ISSN 1807-1783                atualizado em 05 de março de 2008   


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História ambiental: diálogo com os problemas do tempo presente (Parte 1)

por Catarina de Oliveira Buriti

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Sobre a autora *

O objetivo deste artigo é despertar a atenção do público para os recentes trabalhos que envolvem a chamada história ambiental. Em quase todas as partes do mundo, os programas escolares exigem que o ensino de história desenvolva nos alunos autonomia intelectual e pensamento crítico em relação às questões ambientais. Após um rápido exame das contribuições trazidas para o estudo da história ambiental por parte da historiografia pioneira dos Annales, desenvolve-se aqui uma avaliação do estado atual dos estudos que envolvem história e natureza nos domínios de Clio.

Múltiplos fantasmas atormentam os historiadores nos albores do século XXI. Homens do tempo presente, eles se interrogam sobre o passado na tentativa de evocar, por meio de uma construção de efeitos de real, o que dele permanece vivo entre nós. A História, como disciplina que serve aos homens vivos, procura se debruçar sobre as relações entre os problemas humanos e a natureza, na tentativa de constituir fragmentos de vivências sociais e históricas entrecruzadas na urdidura que marca a interseção entre os domínios da natureza e as construções da cultura.

Fragmento importante, e, simultaneamente, modesto, de todo um esforço revisionista empreendido nos domínios de Clio desde a revolução historiográfica empreendida sob a influência fundadora de Marc Bloch e Lucien Febvre. Os estudos que entrelaçam as necessárias relações entre sociedade humana e meio ambiente vêm ocupando a atenção de um grupo de historiadores que se autodenominam ambientais. Tal escola de influência, surgida nos EUA na década dos anos de 1970, vem atraindo milhares de admiradores e leitores em todo o mundo, bem como motivando a fundação de uma série de centros acadêmicos que procuram entrelaçar duas categorias tradicionais no campo dos estudos que envolvem as ciências do homem: natureza e cultura. Neste despretensioso texto, procuraremos reconstituir os fragmentos de construção desse campo de interesse ao longo da história da chamada historiografia ambiental.

Para tanto, procederemos a partir de uma arqueologia aproximada de suas raízes intelectuais. Mais adiante, procuraremos estabelecer por assim dizer, o estado da arte, ilustrando com um exemplo contemporâneo, algo da interessante bibliografia que traz à baila temas criativos e atuais no campo de análise da environmental history.

A análise da história das secas no Nordeste brasileiro nos séculos XIX e XX, mais do que evidenciar a inclemência do clima, revela o verdadeiro massacre a que foi submetida a população da região nos momentos em que tinha de enfrentar o flagelo, momentos marcados pelo desespero, incúria governamental, corrupção, resistência e solidariedade. Trata-se de uma triste história em que a morte rondou diuturnamente a vida dos sertanejos. A cada nova seca – relativamente previsível – , a sede, a fome, a fuga ou a morte de milhares de sertanejos; do outro lado, o descaso, a insensibilidade e a exploração da miséria. Autoridades e governos de todos os níveis, que tinham o dever de amenizar a situação dos flagelados que sofriam sob os efeitos da seca, pareciam estar mais preocupados em tirar dela o melhor proveito, o que reflete a inconsciência da gravidade do problema por parte dos setores importantes da sociedade brasileira. A seca se constitui como um tema nacional desde o flagelo de 1877-1879. O universo de artigos, ensaios, relatórios técnicos, documentos políticos e livros sobre o tema acabou por banalizar e despolitizar essa questão. Embora aparentemente a história das secas seja um assunto esgotado, que teria ficado restrito à literatura dos anos de 1930 e 1940, ao Cinema Novo, à música de Luiz Gonzaga, portanto, a um passado cada vez mais longínquo, constata-se que se trata de um tema absolutamente contemporâneo e não suficientemente explorado. Muito ainda está para ser feito no campo da história regional, do estudo dos segmentos sociais, das políticas públicas, dos movimentos de resistência popular, das manifestações culturais, da percepção em relação às conseqüências da seca como a fome, a peste, as epidemias, do enfrentamento deste terrível flagelo, das narrativas que retratam cenários de um Nordeste seco e das zonas semi-áridas assoladas pela estiagem[1].

Muitos historiadores têm se dedicado intensamente ao tema da natureza, fundando mesmo um novo campo de conhecimento ao qual denominaram História Ambiental. Com isso, mostram-se em sintonia com os problemas que se colocam em evidência no seu tempo e sensíveis ao diálogo com os seus contemporâneos.

