ISSN 1807-1783                atualizado em 16 de setembro de 2009   


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O Silêncio, a Ação e o Sagrado: A Diocese de Ponta Grossa-PR Durante o Episcopado de Dom Geraldo Micheletto Pellanda – (1965-1990) nos Jornais “DIÁRIO DOS CAMPOS” e “PLANO DE PASTORAL”.

por Siderlei Nascimento e Solange de Moraes Barros

Sobre o autor[1]

Sobre a autora[2]

1 INTRODUÇÃO

O interesse pelas questões religiosas da Diocese de Ponta Grossa-PR, especificamente na Cidade de Ponta Grossa, parte de leituras realizadas sobre Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) durante o curso de graduação em História, nos anos de 2003 e 2004. Esse processo de investigação agiu de maneira significativa, despertando problemáticas sobre as formas que a Igreja e a comunidade católica local vivenciaram o impacto das transformações do Catolicismo na América Latina[3] após o Concílio Vaticano II.

Embora, o primeiro trabalho sobre a Diocese de Ponta Grossa, “Um Processo de Libertação? Práticas Sociais da Igreja Católica em Ponta Grossa – PR (1965-1977)” tenha focado os movimentos sociais da Igreja Católica progressista e da Teologia da Libertação[4], conforme suas práticas em outras localidades do território nacional caracterizou os primeiros passos de outra proposta de abordagem. Ao analisar o episcopado de Dom Geraldo Micheletto Pellanda, foi possível constatar que as experiências dos personagens da Diocese não deveriam ser observadas apenas em suas organizações, associações ou instituições, mas de outros ângulos da vivência religiosa.

Visando exemplificar as tendências de interpretação sobre religiosidade deste artigo, considero que seria prudente assumir uma abordagem que possibilite dialogar criticamente com algumas interpretações. A primeira em “Cotidiano e vivência religiosa entre a capela e o calundu”, Luiz Mott afirma: (...) Por trás do estímulo à vida eclesial comunitária, não há como negar estava o forte interesse da hierarquia eclesiástica em controlar o seu redil “um só rebanho e um só pastor” – exaurindo dos fregueses as cobiçadas esmolas, dízimos e demais benesses materiais para manter a riqueza do culto e a boa vida dos clérigos e religiosos: “O olho do dono é que engorda o gado” e as algibeiras do pastor[5]”. Apesar de ser uma possibilidade de análise, mesmo que dicotômica, nos motiva a considerações lógicas como o objetivo de ampliação da influência da Igreja na sociedade e ao mascaramento da opressão de classe, referindo-se à religião como forma de conhecimento associada à ignorância. O discurso religioso seria estratégia de ampliação de seu espaço de poder na sociedade.

Outra perspectiva de análise parte do povo, em especial os pobres: indígenas, escravos africanos, camponeses sem terra, operários, mulheres, mesmo que represente um avanço a anterior é “História do Cristianismo na América Latina e no Caribe” de Eduardo Hoorneart, para quem “a cristianização nestas terras se deu sem levar em conta as culturas aqui existentes”. Nessa análise, a crítica do autor é possível, já que os questionamentos não se dirigem propriamente ao cristianismo, mas ao modelo de implantação existente em seus anseios. Nessa perspectiva comprometida em reconquistar uma situação em que a igreja teria o monopólio das consciências do “pobre” da América Latina: “Não pensamos que seja utópico proceder aqui, de forma nova, por exemplo, através do fortalecimento das culturas que ainda resistem, com muita vitalidade, diante da imposição da cultura cristã...”[6]

Ambas as abordagens têm um dualismo conceitual, um ponto definido para a observação da realidade. Para elucidar a argumentação pretendida neste artigo sobre a interação entre crentes e a Igreja Católica, entendemos o processo de sincretismo como pertencente ao campo cultural e não exclusivamente ao da religião.[7] Nesse sentido, grupos humanos quando em contato com outros: tem tendência a utilizar relações apreendidas no mundo do outro para ressemantizar seu próprio universo.[8] Trata-se de uma dinâmica do processo de ampliação identitária e de constantes reinterpretações. Rearticulação cultural que é provavelmente a parte necessária de um processo de ampliação identitária tencionado por reinterpretações.[9]

