ISSN 1807-1783                atualizado em 01 de junho de 2010   


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Por uma compreensão do conceito de representação

por Rafael Guarato

Sobre o artigo*

Sobre o autor**

“A verdade tem apenas uma face, mas seu oposto possui ilimitadas versões, com as quais lidamos.” (ARENDT, Hannah. 1992.)

O trabalho de produção do conhecimento histórico é dinâmico. A afirmativa de tal premissa se torna viável ao analisarmos o espinhoso percurso intelectual de historiadores que se dedicaram a pensar abordagens teórico-metodológicas para o fazer histórico ao longo do tempo, corroborando para o surgimento de meios para se conduzir a pesquisa histórica, modificando seu método, conceitos, de acordo com as necessidades de cada período. É nesse ambiente que se insere as discussões acerca do moderno conceito de representação, que atualmente se mostra como principal recurso para produção do trabalho historiográfico digno desse nome.

No entanto, associado ao seu potencial, o conceito de representação enfrentou severas críticas. O presente texto busca sondar o embasamento epistemológico em que se assenta o tão utilizado, e também tão mal empregado, conceito de representação nos últimos anos. Para isso, se faz necessário a análise do circuito de debates em torno da questão do sujeito e da narrativa histórica em que tal conceito emerge com incomparável status.

No decorrer das décadas de 1960/70 erguia-se um modo de investigação histórica provido da chamada terceira geração dos annales, com vista a enfatizar estudos ligados ao social, abordando novos problemas, novas abordagens, novos temas, passando a compreender o homem enquanto ser complexo. Tratava-se de uma renovação historiográfica que ficou conhecida como Nova História[i], e trouxe consigo a famosa historia das mentalidades. Todavia, esse novo recurso de investigação veio acompanhado de inúmeras críticas, principalmente no que se refere às mentalidades enquanto um só imaginário inerente a todas as camadas sociais, como se todo um grupo de pessoas compartilhassem um mesmo imaginário, anulando a diversidade.

Certos autores situam a representação como tributaria das mentalidades[ii], uma vez que utiliza os estudos mentais, porém negando o conceito de mentalidades, sendo que para a História das Representações os sujeitos sociais são as pessoas comuns, resgatam os conflitos sociais, além de focalizar a história como plural, tendo um mesmo fato diversas abordagens. Por outro lado, o filósofo Paul Ricoeur prefere falar em representação como substituta das mentalidades, uma vez que o deslocamento caminha mais no sentido de ruptura que de continuidade, vejamos sucintamente algumas das principais alterações.

Os pilares em que se assenta a história das mentalidades lidam com durações lineares e homogêneas; noções duais como popular X erudito, verdade X ficção; utiliza como pano de fundo a historia total; tudo isso ancorado nos conceitos de utensilagem mental de Lucien Febvre e de habito mental de Erwin Panofsky como meio de buscar uma dinâmica comum e ampla às sociedades, um modo de analise que aniquila a figura do homem fornecida por Bloch[iii], trata-se de uma história sem homens. Todo esse cenário de produção historiografia será, segundo Ricoeur[iv], renunciado em prol de uma historia das representações.

Tal transferência contou com grandes contribuições de pensadores como as de Michel Foucault em relação à idéia de que devemos compreender não só que existem diferenças, mas de como elas se formaram, com destaque para a noção de descontinuidade; Michel De Certeau e seus estudos sobre os desvios, apropriações e a questão do sujeito: perceber quem fala e para quem fala; e Norbert Elias ao investigar as articulações que são regidas via coerção para formar habitus civilizatório sem utilizar violência, excluindo o determinismo com as noções de formação e articulação.

Outro fator que corroborou para o desmantelamento das mentalidades foi a análise das escalas, ou melhor, das variações de escalas, com ênfase para o olhar micro, entendendo este não como pequeno, mas diferente, ou seja, as escalas variam de acordo com o olhar do sujeito, o lugar social. Realiza-se uma crítica a análise macro que era tida como cânone, não era questionado, pois não se trata somente de olhar por outro ângulo, a questão é perceber que o outro também olha. A mudança de escalas lida com formas diferentes de observação, de mostrar coisas diferentes, ou as mesmas coisas de formar diferentes. Grosso modo, a micro história inviabiliza as análises duais, ela foca o social em interação; carrega um potencial de representatividade ao possibilitar perceber como o local se vincula ao global enquanto diferença que atua e pressiona[v].

