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A república, o romantismo tardio e a modernidade
O império nacional brasileiro não permitiu a fragmentação da América Portuguesa
e instalou uma monarquia encabeçada pelo herdeiro da Coroa, Pedro I, que
proclamaria a Independência em 1822[25].
A répública foi portanto criada sem inimigo, sem povo, sem universidade e sem
indústria. Assim que descobriram que havia um povo no Brasil, não foi preciso
"matar a tribo para construir a nação"[26]:
seus elementos exóticos foram emprestados para transformá-los e mostrar ao mundo
que somos civilizados: Villa-Lobos será tocado na Paris de Stravinsky[27]
e a Bossa Nova (separação musical entre a pequena-burguesia e a classe popular[28]
— será reconhecida como filha do Jazz. Um bom exemplo é o CD de Fábio Caramuru,
MCD, 1998, Tom Jobim piano solo.
O Brasil passou de colônia a nação independente e de monarquia a República sem
que a ordem latifundiária fosse afetada[29]
e sem que o povo tomasse conhecimento (RIBEIRO, 1995, p. 219): nenhum programa
de educação das massas foi criado, em contrapartida à criação de escolas para a
elite, e o povo brasileiro permaneceu analfabeto (ibidem, p. 253).
O Conservatório de Música do Rio de Janeiro[30]
foi criado em 1841 pelo autor do hino nacional[31],
Francisco Manuel da SILVA (1795-1865) e o romantismo tardio começa em 1861 com a
ópera Noite do Castelo, de Carlos GOMES (1836-1896). Entre os principais
compositores românticos, Alexandre Levy (1864-1892) compõe o primeiro samba
sinfônico em 1890, gravado pelo selo Festa, em 1969, com a Orquestra Sinfônica
Brasileira, sob a direção de Souza-Lima.
A modernidade começa com o Uirapuru[32],
de Villa-Lobos (1915), gravado por Stokowsky[33]
e também pelo selo Delos, 1989, com a Orquestra Sinfônica da Paraíba, sob a
direção de Eleazar de Carvalho. Muitos compositores, porém, permaneceram fiéis
às poéticas românticas, como Henrique Oswald (1852-1931) que compôs seu
Requiem em 1925, gravado pela Rádio MEC, 2005, com o Grupo Calíope, sob a
direção de Julio Moretzsohn.
Entre os compositores modernos,
Fructuoso Vianna (1896-1976), aluno de Oswald, compôs a Dança de Negros,
publicada pela Casa Sénart, em Paris, 1929, e gravada por Arsis, 1984, com
Miguel Proença, entre outros.
Conclusão
Se todos os gêneros musicais são tão bem representados no Brasil, não se pode
falar senão de uma tímida contribuição à herança clássica, a partir do século
XIX. O Brasil não viveu, como na Europa de 1870 a 1914, as identificações entre
os compositores e a formação das nações, porque a tradição musical europeia
nunca foi uma questão de identidade nacional como o futebol, o carnaval ou o
samba, e nem mesmo adotada como nos EUA, no Canadá ou na Austrália, com suas
orquestras top e sua educação musical exemplar[34].
A paixão pelo futebol — esporte que, segundo Lessa, socializa a infância
brasileira — criou os heróis nacionais e ainda se acredita, como a Baronesa
Berstein de Oscar Wilde, que a música clássica está escrita em alemão[35]...
Sem memória social e coletiva, até o presente a música clássica permanece um
"fenômeno de transplantação", como indicava Mário de Andrade, em 1942, em sua
Pequena História da Música[36],
e a prática de "músicas estritamente fieis a uma lógica erudita de distinção"[37]
não tem uma tradição contínua nem um reconhecimento efetivo pelas classes
populares[38].
A música clássica ainda é praticada com o mesmo esnobismo que reinava outrora
com relação ao produto manufaturado europeu (cf. MONBEIG, p. 102), e acredita-se
comprar produto nacional ouvindo a "canção intelectual"[39]
ou a música "de raiz".
Será que o Brasil está condenado a ser este "povo feliz" que vai "descarregar a
Europa de sua História", impondo-lhe sua alegria, como disse Valéry[40],
em 1895? Um país sem história não é necessariamente uma nação feliz se há falta
de informação crítica e fontes de referência. Não se trata também de descarregar
a Europa de sua História, mas de compartilhar uma herança comum: "as coisas mais
capazes de viver sob céus muito distantes de seus céus de origem que cruzaram o
Oceano e que se enraizaram numa terra que era em grande parte virgem" (VALÉRY,
1938)[41].
