ISSN 1807-1783                atualizado em 31 de agosto de 2005   


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Resenha : A Fabricação do Rei de Peter Burke

por Marcos André Pizzolatto


Luis XIV
Imagem pública do rei de França
Resenha

 

 

Sobre o autor

 

Obra de Referência

BURKE, Peter. A Fabricação do Rei:A Construção da Imagem pública de Luís XIV. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

O livro de Burke é um estudo inédito e detalhado sobre a construção da imagem pública do rei de França Luis XIV, não propondo mais um tratado biográfico, mas sim um “estudo das relações entre arte e poder” (p.14).

 

            Luís XIV, filho de Ana da Áustria e Luís XIII, foi conduzido ao centro do poder em 1643 após a morte do pai. Sua mãe, auxiliada pelo cardeal Mazarin, se tornou regente do trono até março de 1661 quando, após a morte do cardeal, o jovem Luís expressou sua vontade de governar sozinho.

 

                Coroado e sagrado em 1654 para fins de “(...)mostrar sua legitimidade, estabelecendo contato com os soberanos anteriores” e de projetar a “(...)imagem da monarquia sagrada”, tornando assim “(...) Luís semelhante a Cristo” (p.54), Luís permaneceu no poder durante 72 anos. Somente sua morte em 1715 interrompeu seu reinado. Principal rei absolutista francês sobre o qual pesam os epítetos de Rei Sol, augusto, belo, brilhante, constante, iluminado e outros. Oficialmente, o adjetivo atraibuído a Luís XIV, a partir de 1671, era Louis Le Grand, Luís o Grande.

 

                A propósito de seu absolutismo, a ele teria sido atribuída a frase que é uma verdadeira máxima do estado absoluto: “O estado sou eu”. No entanto, contrariamente ao que a frase sugere, o próprio Luís XIV teria dito em seu leito de morte “Vou partir, mas o estado permanecerá depois de mim” (p.21).

 

                A construção da imagem de Luís XIV se inicia justamente após a morte do pai em 1643. Até então, o jovem Luís era representado “como qualquer bebê, enrolado em cueiros, ou na camisola geralmente usada pelos meninos até os sete anos” (p.51). Mas a partir de 1643 ele passou a ser reproduzido nas artes com as representações enaltecidas da realeza, ou seja, as imagens, escritas, plásticas ou dramáticas, não visavam simplesmente “(...) fornecer uma cópia reconhecível dos traços do rei ou uma descrição sóbria de suas ações. Ao contrário, a finalidade era celebrar Luís, glorifica-lo, em outras palavras, persuadir os espectadores, ouvintes e leitores de sua grandeza” (p.31). Para tanto eram usados os mais diversos gêneros, alguns de fórmulas de sucesso  emprestadas de tradições como a romana, como a estátua eqüestre, o retrato solene, a epopéia, as odes, os panegíricos, os sermões e até mesmo a historiografia. Sempre em estilo grandioso ou magnífico (caso das pinturas e retratos), elevado (caso das epopéias, odes e sermões) e até mesmo em tom sóbrio, mais raso (caso do jornal Gazette) para demonstrar imparcialidade e sugerir uma áurea de confiabilidade (p.38).

 

                A partir de 1661, Jean-Baptiste Colbert, assumiu o cargo de conselheiro do estado, passando a patrocinar, em nome do rei, às artes e conduzir estas a servir “para conservar o esplendor das realizações do rei” (p.62). Com a adesão de Colbert, põe-se em prática uma verdadeira estrutura pública–cultural a serviço da elevação da imagem do rei. Fundaram-se academias, que eram corporações de artistas, fábricas de móveis, tapeçarias e jornais (p.63). Todas estas instituições trabalhavam para dignificar o rei. É claro que era “importante para a honra de sua majestade que o elogio que lhe era feito parecesse espontâneo” (p.64).

 

                A vida de Luís XIV era alvo destes artistas e artesãos. A própria decisão de governar sozinho (tomada com a morte de Mazarin), foi tida como uma “maravilha” (p.73). O evento de auto-afirmação foi anunciado, noticiado, representado, esculpido, cantado e pintado. Da mesma maneira foram ilustrados como provas da superioridade do rei francês, o caso dos embaixadores em Roma (1661), quando a Espanha teve de pedir desculpas à França e  também quando em 1662 , o próprio papa teve de pedir desculpas a Luís XIV pelas pretensas ofensas feitas por seus sectários ao embaixador da França (p.76).

 

                Cabe aqui um parêntese aberto pelo autor para ser observado pelo leitor do século XXI. As atividades destas instituições de Luís XIV podem ser erroneamente tomadas como propaganda, manipulação de opinião pública e apologia ideológica, no entanto, “(...) todos estes três conceitos (...) inexistiam no século XVII (...) o conceito moderno de propaganda remonta apenas ao fim do século XVIII” (p.16). Isto é claro, não significa que as intenções de “(...) persuasão ou até de manipulação” (p.16), não fossem percebidas.

 

                Depois de decantadas as façanhas diplomáticas, Luís XIV partiu para a via bélica e dela saiu como herói conquistador e bem sucedido como na Guerra da Devolução (1667-68) e a Guerra Holandesa (1772-78), muito embora nesta última o retrato não seja cópia fiel do modelo.

