias, matéria-prima dos relatos orais, vão nos fornecendo traços de uma outra empresa, ou melhor, de uma CTMR das vivências cotidianas, das experiências pessoais, e não raramente se observa que o sujeito desconhecia o patrão, circulava apenas no mesmo espaço, e reconhecia como autoridade aquela mais próxima de si. É o caso das telefonistas, muito acentuado naquelas que atuaram como funcionárias da empresa no meio rural, mas que raramente vinham ao centro, mas também de algumas que ao falarem de seu trabalho, dão ênfase no cotidiano, nas relações mais próximas travada no dia-a-dia, e a idéia de totalidade aparece esporadicamente, como por exemplo, nas comemorações coletivas tais como Natal, Páscoa, etc. O mundo do trabalho, ao qual se referem essas pessoas, é aquele do setor a qual se vinculavam, tal como aparece no relato de uma ex-telefonista ao dizer que a empresa para ela era a sala das telefonistas:

"Eu sempre trabalhei ali, no segundo piso (referindo-se à antiga sala das telefonistas no prédio da rua General Neto), e como eu era guria e queria dinheiro para meus aprontes de casamento, fazia quase sempre o turno da noite...Era uma turma, era aquele movimento de luzinha acendendo nas mesas, e ás vezes as gurias ficavam escutando as conversas...Mas eu e outras não, a gente tinha medo, por que tinha um senhor que ficava lá embaixo e a gente sempre achava que ele controlava até se alguém estava escutando."[33]

Esse desconhecimento da totalidade da empresa é bastante recorrente entre os entrevistados, sobre tudo aqueles que trabalharam antes da instalação das centrais telefônicas modernas, que automatizaram o trabalho. Um dos fatos que nos chama a atenção, e os relatos com muita freqüência sublinham, é o excesso de trabalho. Oswaldo Azevedo da Silva, que trabalhava no serviço de remanejamento de redes nos conta que:

"No remanejo se caminhava muito. Bota escada no poste, pega a escada daqui, bota no outro lá, solta fio para baixo, enrola fio pra não deixar encolher tudo. Essa função toda nós fazia, era só dois (...) Bah, Era muita caminhada! Chegava de noite, se não tivesse prática tava moído (...) Nos primeiros dias era brabo e a escadinha era pesada! E as vezes carregava na cintura (...) marreta, carregava uma coisa de cintá os postes. Aquilo era um peso; alicate, chave, era um peso enorme, o cara andava arriado"[34]

A telefonista Leopoldina Ebeling Caldeira nos revela em seu depoimento, que o seu ritmo diário de trabalho era intenso:

"Durante o horário comercial, não dava nem para olhar as horas. Era sempre chamando (...), não tinha tempo de olhar e nem muito menos conversar com as colegas. Naquela época era central a magneto. A chapinha caia quando o assinante chamava. A chapinha caia e a sirene tocava sem parar (...)"[35].

A esta sobrecarga de trabalho normalmente se associava um acúmulo de funções. Em inúmeras vezes papéis diferenciados são preenchidos simultaneamente pelo mesmo indivíduo, como no caso da telefonista Olinda Pastorini, que além de realizar seu trabalho na central telefônica rural de Monte Bonito atuava ainda como cobrador da companhia junto aos assinantes daquela localidade[36]. Não que essas funções a princípio não pudessem ser realizadas conjuntamente, mas o que nos chama a atenção, e os relatos apontam veementemente é uma excessiva sobrecarga de trabalho. O que nos leva a acreditar que de alguma maneira a sobreposição das atividades estava vinculada à debilidade da empresa e a necessidade de se realizar o serviço de qualquer jeito. Conforme indica Oswaldo Azevedo da Silva, "o serviço tinha que ser pra Ontem"[37] e não é por acaso que alguns testemunhos são unânimes em qualificar as condições de trabalho como péssimas. Ruy Dorow nos informa que:

"A gente tinha um diretor na companhia que era chato! Ele não queria saber que o assinante reclamasse se o telefone tava mal. Podia tá caindo água ou raio, que ele dizia pra nós: - Tem que arrumar o telefone do homem. Então nós tínhamos que ir, né. Molhado, às vezes passava o dia inteiro molhado, secava a roupa, molhava de novo. Mas tinha que ir, fazer o quê? E assim agente trabalhava. Dia de chuva mesmo, não davam nem uma coisa pra gente botá. Só umas capas de lona que quando molhavam endureciam. Acho que molhavam mais do que qualquer outra coisa (...) Tudo era muito precário, improvisado"[38].

