ISSN 1807-1783                atualizado em 31 de agosto de 2011   


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A trajetória política e intelectual de Gorbachev – II – Glasnost (Parte 1)

por Moises Wagner Franciscon

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Raízes econômicas, políticas e sociais da glasnost.

O principal motivo para a implantação da glasnost talvez tenha sido o caráter ideocrático do sistema soviético, como Brzezinsky o descreveu. Ideologia e política, ideias e atos eram necessariamente convergentes (BRZEZINSKY, 1963), ou ao menos deveriam aparentar ser. Mudar a ação requereria mudar a ideologia.

Alteração de rumos não era um tema tabu para os secretários-gerais. Pelo contrário. Sempre ao assumir possuíam isso em mente ou ao menos em seus discursos. Kruschev propunha o incremento do setor de consumo à custa do setor de bens de capital, em um racha com o grupo do primeiro-ministro Malenkov. Brejnev defendia a estabilidade empregatícia e de quadros diante das constantes mudanças de pessoal promovidas por Kruschev. Andropov tentou emplacar uma caçada à corrupção e a uma aceleração da atividade produtiva em contraposição ao arrefecimento das atividades do governo Brejnev. Chernenko buscou um retorno aos tempos deste secretário-geral em oposição às campanhas introduzidas por Andropov. Para os conservadores era mais que natural que Gorbachev subisse ao posto com algum discurso de transformação. Só não esperavam que fosse tão profunda ou que era para ser levada tão a sério.

Glasnost” também não era uma palavra incomum entre os dirigentes e os economistas soviéticos anteriores a Gorbachev. Seu significado de “transparência” não sofreu alterações no ano de 1985 e nos primeiros relatórios da nova liderança. Continuava a evocar as questões acerca da necessidade de um fluxo mínimo e seguro de informação dentro das empresas e da sociedade soviética. Porém as reformas e adaptações com vistas a incorporar essa circulação necessária sempre esbarravam nos mesmos problemas práticos e de bases materiais: como os ministérios poderiam manter o domínio sobre os dados econômicos, falsificá-los ou mesmo apresentá-los, se fossem irreais, às empresas para que estas promovessem a descentralização administrativa. Como garantir que os dados transmitidos por computadores e discos rígidos não fossem um risco à segurança ou ofensivos ao regime. Como assegurar que fotocopiadoras, fax, telefones e o sistema de discagem direta não servissem para espalhar informação que o Estado julgasse confidencial ou que fosse de rebeldia contra o mesmo. Como dizer a verdade sobre problemas na produção e sugerir soluções sem desagradar a diretores, burocratas e políticos? Levá-la dos níveis inferiores aos superiores e, quando no caminho inverso, torná-la crível?

O impacto do relatório de Kruschev no XX Congresso do PCUS, em 1956, deitou marcas profundas na imaginação popular e, principalmente, da “intelligentsia”, a camada intelectual. O relatório deveria ter sido secreto, lido diante de um público estrito de delegados, como forma de por contra a parede o grupo anti-partido e influenciar a liderança chinesa. Porém ele foi vazado por um delegado polonês, parou nas mãos ocidentais e da rádio Europa Livre. Todos os soviéticos que possuíam um rádio de ondas longas puderam ouvir a leitura do relatório por esse serviço de contrainformação e propaganda do Ocidente. Os demais, num ambiente pós-stalinista, acabariam por ouvir sobre ele em conversas informais. A dúvida sobre o passado do regime estava lançada para além da memória daqueles atingidos diretamente e em assuntos que jamais suspeitariam – com provas cabais. A revisão historiográfica saiu da cena da política soviética tão logo Kruschev perdeu o cargo. Mas de forma alguma a curiosidade foi saciada, como na anedota de que “na URSS se deve duvidar até do passado”.

Reabilitações de indivíduos e grupos e de sua importância histórica tampouco eram novidade. As revoltas camponesas, como as de Stenka Razin e Pugatchev, deixaram de ser consideradas violentas badernas (como uma lembrança das revoltas da implantação da coletivização). Após a morte de Stalin, Kruschev levou a tona o caso de Richard Sorge e da Orquestra Vermelha e de seu valor para a vitória na Segunda Guerra. Personagens que ficaram retidos nos arquivos da NKVD (aliás, como boa parte dos casos de espionagem de ambos os lados da Cortina de Ferro), mas que eram importantes politicamente, como forma de deixar claro o descaso de Stalin com os verdadeiros heróis esquecidos intencionalmente (uma vez que aumentava o brilho do culto a sua personalidade apagando esses acontecimentos), e demarcar os seguidores de Stalin como o grupo anti-partido. A resistência heroica, mas sem o sacrifício da própria vida, como a da Fortaleza de Brest, foi considerada covardia nos tempos de Stalin, ou a luta até a morte, mas sem a vitória, como no caso da Fortaleza de Sebastopol, não tão digna de lembrança. Essas reabilitações também promoveram a nova leitura histórica da vitória na Grande Guerra Patriótica como mérito do esforço popular e do Partido e não de sua liderança. Na Era Brejnev a reabilitação teve contornos diferentes. Atingiu parcialmente a Stalin e oficialmente ao marechal Zhukov – retirado da ocultação histórica, imposta por Stalin, através do revisionismo de Kruschev, mas reenviado ao mesmo ostracismo após entrar em conflito com este. As reabilitações possuíam um limite claro.