Isto posto, também a análise quantitativa do tempo de Braudel foi criticada, pois trata de questões repetitivas, quantificáveis, os fatos eram submetidos a um tratamento estatístico e mesmo que as durações continuassem, é necessário se aplicar a noção de escala e variações de escala às durações para captar as reminiscências, deve-se ser capaz de investigar tanto as continuidades como as descontinuidades. Além disso, as mentalidades tomam os fatos como unilateral, já a idéia de representação expressa melhor as pluralidades, as diferenças dos fenômenos sociais. Os estudos ancorados na representação romperam com a idéia de verdade, além da preocupação de pensar o social enquanto conflituoso, permeado por tensões, apresentando caminhos múltiplos de investigação.

Posto algumas avaliações, Ricoeur declara que todos os campos da história vão abandonando gradativamente as mentalidades, tendo em vista que ela não suportava um papel federativo. É quando a representação se mostrou um conceito mais articulado, dialético para comportar os jogos de escala[vi]. Certo modo, é correto afirmar que, se tratava de uma reavaliação do conceito de representação coletiva de Durkheim, haja vista que, a macro história lidava com tal noção enquanto recepção sobre o título de mentalidades. Nesta novíssima etapa, o conceito de “representação coletiva” foi reelaborado, tomado como apropriação e não mais como recepção.

Com essa modificação, o foco passa a ser a história das diferenças, das identidades e dos laços sociais, não se fala mais em estrutura, mas em estruturação, observando normas, costumes como instâncias capazes de manter juntas as sociedades. A substituição de mentalidade para representação foi uma necessidade, uma vez que a representação propicia a análise do local se apropriando do global e o que embasa isso são os jogos de escala. Desta forma, o deslocamento se dá na articulação entre práticas e representações, a justaposição do mental a outras esferas da sociedade total não permitia a dialética íntima das sociedades. Com a variação de escalas se desloca a ênfase para as estratégias individuais, familiares em relação à presunção de submissão às pressões sociais.

Todo esse novo panorama no rol da história se soma às discussões em torno da crise das ciências sociais, devido o abandono do estruturalismo / marxismo como modelo predominante de compreensão. A história passou a focar o sujeito contra as determinações coletivas, promovendo alguns efeitos como: recorte inédito do objeto; compreensão de que as utensilagens mentais não se apropriam somente de um conteúdo (mentalidades), apropria-se também de um saber fazer; as práticas sociais envolvem apropriações constantes, sendo que essas apropriações enfatizam a pluralidade dos empregos, das compreensões e a liberdade criadora dos agentes.

No cerne dessas discussões acerca das mentalidades, a crise do marxismo, estruturalismo, a história determinável e fixa foi tida como crise, chegando alguns a situar a história como literatura do passado[vii], pois a realidade na história não é mais captada por aqueles trabalhos das economias e sociedades que com documentos submetidos a uma crítica revelam a realidade. Com as representações a história lida com o que os homens pensam e como pensam, lida com o imaginário. Daí que o conceito de representação surge, no seio dos debates da década de 1980.

O historiador francês Roger Chartier lembra-nos que aquelas relações duais, dicotomia de conceitos tidos como alicerce, que ele chama de delimitações essenciais, concentram na verdade profundos problemas[viii]. O que nos interessa especificamente nesta reflexão refere-se às relações entre verdade X ficção, pois os historiadores das representações desmontam a idéia de verdade em história, o movimento da década de 1980 assume a história como narrativa[ix], mas uma narrativa na forma de trama, que não inventa, não se trata de uma ficção, mas também não é a realidade contida no texto, trata-se de representação.

Juntamente com essa renovação, emergem críticas à recente adotada concepção de história como narrativa. Lawrence Stone e Hayden White encabeçaram um movimento de questionamento do estatuto de verdade para essa narrativa histórica, pois para o positivismo a verdade existe, o historiador é um copista da verdade. Então como fica o estatuto da verdade na história se ela é sempre uma narrativa, uma representação do acontecido? Essa discussão, que também se insere na década de 1980, é do como se estrutura a trama, não se trata se a história é uma ciência ou não, pois o positivismo está sendo criticado a tempo, a questão e se a história é uma literatura ou não, uma vez que ela se dá em forma narrativa, que é um recurso literário.

