ISSN 1807-1783                atualizado em 22 de março de 2011   


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A História da Educação em Novo Hamburgo/RS: Algumas Contribuições

por Claudia Schemes e Yara Feitosa

Sobre a primeira autora[1]

Sobre a segunda autora[2]

Introdução

Este artigo tem como temática principal a história da educação no município de Novo Hamburgo nas décadas de 1930 e 1940, período marcado por mudanças significativas na educação nacional.

Nosso interesse principal foi o de investigar como os sujeitos vivenciaram a educação naquele momento e se essas vivências vêm ao encontro do que encontramos nos livros que tratam sobre o processo educativo daquele período, além de mostrar o dia a dia das escolas e os detalhes do cotidiano, que são fragmentos valiosos do passado que nos ajudam a compreender algumas questões da escola atual.

A metodologia utilizada para essa pesquisa foi, principalmente, a história oral, segundo a técnica proposta por Meihy (2000), pois as fontes orais podem nos dar as informações e pontos de vista diferentes daqueles que encontramos nas fontes bibliográficas. Foram colhidos depoimentos de pessoas que estudaram em escolas públicas e privadas na zona urbana de Novo Hamburgo. Nossos entrevistados têm graus variados de escolaridade e todos nos trouxeram ricas experiências com muita boa vontade, pois se sentiram participantes e sujeitos da história.

Os relatos orais são fontes históricas de imenso valor e que são muito negligenciados, visto que não encontramos registros orais sobre a história da educação no município. Na história oral, a memória não se perde, e a comunidade é trazida para dentro da escola, o que interfere na nossa maneira de ver a realidade já que os nossos “heróis” passam a ser os cidadãos comuns (THOMPSON, 1978).

Em outros países, como a Alemanha, existem projetos que apontam a história oral como um meio privilegiado para o resgate da vida cotidiana, tendo em vista que esta se mantém firmemente na memória, apesar de poder sofrer alterações posteriores (MONTENEGRO, 1994).

Consideramos de grande valia para as gerações futuras preservarmos a memória de seus antepassados, por isso realizamos esse pesquisa que ainda se encontra em fase inicial, mas que já traz importantes contribuições para a história da educação local.

A história da educação no Brasil e no Rio Grande do Sul

A educação no Brasil não era considerada prioridade para os governantes no final do século XIX, entretanto, algumas regiões do país diferenciaram-se em relação a ela, como o Vale do Sinos, por exemplo, pois a imigração europeia ajudou a construir um sistema educacional com características peculiares.

No ano de 1824, os imigrantes alemães desembarcam na Real Feitoria do Linho Cânhamo, onde hoje se situa a cidade de São Leopoldo, e alguns meses depois chegaram onde hoje se localiza a cidade de Novo Hamburgo. Mesmo com um início de vida muito difícil aqui no Estado, muitos foram os progressos alcançados por esses imigrantes, primeiro na agricultura, depois, no artesanato e no comércio e, por último, na indústria.

Além da força de trabalho, os imigrantes contribuíram com suas tradições religiosas, sociais e culturais, o que criou um grupo com características peculiares. Os colonos alemães, em sua maioria eram evangélicos, e trouxeram em sua bagagem um grande interesse pela educação. Entretanto, o mesmo não acontecia no país em que chegaram que tinha um péssimo sistema escolar, o que é atestado pelo fato de que no final do século XIX ainda havia aproximadamente 80% da população analfabeta.

A inexistência de um sistema escolar organizado não foi nenhuma surpresa, mas a pressão para a criação de escolas públicas nas áreas de colonização não tardou a iniciar, pois no ano da chegada dos imigrantes havia apenas oito escolas públicas (chamadas de aulas) e quatro estavam sem professor (KREUTZ, 1996).