Ao analisar o episcopado de Dom Geraldo Micheletto Pellanda, é possível considerar que ele não estava comandando o jogo, mas era parte integrante. A Igreja Católica, enquanto instituição, foi forjada culturalmente pelos crentes e vice-versa. Essa reflexão ganha clareza com a compreensão da formação do campo religioso no Brasil, marcado pelo sincretismo e por uma ampla rede cultural, na qual está implícita uma infinidade de interpretações possíveis, das instituições religiosas e das vivências do religioso, inseridas em contextos sócio-culturais por relações de poder, produção e apropriações subjetivas.

Tendo esse pressuposto como fio condutor, o artigo tem seu ponto de partida nos textos do Jornal “Diário dos Campos” com as opiniões sobre a “Era Pellanda”, presentes na memória construída através da vivência religiosa, relacionando o fato social da memória ao fato social da participação em grupos sociais, que determinam o processo de reconstrução das lembranças: no ato de lembrar, nos servimos de “campos de significados” os quadros sociais que nos servem de pontos de referência. As noções de tempo e de rememoração do passado na medida em que as localizações espacial e temporal das lembranças são a essência da memória.[10] Na intenção de dialogar criticamente com esses textos do jornal “Diário dos Campos” e de apresentar hipóteses de como o episcopado de D. Geraldo foi conduzido na interação igreja/fiel, foi analisado o Plano de Pastoral (Biênio 1978-1979) da Diocese de Ponta Grossa-PR, autorizado pelo bispo diocesano, que possibilita observar os direcionamentos pastorais e a interação igreja/fiel.

2 O CONTEXTO DO EPISCOPADO DE D. GERALDO

A transformação econômica e de padrões de consumo da sociedade brasileira no período em que D. Geraldo foi bispo diocesano de Ponta Grossa-PR (1965-1990), assim como a multiplicidade de costumes e tradições fundamentadas em uma irreversível “revolução cultural” moderna, certamente movimentaram todas as áreas da sociedade, exigindo, também, da Igreja Católica, enquanto instituição, a reestruturação das suas ações. Nesse contexto as influências culturais, sociais, políticas e econômicas se manifestam constituindo novos projetos, inclusive no campo eclesial, o qual sofre com mudanças específicas de acordo com seus delineamentos regionais e locais.

Para observar tal aspecto da situação ponta-grossense, existem determinadas características consideráveis em seu processo histórico. Desde seu povoamento a partir de 1704, pelos nobres paulistas José de Morais e Pedro Taques de Almeida, que requerem grandes sesmarias no território paranaense[11], como bairro em 1820, Freguesia em 1823, Vila em 1855 até transformar-se em Cidade em 1892, e ganhar autonomia política, teve seu desenvolvimento econômico influenciado pela localização privilegiada no entroncamento comercial do Paraná, primeiramente pecuário até o final do século XIX, e erva-mate, madeira e gado durante o início do século XX, formando-se assim sob a hegemonia das fazendas e da economia campeira.[12]

Nas primeiras décadas do século XX a burguesia do mate e os bacharéis dos Campos Gerais já dividem o poder político, ditam as regras urbanas opostas aos costumes do poderio dos fazendeiros, que declina durante o período, com a instalação das fábricas, estabelecimentos comerciais, e entre 1920-1945 firma-se como pólo regional do Paraná com influência geo-econômica. Mas, o que interessa para a perspectiva deste trabalho é a formação cultural da diocese, que reside na cultura dos costumes dos fazendeiros.