Ancorado e encorajado nesta premissa de que a história está perdendo seu prestígio entre as disciplinas pelo abandono da verdade, Hayden White elabora um discurso calcado numa possível bancarrota da história, pois ela carrega um fardo que está pesando em sua incapacidade de fornecer conhecimento para o presente com base no passado. Para White, desde o início do século XX a história vem perdendo suas forças, ela não conseguiu prever as guerras nem seus monstruosos andamentos, os conflitos mundiais mostraram que a história não fornece nenhuma preparação para a vida, o passado se torna um fardo quando a história se preocupa mais com ele com o presente. [x]

No que tange à história enquanto narrativa, White é mais incisivo, declarando que a narrativa história contém elementos de interpretação, pois os documentos não fornecem tudo, tendo os historiadores que realizar um trabalho de preencher lacunas, sendo justamente esse trabalho de interpretação, essa ação de escolher, destacar, recortar seus documentos e fatos que torna a história uma prática manipulável, tornando-la um texto semelhante a um artefato literário[xi]. White cerca o fecho quando afirma que é possível erigir diversas estórias de um mesmo acontecimento, mas os tipos de estórias que podem ser contadas se limitam ao número de modos de urdiduras de enredo existentes; (comédia, tragédia, romance, epopéia), sendo que as demais variações de pontos de vista se refere à diferenciações de ordem ideológica do próprio autor, de paradigma ou enredo.

A questão sobre a narrativa histórica e sua validade em falar o real coloca no cerne da questão o sujeito, a subjetividade. De acordo com a filósofa americana Hannah Arendt em seu texto: O conceito de história – antigo e moderno, o século XVIII ao vivenciar as transformações propostas pelo movimento iluminista, com a noção kantiana de razão como inerente a todos os homens, compartilha uma espécie de razão universal que carrega um progresso intelectual por meio do sujeito, pois é ele que detém a razão, sendo esse progresso não no sentido de acumulação, nem a razão é inata, ela é um fazer, uma criação do sujeito moderno.

Já no século XIX ergue-se a noção de história vinculada à noção de historicismo, Michel Foucault[xii] ressalta que é nesse período que o sujeito desponta como importante, ele ganha status que antes não detinha, é a historicidade que constrói esses sujeitos. No entanto, o sujeito no historicismo não tem sua própria historicidade, pois existem várias historicidades que perpassam os sujeitos, ele perde seu caráter universal. A historicidade é uma relação de espaço e tempo onde o sujeito vive, trabalha e fala. É nesse sentido que Arendt afirma que a noção de processo no século XIX deixa de ser um efeito da ação humana para ser algo onde o homem se encaixa, possui vida própria, exterior e independente do homem. [xiii] O processo histórico passa ser subordinado a uma finalidade a ser atingida e os homens devem servir a esse fim, daí a afirmação de Foucault que são os jogos de poder, as relações que se instituem, e sua sobreposição é que existe o sujeito e não o contrário.

Todavia, no decurso do século XX a razão universal tendo a política como espaço da ação – ao passo que a história permanecia no status de subordinada a uma finalidade – se mostrou inviável, haja vista que ela não tem limite, desembocando no holocausto. É quando as teorias estruturalistas ganham cada vez mais espaço no meio intelectual, reinando quase absolutamente, numa concepção onde o sujeito está morto, pois as estruturas ganham autonomia do sujeito.

Quando emerge as discussões acerca da verdade em história, o sujeito é novamente posto em questão, ele é convocado de forma totalmente inovadora, com potencial jamais tido, uma vez que as noções de mediação de Raymond Williams[xiv], de táticas e estratégias de Certeau[xv], mas principalmente o conceito de apropriação de Chartier[xvi] desmonta o sujeito universal, promove uma abertura ao implodi-lo. Isso ocorre porque o sujeito é invocado a um papel central, não são mais as estruturas que fornecem e o sujeito recebe, ele mesmo elabora, cria, apropria, mas não de forma universal e sim diversa, uma dinâmica de usos; bem como o sujeito kantiano detentor de razão como meio de compreender o mundo passa a não conseguir escavar as sensibilidades, as paixões, que juntamente passam a compor o sujeito como um todo, é isso que passa a ser objeto de compreensão.