Como diz Ribeiro (1995), talvez a vocação do Brasil seja a de unificar a nação
latinoamericana, sonhada por Bolívar, e não repetir a Europa. Unificação tão bem
construída na letra em "portunhol" da Canción por la unidad de latinoamérica,
parceria de Chico Buarque com o cubano Pablo Milanés, de 1978:
El nascimiento de un mundo se aplazó por un momento
Fue un breve lapso del tiempo, del universo un segundo
Sin embargo parecia que todo se iba a cabar
Con la distância mortal que separó nuestras vidas
Realizaban la labor de desunir nossas mãos
E fazer com que os irmãos de mirassem con temor
Cuando passaron los años se acumularam rancores
Se olvidaram os amores pareciamos extraños
Que distância tão sofrida que mundo tão separado
Jamás se hubiera encontrado sin aportar nuevas vidas
E quem garante que a história é carroça abandonada
Numa beira de estrada ou numa estação inglória
A história é um carro alegre cheio de um povo contente
Que atropela indiferente todo aquele que a negue
É um trem riscando trilhos abrindo novos espaços
Acenando muitos braços balançando nossos filhos
Lo que brilla con luz propia nadie lo puede apagar
Su brillo puede alcanzar la oscuridad de otras costas
Quem vai impedir que a chama saia iluminando o cenário
Saia incendiando o plenário, saia inventando outra trama
Quem vai evitar que os ventos batam portas mal fechadas,
Revirem terras mal socadas e espalhem nossos lamentos;
E quem paga o pesar do tempo que se gastou, de las vidas que costó
De las que puede costar
Já foi lançada uma estrela, pra quem souber enxergar
Pra quem quiser alcançar e andar abraçado nela.
Quanto à herança clássica, podemos contribuir, no máximo, acrescentando o
tempero da alegria dos trópicos, como o coral Agô Lonã, de Marlos Nobre,
publicado por Tonos (Darmstadt) e gravado pela Companhia Bachiana Brasileira,
1994, sob a direção de Ricardo Rocha. Escrita em 1964 sobre um tema de
candomblé, ali se encontram um tema afro tratado como uma fuga a quatro vozes[42],
intercalado com bicínios[43]
impovisatórios, onde o das vozes femininas chama atenção pela dificuldade,
quando passeia pelo politonalismo e pelo atonalismo. O coro termina com uma
aumentação do tema principal nos baixos, enquanto as outras vozes continuam seu
contraponto animado.
Um panorama da música erudita brasileira contemporânea mostra a mesma elite que
esperou o "messias lírico" Carlos Gomes no século XIX (cf. GIRON, 2004, pp.
199-200), ou que criou o fenômeno Villa-Lobos (cf. FLÉCHET, 2004), sempre
tentando se inserir no mercado não-geográfico da música de concerto
internacional — alguns mais outros menos bem sucedidos —, sem nenhuma
preocupação na construção de uma verdadeira cultura musical erudita nacional,
que passará inevitavelmente por um amplo projeto de educação nos níveis
infantil, fundamental e médio da escola pública.
Referências Bibliográficas
BOURDIEU, Pierre. La distinction: critique sociale du jugement. Paris,
Les éditions de minuit, 1979
DOTTORI, Maurício. Ensaio sobre a música colonial brasileira. São Paulo,
ECA/USP (Thèse), 1992
FRANCFORT, Didier. Correspondance avec l'auteur, 2008-9
GIRON, Luís Antonio. Minoridade crítica: a opera e o teatro nos
folhetins da Corte : 1826-1861. São Paulo, EDUSP/Ediouro, 2004
LESSA, Carlos. Nação e nacionalismo a partir da experiência brasileira.
In REA/USP, n. 62, 2008, pp.: 237-256
MONBEIG, Pierre. Le Brésil. Paris, PUF, 1968
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São
Paulo, Cia das Letras, 1995
RICCIARDI, Rubens. Manuel Dias de Oliveira, Um compositor brasileiro dos
tempos coloniais — partituras e documentos. São Paulo, ECA/USP (Thèse), 2000
TINHORÃO, José Ramos. História social da música popular brasileira. São
Paulo, Editora 34, 1998.
[25]"Enquanto a
américa espanhola se dividia e a cada porto fundava uma nação pouco
viável" (RIBEIRO, 1995, p. 157). "Reconhecida no exterior e imposta no
interior, faz-se uma 'nação' contra os interesses de seu próprio povo"
(ibidem, p. 252). "Nunca houve um conceito de povo, englobando todos os
trabalhadores e lhes atribuindo direitos. Nem mesmo o direito elementar
de trabalhar para comer, vestir e morar" (ib. p. 447).