Outra observação em relação ao campo cultural de Ponta Grossa, importante para a perspectiva deste trabalho, foca o plano religioso. Consideramos a interpretação sobre a criação do Instituto de Filosofia e Teologia Mater Eclesiae (IFITEME), na Diocese de Ponta Grossa, que nos permite analisar a visão do bispo ponta-grossense diante de um novo contexto sócio-eclesial e a necessidade de outro modelo de formação sacerdotal e ação pastoral que contrariava D. Geraldo, e a incolumidade vocacional devido à valorização da figura tradicional de sacerdote, em virtude de um processo tardio de urbanização e industrialização do município:

Que motivos levaram o segundo bispo diocesano a decidir pela implantação do Instituto de Filosofia e Teologia na Diocese? Para entender tal decisão é necessário constatar, como vimos acima, que a crise da identidade sacerdotal na década de 60 do século passado, acabou levando, de um lado, a desistência de inúmeros seminaristas e padres, ocasionando o fechamento de mais de 100 seminários e, de outro, à busca de modelos alternativos de formação. Dentre os vários motivos que levaram a tal crise destacam-se: as mudanças sociais e culturais mais amplas, com a crescente urbanização e industrialização da sociedade moderna: as mudanças eclesiais com a maior abertura ao mundo secular prevista pelo Concílio Vaticano II, Conferências Episcopais de Medellín (1968) e a própria atuação mais engajada politicamente de significativos setores da Igreja latino-americana e brasileira, propiciando maior participação popular e leiga, que levavam a colocar em xeque o perfil tradicional de sacerdote, preconizando-o como referência hierárquica da comunidade católica. Assim, esse novo contexto sócio-eclesial tonificado por uma renovação progressiva começa a produzir elementos de uma nova formação que contrapõe à visão tradicional do “seminário fechado” e redesenha a identidade sacerdotal, atribuindo-lhe um novo papel eclesial e político, tornando “o padre na teoria um servidor do povo, que teria um engajamento pastoral mais ativo do que o padre de formação pré-conciliar e politicamente à esquerda deste”. Tal decisão contrariava a visão do bispo ponta-grossense que se orgulhava, num contexto de “crise vocacional”, de contar na Diocese com inúmeros seminários, ainda repletos de estudantes. Um dos prováveis motivos dessa “Incolumidade à crise vocacional” pode ter sido o processo tardio de urbanização e industrialização ocorrido na região diocesana, que abrigava Ponta Grossa e as cidades vizinhas. De fato, numa sociedade predominantemente rural, a figura tradicional do padre continuava valorizada. [13] (grifo meu)

O município teve seu crescimento econômico notadamente no setor agroindustrial, com a produção direcionada à exportação da soja na década de 1970. Nesse contexto de revitalização econômica, a atração populacional foi significativa, e a migração proveniente de outras cidades e da área rural da região passou a contribuir para o crescimento do número de habitantes da cidade. A partir dessa reflexão, é possível imaginar a identidade religiosa ponta-grossense com caráter heterogêneo, como forma de expressão e de reinterpretação. Assim sendo, a análise do processo histórico do catolicismo em Ponta Grossa pode ser observada nas possíveis reinterpretações e expressões das relações sócio-eclesiais, no contexto das transformações sociais da urbanização, industrialização e culturais da sociedade moderna.

Criada em 10 de maio de 1926, pela Bula Papal QUUM IN DIES NUMERUS, a Diocese de Ponta Grossa surgiu devido ao interesse, existente na época, em se transformar a Diocese de Curitiba-PR em arquidiocese. Em 04 de maio de 1930 tomou posse, como primeiro bispo diocesano, Dom Antonio Mazarotto. Depois de trinta anos de serviços prestados à comunidade católica de Ponta Grossa, passou a contar com o auxílio de um bispo coadjutor com direito à sucessão, Dom Geraldo Micheletto Pellanda, o qual foi nomeado em 09 de novembro de 1960 pelo Papa João XXIII.