É esse novo estatuto do sujeito moderno, um sujeito que atua, pressiona, confere sentido ao mundo em que vive, e, como lidamos com diversos sujeitos, suas leituras são plurais, os historiadores passam a lidar não mais com a verdade. Foi esse novo panorama que fez com que Paul Ricoeur, Paul Veyne, Michel de Certeau falassem em tramas (intrigas) [xvii], modos de construção da narrativa histórica que a distancia da literatura convencional, pois não se trata de invenções ou fantasias, mas sim de representações. Desta forma, os historiadores fugiram das verdades rígidas do positivismo. White reconhece que a história passou a buscar não a verdade, mas modos de revelar certos aspectos, visões corretas, cada qual com seu estilo de representação. [xviii]

Chegamos ao ponto crucial do debate, qual o estatuto dessa tão evocada representação? Para White o surto de representações veio para mostrar que a história ainda o é permeado pela ficção. Por outro lado, Ricoeur fala que apesar das contribuições, a noção de representação se tornou ambígua, passou a significar muito e nada ao mesmo tempo, pois se refere tanto à pluralidade de vivencias como o trabalho final do historiador.

Para tentar esclarecer um pouco esse nebuloso conceito de representação utilizarei dois reconhecidos historiadores contemporâneos: o francês Roger Chartier e o italiano Carlo Ginzburg, buscando mostrar em que consiste o conceito de representação, suas aproximações e distanciamentos entre ambas as concepções.

Comecemos por Chartier que traz como proposta a investigação de como as práticas são construídas e como as representações são construídas, propondo uma nova forma de abordagem, buscando perceber as representações como construções que os grupos fazem sobre suas práticas. Sendo que essas práticas não são possíveis de serem percebidas em sua integridade plena, elas somente existem enquanto representações[xix]. A proposta te Chartier desmorona a noção de história como tradução da realidade, pois afirma que nenhum texto traduz a realidade, nenhum texto apreende a realidade em sua totalidade.

Desta forma, “o real assume assim um novo sentido: aquilo que é real, efetivamente, não é” [xx]. Por meio de tal afirmação Chartier não dicotomiza a relação entre verdade / ficção, a questão é que o real assume um novo sentido, mas ele está lá, ele existe. A noção de representação é tributária dessa dualidade, pois o real existe somente como representado, no sentido de que há uma organização, historicização de evidências. Assim, as práticas só possuem sentido quando representadas, se existir a verdade, ela se situa entre as práticas e as representações, sendo que esta relação não deve ser polarizada, ao oposto, é necessário potencializar seu entrecruzamento.

Entretanto, Chartier não para por aí, ele dá um passo a mais, talvez o passo que causa hoje tanta confusão acerca do conceito de representação, trata-se de uma concepção presente em seu outro texto muito conhecido: O mundo como representação, no qual o autor declara que os conflitos e lutas para não se dão no social e sim nas representações[xxi]. Tomando a lógica de porty-royal contida no dictionnaire universel de Furetière como base dos estudos da representação[xxii], o autor desfere agudas objeções à primazia do recorte social, se posiciona contra a divisão das sociedades em classes, haja vista que as divisões da organização social existem historicamente apenas enquanto representadas e praticadas e não apriori. O recorte social não é capaz de fornecer dados confiáveis, uma vez que relaciona habitus culturais e oposições sociais dadas apriori, pois as divisões sociais e culturais não se ordenam obrigatoriamente segundo uma grade única, os produtos, idéias, obras culturais e os sujeitos circulam.

Isto posto Chartier nega que existam práticas ou estruturas que não seja representada, priorizando as representações e não o recorte social, pois as diferenças culturais não são traduções de divisões estáticas e imóveis, mas sim efeito de processos dinâmicos, tornando necessário compreender como as construções das representações se dá conflituosamente entre um mesmo grupo ou entre grupos. Assim Chartier crítica a White, pois o “efeito produzido” não depende somente das formas materiais que sustentam o texto, temos que dar devida atenção às praticas e representações que não se encontram presentes nas urdiduras, o foco se encontra nas apropriações.

O conceito de representação em Chartier se apresenta como alternativa de compreensão do social e cultural da realidade via representação, o real como sentido, ele recebe sentido, é representado. Entretanto, a representação abre espaço para o relativismo das representações, uma vez que tudo só existe enquanto representado, qual é a garantia que fornece ao trabalho histórico certo grau de confiabilidade? Para responder essa questão intimo Carlo Ginzburg e suas reflexões acerca desse embaraçoso tema.

