ISSN 1807-1783                atualizado em 06 de junho de 2013   


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O Ensino da História Local: Aprendizado a Partir da Origem

por Maria Angélica Ferrasoli

Sobre a autora[1]

A história local nas salas de aula

O ensino-aprendizagem de História cada vez mais se estende pelo relato dos anônimos. Essa busca pode começar pela memória oral na família de cada estudante. Nas escolas, porém, esse tipo de pesquisa pouco avança além dos trabalhos esporádicos de construção da árvore genealógica. Pode, de fato, ser um bom começo, mas muitas vezes apresenta-se como único recurso, de forma limitada. O que justifica a abordagem da História local nos currículos escolares na disciplina de História é que ela abre possibilidades ainda inexploradas para o aprender, a construção do ser cidadão e o resgate da identidade.

A inclusão do conteúdo História Local nos currículos escolares integra-se à proposta de apresentar a disciplina para além do reducionismo da chamada História oficial. É dessa revisão crítica que nascem iniciativas, posteriormente abarcadas nos PCNs (Brasil, 1977), que entendem o ensino-aprendizagem de História como uma fonte de valorização do indivíduo anônimo e da sociedade na qual está integrado.

Assim como o estudo das culturas afro-brasileira e indígena, tornado obrigatório no Brasil no ano de 2008 (Lei nº 11.645), a História Local vai explorar as grandes possibilidades da construção do conhecimento a partir da cultura, tradições, manifestações populares, fatos e características próximos  não no espaço cronológico, mas dentro do contexto e realidade ao qual estão inseridos os estudantes, sua comunidade, região etc. Parte, portanto, do micro (aqui entendido sem caráter diminuto) para chegar ao macro.

Denominaremos história local aquela que diga respeito a uma ou poucas aldeias, a uma cidade pequena ou média ou a uma área geográfica que não seja maior do que a unidade provincial comum [....]. Praticada há tempos atrás com cuidado, zelo e até orgulho, a história local foi mais tarde desprezada - principalmente nos séculos XIX e primeira metade do XX  pelos partidários da história geral. A partir, porém, da metade desse século, a história local ressurgiu e adquiriu novo significado; na verdade, alguns chegam a afirmar que somente a história local pode ser autêntica e fundamentada (GOUBERT, 1972, p.70.

Desse universo quase particular, cuja própria individualidade cria redes de conexões com seu tempo e espaço, é que a História Local se firma como importante elemento de ensino, aprendizagem e reconhecimento da cidadania. O papel do ensino de História deve ser o de contribuir para a formação de indivíduos ativos e críticos diante da realidade dada, de forma a utilizar as ferramentas dessa disciplina em sua vida cotidiana (SILVA, 2008, s/p). Nada mais coerente, portanto, que a disciplina seja estruturada de maneira lógica no decorrer da escolarização do educando de forma que, ao término do Ensino Médio, seja capaz de estabelecer relações entre as diversas estruturas políticas, culturais e sociais em que se organizam a sociedade contemporânea (SILVA, 2008, s/p).

Ao detectar essas mesmas estruturas em sua comunidade, bairro, cidade, a forma como interferem em seu dia a dia, nas condições de vida e em suas perspectivas e projetos, amplia-se a compreensão do aluno enquanto cidadão, tanto quanto o reconhecimento de seu papel como agente do processo de transformação da história. A arquitetura das moradias do bairro, a origem de seus habitantes, templos e igrejas presentes, clubes, sociedades de amigos, sindicatos: há um universo a desvendar na História Local que constroi e conecta-se diretamente à História Geral.

Segundo Lima (2001) o ensino da História Local apresenta-se como um ponto de partida para a aprendizagem histórica justamente pela possibilidade de se trabalhar com a realidade mais próxima das relações sociais que se estabelecem entre educador/educando/sociedade e o meio em que todos estes vivem e atuam. A pesquisadora situa que o local é o espaço primeiro no qual o ser humano irá atuar, por isso, o ensino da História Local precisa configurar também essa proposição de oportunizar a reflexão permanente acerca das ações dos que ali vivem como sujeitos históricos e cidadãos (LIMA, 2001, s/p).