As palavras precariedade e improvisação são constantemente utilizadas em todos os relatos, e é como se todo o período de trabalho vivenciado pelos depoentes, pudesse ser sintetizado através delas. Num primeiro momento o sentido das palavras precariedade e improvisação pode ser vinculado a uma incipiência das especializações, o que faz com que muitos testemunhos passem a conceber o período como não profissional e até em certo sentido amadorístico[39]. Por outro lado, é preciso ter em mente que esta precariedade estava vinculada a dificuldades financeiras, materiais e tecnológicas. Dificuldades estas próprias de um processo de modernização periférico realizado fora dos grandes centros econômicos do país. Mas a noção de precariedade é mais abrangente, e seria interessante explorá-la melhor. Se podemos dizer que a idéia de precariedade caracterizava a época, não deixa de ser verdade que ela encerra dentro de si uma contradição. Se o uso da improvisação pode ser considerado como fruto das dificuldades materiais e econômicas, ela possui também outra dimensão, a da criatividade.

Os primeiros cabos que saiam da central telefônica, na sede da companhia, iam por via subterrânea, dentro de manilhas de cerâmica, até chegarem aos postes e daí por diante seguiam por via aérea para toda a cidade e zona rural (Figura 1). As primeiras linhas telefônicas aéreas eram de cobre, sem nenhuma proteção externa. Para conduzi-las, eram usados postes com cruzetas e peças de porcelana ou vidro. O uso do cobre para a confecção das linhas levou ao desenvolvimento de equipamentos, fabricados pelos próprios funcionários da empresa, para o fabricar de fios. Esse trabalho de infra-estrutura era feito nas oficinas mecânicas da empresa, e com orgulho alguns funcionários dizem que "quase tudo era feito ali".

Fonte: Museu das Telecomunicações / UFPel.

Figura 1 - Abertura de Valetas para colocação de cabos subterrâneos (S/d)

A empresa mantinha um setor de oficinas mecânicas, além de carpintaria e marcenaria, e ainda que fosse produção apenas para o consumo interno, o sentimento evocado é de auto-sustentação. "Era uma potência", essa costuma ser a expressão utilizada para representar a empresa, ao mesmo tempo em que lamentando seu desaparecimento. A representação da empresa como um local de estímulo à criatividade e dedicação dos funcionários, também é outro elemento recorrente em suas falas.

Desde o início da implantação da telefonia em Pelotas, o clima da cidade sempre foi um dos principais obstáculos para a realização dos serviços. Por localizar-se em uma planície de clima úmido e quente, a cidade sofria com as constantes chuvas e a umidade. Para os serviços de telefonia a umidade era um grande empecilho, pois produzia uma interferência nos sinais telefônicos e impedia em muitos casos a comunicação entre os assinantes. Os testemunhos de Flávio cruz e de Adão Centeno nos revelam que para solucionar este e outros problemas de caráter técnico, era necessário muitas vezes fazer-se uso da improvisação e da criatividade:

"Como aqui em Pelotas é muito úmido, sempre pegava umidade nas capas transmissoras dos telefones e dava aquele ruído pavoroso! E naquela época nós não tínhamos capas novas; o jeito era usar a criatividade e improvisar. O pessoal das oficinas abria os telefones e colocava um carvãozinho dentro pra secar. Depois nos fazia os testes, e tava funcionando bem (...)[40]

"As vezes quando o assinante solicitava uma linha e nós não tínhamos disponibilidade, agente estudava e via onde podia manipular a rede pra consegui mais uma linha. E para economizar nos fios desta nova linha, agente fazia "ponte" de um poste pro outro, transportando a nova linha pro poste mais perto do novo assinante"[41]

Nesta fase de pioneirismo onde os serviços telefônicos estão se construindo, a iniciativa individual é fundamental, ela é parte integrante das estruturas que funcionam precariamente. Portanto, estes testemunhos nos informam que a improvisação era uma exigência da época. Eles nos mostram também, que esta criatividade demandava dos envolvidos no processo de trabalho, uma dedicação pessoal que contrastava com o acúmulo de trabalho e com as dificuldades materiais existentes.