Logo a princípio Ginzburg diz não se interessar pelo que ele chama de “jogo de espelho” proposto por chartier referente à lógica de Porty-Royal, que na visão do historiador italiano fez com que o termo representação se vulgarizasse. [xxiii] Enquanto para Chartier e preciso focar as apropriações, Ginzburg ressalta que a narrativa histórica constrói um efeito de verdade, mas para isso a narrativa deve comportar provas. Em suma, Ginzburg privilegia a prova como meio de trazer as práticas em sua narrativa, sendo que essa prova é assegurada pela metodologia, a descrição minuciosa, pela narrativa cuidadosamente elaborada que não é positivista, pois apesar de produzir efeito de verdade, não é a verdade em si.

Acerca do conceito propriamente dito, Ginzburg recorre ao período conhecido como Idade Média, utilizando-se de toda sua erudição para mostrar a importância do cristianismo com a aparição da relíquia, pois com ela se modifica a noção de representação, que deixa de ser contato para ser presença, ou melhor, a representação deixa de ser contato com o real para ser presença plena, com a relíquia elimina-se a distância. Antes do cristianismo, a representação se apresenta como substituição, contato com imagens, estátuas.

O autor apresenta o sentido duplo da representação que expressa ausência de algo e visibilidade de algo recorrendo aos séculos XIII e XIV para mostrar como imagens de cera eram utilizadas como representação, que ao mesmo tempo garantiam a ausência do rei já morto e sua presença, pois o boneco é como se o rei estivesse ali. A questão para Ginzburg é se esta prática de sobrevivência do rei à morte física via representação é algo novo ou há uma filiação? O que torna esta pratica viável na Europa dos séculos XIII XIV? Para o autor isso foi possível pelo fato de que o mundo medieval conseguiu abstrair a idéia de corpo de cristo como presente.

Todavia, Ginzburg nos alerta para que não sejamos dogmáticos o bastante para tomar representação como presença concreta, pois devemos ter atenção às descontinuidades entre práticas e representações, pois nem toda prática é representada. Para tanto, o historiador italiano recorre a um historiador da arte, E. H. Gombrich, especificamente em seu texto: “Meditações sobre um cavalinho de pau ou as raízes da forma artística” [xxiv] como proposta de partir das artes visuais para pensar o conceito de representação: como o termo aparece, é usado e ganha um senso comum de representação como imagem de um referente exterior. Em tal obra, Gombrich apresenta duas formas de produzir: a primeira ele chama de arte ilusionista, que seria uma evocação mimética, reprodução fiel, uma figuração mais próxima possível do que é o real. O outra substitui para o real, não representa mimeticamente, trata-se de uma concepção conceitual, chamada de arte conceitual, utiliza aspectos estruturais do referente, e não os detalhes. São duas maneiras diferentes de produzir, representar o real.

Ginzburg utiliza essa reflexão para transpô-la para o debate em história, percebendo que existem duas formas de representação, mas uma consegue obter maior expressividade, legitimidade no ocidente. O italiano apresenta o cristianismo como principal contribuição para fortalecer a representação mimética como ideal, o mais parecido com o que se vê. Contribuição do culto a imagens, como algo ausente. No entanto, Gombrich ressalta que tanto a arte ilusionista quanto a conceitual possui algo em comum, todas são criações, lidam com códigos, exigem um fazer e um ler, uma leitura e uma feitura, todos são formas de representação da realidade. São elaborações que possuem maneiras diferentes de produção e leitura.

Em outra obra[xxv], Gombrich discute a representação como problema, pois será que uma obra é a um espelho de algo que existe fora da obra? Ou melhor, será que a narrativa histórica é um espelho da realidade? Para Gombrich tal questão poderá ser amenizada ao se focar a feitura e a leitura, tendo em vista que, para o autor, não existe produção nem olho inocente, o que existe é certo reconhecimento que representar bem é reproduzir bem o mundo exterior. No entanto, as representações passam por convenções, a representação de verdades é construída. Assim, não existe uma representação real, verdadeira e fiel da realidade. A representação é uma construção que passa por convenções que participam das construções de representações.