Uma maior abertura para a arte ocorreu também nos anos Kruschev: Pasternak publicou no estrangeiro (e se chegou a cogitar a impressão interna) seu Doutor Jivago, ocorreu o início da fama internacional de futuros escritores dissidentes, da permissão do teatro, poesia e artes plásticas experimentais[1]. Nos anos Brejnev o cerco à publicação fechou-se novamente. Mas a experiência do tempo de Kruschev (e os posteriores tratados internacionais sobre os direitos humanos de Helsinque) dotou a oposição artística de audácia. Os prognósticos e pedidos pelo fim da URSS de Amalrik, o arquipélago gulag de Solzhenitsyn, o manual de conduta para o ocidente promover uma pressão conjunta contra a União Soviética de Sakharov, a militância judaica de Scharansky, foram punidos ou com o degredo para o estrangeiro ou com a cadeia e o confinamento. A questão é até onde as ideias desses intelectuais e cientistas possuíam respaldo na sociedade soviética. Brown aponta que o pensamento dissidente foi debelado quase completamente pela KGB nos anos Brejnev e Andropov (BROWN, 1996, 8). E tais temas não seriam de fato de interesse do povo soviético (muitos deveriam se perguntar o porquê dos judeus terem preferência em emigrar e eles não, o que ganhariam com um cerco ao país ou com uma guerra nuclear com a China), que os considerava bandidos merecedores das punições impostas pelo Estado. E, apesar de contraditório, tendo em vista ressaltar em seguida a fraqueza ideológica e moral do governo soviético, menciona a força e o sucesso da propaganda do regime para mostrá-los como culpados ou loucos. Já Lewin acredita que os dissidentes tiveram um papel fundamental na formação da opinião pública não reconhecida (LEWIN, 1988, 99). O mais provável é que fora dos meios da intelligentsia as ideias dos dissidentes não deveriam ter eco. E quanto aos grandes pressupostos comuns à opinião pública, como os segredos e mentiras da história oficial e dos dados reais do país, mais do que espalhados para a sociedade depois de sua origem na dissidência e no “samizdat” (publicações artesanais clandestinas), foram refletidos por estes, como “a ponta do iceberg” da opinião pública autônoma e não conhecida de fato por não ter espaço formal de manifestação para além do anedotário, da conversa na fábrica, na família ou no bar, como o próprio Lewin comenta acerca do pensamento não oficial (MLYNAR, 1987, 128).

Um quadro de polonização?

Até onde a glasnost foi uma reforma a partir do alto? Dias menciona que as expectativas em torno da revisão historiográfica e da transparência de informações não chegavam apenas do ocidente, mas de amplos extratos da sociedade também. A exigência da liberdade de informação e da revisão histórica provinha desde a desestalinização. A emergência da opinião pública era um processo antigo e a custo estava sendo contida pela volta de modelos stalinistas durante o período Brejnev, das suas ações para submergir e interromper as tendências democratizantes, e a perda de controle político e ideológico diante de uma fragmentação e dissolução dessa emergente opinião pública em várias correntes distintas e indiferentes ao Partido e sua linha oficial (DIAS, 1995, 238-240). Moshe Lewin fala de uma avalanche de demandas, reclamações e tendências brotando de uma opinião pública e de uma sociedade civil que cresceram juntas com a industrialização, com os desenvolvimentos complexos da teia social soviética e principalmente a urbanização, que não podiam mais ser ignoradas e não levadas em consideração. “A emergência de uma verdadeira vida política na União Soviética é inevitável” (MLYNAR, 1987, 135). Porém, por muitos anos, as energias sociais liberadas pela desestalinização foram comprimidas, com sucesso, de volta para a obscuridade do ambiente privado ou de pequenos círculos – o que Gorbachev classificou como “a diminuição artificial da marcha do desenvolvimento da democracia” (GORBACHEV, 1988, 91). O preço a pagar seria a apatia profunda, o cinismo, a descrença, o dissenso oculto e o “anarquismo subterrâneo” (POCH-DE-FELIU, 2003, 18), mas tais fenômenos parecem estar mais ligados à falta de capacidade do regime atender as expectativas de consumo e a manutenção da qualidade e quantidade dos serviços prestados do que a rebeldia frente a ter as convicções próprias não respeitadas e lançadas para longe da possibilidade da crítica aberta e da participação, enquanto voz dissonante ou apoiante, nos mecanismos de poder de um sistema político autoritário e oligárquico, como sugere o alto percentual de soviéticos que tinham Stalin em consideração. Tão tarde quanto 1980 Marc Ferro apontava para o envolvimento voluntário da população nos organismos sociais controlados pelo Estado (FERRO, 1984, 101).

Uma visão diferente é a ideia de que o próprio regime, nos anos 70, acreditava na desideologização e normalização da sociedade como um processo lento e sem sobressaltos, dentro da política de estabilidade. Até aquele momento havia um forte teor militar, disciplinar, de parto da nova sociedade. A partir de um certo momento esta se consolidaria, sem a rigidez do aparato. As características socialistas seriam absorvidas como sua própria natureza e não impostas à força. O regime poderia relaxar internamente, as campanhas ideológicas poderiam ser conduzidas de outra forma. Cinema, televisão e rádio poderiam ser veículos menores da propaganda. Entretanto o que surgiu não foi uma sociedade socialista desideologizada, e sim sem ideologia definida (POCH-DE-FELIU, 2003, 14-15). Talvez mais que amplas camadas ansiosas por liberdade de expressão, existissem extratos mais circunscritos, ligados à intelligentsia e à classe média de técnicos. A maioria da população, mesmo insatisfeita, não significava uma fonte de pressão num sistema sem eleições multipartidárias ou mesmo múltiplos candidatos. Gorbachev construía, contudo, um cenário catastrófico para a falta de uma válvula de escape pública das frustrações e demandas sociais. A anedota que de “uma revolução estoura quando os de cima já não podem e os de baixo já não aguentam” era pintada como um quadro de polonização generalizada[2]. Uma infinidade de Afeganistãos a serem apagados por via militar – inclusive dentro da URSS. E este não era um medo apenas seu (BROWN, 1996, 135). Durante a Era Gorbachev, a partir de 1987-88, quando a pressão por baixo realmente surgiu, a ala radical da intelligentsia se tornou o oráculo da opinião pública de fato – ela, se não tornou-se a opinião pública, era tomada como seu principal termômetro (BROWN; SHEVTSOVA, 2004, 59), e agia dentro de uma extensa camada comum de questionamentos que atravessava a sociedade, e que, até o momento de se apresentar respostas e programas claros, muito bem podiam caminhar juntos. A intelligentsia possuía uma ampla plateia (KAGARLATSKY, 1993, 183). Porém a ação por baixo só pôde se expressar e tomar o espaço público porque este foi desocupado pelo Partido. Mesmo assim, poderia haver dúvidas sobre a represália em seguida. A mobilização das massas para a crítica e a auto-redução do partido se deram através do poder de Gorbachev e de seus exemplos práticos.