A inauguração da central automática da CTMR (1953) trouxe significativas mudanças no universo de trabalho dos funcionários da Companhia. Antes da automatização, a comunicação entre os assinantes era feita através de centrais manuais, onde as telefonistas é que faziam as ligações entre os usuários que quisessem conversar. A pessoa chamava a telefonista, informava com quem queria falar e, através dos cabos da mesa telefônica, a telefonista ligava um telefone ao outro[42]. Como elas não sabiam quando a conversa estava encerrada, "entravam periodicamente na linha, para ver se as pessoas ainda estavam falando e com isso, se quisessem, podiam saber da vida de todas as pessoas da cidade"[43]. Deste modo, As primeiras telefonistas tinham que não só ser muito hábeis com as mãos, para passarem o tempo todo ligando e desligando cabos, mas também tinham que ser extremamente discretas (Figura 2). Como a procura pelos serviços era grande, o tempo de comunicação entre os assinantes era reduzido; em média a companhia fixava a duração máxima das chamadas em cinco minutos, depois de decorrido o dito período, a companhia se reservava o direito de "cortar a ligação", se a linha fosse solicitada por outros assinantes[44].

Fonte: Museu das Telecomunicações / UFPel.

Figura 2 - Sala das telefonistas da CTMR (S/d)

Outro fato que nos chama atenção, e os relatos quase sempre sublinham, é a "despersonificação" dos trabalhadores com a introdução desta nova técnica. Virginia Alves da Cunha, quando se refere ao serviço nas centrais manuais nos conta que "naquela época se tinha mais contato com os assinantes, era uma coisa mais humana. Depois da automatização ficou uma coisa mais industrial, mais fria"[45]. Olinda Pastorini nos diz que:

"Conhecia meus assinantes só pela voz, embora muitos eu nunca tivesse visto. Agente tinha uma tremenda responsabilidade, por que às vezes quando acontecia algum acidente ou alguma pessoa tava passando mal, tinha que chamar a ambulância pra prestar o socorro, tudo isto nós fazia, era uma coisa mais pessoal"[46]

Este ritmo "industrial" e esta relação entre a impessoalidade e a nova técnica, são elementos recorrentes nas falas dos entrevistados. O uso da nova tecnologia introduziu mudanças significativas no mundo do trabalho, no convívio e no relacionamento diário entre os próprios funcionários, pois Junto com a automatização, veio também a expansão da empresa. Nos relatos se pode perceber a demarcação entre dois períodos: o primeiro, anterior a fase expansão da companhia, onde os relacionamentos eram baseados no companheirismo e na cordialidade, o momento das pequenas turmas de trabalho; e o segundo momento, é aquele que se dá logo após o crescimento da empresa, com a formação e o ingresso de novas turmas. Conforme o relato de Flávio Cruz;

"Na minha época era melhor. Agente tinha mais espírito de solidariedade e se ajudava. Existiam aqueles que ganhavam menos, então uns ajudavam os outros. Quando alguém ficava doente e não podia trabalhar, fazia-se uma lista de coisas, cada um dava um pouco e se ajudava aquela pessoa que tava doente, ou a família dela, sempre se fazia isto. Depois, com o crescimento da empresa, havia muita competição, muito individualismo. Uns querendo aparecer mais que os outros (...)[47]"

"Quando eu entrei a turma era boa. As pessoas trabalhavam e se ajudavam mais. Mas depois com o crescimento da companhia, a turma foi ficando meio gozada (...) Tinha muita gente que gostava de criticar os outros, muita competição. Mas de primeiro não era assim, tinha uma turma muito boa (...)"[48]

Alguns depoentes são unânimes em afirmar que o próprio relacionamento com os assinantes também foi alterado. Se antes havia uma maior proximidade, um maior contato, depois do crescimento da empresa houve certo distanciamento. Ruy Dorow nos conta que:

"Às vezes nós tava trabalhando no serviço de rua. E as pessoas vinham até nós e falavam: - Olha, meu telefone ta estragado, não dá pra arrumar? Nós já anotava e já ia lá consertar, mesmo se ela não tivesse avisado pra companhia. Hoje não se vê isso, não é mais assim."[49]

Este segundo momento relatado pelos entrevistados, pós inicio dos anos 50, coincide justamente com o período em que esta se consolidando no Brasil uma sociedade urbano-industrial com uma indústria voltada para o atendimento das grandes massas urbanas[50]. Com a intenção de se adequar as exigências destes novos tempos, e assim fazer frente às novas demandas, a companhia acaba ampliando suas redes e seus serviços, perdendo assim o caráter e o perfil de atendimento local.