Antes da organização efetiva do ensino público, entretanto, os colonos estruturaram suas próprias escolas domésticas, ou seja, as pessoas mais instruídas davam aulas em suas casas, e ainda havia as escolas-volantes, em que os professores iam aonde se encontravam as crianças, que muitas vezes tinham que ajudar os pais no trabalho. Mais tarde, foram criadas as escolas comunitárias, também conhecidas por escolas paroquiais, visto que tinham estreita ligação com as igrejas, tanto católicas, quanto evangélicas. Essas escolas também foram muito importantes, pois formaram verdadeiras estruturas comunitárias que apoiavam o imigrante nas suas dificuldades.

As primeiras escolas evangélicas e católicas que ensinavam na língua alemã estavam organizadas segundo as necessidades locais, o material didático era precário e o governo provincial despendia-lhes pouco apoio, mesmo porque o governo central não tinha interesse em investir na educação e, consequentemente, não liberava verbas para as províncias. Mesmo assim, a educação nas áreas de colonização ainda era melhor que no restante da província (PETRY, 1944).

A independência do Brasil não representou uma grande mudança no sistema educacional brasileiro em relação ao ensino primário, foi apenas em 1827 que foi criada a primeira Lei Geral da Instrução Pública que garantiu a educação, inclusive para meninas, a partir de 1829. Com essa lei, os Estados tinham o direito de organizar sua educação, mas com a falta de verbas não obtiveram sucesso, problema que pode ser estendido aos municípios (PILETTI, 1997).

Dentro desse contexto, podemos entender porque a primeira escola da cidade de Novo Hamburgo somente foi fundada em 1832, a Comunidade Evangélica de Hamburgo Velho.

Por volta de 1850, já existiam no Rio Grande do Sul 14 escolas evangélicas e 10 escolas católicas. Em 1875, o número de escolas confessionais era 99, e o das públicas, 252. Em 1900, passou para 308 escolas em língua alemã. A partir dessa data, o Estado passou a incentivar a formação de docentes, que, até esse período, era muito precária, além de melhorar a infraestrutura das escolas e o material didático utilizado. É importante lembrar que Porto Alegre teve sua primeira escola normal para formação de professores em 1869, sendo uma das primeiras a serem criadas no país. [3]

Em Novo Hamburgo, no ano de 1883, já havia duas escolas públicas e, em 1886, foi fundada, pelas irmãs Engel, no bairro de Hamburgo Velho, um “internato para moças evangélicas teuto-brasileiras”, que, mais tarde, transformou-se na Fundação Evangélica.

A criação dessa escola representou um grande passo para a educação das mulheres, já que elas passaram a ter uma educação mais apurada, cujo objetivo era a educação dos filhos e os cuidados com a casa.

A proclamação da república no Brasil não mudou substancialmente a situação da educação da maioria da população. A primeira constituição republicana, de 1891, falava apenas na criação de instituições de ensino superior e secundário nos Estados, e estabelecia que o ensino deveria ser leigo nas escolas públicas. O índice de analfabetismo, ainda na casa dos 80% nos primeiros anos da república, atesta o descaso com a educação elementar e popular (PILETTI, 1997).

Com relação à educação no período da República Velha, Corsetti (2005) nos informa que

[...] a política educacional implementada pelos dirigentes republicanos demonstrou ser de caráter excludente, particularmente marcada pela separação dos saberes que consagrou as diferenças sociais cristalizadas na sociedade gaúcha. Ao lado de procedimentos de acomodação de interesses utilizados na relação com a Igreja Católica, o privilegiamento da iniciativa privada no campo educacional foi consagrado, particularmente no nível secundário. [...] (p.215).

Em Novo Hamburgo, no ano de 1896, é criada a Comunidade Evangélica de Novo Hamburgo. A primeira escola católica da cidade foi o colégio Santa Catarina, criado em 1900 pelas irmãs da congregação de Santa Catarina.

Segundo Erica Sarlet (1993), o nível cultural em Novo Hamburgo no final do século XIX era “considerável”, pois muitos livros e coleções de revistas de moradores da cidade nesse período ainda existem em bibliotecas locais, e dos 12 jornais e revistas em língua alemã fundados na metade do século XIX, ainda havia nove no fim do século XIX. Diz a autora, também, que existiam bibliotecas bem equipadas nas sociedades recreativas da cidade.