[26]Como em
Moçambique, de Samora Machel — militar
socialista e primeiro presidente depois da independência, de 1975 a
1986, conhecido como "pai da nação". Prêmio Lenine da Paz em 1975-6.
[27]Cf.
FLÉCHET, Anaïs. Villa-Lobos à Paris: un écho musical du Brésil.
Paris,
L'Hartmattan, 2004.
[28]
Cf. TINHORÃO, p. 312
[29]
Le Brésil (...) a été découplé en vastes proprietés
privées dès les débuts de la colonisation portugaise, voilà près de cinq
cents ans, et l'agriculture du pays s'est entièrement developpée sur
cette base. Il reste, aujourd'hui encore, le déuxième pays au monde où
le partage des terres est le plus inégal". "Sans terre de la planète,
unissez-vous", in L'Humanité, 30 de setembro de 2009, p. 15.
[30]O CMRJ se
tornaria o Instituto Nacional de Música em 1890 (com a república) e, em
1926, seria incorporado à Universidade do Brasil (ver nota 9) .
[32]Cujo tema foi
provavelmente emprestado do ornitólogo inglês Edmund Selous (1857-1934).
[33]Em 1971, pelo
selo Fermata, com a Stadium Symphony Orchestra de Nova Iorque.
[34]Em sua
maioria, a classe dominante e os intelectuais se creem elite ouvindo a
"canção intelectual": nada de Brahms ou Villa-Lobos. No caso da
ópera, "ce n'est pas pour la musique, c'est pour les paroles (...) s'en
prenant au compte" (FRANCFORT, 2008).
[35]
WILDE, Oscar. The critic as artist, 1890: (…) Besides, I took the
Baroness Bernstein down to dinner last night, and, though absolutely
charming in every other respect, she insisted on discussing music as if
it were actually written in the German language.
[36]
Embora ele acreditasse que "o espírito subserviente de colônia" já
estava sendo superado pela geração nacionalista, a própria ideologia
nacionalista é ela importada da Europa.
Para um
aprofundamento do tema, ver BORGES, Jorge Luís. El escritor argentino
y la tradicion (1932) – versión taquigráfica de una clase dictada en
el Colegio Libre de Estudios Superiores.In Prosa Completa, Vol. I.
Editorial Bruguera S/A. Barcelona, 1985; e BORGES, Jorge Luís. El otro
Whitman. In Discusion. Barcelona, Bruguera, 1985.Didier Francfort
publicou um livro sobre este tema: Didier Francfort, Le chant des
nations.
Musiques et cultures en Europe, 1870-1914.
Hachette
Litteratures, 2004. A música "cesse alors d'être un art universel pour
devenir un art national et c'est au son des instruments de musique que
les hommes partiront à la guerre pendant l'été 1914. Didier Francfort
nous livre ici une analyse originale et érudite de la culture européenne
et met en évidence l'influence des musiques et des chansons sur les
opinions publiques.
[38]
O reconhecimento pelas classes populares é um sintoma necessário para
que haja uma legitimação da ciência musical, assim como a adoção da
álgebra, da física ou da biologia, como ramos do conhecimento universal
sem pátria.
[39]
Domínio "em via de legitimação", segundo Bourdieu (1979, p. 95), numa
posição intermediária, como a arte da fotografia ou o Jazz.
[40]
"Ne sachant nous défaire de notre histoire, nous en serons déchargés par
des peuples heureux qui n'ont point ou presque point. Ce sont des
peuples heureux qui nous imposeront leur bonheur". "Grandeur et
décadence de l'Europe", in Regards sur le monde actuel, 1895,
Oeuvres (Pleiâde), Tome II, p. 930. Mayenne, Galimard, "Bibliothèque de
la Pléiade", 1968.
[41]
L'Amérique, projection de l'esprit européen,
Tome II, p. 989.
[42]
A fuga é das construções musicais mais complexas e "cerebrais".
Consagrada por Bach, até hoje é uma demonstração de habilidade
composicional. Outro exemplo dessa alegria tropical imersa numa
complexidade arquitetônica é o coral Moacaretá, de Sérgio
Vasconcelos Corrêa, construído sobre três temas indígenas recolhidos por
Léry (século XVI), Roquete Pinto (séc. XX) e por um outro desconhecido,
e gravada no mesmo CD.
[43]
Bicínio é um trecho de canto a duas vozes, o mesmo que dueto. O bicínio
era muito utilizado por Palestrina e outros para "suavizar" os trechos
modulatórios.