O dissenso público dentro de certos limites era tacitamente aceito tanto por acadêmicos como pelo regime, antes de Gorbachev. Obviamente, era algo mais oportuno para ser usado por quem já possuía uma visibilidade e uma importância incontestável do que alguém que ainda estava subindo na carreira. Os locais adequados para o dissenso moderado eram a academia e os jornais “densos”, como o Literaturnaya Gazeta ou o Novy Mir. Outro local eram as redações de institutos de pesquisa ligados ao próprio governo. Mas seus relatórios sempre passavam antes pelo crivo dos diretores (POCH-DE-FELIU, 2003, 21). Por meio destes chegavam às mãos da liderança, além dos cenários cor-de-rosa, relatórios inquietantes[3] sobre a situação social (MLYNAR, 1987, 127).

Dos problemas do sistema ideológico à troca do mesmo.

De início umbilicalmente ligada às questões em torno da aceleração da produção e de seus pressupostos básicos para um sistema intensivo, a glasnost teve seus limites testados pela intelligentsia, tão cedo quanto o artigo de Yevgeny Yevtushenko no fim de 1985, e acabaram alargados para uma peça fundamental da reforma ampla e de longo prazo, a perestroika, e por fim como base para a progressiva democratização da sociedade (BROWN; SHEVTSOVA, 2004, 26), que deveria ser a chave para a reativação da economia. Além de “transparência”, também ganhou o significado de “abertura” – com o mesmo impacto do termo “democratização”. Era o mesmo que confirmar o caráter ditatorial do país e um processo de liberalização política como o da Espanha, poucos anos antes. A partir de 1988-89 tornou-se o mesmo que liberdade da publicidade de ideias e de publicação, fortalecida em 1990 com o fim do monopólio do Estado sobre os meios de comunicação. Era também a defesa da verdade e da verdade tornada pública contra o discurso oco, contra o afastamento da “vida” e de seus ensinamentos.

Uma das dificuldades mais aflitivas era a incapacidade do regime voltar a ser ideologicamente atrativo, a perda de criatividade e apelo da propaganda (GORBACHEV, 1986a, 122) e o contínuo afastamento de setores sociais, como a juventude, da moral socialista, e a introdução de práticas estranhas à mesma, como reclamava Gorbachev[4] – algo absolutamente incompatível com a imagem totalitarista do sistema. O novo pensamento dentro do âmbito da glasnost possuía dois desdobramentos: novas ideias para as relações internacionais e para a sociedade e a democratização. As velhas ideias deveriam ser reformuladas ou abandonadas, pois se constituíam também parte importante do hiato entre palavras e realidade e da consequente perda de credibilidade da liderança:

“O Comitê Central já examinou reiteradamente os objetivos da atividade político-educativa e ideológica do partido. É natural a atenção dada a esse tipo de atividade tendo sido registrados alguns êxitos. Penso, porém, que ainda não fizemos tudo para que a atividade ideológica se ligue estreitamente à vida, devido à fenômenos de formalismo e autoritarismo. Não são raros os casos em que saímos prejudicados pelo palavreado abstrato e a incapacidade de falar a verdade ao povo. As pessoas ouvem uma coisa mas veem outra. O problema é sério e não só sob o ponto de vista educativo, mas também político” (GORBACHEV, 1985, 39).

Com o tempo, os problemas da educação e da propaganda iriam ganhar outra conotação dentro do ambiente escolar. Este deveria ser direcionado para a formação da mão-de-obra. Matérias como ateísmo ou marxismo-leninismo eram perda de tempo e uma distorção de formação, e deveriam ser abolidas (GORBACHEV, 1988, 112).

A primeira menção à ideologia oficial e ao marxismo-leninismo pode ser encontrada no relatório de abril de 1985, sobre os temas para o futuro XXVII Congresso do PCUS. A importância do marxismo-leninismo como sendo a explicação mais realista do mundo, a grande doutrina cientifica a ser seguida pelo Partido, não deixa dúvidas, como ao dizer que “toda a marcha da história comprova, de maneira convincente, a grande justeza da doutrina leninista”, que permite “analisar de maneira realista e sob uma ótica de classe os fenômenos sociais”. A História era o laboratório de demonstração da teoria, como esta mesma se dispõe a explicar e se pôr a prova. A primeira crítica feita à ideologia oficial se deu com eufemismos. Mas deixou claro que havia um fosso entre a realidade e o discurso, que este era percebido pela população, o que gerava um “problema político” (GORBACHEV, 1985, 11; 39). Em 1986 primeiramente saudou a “vitalidade da doutrina marxista-leninista” enquanto uma doutrina flexível e não apenas “esquemas e receitas dogmáticas, válidas em qualquer lugar e para todos os casos da vida” e que “a análise de Marx se tornou mais atual com o passar do tempo, não o contrário” (GORBACHEV, 1986a, 20). Ele promoveu o descolamento das correntes revisionistas do marxismo frente à corrente ortodoxa, que até então era a linha oficial seguida pelo PCUS. Não havia qualquer sugestão que o marxismo como todo deveria ser julgado segundo os resultados obtidos – ou avaliações de moral – aplicados a partir daí ao marxismo ortodoxo. Porém dois fenômenos que diziam respeito aos fundamentos do marxismo, enquanto ideologia soviética, não poderiam ser desconsiderados. O primeiro ocorreu durante a longa leitura de seu relatório (que durou um dia inteiro das atividades do XXVII Congresso, oito horas), ao pular algumas páginas, Gorbachev se emendou fazendo uma piada. O que não era raro, exceto seu conteúdo: “acabei pulando alguns dos mais brilhantes pensamentos de Lenin”. Era a primeira vez que um alto membro do Partido fazia piada com um assunto tão sério. O segundo foram as passagens oficiais escritas por Gorbachev e seus colaboradores, que passaram a constituir parte do programa do Partido, depois do crivo do Comitê Central.