Os padres jesuítas chegaram à região do Vale do Sinos na metade do século XIX e assumiram a freguesia de Nossa Senhora da Piedade, em Hamburgo Velho. Lá instalaram uma escola paroquial junto à igreja local. Em 1914, o padre Benedito Meienhofer organizou uma subscrição para fundar uma escola católica para meninos, o Colégio São Jacob.

O colégio era muito apreciado pelo seu programa de ensino e por suas normas disciplinares rígidas, o que deixava as famílias tranquilas em colocarem seus filhos naquela instituição (MONTE DOMECQ, 1918).

No ano da emancipação de Novo Hamburgo, em 1927, havia na cidade sete escolas estaduais, totalizando 374 alunos, uma municipal com 72 alunos, e seis particulares com 478 alunos. Em 1930 havia oito escolas estaduais, seis municipais e oito particulares, com 1477 alunos no total (PETRY, 1944).

A partir de 1930, quando Getulio Vargas assumiu o poder, importantes modificações ocorreram na administração da educação brasileira, como a criação do Ministério da Educação e Saúde (1932) e a inclusão de um capítulo sobre a educação no Constituição de 1934.

Nos anos 1930, já havia sido organizada na região rural do Rio Grande do Sul uma rede de 1.041 escolas comunitárias com 1.200 professores, sendo que nas regiões dos teuto-brasileiros não havia analfabetos, enquanto que nas zonas rurais do resto do Brasil o analfabetismo encontrava-se na faixa de 80% (PETRY, 1944).

A era Vargas (1930/1945) representou um avanço significativo na educação nacional. As escolas primárias dobraram seu número, as secundárias quadruplicaram e as técnicas industriais multiplicaram-se. Passou a haver uma preocupação com a formação pedagógica dos professores e surgiram muitos educadores interessados em reformar a educação brasileira (PILETTI, 1997).

Essa verdadeira revolução educacional também se observou em Novo Hamburgo. Em 1943, a cidade já contava com 35 escolas entre públicas e privadas e com um total de 3668 alunos, o que mostra que triplicou o número de alunos e mais que duplicou o de escolas (PETRY, 1944).

A preocupação com a educação aparece quando analisamos o jornal O 5 de Abril nos anos 20, 30 e 40. Encontramos vários artigos, além de pequenas notas sobre escolas, educação, instrução em quase todos os exemplares. Os artigos eram assim intitulados: “Analfabetismo”, “Quadro Escolar”, “Instrução Pública”, “Aulas Noturnas”, “Pela Instrução”, “Combate ao Analfabetismo”, “Escolas de Novo Hamburgo”, “Cruzada da Educação Proletária”, etc.

O jornal fez referência ao Grêmio Sportivo Hamburguez, que havia sido criado em 1927 e que já prestava amplos benefícios aos seus associados, como a “aula nocturna gratuita”. O periódico salientava que essa oportunidade oferecida pela agremiação era fundamental para os operários da cidade que não possuíam instrução primária ou secundária, e que a falta de instrução representava um dos maiores males do país (Jornal O 5 de Abril, 12/08/1927).

O mesmo jornal num editorial intitulado “Um gesto de patriotismo” abordava os graves problemas enfrentados pelo país em relação a sua grande extensão territorial e à impossibilidade de levar escolas a todos os lugares, mas elogiava o governo do Estado do Rio Grande do Sul, na figura de seu governador Borges de Medeiros, que representava “um posto na vanguarda entre os estadistas brasileiros que mais se tem preocupado com a difusão do alfabeto” (Jornal O 5 de Abril, 28/08/1927).

O jornal elogiou, mais uma vez, a iniciativa “patriótica” e de “benemerência” do Grêmio Sportivo Hamburguez, que possibilitou a instrução e o próprio “aperfeiçoamento da raça”.