Dom Geraldo nasceu na Cidade de Curitiba-PR, em 01 de setembro de 1916, e ingressou na vida religiosa no Seminário Menor dos Padres Passionistas, aos doze anos de idade. Foi ordenado sacerdote em 1939 e por sucessão a Dom Antonio Mazarotto assumiu o bispado de Ponta Grossa, em 24 de fevereiro de 1965. A partir de então, fundou diversas paróquias, assim como incentivou o início de movimentos como o MFC (Movimento Familiar Cristão). Promoveu atividades pastorais, dando abertura para que se instalassem diversas comunidades de congregações religiosas dentro dos limites da diocese, como a Sociedade de São Francisco de Sales, a Congregação das Escolas de Caridade, a Ordem dos Frades Menores Missionários e a Congregação da Sagrada Família de Nazaré. ...de abril de 1965 a julho de 1976, foram criadas dezessete Paróquias na Diocese, e o número do clero diocesano elevou-se para vinte e quatro sacerdotes, e o religioso para cento e doze sacerdotes...[14]

Pode-se observar, nesse período, um significante dinamismo na igreja brasileira com a presença dos leigos, tanto nas Comunidades Eclesiais de Base, que se espalham pelo país, como nas pastorais especiais e nas Organizações não-governamentais (ONGs): ...que se multiplicaram nos anos 70, levando quadros de classe média, intelectuais, sobretudo, a trabalhar pela promoção social das classes pobres... Ainda que independentes e leigas cerca de 40% delas estão diretamente associadas à Igreja...[15]

3 O EPISCOPADO NO JORNAL “DIÁRIO DOS CAMPOS”

Em relação a este contexto, as questões sobre a “Era Pellanda” despertam opiniões contraditórias na sociedade ponta-grossense atual, entre historiadores, intelectuais e a comunidade. Para observarmos a tensão existente no processo histórico da diocese princesina, durante o episcopado de D. Geraldo, citamos discussões em torno das questões presentes na memória construída através da vivência religiosa:

No jornal da cidade “Diário dos Campos”, edição do dia 28 de julho de 2005, o Historiador Acir da Cruz Camargo escreve um ensaio intitulado “O Término da Era Pellanda” tecendo comentários sobre ações de D. Geraldo, pré-Concílio Vaticano II, que contrariam seus anseios de opção pelos “pobres”:

Depois, a era Pellanda, caracterizada pelo catolicismo medieval, pomposo, exigente de honrarias seculares, dos beijos em anéis, bajulações do poder temporal, culto à personalidade e ideologicamente pré-Concílio Vaticano II, discurso tradicional, afinado com os donos do capital, favorável aos ricos (Tiago 5, 1-4). Fase com que mais correspondeu à hipocrisia ponta-grossense, ao falso moralismo, da pretensa capital cívica, farisaicamente cristã, das rezas e não das orações, da vida cristã intra-paroquial e da ausência no cotidiano. Um município com gente empobrecida, doente, sem escola, morando em favelas, dormindo nas ruas, e com um forte aparato religioso burguês. Tradicionalmente medrosos de mudanças, para quem o mínimo ruído cheira comunismo, este tipo de bispado assenta bem. [16]

No dia seguinte à publicação, David Pilatti Montes, empresário, escritor, membro da Academia de Letras dos Campos Gerais e ex-presidente do Serra Clube de Ponta Grossa, e Edílson Carneiro Baggio, também empresário, ex-presidente da Associação Comercial e Industrial de Ponta Grossa, ex-secretário municipal de Indústria e Comércio, escrevem um ensaio a respeito das declarações sobre a “Era Pellanda” de Acir da Cruz Camargo no dia 28/07/2005, intitulado “Respeito à História” permitindo a observação de um debate ideológico, que ao contrário da opção pelos “pobres” valoriza a ampliação da Diocese, sem deixar claro em que sentido e de que forma D. Geraldo executou a abertura do Concílio Vaticano II:

Presume-se que um historiador pelo menos respeite a História, mas nem sempre isso acontece. O artigo “O término da Era Pellanda”, publicado ontem neste matutino e assinado por alguém que se diz “historiador”, embora dele não se conheça publicação acadêmica digna desse nome, não passa de um miasma de chavões absolutamente dissociados da realidade. As acusações e insinuações assacadas contra um dos mais brilhantes e inteligentes prelados que esta cidade já conheceu, o falecido D. Geraldo Pellanda, são fruto talvez da imaginação fértil do autor, ou de suas convicções ideológicas, evidenciadas em cada linha. Além de historicamente incorreto, o artigo que coloca o longo e fecundo episcopado de D. Geraldo como um retrocesso ao “catolicismo medieval”, evidencia que o dito historiador não conheceu aquele bispo e baseia-se na cultura de orelhada para emitir suas opiniões. Executor da abertura patrocinada pelo Concílio Vaticano II, D. Geraldo foi o responsável - ao contrário do que afirmada no artigo “esquerdista” de ontem – pela ampliação da Diocese, em todos os sentidos.  [17]

Esse debate evidencia as memórias e interpretações antagônicas que emergem sobre o período, que acabam retratando as visões de diferentes grupos, no momento em que o catolicismo delineava diferentes percepções. Nesse sentido, seria interessante acrescentar um terceiro texto sobre a “Era Pellanda”, agora de um autor que, na qualidade de “cidadão” ponta-grossense também vivenciou o período:

Há dias passados, neste espaço, assistimos um desagravo por parte de respeitáveis acadêmicos, indignados com a postura e forma de pensar do historiador Acir Camargo da Cruz ao analisar a Era Pellanda. Não vou entrar no mérito do virulento desagravo, mas como cidadão, nascido e criado em Ponta Grossa [...] Lembro que a primeira atitude de Dom Geraldo, foi a de construir uma nova mansão para si, que mais tarde foi transformada em escola de filosofia por Dom João Braz de Avis, tido pelos fariseus catolicões, comedores de hóstia e adoradores do divino, como Apostata. Lembro também da demolição da nossa Catedral, lembro do povo indignado, lembro das pessoas chorando na Praça Marechal Floriano Peixoto, e lembro também da Dona Otília Cunha, dando vassouradas nos operários que operavam as máquinas, como se fossem eles os culpados. Lembro dos grandes negócios de Dom Geraldo, que acho que podemos qualifica-lo de Bispo Pragmático, pois se ocupou muito mais com a parte física do que a espiritual da igreja.[18] (grifo meu)

Esse debate polêmico em torno da ação episcopal de Dom Geraldo é o combustível para a investigação da Diocese princesina, pois os testemunhos possibilitam analisar as várias memórias existentes, abrindo campo para a observação dos mecanismos sócio-culturais presentes na sua constituição, assim como as relações de poder, construção de subjetividades e discursos que permeiam as relações humanas na História. O Episcopado de Dom Geraldo é observado nos discursos polêmicos do Jornal “Diários dos Campos”. No entanto, para o historiador não cabe apontar a veracidade, mas compreender as formas de construção dessa memória. Nesse sentido, refletir a partir desses depoimentos do jornal sobre o plano pastoral para o biênio 1978-1979 da diocese de Ponta Grossa, orientado por Dom Geraldo, possibilita analisar o processo na encruzilhada entre catolicismo pré-conciliar e percepções e práticas pós-Concílio Vaticano II.