Por intermédio do estudo da história, é possível perceber que não há uma única atitude das sociedades humanas em relação ao meio natural. É óbvio que os homens sempre tiraram dali a sua sobrevivência, mas eles o fizeram de formas diferentes, com perspectivas e valores muito diversos. O mundo natural não se constitui em uma mera invenção humana, mas os sentidos dados a ele são criações culturais pelas várias sociedades ao longo do tempo e nas diversas partes do mundo[2].

A História Ambiental ou ecológica faz parte dos esforços de historiadores de diverso matiz, nas últimas décadas, em sistematizar e estabelecer métodos de pesquisa e análise do território como um espaço constituído pela história, numa perspectiva de interdependência entre o homem e seu meio.

Historiadores norte-americanos nas décadas de 1960 e 1970, passaram a se preocupar com essa perspectiva de abordagem historiográfica, privilegiando em suas análises a construção cultural e histórica do meio natural, auto-intitulando-se como historiadores ambientais e, em alguns casos, apresentando-se como absolutos inovadores, como se a história nunca tivesse abordado o tema da natureza antes. Basta lermos qualquer obra de Sérgio Buarque de Holanda ou de Fernand Braudel para discordarmos imediatamente desta pretensão[3].

Não obstante, o norte-americano Donald Worster afirmou que os historiadores nunca antes tinham acreditado ser sua tarefa considerar a relação entre a humanidade e a natureza, e o mundo não-humano havia sido ignorado por completo, acentuando a preeminência do ser humano ante os demais seres da natureza.

Para que a história pudesse realmente tornar-se importante para o homem contemporâneo, ela deveria reinventar-se e voltar-se para o tema mais importante do século XXI, ou seja, a condição ecológica dos seres humanos, sob pena de tornar-se um saber irrelevante.

Se ignorarmos como as imagens da natureza, presentes em nossa sociedade, são construções culturais, ingenuamente endossamos concepções historicamente criadas como se fossem as únicas possíveis, perdendo a chance de questioná-las e transformá-las[4].

Reflexões apontadas por Cornelius Castoriadis, um dos maiores expoentes da filosofia francesa do século XX, influenciaram de forma significativa a História Ambiental. Ao discutir as possibilidades de criação no domínio social-histórico, Castoriadis (1988) afirma a autonomia individual da criação social-histórica. Contrapondo-se à idéia de determinidade defendida pelos estruturalistas, o filósofo defende que as significações imaginárias sociais, ou seja, as possibilidades de criação no domínio de um dado contexto social, tornam-se possíveis pelo fato de as sociedades humanas serem diversas, autônomas e marcadas por escolhas criativas e particulares. O ser vivo organiza para si uma parte ou estrato do mundo físico, ele o reconstrói para formar seu próprio mundo. Mas o tipo de relação que a sociedade cria e institui com o primeiro estrato natural é diferente. As operações “lógico/físicas” por meio das quais toda sociedade se relaciona com o meio natural, organiza-o e dele faz uso estão sempre na dependência de significações imaginárias sociais que são ao mesmo tempo “arbitrárias” e radicalmente diferentes entre as diversas sociedades. A instituição da sociedade e as significações sociais que nela estão incorporadas desenrolam-se na dimensão propriamente imaginária, em que a existência é significação. E essas significações podem ser demarcadas, mas não determinadas. Elas se conectam indefinidamente umas às outras, pois toda significação remete a um número indefinido de outras significações[5].

O tema das secas que historicamente assolaram as sociedades do Semi-árido do Nordeste brasileiro era recorrente na literatura dos escritores regionalistas. Esses escritores demarcaram criativamente determinados espaços regionais para os representarem em sua literatura; partindo de escolhas criativas, (re) significaram no domínio social-histórico, a percepção das secas no Nordeste brasileiro e o modo como o homem nordestino, habitando em diferentes espaços naturais, se relacionaram com esse fenômeno da natureza e suas conseqüências em uma dada historicidade.

As constantes secas do Nordeste brasileiro debilitaram a economia da região e aprofundaram o fosso que a separa das áreas mais desenvolvidas do país. A transformação do Nordeste em região-problema não só afastou investimentos estrangeiros mas, principalmente, fez com que as políticas econômicas dos governos republicanos transferissem recursos para o Centro-Sul, tendo sempre uma boa justificativa.