As limitações do livro didático

Apesar de o livro didático ser importante instrumento de ensino na sala de aula, quando se trata da História Local há questionamentos importantes a serem destacados. A ausência de diversidade está entre eles, de acordo com Lima (2001, s/p):

Os livros são produzidos e editados, na maior parte dos casos, em São Paulo, para serem distribuídos às escolas de todo o Brasil. Mesmo os que são editados em outras cidades têm a mesma intenção: servir a toda e qualquer escola do país. Assim, as informações que esses manuais do mundo da edição passam para servir de estudo aos alunos de todos os recantos do Brasil fazem um recorte do conteúdo de História que, na busca de atender a todos, findam por não abordarem bem nenhum assunto. São pinceladas que retratam uma visão homogênea, inadmissível no mundo das diversidades. Constata-se uma característica comum entre as obras - o fato de serem elaboradas de forma genérica, desconsiderando as especificidades de cada região, as diversidades étnicas, geográficas, históricas, culturais e tantas outras tão heterogêneas, em relação à extensão continental do país

Para a autora a simples indicação de que esse conteúdo (o ensino de História Local) esteja estabelecido oficialmente ou esteja já em atividade na sala de aula não é suficiente, pois não vai garantir a efetividade de sua operacionalização. Ou seja, embora curricular, o ensino da História Local ainda depende de estruturação, tanto dos instrumentos a serem utilizados em seu ensino-aprendizado quanto de publicações de qualidade que privilegiem esse enfoque. Destaca ela: É imprescindível que o seu ensino contribua para o processo de construção de identidade e de formação de cidadania dos alunos.

Memória Oral: um caminho para a volta à origem

Uma grande aliada para o estudo da História Local é a memória oral. A partir do relato de moradores mais velhos no bairro, antigos estudantes ou docentes da escola, conhecidas lideranças (políticas, sindicais, comunitárias) dos bairros é possível, ao lado de material iconográfico (fotografias, revistas, jornais e mapas do passado etc), re-criar um monumento, um local, uma cidade, um acontecimento.

O cruzamento destas informações pode ser acrescido ainda do convite a memorialistas e grupos de pesquisa, para que conversem com os estudantes. Descreve Siman (2000, s/p), no estudo Memórias sobre a História de uma cidade: a História como Labirinto, fruto de pesquisa sobre a cidade mineira de Governador Valadares, a partir da memória oral de antigos habitantes:

A narrativa (oral), ao ser aberta, múltipla, sem enquadramento, exerce o poder de incitar os alunos às perguntas, a se surpreenderem, a se espantarem, a suspeitarem da veracidade do narrado e, portanto a buscarem outros indícios para, em seguida, decifrar suas relações, buscar chaves de interpretação, buscar leituras outras para ajudá-los na construção de um nova escrita  sempre híbrida  entre a história e memória (SIMAN, 2008, s/p).

Ao enveredar por esse caminho, o aprendizado da História Local associa-se ainda à História Cultural e Social, dando voz aos anônimos. A proposta é simples: enxergar a realidade sob a perspectiva das pessoas comuns e das práticas, hábi­tos e rituais que caracterizam o dia-a-dia delas, tirando o foco dos grandes nomes e acontecimentos políticos e econômicos e voltando-o para a riqueza que está próxima de todos, impregnada pela aparente banalidade do cotidiano, ensina o professor César Augusto Jungblut (2010, p.50)7, autor do caderno de estudos História Social e Cultural. Suas dicas são preciosas para a prática de inclusão destes grupos: Investigar, por exemplo, como os cidadãos viviam, namoravam, noivavam e casavam, moravam, se divertiam, eram educados, nasciam e morriam. E conclui: Além disso, essa é a melhor forma de mostrar que a História é feita por todas as pessoas, em todos os momentos da vida  não apenas quando uns poucos participam de feitos extraordinários.

Para tornar o ensino da História Local presente nas salas de aula impõe-se que o educador vá alem dos limites impostos pelos livros didáticos e compreenda a importância desse ensino para a construção da identidade e fortalecimento da concepção de cidadania dos estudantes.

A opção pela história local tem sido vista como uma alternativa ao ensino tradicional da História, isto é, aquele baseado, ainda, nos grandes feitos e em uma abordagem essencialmente política. As dificuldades que se apresentam, contudo, são de ordens diversas. Como exemplo dessas dificuldades, temos a falta de livros didáticos adequados que facilitem o trabalho dos professores, haja vista que estes materiais, por almejarem uma distribuição em âmbito nacional, abordam o tema de forma muito genérica, ignorando, dessa forma, as especificidades locais. (SILVA, 2008, s/p).

Reforça-se assim que aprender a partir da origem é tarefa que extrapola os limites da construção de uma árvore genealógica. Além do registro documental, evidencia-se a relevância de trazer para as salas de aula outros atores sociais. É a valorização do resgate dos anônimos de que trata a introdução deste trabalho.