As regiões de colonização alemã, como já foi mencionado, apresentavam-se em vantagem em relação às demais regiões do Estado. Numa estatística apresentada pelo jornal local, o índice de analfabetismo no Brasil na década de 1920 estava na faixa dos 80%, enquanto que o analfabetismo na cidade de Novo Hamburgo, era, apenas, 1,39%, ou seja, uma diferença gritante em relação à situação nacional. As demais colônias alemãs também apresentavam índices baixos de analfabetismo: Estrela, 4,62%, São Leopoldo, 5,16%, Santa Cruz, 5,63%, Lajeado, 6,67%, Taquara, 8,91% e Montenegro 9%. Porto Alegre tinha 6,93% de analfabetos. Já a região da serra e da campanha (Caçapava, São José do Norte, Piratini entre outras cidades) apresentava índices de 40 a 50%, em função da dificuldade na instalação de escolas nessas regiões, segundo o jornal.

A região colonial possuía um importante trabalho das comunidades religiosas que se envolviam na educação, além das associações desportivas e recreativas, particulares e poder público. A importância da família também era considerada fundamental, pois eram os pais os maiores incentivadores da instrução de seus filhos. A instrução, segundo o jornal O 5 de Abril, estava diretamente relacionada ao desenvolvimento econômico da região, o que era comprovado pelos dados numéricos apresentados.

A ideia do progresso relacionado com a educação era constante nos artigos e editoriais do jornal local. Havia um consenso entre a elite econômica da cidade que era apenas com um povo instruído que se conseguiriam os melhores resultados econômicos. Isso pode ser considerado um dos elementos responsáveis pelo desenvolvimento da indústria local, já que havia, por parte do poder público, da iniciativa privada (industriais) e das comunidades religiosas e recreativas, um grande incentivo à criação de escolas ou aulas isoladas. Essa importância dada à educação não era comum em todas as regiões do Brasil, como podemos observar pelas altas taxas de analfabetismo citadas anteriormente. Será apenas mais tarde, com a política educacional de Getulio Vargas que a educação passará a ser considerada como um elemento fundamental para o desenvolvimento econômico da nação.

Não podemos esquecer que a escola pública foi fundamental para a política de nacionalização das populações coloniais, daí a expansão do ensino público nessas regiões (CORSETTI, 2005).

Leopoldo Petry escreveu um artigo para o jornal da cidade, em 1931, intitulado “Pela instrucção”, em que reforçou essa ideia da importância da educação.

E não é de hoje esse interesse pela alfabetização do povo. Vem de muito longe.

Já há meio século, quando na sede do primeiro distrito apareciam apenas algumas modestas casinhas, rodeadas de macegas, e quando em Hamburgo Velho se concentrava a vida social e religiosa desta zona, já ali existiam boas escolas publicas e particulares.

As comunidades religiosas, coadjuvadas por cidadãos que reconheciam o valor do ensino, não poupavam esforços em atrair bons professores e apesar de alguns fracassos, firmou-se em todos os moradores a convicção de não se recuar ante sacrifícios para progredir cada vez mais.

[...] Como se vê, já há oitenta anos a questão do ensino preocupava os dirigentes e já naquele tempo se clamava por escolas, e esse clamor acompanha toda a nossa história e ainda levará muito tempo até cessar.[...] (Jornal O 5 de Abril, 01/05/1931)

A questão do analfabetismo no Brasil ainda era apontada como um problema sério nos primeiros anos do governo Vargas, segundo informa o 5 de Abril em um artigo sobre analfabetismo, em que foi apresentado o caso da cidade do Rio de Janeiro, onde numa população infantil calculada em 400.000 crianças, menos de 50.000 frequentavam a escola pública e 40.000 as particulares, o que deixava mais de 300.000 crianças fora das escolas.

Reforçando a ideia colocada anteriormente, de que era uma meta dos industriais a instrução dos seus operários, foi instituída em Novo Hamburgo, a Cruzada de Educação Proletária (CEP), que tinha como objetivo “cooperar na grande campanha que visa fazer do povo brasileiro, um povo culto e capaz de figurar junto aos povos mais cultos do globo” (Jornal O 5 de Abril, 13/10/1933). A Cruzada daria a possibilidade não só de os operários estudarem, como também de seus filhos, familiares e outras pessoas que não tivessem condições de pagar seus estudos em escolas particulares.