 

                A Guerra da Devolução começou com a morte de Filipe IV (pai de Maria Teresa, esposa de Luís XIV), quando o rei da França se arrogou o direito de submeter os Países Baixos espanhóis ao seu domínio. Toda uma produção literária foi gerida para que se provasse “os direitos da cristianíssima rainha sobre vários estados da monarquia espanhola ” (p.83). À produção literária seguiu a invasão dos países baixos pelas tropas francesas lideradas pelo próprio rei que, inovou, levando consigo toda sua corte, incluindo a rainha e duas amantes oficiais, bem como dois pintores. Os principais eventos da guerra apareceram em medalhas, poemas, tapeçarias e gravuras. Com o fim da guerra, quando o Franche-Comté foi devolvido a Espanha e Lile anexada a França, a paz foi celebrada com um festival, encenações e até um prêmio para a melhor obra sobre o tema “Luís pacifica a Europa” (p.84). O título do prêmio é sugestivo das intenções de glorificação do rei.

 

                Já na Guerra Holandesa Luís não levou pintores, preferiu levar historiadores como Pellison, Boileau e Racine. Os motivos oficiais da guerra já são, por si, odes a glorificação do rei que “decidiu punir os holandeses e assumiu pessoalmente o comando da campanha, abandonando os prazeres da corte para se expor aos perigos e fadigas da guerra” (p.88). Os feitos da guerra foram esculpidos no arco do triunfo de Saint Martin, no arco da Place du Trône ou encenados em festivais, outros tantos foram cantados em versos fabulosos como aquele que narra a travessia em que rio Reno ficou “alarmado” (p.88) com a proeza do rei ao atravessa-lo a nado com seus soldados.

 

                No entanto, não obstante a glória ilustrada nos discursos oficiais, “foi difícil disfarçar certas discrepâncias entre os relatos oficiais e os relatos de campanha. Em 1672, dez dias após a travessia do rio Reno, os holandeses abriram seus diques e inundaram o país, tornando assim impossível a movimentação do exército francês em seu território” (p.90). Em 1674 Luís tem de deslocar o seu teatro de operações em virtude da forte resistência holandesa. Assim, Luís deixa a Holanda sem uma vitória decisiva. Obviamente, as fontes oficiais pintaram o final da guerra 1679 como uma vitória com o “rei impondo aos holandeses seus termos de paz, e não aceitando um acordo” (p.94).

 

                Com a morte da rainha em 1683 o rei tornou-se um tanto mais sedentário, mas foi com a morte de Colbert, o protetor das artes de Luís XIV em 1680 que as coisas começaram a mudar. Para o lugar de Colbert ascendeu Louvois que iniciou uma série de projetos grandiosos e dispendiosos.

 

                Deste mesmo período, o ato mais importante do rei foi a Revogação do Edito de Nantes tornando a religião Protestante ilegal. Com a revogação cerca de 200 mil franceses tiveram de emigrar. O ato foi “comemorado” com medalhas com inscrições como a “Religião Vence” e a “Heresia é Extinta”. Os quadros tiveram como tema o “triunfo da Igreja” e a “heresia pisoteada”. “A Igreja, apresentada como uma mulher, é defendida por Luís, enquanto hereges fogem ou tombam no chão” (p.116).

 

                Em 1688, Luís XIV já contava 50 anos, um velho para os padrões da época. Perdeu quase todos os dentes após uma cirurgia, sofria de gota e andava pelo palácio de Versalhes de cadeira de rodas. A imagem decadente do rei começou a ser menos vista.

 

                O lema preferido do rei “Não inferior a muitos” (Nec Pluribus impar) distanciou-se do seu sentido, afinal, fora um “período sem paz, nem vitórias” (p.119) que jogara o império em uma crise financeira e a crise fez diminuir os investimentos nas artes. A morte de Louvois em 1691 deixou o rei desamparado de conselhos e os artistas já eram bem inferiores aos dos bons tempos (p.121). O mais competente deles, La Bruyére, era mais conhecido como crítico da corte.

 

                Finalmente, a própria morte de Luís XIV foi teatralizada e celebrada com publicações, com cenas no leito de morte e com o rei dando adeus e conselhos a súditos e ao seu bisneto e sucessor.

 

                Restam dois questionamentos: a que público as imagens enaltecidas de Luís deveria atingir e o que de Luís pode ter sido dito por Luís?

 

                A que público a imagem glorificada de Luís XIV deveria atingir? O autor aponta (p. 165) três alvos: a posteridade, as classes altas e os estrangeiros. O grande público não era  tão importante, mesmo porque “os meios de comunicação de Luís não eram meios de comunicação em massa” (p.163) e o latim das inscrições era para poucos.

 

                O quanto de Luís havia em Luís XIV? Luís era baixo (1,60 metro) e calvo, no entanto, a imagem mais marcante que se tem dele (p.12) não condiz com tal realidade. Além destas discrepâncias físicas do mito com a realidade os críticos de Luís XIV — sim, porque haviam imagens bem menos lisonjeiras de Luís — encontravam mote nos feitos que ressaltavam sua ambição, sua falta de escrúpulos, sua tirania, seu imenso amor próprio, suas fragilidades militar e sexual : “foges da guerra, mas persegues as belas” (p.157). Até a sua falta de religião, crítica esta feita por sua união com os Otomanos e pelo culto oficial ao Rei Sol. Ademais, vale lembrar, que mesmo o que é atribuído a Luís não pode ser confirmado como dele porque “a imagem de Luís XIV não emanava, como a luz do sol, de um único centro. Era a produção conjunta de escritores, artistas e patrocinadores oficiais e não-oficiais” (p.115). Mas que o título da obra “fabricação” não iluda ao ponto de se acreditar que Luís tenha sido artificial, fabricado. “Ele não tomou todas as decisões que lhe foram atribuídas na época, mas tomou algumas delas” (p.22).

 

                Não se pode dizer, no entanto, que nada de Luís seja, realmente, de Luís, porque, afinal, “todos nós construímos a nós mesmos. Luís só foi excepcional no auxílio que recebeu neste trabalho de construção” (p.22).

 

(*)Acadêmico de História – Centro Universitário Diocesado do Sudoeste do Paraná - PR