Os fatores de conservação transformaram o semi-árido em uma região aparentemente sem história, dada a permanência e a imutabilidade dos problemas. Como se com o decorrer das décadas nada tivesse se alterado e o presente fosse um eterno passado. A cada seca, e mesmo no intervalo entre uma e outra, milhares de nordestinos foram abandonando a região. Sem esperança de mudar a história do espaço onde habitavam, buscaram em outras paragens a solução para a sobrevivência das suas famílias. Foi nos sertões que permaneceu inalterado o poder pessoal dos coronéis, petrificado durante o populismo e pela migração de milhões de nordestinos para o Sul.

Nesse contexto, no presente trabalho propomos enfocar duas problemáticas relacionadas com a questão das secas no Nordeste brasileiro nas representações imaginárias e criativas dos autores regionalistas da década de 1930. Uma delas diz respeito à análise das perspectivas históricas que permeiam a escrita dos literatos do “romance de 30” em torno da interação entre a sociedade e o meio-ambiente, identificando o modo como o fenômeno das secas influenciam na criação desses romancistas que enfocam as zonas semi-áridas do Nordeste brasileiro. A outra proposta de abordagem refere-se à análise do modo como os escritores ligados à chamada literatura regional nordestina são sensíveis aos problemas sociais da região e retratam as implicações sociais, políticas e culturais que os fenômenos climáticos provocam no cotidiano, nos hábitos, costumes e modo de vida de seus personagens.

O objetivo central deste trabalho é analisar de que forma os referenciais naturais/climáticos e sociais/históricos influenciaram as escolhas criativas dos autores ligados à literatura regional do semi-árido. Para isto, buscaremos diluir nosso trabalho em três objetivos pontuais: a) Conhecer como era a sociedade e o ambiente natural do Nordeste brasileiro no qual os escritores regionalistas estavam inseridos; b) Analisar a forma como a literatura regional nordestina percebe e elabora as interações entre a sociedade e os aspectos ambientais e climáticos da região, especialmente no que se refere ao fenômeno das secas em uma historicidade específica; c) Compreender qual a influência das experiências vivenciadas em contato com essa sociedade e com o ambiente natural no qual ela se desenvolvia, sobre as significações imaginárias sociais dos escritores ligados à literatura regional; d) Explicitar a forma particular como os romancistas ligados à literatura regional nordestina são sensíveis às conseqüências e os impactos sociais, políticos, econômicos e culturais decorrentes das secas; e) Identificar nas fontes literárias as estratégias utilizadas pelos personagens da literatura regional do Nordeste brasileiro para burlarem as barreiras impostas pelo flagelo das secas que assolam a região.

Vivemos em uma época em que a questão ambiental tornou-se um dos mais relevantes impasses a ser em enfrentados para a humanidade, parecendo que o mundo se tornou obcecado pela natureza e sua preservação. Mas, em contraste, essa mesma sociedade atual, que elegeu o meio-ambiente como um de seus temas mais populares, é a mesma na qual o consumo de bens e produtos alcançou um nível nunca antes conhecido por nenhuma outra sociedade ao longo da história do homem. Chegava-se à conclusão de que o desenvolvimento tinha claros limites, e muitos passaram a advogar que os recursos naturais se esgotariam sem que a técnica e a ciência pudessem dar solução.

Um dos termos mais repetidos nos últimos anos entre os historiadores é o de “história ambiental”. Há muito que discutiam acerca de seu real significado, seus objetos de estudo, seus pressupostos e métodos e os outros campos de saber com os quais dialoga.

As questões das sociedades e das relações com a natureza são das mais importantes do nosso tempo e de essencial relevância para nosso futuro. A história ambiental (re) nasce para mostrar que existe uma história do pensamento de nossa sociedade contemporânea sobre a natureza e torna-se essencial para a definição dos rumos que a humanidade irá escolher. O fato de os historiadores terem dirigido suas indagações de forma tão sistemática em direção à natureza, ponto de criarem um novo ramo de pesquisa, demonstra muito bem como a produção do conhecimento histórico se faz em sintonia com o seu próprio tempo. As últimas décadas se caracterizam por intensos debates ambientais em setores muito diversos da sociedade.

Desde 1929, Marc Bloch, notável historiador francês, e sua geração questionaram a memorização monótona de fatos e, nomes e datas, afirmando que a história deveria ser muito mais que isso: ela deveria ligar-se ao presente e ao futuro, privilegiando o estudo dos homens no tempo.