Não podemos deixar de incluir nessa análise da educação da região, os pressupostos positivistas da “construção de uma sociedade racional, [...] na qual o controle dos trabalhadores requeria a utilização sistemática da educação moral e da prática do trabalho regular” (CORSETTI, 2005, p.204).

Ainda segundo Corsetti (2005, p.210), a educação era fundamental no projeto de modernização capitalista do Rio Grande do Sul, era “um instrumento da política econômica desenvolvida pelos dirigentes positivistas do sul do Brasil.”

Foi nesse quadro da educação local que os nossos depoentes estavam inseridos e será a partir de seus depoimentos que reconstruiremos alguns aspectos das escolas e seu cotidiano.

A educação em Novo Hamburgo: um novo olhar

Nos depoimentos colhidos dos nossos entrevistados vieram à tona fatos pitorescos que nos fizeram voltar no tempo e conhecer um pouco da história da educação de Novo Hamburgo. Nesse contexto faz-se importante ressaltar que nesta época, no Brasil, Getúlio Vargas estava no poder e uma das características desse período foi a reorganização da educação através da Reforma Capanema, onde expandiram-se as escolas e o número de atendimento a crianças.

Um dos depoentes relata que as famílias eram numerosas e todos ajudavam nas lidas domésticas e na agricultura. As casas eram espaçosas e as áreas de terras enormes, onde era possível criar algumas cabeças de gado, que serviam para alimentar as famílias. Do leite produziam queijo, nata e manteiga, da carne, faziam lingüiça, morcilha, etc. o que era, muitas vezes, levado para a escola como merenda escolar.

“Cada um levava o que a família tinha, minha mãe levantava de manhã, botava para cozinhar ovo dentro do feijão para gente levar de merenda. Às vezes a gente levava pão feito em casa com manteiga e banana dentro” (Wilma Judith Mancuso).[4]

A gente levava de merenda o que tinha em casa. Às vezes era pão com schmier [geleia] e às vezes com manteiga. Tudo era muito difícil naquela época. [...] tinha fartura de comida porque a gente plantava, dinheiro não tinha. Minha mãe não podia comprar muitas coisas no armazém (Valdemar Pereira Gomes).[5]

Segundo Mancuso, as peças de roupas da família e os uniformes eram costurados pela mãe, os tecidos não eram coloridos, mas todos da mesma cor, pois o tecido era comprado em uma peça inteira e que servia para fazer roupa para toda a família. Sobre essa mesma questão outro depoente relata:

"[...] a gente não usava uniforme, íamos pra escola com a roupa que a mãe nos dava e que ela mesma fazia” (Valdemar Pereira Gomes).

A distância entre as moradias e entre as casas e a escola também foi lembrado. Segundo Mancuso, a distância entre o bairro no qual morava e aquele em que estava a sua igreja era muito longa e não havia condução para levar os moradores para assistirem aos cultos, pois o trajeto a ser feito levava mais ou menos duas horas de carroça ou cavalo. O transporte mais usado era a charrete, mas somente as famílias mais ricas as tinham.

“Eram muitas as dificuldades para nos locomovermos dentro da cidade de um lugar para outro, a gente ia a pé para a escola, saindo às 7h15min e atalhando para chegarmos na hora” (Wilma Judith Mancuso).

“Era difícil chegar as noticias até minha casa, porque ficava distante de tudo" (Valdemar Pereira Gomes).

Segundo os entrevistados, as crianças chamavam as escolas de “coleginhos”, porque a estrutura física era pequena.