Desta forma, “não há realidade sem interpretação” [xxvi], uma acompanha a outra, a representação nunca é uma réplica. O embate que Ginzburg traz é que em determinado momento a história criou critérios do que é verdadeiro e o que não é. Congelou-se como verdade algo que possuía uma forma de elaboração, que não passa de uma construção, um código elaborado com um propósito, pontuando o surgimento da eucaristia como dogma, a questão da transubstanciação. A hóstia e o vinho como corpo e sangue de cristo, não é uma coisa branca e o vinho em si, nem uma representação, mas o próprio cristo está ali. Trata-se de uma abstração da representação.

Foi essa mesma capacidade de abstração da imagem que tornou possível a adoração de imagens como representação de santos, não se adora as imagens, mas o que elas representam. A transubstanciação é posta por Ginzburg como marco de representação de forma abstrata para o ocidente moderno, uma ilusão de estar ali algo que não está. [xxvii] Grosso modo, para Ginzburg a representação tem como base as idéias de abstratas / conceituais e não só como mimese / figuração fiel. Ela possui duas vertentes, que em determinados momentos se tornam cânone, ou seja, a representação não é só presença / ausência, é importante perceber como se dá essa representação, se ela é mimese ou conceitual.

Ginzburg define representação como substituição da coisa ausente e visibilidade da coisa presente enquanto Chartier fala em representação como ausência do que ela representa e presença de algo ausente via representação. Contudo, creio que a análise de Ginzburg caminha mais no sentido de preencher lacunas contidas e Chartier do que como oposição a este, trata-se de reflexões que juntas fornecem um amplo e irrestrito conhecimento acerca do tão falado, usado, desgastado, mas principalmente interpretado conceito de representação.

Para tentar finalizar o presente texto, resta-nos percorrer outra ramificação das desconcertantes questões que perdurou a década de 1980. Voltando a Hayden White que ao declarar que quem trama não é o sujeito ou o historiador, mas as urdiduras do gênero, estruturas inteligíveis, que ao se inscreverem num gênero a trama se faz, a história estaria presa a trópicos de linguagem, perdendo sua matéria factual[xxviii]. É aqui que reside o grande embate entre White e os historiadores supracitados, é o questionamento da matéria factual que faz Ginzburg recorrer às provas. Em suma, White questiona o que distingue a história da ficção, uma vez que os diferentes tipos de contar estórias são equivalentes, não existe matéria factual.

Creio que grande parte desse debate já fora esclarecido com o recente explanamento do conceito de representação, mas vale muito a pena destacar as reflexões de Hannah Arendt acerca das evidências, da matéria factual. Para tanto desta com o texto Verdade e política[xxix] como central, pois é nele em que se encontram as principais considerações de Arendt acerca desse tema, onde a autora situa a história como representação não é a transparência da realidade, haja vista que, ela necessita de elementos que possam afirmar que o holocausto aconteceu, que em 1917 ocorreu algo na Rússia que não é só representação, foi real, existiu, sendo que o sujeito está no cerne desta questão.

Para Hannah, a verdade em história não repousa naquela razão filosófica, ela se encontra nas relações humanas, ela é factual, ou melhor, uma verdade factual, que tem como suporte a matéria factual, o acontecido, verdadeiro, ocorreu. Desta forma a verdade com a qual a história trabalha não é uma verdade racional: científica, matemática, filosófica; trata-se de uma verdade factual: acontecimento, fatos, eventos, que são vistas e testemunhada com os olhos do corpo e não da mente. Isto posto, a história fala de eventos que várias pessoas presenciaram, logo, ela necessita de comprovação.

O que gera tamanha insegurança acerca desse estatuto de verdade na narrativa história se encontra no fato de que as verdades factuais serem mais frágeis por não se tratar de descobertas e teorias, elas caminham de mão dadas com a mentira. Essa é a verdade com que a história lida. Além disso, Arendt ressalta que a matéria factual pode ser manipulada pelo poder para fins de uma verdade factual, coercitiva que não leva em conta outras opiniões. É aqui que se insere a noção de representação, uma vez que todo fato é representado, mas nem toda representação é verdadeira, os fatos não existem independentes de interpretação[xxx].

Por esse viés, a noção de representação vem justamente para incluir o outro, entender o outro, sua vida, lugar, pensamento. Representações são as compreensões da matéria factual. Daí a impossibilidade de excluir o real, sempre existe a matéria factual: a Bélgica não invadiu a Alemanha. Os estudos acerca das representações caminham mais no sentido de desmascarar as verdades factuais manipuladas de forma coercitiva do que para gerar mentiras e abstrações que nada carregam das evidencias. A questão é que os historiados lidam com esse caos de acontecimentos, reorganizam-nos numa narrativa, mas não toca na matéria factual, não a altera.