Assim, quando os historiadores se voltam para o tema da natureza de forma específica como têm feito, apresentam-se como homens em diálogo com seu próprio tempo e, principalmente, como pesquisadores de um saber não apenas válido, mas essencial para compreendermos nosso presente e atuarmos de forma crítica na sua mudança e construção. A história, ao se voltar para o tema de forma sistemática e minuciosa, cumpre um importante papel. O vigor e a promessa dessa nova perspectiva pela qual historiadores de países e universidades diversas vêm se interessando é o fato de que ela poderá servir prioritariamente à vida, mais que à sua mera conservação, ligando-se a à vida presente e aos homens presentes.

Nesse contexto, a escolha de estudar a história das secas no Nordeste brasileiro justifica-se por várias razões: uma delas é nos colocarmos sob uma postura de historiadoras em sintonia com as questões e os problemas de nosso tempo relacionados à ecologia e ao meio-ambiente, e, especificamente, do espaço em que venho atuando, levando-se em consideração que o tema das secas no Nordeste, cujas soluções foram discutidas historicamente, continua ainda hoje sendo pauta de debates e carecem de políticas que viabilizem efetivamente solucionar suas conseqüências; a escolha de enfocar o tema das secas na literatura regional do Nordeste brasileiro numa perspectiva da história sócio-ambiental, justifica-se, sobretudo, pelo fato de que, embora diversas universidades do país já se preocupem com as inter-relações entre a história, sociedade e natureza, estes temas ainda são pouco explorados pelos historiadores do Nordeste brasileiro.

O historiador e sociólogo Marco Antonio Villa, ao estudar a história das secas no Nordeste dos séculos XIX e XX, apresenta um curioso ponto de partida, a geografia, o espaço, as condições climáticas e as particularidades que resultam das intervenções humanas, produtoras das peculiaridades dessa "região", examinadas em suas dimensões propriamente temporais. Um encontro entre as preocupações da História e da Geografia que caminham, juntas e atentas, às relações entre Estado e sociedade no Brasil.

A relevância deste trabalho se impõe como sendo uma contribuição para a historiografia ambiental da região, que se coloca ainda em um tímido processo de construção.

No que se refere aos trabalhos realizados que abordam questões ambientais na literatura, destaca-se como referência a obra “O campo e a cidade na história e na literatura”, do crítico literário e de cultura inglês Raymond Williams, na qual analisa as transformações ocorridas no campo e na cidade na Inglaterra do período da Revolução Industrial, utilizando como fonte documental a literatura inglesa produzida naquele período. As pessoas envolvidas nessas transformações repensam suas formas de vida de acordo com as experiências vivenciadas em sua sociedade e, aquelas que se expressam artisticamente, demonstram, com suas sensibilidades, essas mudanças culturais, utilizando-se da riqueza de informações que a obra literária oferece[6].

Albuquerque Júnior (1999) utilizou algumas obras do “romance de trinta” para desconstruir os discursos, entre eles, os que se referem às secas na região nordeste do Brasil, que deram visibilidade e dizibilidade a esse espaço.

A crítica literária Lígia Chiappini (2002) critica os argumentos desse autor, afirmando que o mesmo utilizou algumas obras literárias como pretexto para a demonstração de uma tese, montada a partir das teorias pós-modernas e pós-coloniais, que já lhes haviam concebido respostas de ante-mão, produzindo uma obra que generaliza as particularidades dos escritores regionalistas e carente de uma análise atenta e minuciosa em torno das especificidades de cada escritor e, mais ainda, da obra de cada um deles[7].

Nesse contexto, a análise das referências naturais e sociais na literatura regional do semi-árido no Nordeste brasileiro assume certo ineditismo no sentido de que ainda não foi produzido nenhum trabalho de natureza historiográfica preocupado com as questões ambientais, especificamente, com o tema das secas na literatura regional e com a forma como esses escritores, partindo de escolhas criativas, (re) significaram artisticamente os problemas do contexto social no qual estava imerso.

Estudar as secas como um fenômeno climático na literatura regionalista, numa perspectiva de abordagem ambiental é um trabalho inédito porque tema ainda é exíguo e foi mal trabalhado pela historiografia.