Nos anos 30 e 40 as turmas escolares eram multisseriadas, todos estudavam na mesma sala e havia apenas um professor para todas elas. "[...] na minha escola, os meninos sentavam separados das meninas. A gente só brincava junto no recreio" (Helga Koch).[6]

Não havia divisão por idade ou nível de conhecimento. Muitas vezes as classes eram de madeira e os bancos unidos em grupos de até cinco crianças. As cadeiras eram grudadas às mesas e os recursos didáticos eram praticamente inexistentes na maioria das escolas. O professor contava apenas com o quadro negro e o giz. “A cartilha utilizada era ‘João de deus’, iniciando-se pelas vogais que eram copiadas já no primeiro dia de aula. [...] O professor ficava numa espécie de palco, mais alto que os alunos” (Maria Eronita Siebel).[7]

Na escola aconteciam brincadeiras variadas, como jogos com bola, bambolê, boneca, mas não havia outros tipos de jogos como os que conhecemos hoje. Os brinquedos eram confeccionados pelas famílias, pois não existiam ainda os brinquedos industrializados.

Segundo Valdemar Gomes, “as crianças não tinham brinquedos, mas nós inventávamos um monte de brincadeiras”.

Os entrevistados relataram que as professoras eram bravas, que não era permitido fazer perguntas e nem questionar nada. Havia castigos físicos: “a minha professora primária era tão brava... Ela tinha uma régua em cima da mesa e eu achava que no dia em que ela batesse em mim, eu morreria” (risos) (Wilma Judith Mancuso).

Outro castigo lembrado pela entrevistada era ficar depois da aula escrevendo: “um aluno ficava responsável por anotar quem conversasse, ele ficava depois da aula para escrever o castigo: não devo falar alto durante a aula” (risos). Esta fala vem ao encontro com o estrito controle que havia sobre os educandos à época, pois a educação era disciplinar, rígida e existiam vários tipos de castigos físicos.

A entrevistada Helga Koch lembra que "[...] as aulas eram muito diferentes de hoje. Nós muitas vezes tínhamos medo da professora. Se a gente não fazia os temas, íamos de castigo ou apanhávamos de régua nas mãos". Diz ainda que "[...] quando a professora estava brava a gente não podia abrir a boca na aula, senão era castigo na certa [...] mas apesar da professora ter cara de brava, eu gostava dela mesmo assim."

Não era permitida a participação do aluno, os professores eram muito autoritários. O aluno só falava quando o professor solicitava e para dirigir-se a ele era necessário levantar a mão. Segundo Helga Koch “na aula a gente era obrigada decorar a tabuada e não podia errar quando a professora tomava".

Constatamos, através das entrevistas, que o docente, no período estudado, tinha bastante valor perante a sociedade. Ele era respeitado e a relação aluno/professor era bastante formal e hierárquica. O professor era uma verdadeira autoridade, além de ser, também, autoritário e muitas vezes punir os alunos com castigos severos, como vimos nos depoimentos. As crianças eram muito reprimidas e não tinham liberdade de ação, entretanto, essa severidade contava com o apoio dos pais e da sociedade em geral.

Segundo os entrevistados, na sua época existiam poucos materiais didáticos, o professor dava aula expositiva, utilizando o quadro negro. A função do professor era ensinar a ler, escrever e fazer contas. Segundo Lúcia Ritter, “O pátio era grande, porém sem brinquedos. Havia somente uma sala e não havia biblioteca”[8]. A tabuada era muito importante e todos deveriam saber de cor. Em alguns locais o quadro tinha um pedal para fazê-lo girar para frente e para trás, podendo ser utilizado dos dois lados, um para escrever e ler e o outro para a matemática.

“As crianças eram proibidas de passarem o dedo no quadro, porque o dedo era gorduroso e depois não dava mais para escrever” (Wilma Judith Mancuso).

Os alunos utilizavam uma lousa pequena, giz, caneta tinteiro, caderno simples e alguns tinham livros.Nos depoimentos, vimos que a precariedade não os incomodava ou a suas famílias, até porque não tinham conhecimento e acesso a outros materiais. Cada aluno tinha a sua lousa e o carvão preto que carregam dentro da sua sacolinha. O livro usado pelos alunos das quarta e quintas série era a Selecta que continha uma coletânea de textos. Uma questão que veio à memória de alguns entrevistados foi a proibição por parte do governo da utilização da língua alemã nas escolas e nas residências como parte da política de nacionalização de Getulio Vargas

“Durante a Guerra foi proibido falar alemão em lugares públicos a na escola” (Wilma Judith Mancuso).