Talvez as considerações de Paul Ricoeur nos tranqüilizem um pouco. Em sua última obra: A memória, a história, o esquecimento[xxxi] o autor recorre a Certeau para afirmar que a escrita da história se refere a três fazes juntas, não é somente o ato de escrever, destacando que desde a primeira fase surge a questão: até que ponto o testemunho, processo epistemológico que parte da memória declarada, passa pelo arquivo, documento e termina na prova documental é confiável? Sendo que desde o testemunho – aqueles documentos que se enraízam nos arquivos, passados de oral para o escrito, tornando-se mudos e órfãos – até os indícios de Ginzburg – testemunhos não escritos que não passaram pela reelaboração para se tornarem documentos como: artefatos, imagens, quadros, ferramentas, mas que não estão isentos de elaboração de seu autor – são todos eles representações[xxxii].

Grosso modo, todo o trabalho do historiador é permeado por representações, mas temos limitações das evidências e métodos que nos inviabiliza invenções descabidas. É nisso que consiste o laborioso e fascinante trabalho do historiador, ele busca, exige de si mesmo ir além da construção de representação, no sentido não só de fornecer algo sobre o passado, lidamos com uma espécie de militância em busca de atingir o inatingível.


* Esse artigo é uma versão expandida da comunicação: "Considerações acerca do conceito de representação e seus usos historiográficos", apresentada durante o III Seminário Nacional de História e Historiografia promovido pela Universidade Federal de Ouro Preto na cidade de Mariana-MG em 2009.

** Pesquisador vinculado ao POPULIS (Núcleo de Pesquisa em Cultura Popular, Imagem e Som.). Autor do livro: Dança de Rua: corpos para além do movimento. Uberlândia: EDUFU, 2008. - Mestre em História Social - UFU / MG - rafael_guarato@yahoo.com.br

[i] Movimento marcado pelo lançamento da coleção: LE GOFF, Jacques & NORA, Pierre. História: Novas abordagens. Trad.:Henrique Mesquita, 3ª ed., Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988; LE GOFF, Jacques & NORA, Pierre. História: Novos objetos. Trad.: Terezinha Marinho, 3ª ed., Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988; LE GOFF, Jacques & NORA, Pierre. História: novos problemas. Trad.: Theo Santiago, 3ª ed., Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988.

[ii] VAINFAS, Ronaldo. História das mentalidades e história cultural. In: CARDOSO,Ciro F.S.e VAINFAS,Ronaldo (Orgs.) Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997. p.127-162.

[iii] BLOCH, Marc. Apologia da História ou Ofício de Historiador. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2001.

[iv] RICOEUR, Paul. Explicação / Compreensão. In: A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. p. 193-245.

[v] RICOEUR, Paul. Explicação / Compreensão. In: A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. p.225.

[vi] RICOEUR, Paul. Explicação / Compreensão. In: A memória, a história, o esquecimento. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. p.228

[vii] CHARTIER, Roger. A história entre narrativa e conhecimento. In: À beira da falésia: a história entre certezas e inquietudes. Trad. Patrícia Chittoni Ramos. Porto Alegre: Ed. Universidade / UFRGS, 2002. p.82.

[viii] CHARTIER, Roger. A historia cultural: entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Difel/Bertrand Brasil, 1990.

[ix] Entre os diversos personagens desse debate podemos destacar como protagonistas: Michel de Certeau, Paul Ricoeur, Paul Veyne, Carlo Ginzburg e Roger Chartier.

[x] WHITE, Hayden. O fardo da História. In: Trópicos do discurso. São Paulo: EDUSP, 2001. p.45.

[xi] Para sustentar sua hipótese, White utiliza Claude Lévi-Strauss e Northop Frye. Ver em: WHITE, Hayden. Interpretação na história - O texto como artefato literário. In: Trópicos do discurso. São Paulo: EDUSP, 2001 P.65-69-97-116.

[xii] FOUCAULT, Michel. As ciências humanas e IV.A história. In: As palavras e as coisas. São Paulo: Martins Fontes, 1995. p.384-390.