Reafirmou-se o socialismo como queima de fases, promotor de desenvolvimento acelerado, a luta de classes como motor da história, o papel protagonista do proletariado, o progresso inexorável das forças produtivas, também apontou para o fator atenuante dessas mesmas leis da História – a globalização e a interdependência, ou um fator para o não cumprimento da função histórica teleológica do proletariado e da revolução mundial: um holocausto atômico num futuro nada distante (GORBACHEV, 1986a, 13-19). Nesse momento deu-se início à dessacralização da ideologia oficial (BROWN; SHEVTSOVA, 2004, 87). Fazia-se a indicação que o sistema capitalista poderia ruir sobre o peso da dívida soberana, do déficit fiscal, da resistência dos sindicatos e trabalhadores, da decadência e da cultura da violência e que passava pelas dificuldades da contradição entre capital e trabalho e da ruptura da frente comum imperialista contra o comunismo devido à rivalidade crescente dos EUA com as novas potências regionais. Ao mesmo tempo acenava que as classes dominantes voltavam a cimentar as bases do sistema através da propaganda, e não deixava de ser um ambiente próspero. Havia a sugestão de que não só a vitória final do comunismo sobre o capitalismo poderia estar longínqua, como também poderia nem sequer vir (GORBACHEV, 1986a, 20-32). Não se pode deixar de implicar a influência de sua mulher, Raísa, filósofa e socióloga com viés empirista ou reformista (BROWN, 1996, 33), como promotora dessa mudança do pensamento em Gorbachev sobre a validade do marxismo-leninismo.

O socialismo não seria superior ao capitalismo em tecnologia ou produção. Sua “diferença qualitativa com relação ao capitalismo” estava na preocupação com as pessoas. O socialismo já eliminara a injustiça social e com ela a exploração, a desigualdade perante a lei, os privilégios (GORBACHEV, 1985, 65). Em 1987 falaria no retorno à legalidade socialista, em 1988 na construção desta, em 1990 na criação da “legalidade”. A noção socialista de “cada um segundo sua capacidade a cada um segundo suas necessidades” foi lançada para o futuro distante da sociedade comunista e transmutada em “de cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo seu trabalho” (GORBACHEV, 1986a, 67), como forma de sustar o igualitarismo e fundamentar um novo pensamento sobre o que é socialismo e o que é comunismo – e por que a sociedade soviética não poderia se dar ao luxo de ter aspirações igualitaristas. Em 1987 a ideologia de classe começou a ser abandonada como uma orientação a ser levada em conta. Deveria existir uma nova “correlação de princípios de classe e princípios comuns a toda a humanidade” e os “valores universais” deveriam ter a primazia, uma vez que a paz geral era mais importante que as diferenças ideológicas. A razão do marxismo atribuir tanto valor à luta de classes tornou-se anacrônica. A massa crítica provocada pelas guerras não seria mais um impulso para a revolução e a vitória socialista, mas um caminho para o apocalipse nuclear. Abandonou de vez a teleologia ao afirmar que “caberá a História julgar o mérito de cada sistema, e a história acabará por descobrir a verdade”.  A História não seria ordenada por uma sucessão de modos de produção, como a revolução em países atrasados mostraria. “Nós não concordamos com esse ponto de vista, deixem à História a tarefa de decidir o que está certo”. O regime precisava “marchar para a frente” e não mais para trás (GORBACHEV, 1987a, 28). Seria necessário o abandono de parte da herança marxista por uma antropofagia da experiência de todos os povos, como a fonte para o novo pensamento (GORBACHEV, 1988, 166-184). Usou o termo marxismo ao fazer críticas à ideologia oficial, ou como dizia, ao dogmatismo, ou a crítica a situação do mundo acadêmico e da comunicação:

“Nas ciências sociais, a teoria escolástica foi estimulada e desenvolvida; o pensamento criativo, expulso declarando-se juízos voluntaristas e supérfluos como verdades incontestáveis. As discussões científicas e teóricas, indispensáveis ao desenvolvimento do pensamento e ao esforço criativo, foram emasculadas” (GORBACHEV, 1988, 21).

Também desassocia o termo do leninismo. Agora seu discurso era o de purgar o leninismo das distorções provocadas pelo stalinismo e pela estagnação – que passou a significar não só paralisia econômica, mas uma crise aberta e regressão democrática (GORBACHEV, 1988, 121-130). O próprio leninismo, ou ao menos a experiência prática deste para além dos discursos de Gorbachev, começou a ser posto em xeque a partir de 1988 e 1989 com as discussões sobre o pluralismo e o papel dirigente do Partido. Em 1990 tudo o que dava suporte ao Partido de aço de Lenin acabou por ser desmantelado, inclusive o monólito partidário ou o centralismo democrático.