Partindo da premissa que valoriza a literatura como uma importante fonte documental para a pesquisa histórica, consideramos oportuno revisitar essas obras com novos olhares, que valorizam as interações entre sociedade e natureza, levando em consideração que o espaço e a natureza são fatores importantes para a formação de identidades e memórias coletivas, e que fenômenos naturais, em especial, especificidades climáticas, influenciam e têm conseqüências na vida e no cotidiano dos diversos segmentos da sociedade, marcadamente, entre os grupos sociais que estão às margens da distribuição das riquezas e das decisões políticas de determinado contexto social.

Como vimos, os historiadores têm se dedicado intensamente ao tema da natureza, fundando um novo campo de conhecimento ao qual denominaram História Ambiental. Entretanto, convém destacar que, não obstante a “febre” da história ambiental e de muitos historiadores norte-americanos reivindicarem para si o pioneirismo em relação à criação dessa nova perspectiva de abordagem, o tema da natureza não é uma completa novidade, mas marcou a s análises de vários e importante estudiosos da história do Brasil e de vários outros países, como França e Inglaterra. Seria indispensável aqui proceder a uma revisão bibliográfica em torno das discussões apresentadas por autores que há muito se preocupavam com as relações entre sociedade, história e natureza. Caberia, portanto, procedermos inicialmente a uma breve história da historiografia ambiental[8].

No Brasil, podemos destacar três autores clássicos em cujas obras o estudo das relações entre a sociedade e a natureza foi realizado de forma magistral, na primeira metade do século XX.

O primeiro é o cearense João Capistrano de Abreu, um dos fundadores dos estudos históricos no Brasil que, em 1907, publicou a obra “Capítulos de História Colonial”, na qual analisa os aspectos físicos do território brasileiro, abordando sua formação geológica, suas bacias hidrográficas, o relevo, a vegetação e a fauna. Mas tudo isso não é feito de forma desconectada da abordagem histórica pretendida pelo autor, pois demonstra as condições em que as sociedades e as culturas indígenas se instituíram, ou ainda aquelas condições encontradas e transformadas pelos colonizadores.A análise de Capistrano de Abreu revela-se atenta às paisagens, aos rios, à terra, às plantas, e animais com os quais os homens lidaram na construção da sociedade brasileira e na ocupação do território que viria a ser o Brasil.

Caio Prado júnior, ao estudar o passado colonial, publicou uma importante obra intitulada “Formação do Brasil Contemporâneo”, em 1942, na qual ressaltou como a atividade monocultora assumiu um aspecto comercial devastador, com a exploração absurda dos recursos naturais em proveito da economia portuguesa. A conquista fazia-se pelo contínuo esgotamento da natureza de uma região que, uma vez arruinada, era abandonada em proveito de outras empresas e outras terras, deixando para trás farrapos de homens, matas derrubadas, solos exauridos, rios lixiviados.

Sérgio Buarque de Holanda merece destaque quando o tema é natureza. Uma de suas obras mais importantes “Monções”, publicada em 1945, na qual ele estuda as expedições através dos rios em direção ao oeste do Brasil colonial, com grande destaque para o enfrentamento dos obstáculos representados pelo meio natural. Para conseguir avançar, os colonizadores aceitaram e assimilaram as formas ,de sobrevivência e os saberes dos índios que encontraram adaptando-as às suas próprias experiências e necessidades. Em outro livro de 1954, “Visão do Paraíso”, esse historiador denunciou novamente a prática de desfrute irresponsável das riquezas naturais, acarretando uma devastação incontrolável ao longo da história do Brasil, numa sucessão de Eldorados que não precisa ter fim: o do açúcar, do tabaco, do café, numa sucessão de historicidades em que os homens lidavam com a natureza como se ela fosse inesgotável, na Colônia, no Império e, infelizmente, na República.

Ainda poderiam ser elencados historiadores de outras gerações e de outros países em cujas obras a natureza aparece como um tema privilegiado. É o caso de Fernad Braudel, que escreveu uma importante obra intitulada “O Mediterrâneo”, em que discute toda vida humana que se desenrolou em torno do mar. O historiador francês Emmanuel Le Roy Ladurie, em sua obra “Montaillou”, sobre uma aldeia herética medieval, além de realizar estudos sobre o clima e suas relações coma sociedade. Essa obra apresenta particular relevância para a pesquisa que aqui nos propomos realizar. Destacam-se ainda as análises das práticas agrárias do feudalismo por Marc Bloch, ou mesmo a história dos camponeses medievais realizada por Georges Duby. Podemos também destacar ainda Jacques Le Goff com seus estudos do imaginário medieval sobre a natureza maravilhosa dos lugares distantes da Europa.