Apoiada nas narrativas dos velhos moradores, uma nova concepção de História pode ser adquirida pelos alunos. Todos esses indícios, sinais, ruínas do passado relatados pelos narradores necessitam de investigação focada numa tematização assentada numa problemática histórica, para a qual é imprescindível a mediação do professor. Pensemos num exemplo: a cartografia das referências culturais da cidade (SIMAN, 2008, s/p).

Um exemplo bastante interessante do potencial embutido num trabalho de História Local e memória oral está na região do Grande ABC paulista. Palco de muitos conflitos e avanços nas áreas política e sindical desde o começo do século 20 (e que no seguinte levaria à presidência da República um operário, pela primeira vez no Brasil), a região conta com uma das mais longevas colunas de memória publicadas em jornal diário  a coluna Memória, do jornalista Ademir Médici, que completa 26 anos em 2014 no jornal Diário do Grande ABC.

Mas, apesar deste vasto material e inclusive a publicação de livros por parte deste colunista e outros autores, apesar de algumas iniciativas esporádicas de entidades, universidades, poder municipal ou universidades, no sentido de aproximar protagonistas da história local com os estudantes, e até mesmo a realização de congressos de história, essa integração com a comunidade escolar é ainda incipiente. Uma proposta sociocomunicativa, baseada nas histórias Local e Oral, com foco nos Estudos Culturais britânicos e na ainda tão jovem Educomunicação poderia talvez viabilizar projetos mais constantes e de amplitude para o ensino da História Local nas redes de educação pública e privada.

Seja lá o que forem (os Estudos Culturais), nasceram como resultado da insatisfação com outras disciplinas, não meramente com seus conteúdos, mas também com seus próprios limites, enquanto tais (JAMESON, 1994)

Considerações finais

De acordo com Silva (2008, s/p), a partir da proposta de ensino da História Local as crianças apreendem melhor os conteúdos e desenvolvem competências fundamentais para uma correta compreensão da realidade que as cerca, adquirindo, assim, melhores condições de obter um aproveitamento exitoso nos anos subsequentes da jornada escolar.

Só essa condição já justificaria tal ensino, mas deve-se acrescentar ainda o processo de construção de identidade do estudante ao se apropriar de sua origem e/ou de bairro, estado, País, contribuindo para sua formação como cidadão do mundo e, portanto, detentor de direitos e deveres. Evidencia-se ainda a necessidade de recorrer à memória oral e relato dos anônimos e ampliar a qualidade dos livros didáticos. O presente estudo conclui com duas propostas para avanço na questão: o ensino da História Local a partir dos instrumentos trazidos pela inovação tecnológica e a absorção de preceitos da educomunicação.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: história, geografia. Brasília: MEC/SEF, 1997. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro051.pdf>. Acesso em: 13 out. 2011.

DIÁRIO DO GRANDE ABC: Memória do Grande ABC comemora 25 anos. Santo André: Caderno Setecidades, Ed. 2 set. 2012.

GOUBERT, Pierre. Local History. lN: Historical Studies Today. Ed. by Felix Gilbert and Stephen R.Graubard. NewYork Norton & Co., 1972. Tradução de Maria M. Lago.

JAMESON, Frederic. Sobre os Estudos de Cultura. IN. Novos Estudos, CEBRAP, nº 39, jul/1994, pp. 11-48.

JUNGBLUT, César Augusto. Caderno de Estudos História Social e Cultural, IFGE, Blumenau, SC, 2010.

LIMA, Idelsuite de Sousa. A abordagem do ensino de história local nos livros didáticos das séries iniciais. IV Seminário Perspectivas do Ensino de História. Ouro Preto, MG, 2001. Disponível em: http://www.ichs.ufop.br/perspectivas/anais/GT0801.htm. Acesso em 09 mai. 2013.

SILVA, Stanley Plácido. Ensino de História e História Local nos anos iniciais de ensino fundamental. Artigo publicado em História e-História (ISSN 1807  1783)/Unicamp. <http://www.historiaehistoria.com.br/materia.cfm?tb=artigos&id=160>. Atualizado em 5 de julho de 2011. Acesso em 09 mai. 2013.

SIMAN, Lana: Memórias sobre a História de uma cidade: a História como Labirinto. Artigo publicado em Educação em Revista, Belo Horizonte, 2008. ISSN 0102-4698. < http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-46982008000100014> Acesso em 09 mai.2013


[1] Mestranda em Comunicação pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), pós-graduada em História pela Unisanta e graduada em Comunicação Social pela Unesp. Jornalista e escritora.