A leitura singular do legado histórico, ideológico e de seus princípios começou bem cedo nos discursos do secretário-geral. Em 1986 disse que recentemente se processou um melhor conhecimento e compreensão acerca do trabalho de Lenin em seus últimos anos, indicando que tudo o que se dizia sobre a NEP estava equivocado – de certa forma, portanto, o que o próprio Lenin disse. A NEP e suas concessões ao mercado e à burguesia não se tratariam de um passo atrás e dois adiante, mas sim de uma “etapa mais rica e necessária” da construção do sistema e, progressivamente, passou a constituir-se na natureza essencial do socialismo, ao menos até 1990. Assim, em 1986 destacou a importância do imposto em espécie, como existia durante a NEP, e da venda por “outros meios” não estatais dos excedentes de produção além dos requeridos pelo plano. Em 1987, reconheceu a importância da industrialização acelerada e centralizada, destacou também que ela trouxe uma série de disfunções e distorções graves ao sistema e uma tendência irresistível a estagnação tecnológica e produtiva e ao esgotamento do modelo extensivo. Apenas o regresso à NEP poderia ser a solução, pois apenas ele poderia se adequar as exigências do modelo econômico intensivo. Esse retorno se efetuaria com mais uma série de mudanças remendadas ao plano quinquenal de 1985-90, como a autogestão, autocomputação dos custos, o autofinanciamento, o estímulo ao lucro (GORBACHEV, 1988, 34-35).

A desideologização do pensamento de Gorbachev, ou melhor, a adoção da ideologia liberal burguesa, tomou um rumo ainda mais decisivo em 1990-91, como ficou patente com a aplicação prática do seu próprio conceito de experiência. Adotou a ideia de que revoluções e quaisquer outros acontecimentos não são determinados e impelidos automaticamente pelas estruturas econômicas. Sem a ação humana eles simplesmente não eclodem. Logo, nenhuma nação deveria ter a primazia na experiência na construção do socialismo. Esta poderia ser incrementada pelos exemplos e cooperação com os demais países socialistas, como o meio para se chegar “ao verdadeiro socialismo” – de onde se entende que se vivia num falso socialismo (GORBACHEV, 1988, 197). Termos como autogestão, propriamente titoísta, mas também em uso na URSS, e socialismo de mercado, como o cunhado pelos chineses, faziam parte do dicionário da perestroika. Até aí nada que o separasse das correntes renovadas do marxismo, pelo contrário. A impressão que se poderia tirar é a de que pretendia substituir a ortodoxia soviética por um marxismo mais flexível, como o ocidental ou o já empregado em certos círculos da academia soviética. Porém não foram feitas comitivas soviéticas para se inteirar dos projetos húngaro, iugoslavo ou chinês. Os países tomados como modelo do “verdadeiro socialismo” eram a Suécia, a Alemanha Ocidental, a Espanha. Quando em 1990 Gorbachev decidiu ouvir também assessores estrangeiros, não foram os de Deng Xiao-Ping e Janos Kádar, mas Jeffrey Sachs, a Escola de Chicago, o FMI. Em 1991 sua equipe econômica classificou o marxismo como uma venda contra a realidade e não uma ótica de análise. O próprio Gorbachev criticou o fato de que conceitos como o imperialismo tinham 100 anos e não possuíam mais relação com o mundo atual e suas autênticas necessidades e que precisavam ser descartados como coisas de um passado remoto. “A longo prazo, em termos de política ampla, ninguém mais conseguirá subjugar ninguém”. O mundo deveria ser visto com “novos olhos”: “tivemos de nos debruçar sobre a realidade, na tentativa de analisá-la de modo realista e objetivo, deixando de lado os vícios de análise habituais” (GORBACHEV, 1988, 159; 155).

Yakovlev, em entrevista a Lilly Marcou no início de 1991, disse falar em nome das ideias comuns da liderança. Fez, enquanto ideólogo do Partido Comunista, as mais duras críticas à ideologia marxista ou mesmo socialista, e o mais aberto louvor ao que se pode considerar como ideologia neoliberal. As revoluções transformaram o século XX num século de barbárie e não da luz da liberdade dos trabalhadores. A revolução que estava em curso, entretanto, se dirigia ao capitalismo e sem violência – um novo nível qualitativo nas transformações abruptas. O PCUS já havia deixado de ser leninista. O marxismo-leninismo seria impermeável à verdade, uma teoria falha e em essência inumana, utópica, esclerosada, fora do lugar, ultrapassada e assim mesmo canonizada e inalterável. Isso não o impede de usar o legado de seus maiores expoentes como apoio para deslegitimar as mesmas.

“Marx, e Lenin ainda mais, diziam que toda ciência social deve ser fundamentada na análise concreta de uma dada realidade. Não se pode compreender a realidade da Franca dos anos noventa com base em textos escritos no tempo da Comuna de Paris. Seria absurdo. A vida segue seu caminho e nós procurarmos torcê-la para que ela se conforme aos textos sagrados” (YAKOVLEV, 1991, 82).

“Se hoje ainda nos referimos a Lenin, é para ter uma certa credibilidade junto à opinião pública”. Sobre a substituição de sistemas, ele se recusaria a usar “as fórmulas tais como “capitalismo” ou “socialismo”, mais importante é que cada um seja responsável por si mesmo” (YAKOVLEV, 1991, 64). Os Modos de Produção não constituiriam mais que um mito, uma falsidade conceitual. Não existiriam várias etapas ou algo como os cinco MPs. O que existiriam eram dois tipos de sociedade: a de trabalho por coerção e a de trabalho por iniciativa – de onde se depreende que “capitalismo” não passa de mais um conceito inventado e que não se adéqua à realidade. O que existiria é trabalho voluntário, consciente e que gera o retorno merecido. Por obra dos reformistas a URSS estaria abandonando o trabalho por coerção, típico das sociedades de séculos atrás. Reconhece que houve uma falha da glasnost em abolir com a diferença existente entre a realidade e as palavras. Isso seria resultado de uma sociedade esquizofrênica, que aplaude o sistema e os homens públicos pela frente e os execra pelas costas. A culpa não é da política de implementação ou da própria viabilidade e possibilidade dos objetivos da glasnost, mas sim unicamente da atrasada sociedade russa (YAKOVLEV, 1991, 80-88).

A glasnost e o significado político da revisão da história oficial.