[xiii] ARENDT, Hannah. O conceito de História – antigo e moderno. In: Entre o passado e o futuro. 3.ed., São Paulo: Perspectiva, 1992. p.95

[xiv] WILLIANS, Raymond. Marxismo e literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

[xv] CERTEAU, Michel De. A invenção do cotidiano. v.1, 3º ed. Trad. Rio de Janeiro: Vozes, 1998.

[xvi] CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. São Paulo: Difel, 1990.

[xvii] Para Ricoeur a noção de intriga se dá na relação do historiador com acontecimentos que existem, mas que passam por um processo de interpretação, atribuindo sentido a esses acontecimentos. Mais detalhes na obra: RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa. Tomo I, II e III. São Paulo: Papirus, 1994, 1995, 1997. Já para Veyne é o próprio sujeito que confere sentido aos fatos por meio de uma trama, passando o real a ser percebido enquanto representação. Conferir em: VEYNE, Paul. Como se escreve a história: Foucault revoluciona a história. Brasília: UNB, 1998. Certeau demonstra as diversas fases que constituem a escrita da história, mostrando que esta é vinculara a um lugar, uma prática e escrita, que estão circunscritas a certas condições de produção e consumo. Cf: CERTEAU, Michel De. Operação historiográfica: In: A escrita da história. São Paulo: Forense Universitária, 2002.

[xviii] Hayden White em seu texto: WHITE, Hayden. O fardo da História. In: Trópicos do discurso. São Paulo: EDUSP, 2001. p.59, citando o historiador da arte Gombrich em sua obra: GOMBRICH. E. H. Arte e ilusão: um estudo da psicologia da representação pictória. Trad. Raul de Sá Barbosa. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

[xix] Mais detalhes poderá ser obtido no texto: CHARTIER, Roger. Por uma sociologia das práticas culturais. In: A História Cultural: entre práticas e representações. São Paulo: Difel, 1990. p.13-28.

[xx] - CHARTIER, Roger. História intelectual e historia das mentalidades. In: A História Cultural: entre práticas e representações. São Paulo: Difel, 1990. p.63

[xxi] CHARTIER, Roger. O mundo como representação. In: Estudos Avançados. Campinas: Unicamp, 11(5), 1991. p.173-191.

[xxii] O autor apresenta a via ambígua do conceito de representação que pode vir como ausência de um objeto, sendo ele substituído por uma “imagem” presente de algo ausente. A representação lida com ausência e presença ao mesmo tempo.

[xxiii] GINZBURG, Carlo. Representação: a palavra, a idéia, a coisa. In: Olhos de Madeira: nove reflexões sobre a distância. São Paulo: Cia. das Letras, 2001. p.85

[xxiv] GOMBRICH, E. H. Meditações sobre um cavalinho de pau ou as raízes da forma artística. In: Meditações sobre um cavalinho de pau e outros ensaios sobre a teoria da arte. São Paulo: EDUSC, 1999. p.1-12.

[xxv] GOMBRICH, E. H. Da representação à expressão. In: Arte e Ilusão. um estudo da psicologia da representação pictória. Trad. Raul de Sá Barbosa. São Paulo: Martins Fontes, 1995. p.383-415.

[xxvi] GOMBRICH, E. H. Da representação à expressão. In: Arte e Ilusão. um estudo da psicologia da representação pictória. Trad. Raul de Sá Barbosa. São Paulo: Martins Fontes, 1995. p.387.

[xxvii] GINZBURG, Carlo. Representação: a palavra, a idéia, a coisa. In: Olhos de Madeira: nove reflexões sobre a distância. São Paulo: Cia. das Letras, 2001. p.102-103.

[xxviii] WHITE, Hayden. O texto como artefato literário. In: Trópicos do discurso. São Paulo: EDUSP, 2001. p.97-116.

[xxix] ARENDT, Hannah. Verdade e história. In: Entre o passado e o futuro. 3.ed., São Paulo: Perspectiva, 1992. p. 282-325.

[xxx] ARENDT, Hannah. Verdade e história. In: Entre o passado e o futuro. 3.ed., São Paulo: Perspectiva, 1992. p.287-296

[xxxi] RICOEUR, Paul. História / Epistemologia. In: A memória, a história, o esquecimento. Trad. Alain François. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007. p.145-191

[xxxii] RICOEUR, Paul. História / Epistemologia. In: A memória, a história, o esquecimento, p.170-171.