4 O Plano Pastoral para o biênio 1978-1979

Se considerarmos o depoimento de Acir da Cruz Camargo do jornal de Ponta Grossa “Diário dos Campos”, edição do dia 28 de julho de 2005, não podemos compreender por que D. Geraldo assinaria um plano de pastoral que provoca a abertura para um direcionamento pastoral de conjunto, que supera as clássicas formas eclesiais, ou seja, novas formas de vivência evangélica, Diocese/Paróquia/Associações de Movimentos Leigos, e que inclui o cotidiano do fiel nas práticas pastorais, característico da igreja católica pós-Concílio Vaticano II:

Olhemos para a conjuntura da Sociedade Moderna. Esta produziu uma grande massificação das pessoas, perdidas dentro de um anonimato geral, em que ninguém mais se encontra, se conhece e se ama. Imperceptivelmente elas vão perdendo a sua própria personalidade, tornando-se incapazes de espírito crítico e criativo, de aspirações profundas e livres de uma autêntica hierarquia de valores humanos e espirituais. Face a isso articulou-se lenta, mas com cada vez mais intensidade, uma reação no sentido de criar comunidades onde as pessoas se conhecem e reconhece, pudessem ser elas mesmas, pudessem dizer sua palavra e ser acolhida pelo seu nome próprio. Assim surgiram grupos e pequenas comunidades por toda a parte.[19]

Esse direcionamento pastoral, que deu origem a novas percepções e práticas em São Paulo, responsável pelo início e expansão de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), teve dois momentos decisivos. Primeiramente com os cursos de evangelização, que buscavam a formação de lideranças leigas, baseadas em uma pastoral de conjunto, a partir de 1969, e posteriormente a inclusão das CEBs como uma das prioridades do plano pastoral da Arquidiocese de São Paulo 1976-1977.[20]

Na Diocese de Ponta Grossa, a meta prioritária do plano pastoral 1978-1979 era a catequese, visando a educação de agentes de pastoral, atualizando os conselhos pastorais e organizando grupos de reflexão. No entanto, não deixam claro o que existia em anos anteriores e que naquele momento julgavam como “condições e clima” para a mudanças dos direcionamentos:

Reunidos em quatro sucessivos encontros, a partir de agosto de 1977, refletiram sobre a caminhada pastoral já feita em anos anteriores. Ao mesmo tempo julgaram que há “condições e clima” para dar um passo mais a frente e, finalmente, decidiram agir, a partir de um plano de Pastoral que desse prioridade..., visando as COMUNIDADES DE BASE (CEBs), cujo surgimento deve ser considerado um verdadeiro “reinício da igreja”, uma nova “Eclesiogênese”. (grifo meu)

Não deixando clara essa justificativa para a mudança dos direcionamentos pastorais, continuaram enfatizando a catequese no sentido de auxiliar a formação de agentes de pastoral:

Continuamos colocando a Catequese como meta prioritária, para que todos cheguem ao conhecimento da verdade, e como conseqüência ao aprofundamento da fé pela teologia, a fim de que todos os Agentes de Pastoral, mais iluminados e seguros na doutrina da Igreja, por sua vez com segurança e fidelidade os seus irmãos:- é a educação permanente da fé que queremos proporcionar a todos os nossos diocesanos. Como meios para melhor atingirmos essa grande meta, estabelecemos outras duas metas: a atualização dos Conselhos Paroquiais de Pastoral e a organização dos Grupos de Reflexão.[21]

A formação leiga, especificamente a evangelização de adultos, parecia ser necessária para a organização de animadores mais esmerados, dinamizando trabalhos em reuniões e roteiros à realidade das comunidades, com encontros para troca de experiências, processo que parece ser claro em São Paulo. Esse foi o interesse da instituição católica ponta-grossense, mas existem indicadores que desejavam uma formação específica que estava sendo utilizada no sul do Brasil. Ao passo que entendiam que havia “clima e condições” para uma nova forma de ser igreja na Diocese de Ponta Grossa, também fica claro que desejavam controlar o processo, já que tinham um modelo de realidade católica ponta-grossense diferente em seus entendimentos compatível apenas com a região Sul do Brasil:

Material: Em geral não correspondem à situação vivencial em nossa realidade (Material de São Paulo, etc...) MAS: - há esforços para adaptar. – há procura de um material novo elaborado nas Dioceses do Sul. – há tentativas de elaborar material próprio. [22] (grifo meu)

Em São Paulo, a formação leiga ocorreu a partir de 1969, na segunda fase, em que a Arquidiocese priorizou a formação das comunidades católicas de base em 1976/1977, grupos de reflexões já estavam consolidados. A Diocese princesina passou por um processo específico e tardio na formação de uma nova percepção da Igreja Católica.