Em outubro de 1987 Gorbachev reclamava da paralisação da investigação histórica e das reabilitações nos anos 60. Propunha a redação de uma nova história do PCUS, como Kruschev havia promovido em sua época, para a qual deveriam ser criadas comissões especiais para conduzir a abertura dos arquivos e a pesquisa para a revisão histórica. Apurar o passado levaria para adiante a perestroika e suas metas: “democratização, a legalidade, a transparência, superação do burocratismo” (GORBACHEV, 1987b, 31-32).

O revisionismo histórico foi fundamental ao programa e ao poder de Gorbachev, como foi para Kruschev. Recebeu esse horizonte comum de sua trajetória política e intelectual. A imagem de Stalin é uma das mais interessantes dentro desse curso rumo à socialdemocracia. Em 1985 traçou um papel na condução da Grande Guerra Patriótica, que cineastas soviéticos da década de 70, como Ozerov, desaprovariam. “O Partido, seu Comitê Central, o Comitê Estatal da Defesa chefiado pelo secretário-geral do CC do Partido, Josef Stalin, dirigiram os enormes trabalhos desenvolvidos na frente e na retaguarda” (GORBACHEV, 1985, 69). 15 anos antes Ozerov, diretor oficial, contratado, pago e financiado pelo Estado, já havia retratado um Stalin que mais atrapalharia a coordenação da campanha militar do que ajudaria, e o tornou a fazer nesse mesmo ano de 1985. Sob Stalin, o país revelava suas “potencialidades criativas” como a coletivização da agricultura. Em 1987 Stalin foi reduzido ao papel de autocrata, que nunca era mencionado junto às conquistas da época, mas aos problemas. Assim, seu nome aparece junto do culto à personalidade, mas não da industrialização dos anos 30. No fim do mesmo ano, no discurso do Dia da Vitória, em uma meia volta, já falava em seu “papel contraditório” diante de sucessos e crimes, no fracasso da coletivização, devido ao centralismo, e no teor do desconhecimento de Stalin sobre as arbitrariedades da época.

“Os documentos de que dispomos mostram que não era assim. É enorme e imperdoável, perante o Partido e o povo, a culpa de Stalin e de seus auxiliares mais próximos por terem fomentado repressões em massa e arbitrariedades. É uma lição para todas as gerações” (GORBACHEV, 1987b, 31).

O significado da Segunda Guerra e da conduta de seu país também modificou-se. Em 1985 dizia que o PCUS havia educado o povo no ódio ao nazismo, mas os documentos que liberou em seguida comprovavam o contrário, na política de boa vizinhança espalhada pelo Komintern e nas acusações de alarmismo contra os que se punham a afirmar publicamente a iminência da invasão alemã.  Ao se lembrar do esforço de guerra conjunto contra o nazi-fascismo, lembrou da ação de vietnamitas e coreanos (GORBACHEV, 1985, 61-69; 72). Uma rememoração de acordo com a história oficial soviética (KEEP; BRISBY, 1965, 220), que não se limitava ao papel das potências ocidentais no conflito, e que também significava lembrar o papel dos PCs locais na Segunda Guerra e liga-los aos recentes combates contra o imperialismo na Ásia.

O Ocidente é que armou a Hitler, o fortaleceu em Munique e eles já possuíam tratados de não agressão mútuos. A culpa da assinatura do Tratado Ribbentrop-Molotov era toda do Ocidente, de sua recusa em formar uma frente comum antifascista e dos sinais emitidos que indicavam um desejo por um conflito devastador entre a URSS e a Alemanha (GORBACHEV, 1985, 82). Em 1987, um ano antes da integra dos acordos de agosto de 1939 virem à tona, apenas a existência desses tratados mútuos é lembrada, sem que fosse atribuído um maior peso à responsabilidade ocidental. O tratado soviético não foi mencionado como uma imposição externa, mas a única saída, por pior que fosse (GORBACHEV, 1987b, 33), e por fim, em 1991, se tornou um crime, nas palavras do homem de confiança que Gorbachev escolheu para comandar a comissão de investigação histórica, Yakovlev, mesmo que os “protocolos secretos” anexos, que dividiriam as áreas de influência no Leste e estipularia uma invasão conjunta à Polônia, ao contrário da íntegra do Tratado Ribbentrop-Molotov, nunca tenham sido encontrados. Mas isso não foi um limite para que essa comissão os declarasse verdadeiros, ao contrário da posição oficial do regime até então, que os considerava uma fraude e invenção propagandísticas. Resultado parecido com o que essa comissão deu ao caso Katyn, aos pogroms, ao antissemitismo de Stalin, ao caso Kirov, às purgas pré-guerra, ao stalinismo pós-guerra, aos testes nucleares do general Zhukov. Stalin não seria de todo igual a Hitler, entretanto. Aquele declarou guerra contra seu próprio povo e o último contra todos os povos (YAKOVLEV, 1991, 130-150).

A história da Guerra Fria também passou pelo crivo de seus objetivos de aproximação (e a partir de 1989-90 do pedido de um dramático socorro econômico) com a Europa Ocidental e as negociações com governos conservadores como Thatcher, Kohl ou Reagan. Em 1987 afirmava que o Ocidente fez inúmeras tentativas de jogar a União Soviética na lata de lixo da História (GORBACHEV, 1988, 149) mas que a origem da Guerra Fria estava nas respostas soviéticas equivocadas às provocações dos aliados – a URSS a havia iniciado, uma posição muito diferente da de 1985, quando falava inclusive no desejo do Ocidente invadir ou destruir a URSS em 1947 (GORBACHEV, 1985, 73) – o que é muito mais que mera provocação, ou nos planos de 1945 de uso da bomba A contra as cidades soviéticas, em 1986, ou na eclosão do conflito em uma data, local e agente bem específicos: 1947, Fulton, Churchill. Com o tempo, porém, o discurso da historiografia conservadora ocidental era cada vez mais presente no círculo gorbachevista, a ponto de mencionar a Guerra Fria como a luta ocidental contra o totalitarismo stalinista. Feliu fala em uma “síndrome do Vietnam” acometendo a cúpula soviética logo após ser debelada nos EUA, causada tanto pelo contato dos dirigentes com a historiografia e a ciência política das universidades americanas, do impacto de professores diante dos alunos do intercâmbio, como também:

“del agotamiento de la fe en el proprio sistema y del correspondiente prestigio de las versiones de la historia facilitadas por el discurso norteamericano-occidental, pero, en cualquier caso, existía y fomentaba todo tipo de dudas, inseguridades y complejos de culpa (FELIU, 2002, 105).”