“Cada batida à porta aterrorizava o povo em geral [...] minha família teve que queimar os livros escritos em alemão” (Jorge Ondere Filho).[9]

O espírito cívico era muito presente no ambiente escolar. O orgulho de ser brasileiro e o sentimento patriótico eram comprovados nos desfiles e datas comemorativas à Pátria. Observamos melhor isto na fala de Jorge Ondere Filho: “eu fiquei muito orgulhoso, pois tinha sido escolhido para o cargo de honra para a Semana da Pátria. Eu iria carregar a maca, como enfermeiro”. Já, segundo Melita Fisch,[10]

[...] na semana da pátria, os alunos tinham uma atividade especial: marchar pelas ruas, perfeitamente uniformizados, cantando, gloriosamente, o Hino de Getúlio Vargas. Desfilavam com bandeirinhas do Brasil e eram apreciados pela comunidade local, que se encantava, vendo a banda passar.

Valdemar Pereira Gomes lembra que "nós tínhamos aula de canto e eu gostava de cantar, principalmente o hino Nacional".

Neste período, havia uma vinculação bastante acentuada entre escola e Igreja e “[...] consequentemente, entre a autoridade religiosa (padre ou pastor) e o professor. A escola era Paroquial ou Comunitária, ligada a uma determinada comunidade religiosa”. [11]

Outra das questões levantadas por todos os entrevistados e que muito lhes chama a atenção é a enorme distância da escola de hoje com aquela que eles vivenciaram, não só do ponto de vista da estrutura física e pedagógica, mas principalmente em relação ao interesse do jovem pela educação.

Um dos entrevistados disse: "[...] eu gostava de ir à escola, porque era muito importante a gente aprender a ler e escrever [...] a vida da gente naquele tempo era muito sofrida, nada era fácil como hoje em dia.Todo mundo lutava pra viver" (Valdemar Pereira Gomes). Para outra, "[...] hoje quando vejo meus netos e bisnetos falando da escola que estudam eu vejo como os tempos são diferentes do tempo que eu vivi" (Helga Koch).

Considerações finais

Estudar a história da educação apenas baseados na conjuntura social, econômica, política e legal de cada época édeixar de lado uma série de questões que são fundamentais para compreendermos a diversidade e a riqueza da nossa história educacional.

A historiografia dita oficial se preocupa muito mais com a legislação que rege a educação do que com as pessoas que efetivamente tomaram parte da vida escolar em cada período histórico. Éparte dessa história que tentamos reconstruir com nossos entrevistados.

Quando trabalhamos com história oral muitas lembranças vem à tona e muitas questões são rememoradas pelos depoentes, o que muitas vezes é um problema, pois as memórias específicas sobre a educação e a vida escolar às vezes ficam num segundo plano e afloram histórias de vida bastante complexas, mas que fogem do foco principal da pesquisa. Como procuramos não intervir nas falas, alguns entrevistados acabaram se destacando mais que os outros, o que não significa que suas contribuições foram menos importantes, apenas suas falas se desviaram do nosso objetivo principal, mas servirão para trabalhos futuros.

Enfim, ouvir o que as pessoas têm a dizer, compartilhar de suas histórias e lembranças é um exercício fascinante e enriquecedor, não só para o entrevistador, como também para o entrevistado, que se sente sujeito da história.

Tomamos conhecimento de fatos que os livros, na sua impessoalidade, nem chegam a apresentar. Observamos que a complexidade da história da nossa educação pode ser compreendida no cotidiano das pessoas entrevistadas que vivem tão perto de nós e que são, muitas vezes, ignoradas e esquecidas.

REFERÊNCIAS

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CORSETTI, Berenice. Política e organização da educação sob o castilhismo. In: AXT, Gunter et alii (orgs). Júlio de Castilhos e o paradoxo republicano. Porto Alegre: Nova Prova, 2005.

GOMES, V.P. Valdemar Pereira Gomes: depoimento [abr.2009]. Entrevistadora: Yara Feitosa. Novo Hamburgo, 2009. 1 fita cassete (60 min). Entrevista concedida ao Projeto Memória, Gênero Biográfico e Micro-História. Universidade Feevale.