Não obstante o fato de não se auto-intitularem historiadores ambientais, essas análises privilegiaram a construção cultural e histórica do meio natural e contribuem para transformar a nossa perspectiva sobre a história das sociedades humanas.

O historiador norte-americano Simon Schama em sua obra “Paisagem e Memória”, embora reconheça que a história do ambiente seja uma das mais originais e instigantes que estão sendo escritas hoje, destaca o fato de os historiadores do ligados a esse novo campo de abordagem exporem o mesmo quadro desanimador e lamentarem a anexação da natureza pela cultura como constituinte de uma calamidade irremediável e predeterminada. Embora não neguem que a paisagem possa ser um texto em que as gerações escrevem suas obsessões recorrentes, eles não exultam com isso. Schama. Embora reconheça que o impacto da humanidade sobre a ecologia não foi puro benefício, Schama (1996) destaca que é nossa percepção transformadora que estabelece a diferença entre matéria bruta e paisagem. Não concebida como um consolo fácil para o desastre ecológico, tampouco como uma solução para os profundos problemas que ainda atormentam qualquer democracia desejosa de reparar o abuso contra o ambiente e, ao mesmo tempo, preservar a liberdade. Como todas as histórias, apresenta a obra menos como uma receita para a ação do que um convite à reflexão e pretende contribuir para o autoconhecimento que sugerir uma estratégia de redenção ecológica. No entanto, o autor tenta demonstrar que, ao longo dos séculos, se formaram hábitos culturais que nos levaram a estabelecer com a natureza uma relação outra que não a de simplesmente explorá-la até a morte, que o remédio para nossos males pode vir de dentro de nosso universo mental comum[9].

No que se refere a história das secas no Nordeste brasileiro, destacamos a obra de Villa (2000), em que o autor reconstrói a saga dos retirantes e milhões de flagelados fugindo da destruição trazida pelas grandes secas e analisa os principais momentos de devastação econômica e miséria dos sertanejos provocados pelas contínuas estiagens na região nordeste ao longo dos séculos XIX e XX, chegando até o governo Figueiredo.

Situando historicamente as diversas secas que assolaram a região e conduziram à morte de milhares de brasileiros, Villa (2000) faz, primeiramente, uma breve revisão das secas ocorridas no período colonial, para depois destacar a grande seca de 1877-1879, considerada a maior do século XIX, na qual morreu aproximadamente 5% da população brasileira, e que acabou transformando o Nordeste – então chamado de Norte – em uma região-problema. Quando ocorreu a primeira seca da vida republicana, entre os anos de 1898 e 1900, Campos Sales não atendeu aos pedidos de socorro dos governadores nordestinos, argumentando que qualquer gasto extra-orçamentário colocaria em risco sua política de estabilização fiscal e monetária. Nesse ponto, Sales tinha uma posição semelhante à de Rui Barbosa, que em toda sua carreira política durante a República ignorou o problema da seca. O autor ainda analisa a seca de 1915 e a política desenvolvida por Epitácio Pessoa no seu triênio presidencial, suas propostas inovadoras e as causas do fracasso. Desde 1909, com a criação da Inspetoria Federal de Obras contra as Secas, o governo central passou a ter neste órgão o principal agente para enfrentar as secas do Nordeste.

Continua na Segunda Parte


* Orientador: José Otávio Aguiar. (Professor Doutor em História e Culturas Políticas pela UFMG/ Professor Adjunto da Unidade Acadêmica de História e Geografia da UFCG). Endereço eletrônico: jotavioa@terra.com.br
Autora: Catarina de Oliveira Buriti (Graduada em Jornalismo pela UEPB, Acadêmica do curso de História da UFCG, Pesquisadora do PIBIC/UFCG/CNPq). Endereço eletrônico: catyburiti@yahoo.com.br

[1] Villa, 2000.

[2] Duarte, 2005.

[3] Idem.

[4] Idem.

[5] Castoriadis, 1987.

[6] WILLIAMS, Raymond. O campo e a cidade na história e na literatura. São Paulo: Cia das Letras, 1990.

[7] CHIAPPINI, Lígia. Raquel de Queiroz: invenção do Nordeste e muito mais. In: CHIAPPINI, Lígia; BRESCIANI, Maria Stella. (Org.). Literatura e cultura no Brasil: identidades e fronteiras. São Paulo: Cortez, 2002. p. 159-176.

[8] Duarte (2005).

[9] Schama (1996), p. 29.