O papel de Lenin, a Revolução, o comunismo e o socialismo passaram a sofrer uma revisão maior do que Gorbachev estava publicamente apto a aceitar. Se até 1988 os adeptos de sua reforma se esforçavam para conciliar e defender as ideias do líder sobre o espírito democrático e plural de Lenin em debates quase exotéricos ou bizantinos, o aprofundamento da glasnost e a ruptura do bloco reformador possibilitou um progressivo ataque, daqueles mesmos que prosperaram na carreira seguindo as diretrizes emanadas do secretário-geral, ao próprio “novo socialismo” ou ao “leninismo puro” de Gorbachev. Cedo perdeu o controle sobre a abertura e seu impacto sobre a nascente opinião pública. Da sua declaração sobre o erro da cisão entre mencheviques e bolcheviques (que foi a própria razão da Revolução) que “deveriam ter trabalhado juntos” (BROWN, 1996, 121), livros dos generais brancos passaram a ser publicados sem receio. Da abertura dos arquivos, o Terror Vermelho de Lenin foi contraposto ao benéfico Terror Branco, uma vez que capitalista (KAGARLITSKY, 1993, 63). Antigos heróis, como Chapaev, deram lugar a antigos vilões, como Kolchak. Houve uma corrida à liderança desse movimento e à conquista desse capital político. O grupo de Yeltsin teve sucesso em capitanear o anticomunismo, apesar das tentativas do grupo de Gorbachev:

“La revolución socialista no sólo no mejoró la vida de los trabajadores, sino que en todas partes, incluida la Rusia soviética, provoco una catastrófica caída del consumo y la total escasez, particularmente denigrante para los sectores más pobres de la sociedad y para el conjunto dos trabajadores. La socialización de los medios de producción condujo irremisiblemente a la enajenación de los obreros y campesinos con respecto a sus medios de vida y trabajo. Lo que ocurrió en los países socialistas no tiene precedentes ni en el feudalismo ni con el capitalismo. La dictadura del proletariado no liberó a la gente, sino que la esclavizó” (YAKOVLEV, 1993, apud POCH-DE-FELIU, 2003, 73).

Se a velha guarda vítima de Stalin foi reabilitada a partir de 1988 (especialmente as figuras ligadas à NEP, como Bukharin, e que constituíam a legitimação histórica do discurso de Gorbachev de retorno ao ambiente dos anos 20, ou a tentativa do anti-burocratismo de Trotsky) promoveu também a reabilitação de conservadores, nos anos iniciais (quando precisava fazer concessões por causa de seu poder ainda não consolidado), como a de Molotov, em 1986 – processo que já tramitava desde 1984 e que, na época, Gorbachev a apresentava com “aspectos positivos e negativos” (ENGLISH, 2000, 159).

A principal vítima da revisão histórica não foi tanto Stalin quanto Brejnev. Apesar de ser o período em que os problemas se acumularam de uma forma perigosa, não deixou de ser também o momento em que os soviéticos desfrutaram do melhor padrão de vida em toda sua história, uma certa liberdade com a revolução silenciosa na sociedade (LEWIN, 1988, 19) e, se foi uma era de estagnação, também foi uma era sem sobressaltos. Gorbachev precisava apresentar essa fase de tranquilidade imediatamente anterior ao seu mandato como uma era de catástrofe. Era a única forma de obter alguma legitimação diante da falência em que o país se viu durante seu governo. Os problemas da URSS passaram a ser cada vez mais remetidos para o passado, bem como cada vez mais retrocedia o que se esperava ser o modelo para a nação (DIAS, 1996, 230). Em 1985 falava em crise nos últimos anos, “no limiar dos anos 70 e 80”. Em 1986 já a estendeu a toda a era Brejnev. O modelo, portanto, deveria ser a fase prévia de rápido crescimento econômico. Em 1987 apontava que o modo pelo qual o país foi industrializado apresentava distorções sérias, tanto quanto a eficiência como ao propósito do verdadeiro socialismo. O modelo agora era a NEP e o retorno da iniciativa privada dos anos 20 (GORBACHEV, 26, 1988). A busca na história por caminhos não trilhados acabou fugindo ao seu controle também (DIAS, 1996, 250). A nova opinião pública guiada pela intelligentsia, desejosa de um líder forte que conduzisse o país com mão de ferro ao capitalismo, passou a ter como modelo a Rússia da Duma. Acreditava-se que o liberalismo político e econômico teve o caminho desviado por um revolução que não era inevitável, como apontava a historiografia tradicional e o marxismo ortodoxo, pelo contrário, mas um golpe fortuito. Essa não era a opinião de Gorbachev em 1987, mas não era tão diferente em 1991 durante o debate televisionado com Yeltsin. O combate as correntes historiográficas oficiais também era o combate pelo poder político naquele momento. Dizer que a revolução não era inevitável e não era um estágio histórico estabelecia um passo ideológico do projeto de remoção do sistema socialista e de sua imagem de futuro da humanidade. A revisão chegou mesmo aos seus dias, ao apontar que a culpa dos movimentos separatistas não era de Gorbachev, mas dos governos anteriores e seus desmandos nas repúblicas – mesmo não existindo movimento separatista nessa época (YAKOVLEV, 1991, 72).