JORNAL O 5 de Abril, Novo Hamburgo, 1927, 1929, 1931, 1933.

KANNENBERG, Hilmar. Fundação Evangélica – Um século as serviço da educação (1886 a 1986). São Leopoldo: Rotermund, 1987.

KOCH, H. Helga Koch: depoimento [abr.2009]. Entrevistadora: Yara Feitosa. Novo Hamburgo, 2009. 1 fita cassete (60 min). Entrevista concedida ao Projeto Memória, Gênero Biográfico e Micro-História. Universidade Feevale.

KREUTZ, Lúcio. Muito empenho pelas escolas. In: Nós, os teuto-gaúchos. Porto Alegre: Editora da Universidade, 1996.

MANCUSO, W. J. Wilma Judith Mancuso: depoimento [abr.2009]. Entrevistadora: Yara Feitosa. Novo Hamburgo, 2009. 1 fita cassete (60 min). Entrevista concedida ao Projeto Memória, Gênero Biográfico e Micro-História. Universidade Feevale.

MEIHY, José Carlos Sebe Bom. Manual de História Oral. 3.ed. São Paulo:Loyola, 2000.

PETRY, Leopoldo. O Município de Novo Hamburgo. Porto Alegre,editora A Nação, 1944.

PILETTI, Nelson. História da Educação no Brasil. 7.ed. São Paulo: Ática, 1997.

MONTE DOMECQ & CIA. O Rio Grande do Sul Colonial. Paris/Barcelona: Estabelecimento Gráfico Thomas, 1918.

MONTENEGRO, Antonio Torres. Historia Oral e Memória. A cultura popular revisitada. 3.ed.São Paulo: Contexto, 1994.

ONDERE FILHO, J. Jorge Ondere Filho: depoimento [abr.2009]. Entrevistadora: Yara Feitosa. Novo Hamburgo, 2009. 1 fita cassete (60 min). Entrevista concedida ao Projeto Memória, Gênero Biográfico e Micro-História. Universidade Feevale.

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SARLET, Erica. Ainda Hoje Plantaria Minha Macieira. São Leopoldo: Sinodal, 1993.

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THOMPSON, Paul. A Voz do Passado. História Oral. 2.ed. São Paulo: Paz e Terra, 1988.


[1] Doutora em História, professora os cursos de Moda e História e pesquisadora do grupo História e Memória da Comunidade da Universidade Feevale.

[2] Graduada em Pedagogia, bolsista do grupo de pesquisa Cultura e Memória da Comunidade pelo Programa de Aperfeiçoamento Científico da Universidade Feevale.

[3] “Em 1865, o município de São Leopoldo tem 18 mil habitantes, conta com 56 escolas, 49 professores e 5 professoras. Dos professores, 38 são pagos por sua escola, 11 são funcionários do Estado. Destes, 5 são de origem portuguesa e 6 alemães. O número de alunos é de 1958, dos quais 1259 são meninos e 699 meninas” (KANNENBERG,1987, p. 26).

[4] Wilma Judith Mancuso nasceu em 28/09/1924 em Novo Hamburgo, possui curso superior completo e é professora aposentada.

[5] Valdemar Pereira Gomes nasceu em 10/10/1934 em Novo Hamburgo, possui 1º grau incompleto e é calçadista aposentado.

[6] Helga Koch nasceu em 08/11/1914 em Novo Hamburgo, possui 1º grau incompleto.

[7] Maria Eronita Siebel nasceu em 09/04/1928, possui curso normal e é professora aposentada.

[8] Lúcia Ritter nasceu em 14/08/1927 em Taquari e é comerciante aposentada.

[9] Jorge Ondere Filho nasceu em 26/05/1935 em Novo Hamburgo, tem ensino médio completo e é funcionário público aposentado.

[10] Entrevista de Melita Fisch In:SCHEMES, 1999, p.14

[11] Entrevista de Justino Antonio Vier In: SCHEMES, 1999, p.16