O aspecto discutível é o da originalidade e articularidade de cada lugar e igreja, e que me parece ser bem compreendido pela Igreja católica ponta-grossense: “..há uma consciência muito nítida de se estar diante não de um modelo único, acabado, que deva ser implantado sem mais. Ao contrário, está-se diante de um processo amplo e diferenciado de profunda renovação das estruturas eclesiais...conforme as condições sócio-econômicas e culturais das várias regiões do país...”[23]. É necessária a resposta do católico a qualquer direcionamento institucional, que funciona como ponto de partida, mas conta com reinterpretações conforme o contexto sócio-eclesial e cultural[24].

A existência de grupos de reflexão, que atuavam nas paróquias durante o contexto da igreja católica pós-Concílio Vaticano II, era um fator essencial para a vitalidade religiosa e para desenvolvimento dessa nova percepção de igreja, servindo de ponto de referência e de unidade para a caminhada pastoral: “Em geral, não há nenhuma formação, ou é muito escassa. Isso se verifica quer na formação específica: referente às responsabilidades comunitárias das lideranças eclesiais, quer técnica, referente à dinâmica de trabalho, nas reuniões, etc.”[25]

Em Ponta Grossa em geral existiam alguns grupos em cada paróquia, no entanto parece ter pouca e desorganizada a formação dos animadores, mesmo que orientadas por roteiro não ganhava força para ampliação. “Roteiro: Em geral é usado, e é um ponto de partida. Nota-se, porém uma situação estática, que não sai do roteiro.”[26]

Outro aspecto que demonstra uma situação estática, não somente na organização e formação de animadores, era a permanência das mesmas pessoas nos conselhos e diretorias, fator que dificultava a alteração dos direcionamentos pastorais e na articulação de reinterpretações na forma de ser igreja:

“Em geral de 1 a 3 anos. Há casos engraçados de “perpetuidade no poder”.[27]

5 Considerações finais

Os pressupostos para a análise buscaram não fixar o foco nos direcionamentos institucionais, mas também na observação da interpretação da comunidade católica local. Não há como afirmar que as novas práticas do catolicismo poderiam ser implantadas ou evitadas exclusivamente pelo segundo bispo da diocese ponta-grossense, como é atribuído a D. Geraldo nos debates em torno da “Era Pellanda”, mesmo que houvesse a intenção de direcionamentos específicos para a realidade local.

Durante o episcopado de D. Geraldo, especificamente no recorte feito para o artigo, podemos inferir que, por um lado, D. Geraldo direcionou uma pastoral nem tanto medieval, e autorizou, através do Plano de Pastoral da Diocese de Ponta Grossa-PR – Biênio 1978-1979, esforços para a construção de uma igreja pós-Concílio Vaticano II, com sua maneira de entender a realidade local. Isso, num primeiro momento, pode explicar o processo tardio das formações de percepções do catolicismo pós-Concílio Vaticano II: D. Geraldo “segurou”, nunca foi favorável, mesmo na época haviam notícias de bispos ligados a movimentos... D. Geraldo não foi dessa linha... D. Geraldo foi muito hábil, sempre deu tempo ao tempo, nunca foi radical nas mudanças[28].

Nesse contexto, podemos observar, nas práticas das comunidades que receberam esse direcionamento, pouco dinamismo e interesse: D. Geraldo até conseguiu, de certa forma nessa transição, pela própria mentalidade do ponta-grossense, que eu considero conservadora.[29] Diante disso, apontamos as prováveis razões de um processo tardio de outra percepção e prática do catolicismo ponta-grossense que está presente em sua memória. Do lado institucional, D. Geraldo, mesmo entendendo que havia, naquele momento, condições e clima para tal, procurou ajustar o processo ao que acreditava ser a realidade ponta-grossense, sempre dando “tempo ao tempo”. Esse dinamismo de D. Geraldo teve com o católico ponta-grossense terreno fértil, uma vez que sua cultura valorizava a figura do padre tradicional e demorou um pouco para vivenciar outras práticas do catolicismo.