Nesse sentido, podemos observar o processo de modernização dos serviços telefônicos da CTMR sobre uma outra ótica, revelando-nos agora, um ambiente particular, uma companhia das vivências cotidianas e do mundo do trabalho. Compreendemos, através dos depoimentos de alguns ex-funcionários da companhia, como a partir da memória são interpretadas, produzidas e resignificadas as lembranças sobre este período. Através dos relatos orais podemos avaliar também, que uso de uma nova tecnologia, como a dos telefones automáticos, introduziu significativas mudanças no universo de trabalho, acarretando inclusive uma despersonificação dos trabalhadores, com a perda do controle do processo produtivo.


[1] Este trabalho faz parte da dissertação "A modernização do espaço urbano em Pelotas e a Companhia Telefônica Melhoramento e Resistência (1947-1957)", defendida junto a Pontifícia Universidade Católica do RS, em março de 2007.

[2] Doutorando em História na PUCRS. E-mail: alborgeslopes@yahoo.com.br.

[3] Fundada em 20 de março de 1919, a CTMR pretendia explorar a indústria telefônica na cidade de Pelotas. Para implantação da central telefônica e expansão da rede, os diretores da CTMR contrataram ainda, em 1919, a companhia americana Western Company. Os estudos técnicos para a implantação do projeto foram realizados no escritório da companhia em Buenos Aires e os aparelhos, do tipo semi-automático, funcionavam perfeitamente. As primeiras linhas instaladas visavam atender somente o centro da cidade e os locais onde se localizavam as principais indústrias. Em 1922, foram construídos os centros telefônicos rurais do Capão do Leão, Hidráulica, Fragata, Areal, Três Vendas e Monte Bonito. Neste mesmo ano, teve inicio a construção da Linha de Longa Distância que ligaria Pelotas ao município de São Lourenço do Sul. Em 1924, esta obra foi finalizada e a rede telefônica da CTMR, teve um acréscimo de mais 1.100 linhas. Em 1926, foi construído o Centro telefônico rural da Cascata. Na década de 1930, a CTMR contava com 2.830 aparelhos instalados em Pelotas e no município de São Lourenço do Sul, e também com 7. 810 quilômetros de linhas urbanas, 1.810 quilômetros de linhas rurais e 480 quilômetros de linhas intermunicipais. Ao longo dos anos finais da década de 40 e durante os anos 50 a CTMR substituirá os seus antigos telefones manuais por telefones automáticos. Esta mudança na tecnologia representará também uma transformação nas relações de trabalho. Sobre este tema é importante ver também as excelentes obras de: UEDA, Vanda. Inovação tecnológica e espaço urbano: A implantação da CTMR em Pelotas/ RS. Florianópolis: UFSC. Dissertação de Mestrado em Geografia, 1999 e Ueda, Vanda. Innovación tecnológica y cambio social: Agentes y estrategias en las redes de telecomunicaciones en Rio Grande do Sul, Brasil (1852-1930). Barcelona: Universidade de Barcelona. Tese de Doutorado em Geografia Humana, 2002.

[4] O grupo de trabalho inicial era composto por dois professores, Maria Letícia M. Ferreira e Fábio Vergara Cerqueira, e por alunos da graduação em História: André Luís Borges Lopes, Clara Machado, Cláudia Vieira de Souza, Cristiano Gastal Sória, Taiane Mendes Taborda, Vanessa Volcão e Vinícius Goulart. Sobre este tema é importante ver: FERREIRA, Maria Letícia M. & LOPES, André Luís Borges. História, Memória e Tecnologia: Museu de Telecomunicações de Pelotas. Cadernos do LEPAARQ. Vol. I, 2005.

[5] GINZBURG, Carlo. Mitos, emblemas e sinais. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, p. 177.

[6] BURKE, Peter. A escrita da história. Novas perspectivas. São Paulo: Ed. UNESP, 1992, p. 12.

[7] CONSTANTINO, Núncia Santoro de. Teoria da história e reabilitação da oralidade: In: ABRAHÃO, Maria Helena Menna Barreto (Org.). A aventura (auto) biográfica: Teoria e empiria. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004, p. 37-74.