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Plano de Pastoral da Diocese de Ponta Grossa-PR – Biênio 1978-1979


[1] Licenciado em Historia - Universidade Estadual de Ponta Grossa, Especialização em História do Paraná - Universidade Estadual do Centro Oeste do Paraná e Mestrando em Ciências Sociais – Universidade Estadual de Ponta Grossa.

[2] Doutora, e Professora Orientadora do Mestrando.

[3] HOORNEART, Eduardo. História da Igreja na América Latina e no Caribe: o debate metodológico. Ed. Vozes, 1995.

[4] BOFF, Leonardo. Teologia da Libertação e do Cativeiro. Editora Vozes, 1980.

[5] MOTT, Luís. Cotidiano e vivência religiosa: entre a capela e o calundu. In: SOUZA, L.M. (Orgs.) História da Vida Privada no Brasil I. Editora Cia. das Letras, 1997 p.155-220.

[6] Idem 3

[7] SANCHIS, Pierre. As Tramas Sincréticas da História: sincretismo e modernidade no espaço luso-brasileiro. Revista Brasileira de Ciências Sociais: nº. 28, p. 123-138.

[8] Idem 4

[9] SILVA, Edson A. A Identidade Católica no Brasil: Processos Tencionados de Construção, 1999.

[10] FÉLIX, Loiva O. História & Memória: problemática da pesquisa. Ed. EDIUPF, 1998.

[11] SILVEIRA, Folheto a Fundação de Ponta Grossa.

[12] DITZEL, Carmencita de H. M. O Arraial e o Fogo da Cultura: os euclidianos ponta-grossenses. Dissertação de Mestrado: UEPG, Ponta Grossa, 1998.

[13] JACINSKI, Edson. Formação Filosófica na Diocese de Ponta Grossa: dilemas na construção de uma nova subjetividade eclesial. In: Revista de História Regional, Ponta Grossa, 2002.

[14] JACINSKI, Edson. A Construção de uma Nova Identidade Sacerdotal na Diocese de Ponta Grossa, refletida nas alterações ocorridas no Curso de Filosofia de 1974 a 1994. Monografia de Especialização: UEPG, Ponta Grossa, 1999.

[15] Idem 8.

[16] CAMARGO, Acir C. O Término da Era Pellanda. Jornal Diário dos Campos, Ponta Grossa, 28/07/2005.

[17] David Pilatti Montes e Edílson Louis Carneiro Baggio. Respeito à História. Jornal Diário dos Campos, Ponta Grossa, 29/07/2005.

[18] Tito Fonseca. O meu testemunho à História. Jornal Diário dos Campos, Ponta Grossa, 07/08/2005.

[19] Idem 17

[20] CAMARGO, F. P. C.; SOUZA, M. B.; PIERUCCI, O.F. A. Comunidades Eclesiais de Base. In: São Paulo: O Povo em Movimento. Ed Vozes, Petrópolis, 1982

[21] Plano de Pastoral da Diocese de Ponta Grossa-PR – Biênio 1978-1979

[22] Idem 17

[23] Idem 17

[24] Idem 8

[25] Idem 18

[26] Idem 19

[27] Plano de Pastoral da Diocese de Ponta Grossa-PR – Biênio 1978-1979

[28] Entrevista realizada em fevereiro de 2006, com Hélcio de Oliveira Ladeira, membro do Conselho de Administração da Diocese em 1976, e até os dias de hoje colabora com a organização administrativa-pastoral da Diocese de Ponta Grossa.

[29] Idem 22