[8] MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de História Oral. São Paulo: Loyola, 1998, p.17-18.

[9] BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: Lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 55.

[10] BERGSON, Henri. Introdução à Metafísica. In: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1978, p. 21-22.

[11] BERGSON, Henri. Matéria e memória. São Paulo: Martins Fontes, 1990, p. 1.

[12] Ibidem, p. 22-23.

[13] Ibidem, p. 49.

[14] BACHELARD, Gaston. Dialética da duração. São Paulo: Ática, 1988, p.16.

[15] Ibidem, p. 16-17.

[16] Ibidem, p. 7.

[17] HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: Vértice Editora, 1990, p. 27.

[18] Ibidem, p. 26-27.

[19] CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes do fazer I. Petrópolis: Vozes, 1994.

[20] Ruy Dorow, entrevista realizada em 06 de junho de 2003.

[21] Virginia Alves da Cunha, entrevista realizada em 27 de julho de 2004.

[22] Oswaldo Azevedo da Silva, entrevista realizada em 18 de dezembro de 2003.

[23] Olinda Pastorini, entrevista realizada 08 de julho de 2003.

[24] MAGALHÃES, Gildo. Telecomunicações. In: VARGAS, Milton (Org.). História da técnica e da tecnologia no Brasil. São Paulo: EDUNESP / CEETEPS, 1994, p. 318-323.

[25] Este distrito, atualmente localiza-se na zona rural do município de Capão do Leão.

[26] Maria da Graça Bento Lima, entrevista realizada em 31 de março de 2006.

[27] Adão da Silva Centeno, entrevista realizada em 18 de junho de 2003.

[28] Olinda Pastorini, entrevista realizada 08 de julho de 2003.

[29] Ruy Dorow, entrevista realizada em 06 de junho de 2003.

[30] FERREIRA, Maria Letícia M. & LOPES, André Luís Borges. História, Memória e Tecnologia: Museu de Telecomunicações de Pelotas. Cadernos do LEPAARQ. Vol. I, 2005, p. 34. Os casos de ex-funcionários que acionaram judicialmente a empresa, em busca de seus direitos trabalhistas, são inúmeros.

[31] Ruy Dorow, entrevista realizada em 06 de junho de 2003.

[32] PORTELLI, Alessandro. Biografia di una città storia e racconto: Terni 1830-1985. Torino: Einaudi, 1985, Apud: FERREIRA, Maria Letícia M. & LOPES, André Luís Borges. História, Memória e Tecnologia: Museu de Telecomunicações de Pelotas. Cadernos do LEPAARQ. Vol. I, 2005, p. 34.

[33] Carmem Gonçalves, entrevista realizada em 30 de abril de 2004.

[34] Oswaldo Azevedo da Silva, entrevista realizada em 18 de dezembro de 2003.

[35] Leopoldina Ebeling Caldeira, entrevista realizada em 20 de junho de 2003.

[36] Olinda Pastorini, entrevista realizada 08 de julho de 2003.

[37] Oswaldo Azevedo da Silva, entrevista realizada em 18 de dezembro de 2003.

[38] Ruy Dorow, entrevista realizada em 06 de junho de 2003.

[39] Virginia Alves da Cunha, entrevista realizada em 27 de julho de 2004.

[40] Flávio Cruz, entrevista realizada em 22 de julho de 2003.

[41] Adão da Silva Centeno, entrevista realizada em 18 de junho de 2003.

[42] Leopoldina Ebeling Caldeira, entrevista realizada em 20 de junho de 2003.

[43] Olinda Pastorini, entrevista realizada 08 de julho de 2003.

[44] CTMR. Regulamento de instalação dos serviços telefônicos. Pelotas: Globo, 1954.

[45] Virginia Alves da Cunha, entrevista realizada em 27 de julho de 2004.

[46] Olinda Pastorini, entrevista realizada 08 de julho de 2003.

[47] Flávio Cruz, entrevista realizada em 22 de julho de 2003.

[48] Oswaldo Azevedo da Silva, entrevista realizada em 18 de dezembro de 2003.

[49] Ruy Dorow, entrevista realizada em 06 de junho de 2003.

[50] ORTIZ, Renato. A moderna tradição Brasileira. São Paulo: Editora Brasiliense, 1995, p. 76-110.