O poder sobre a escrita e reescrita da história não era desconhecido por Gorbachev, pelo contrário. Ele apenas mudou de sentido: em 1985 ainda apontava que “falsificadores se esforçam por reescrever a história” ao criar o mito da ameaça soviética e da propaganda anticomunista no ocidente (GORBACHEV, 1985, 84). Depois passou a concordar com os mesmos, como da irresponsabilidade do apoio prestado a tiranos do Terceiro Mundo e da imagem negativa formada por Brejnev no Ocidente (GORBACHEV, 1986, apud MLYNAR, 1987, 146).

Glasnost, as ciências sociais e os meios de comunicação.

Segundo Gorbachev, “precisamos da glasnost como precisamos de ar” (GORBACHEV, 1988, 86). E sua ferramenta essencial para renovar esse ar eram os jornais, cinema, teatro, rádio e TV. Tão necessária que apontou gente de seu círculo para a direção dos principais jornais do país, como Bikkenin para a revista Kommunist, Frolov para o Pravda, Korotich para o Ogonek e Yegor Yakovlev para o Moscow News (BROWN, 1996, 162). A mídia deveria ser apoiada em suas críticas e sugestões pelo Partido e as artes deveriam refletir as realizações e os “problemas do partido e do povo” (GORBACHEV, 1985, 40-41). Os meios de comunicação eram “porta-voz do ponto de vista do Partido”. Mas contraditoriamente celebra a maior diversificação da programação, “a superação de clichês” e faz uma crítica contundente à mídia que não seguia a glasnost e não apoiava a perestroika (GORBACHEV, 1986a, 123-128). A glasnost apareceu apenas como uma maior abertura e relaxamento para a expressão da sociedade nas ruas e nos meios de comunicação.

O ponto de inflexão da glasnost como ela passou a ser definida a partir de 1987 foi o acidente de Chernobyl. A opinião pública soviética ficou aturdida e entrou em pânico ao saber do acidente, das medidas governamentais tardias, da pouca informação e dos boatos que se seguiram. A mídia e os governos do Ocidente puseram em xeque a seriedade das reformas de Gorbachev e a política de confiança mútua. Pressão externa e refluxo do apoio interno (e a necessidade de por a culpa sobre o burocratismo e o secretismo dos escalões intermediários) levaram Gorbachev a repensar a profundidade da glasnost. Para ele, a denúncia através da mídia seria a forma de conter o “desleixo criminoso” de gerentes e burocratas, da qual Chernobyl era apenas um prelúdio. A glasnost permitiria “mobilizar e organizar a sociedade civil” como forma de pressão sobre as autoridades – desde que o caminho fosse o da perestroika, e mesmo controlar o povo por meios não administrativos, como no “combate ao alcoolismo”. O povo e o partido ainda não se deram conta da real gravidade da situação do país e se perguntavam a razão de tanta rigidez por parte da cúpula. “só o profundo conhecimento do estado das coisas é que permite encontrar as vias corretas para o cumprimento das tarefas complexas” (GORBACHEV, 1987a, 59; 27-28), ou como Yakovlev expunha, a sociedade, apesar de “profundamente doente, não queria perceber sua doença e exteriormente parecia quase saudável” (BROWN, 1996, 90). O uso da mídia e a glasnost eram o meio de convencer a massas de que as reformas eram não só necessárias como também deveriam ser apoiadas ativamente. Assuntos considerados tabus ou inexistentes na URSS, como drogas, prostituição, criminalidade e AIDS, mesmo sendo problemas de pouca monta se comparados com a mesma situação no Ocidente, passaram a estampar o noticiário dos jornais, como também a futura abertura de empresas como Pierre Cardin e Mcdonalds, ainda em 1986. O recado era claro: o socialismo real exibia os mesmos problemas do Ocidente decadente, além de outros que este não possuía, como as filas ou a qualidade dos produtos. Mas a crítica ao regime estaria incompleta sem a autoridade emanada de profissionais competentes.

Segundo o próprio Gorbachev em 1986 ele ainda estava formulando a radicalização da glasnost. O pedido para o meio acadêmico proporcionar ideias, discursos e projetos de acordo com as necessidades da reforma vêm desse ano. Era necessário “aproximar ideologia e a vida”, “as palavras e os fatos”, a aceleração teria várias tarefas interligadas, entre elas a “necessidade de sérias generalizações filosóficas, prognósticos econômicos e sociais fundamentados, pesquisas históricas profundas”. As ciências sociais estavam “num estado de certo afastamento das exigências da vida” e da pressão para que a burocracia seguisse a “realização das propostas racionais dos especialistas” (GORBACHEV, 1986a, 118). Em 1987 sua crítica se tornou bem mais ácida. As ciências sociais tinham parte da culpa do estado em que o país se encontrava. A observância ao dogmatismo político-ideológico e a “escolástica” a impediu de apontar e demonstrar os problemas sociais prementes. “Formas econômicas eficazes” eram repelidas pelos tradicionais métodos retrógrados da economia de comando com o apoio das pesquisas acadêmicas (GORBACHEV, 1987a, 31-32). Até aquele momento as ciências sociais eram parte importante da ocultação da realidade. Agora deveriam formar parte do coro pelas reformas.

Se em 1986 ele louvava a contribuição literária de seu país, em 1987 ele clamava para que uma nova onda de produção artística, condizente com a importância e qualidade desse legado histórico, retratasse os tempos atuais, levantando seus problemas, fazendo a crítica e propondo soluções, se opondo ao avanço dos estereótipos de culturas exógenas na sociedade, como a cultura de massas. Ou seja, que promovesse o combate à oposição conservadora, pintasse o período da estagnação como o pior dos mundos e a perestroika como a única salvação possível. Entretanto o ambiente literário não seguiu suas expectativas, pelo contrário. Não pensou que “seus membros começassem a usar a abertura, a franqueza e o democratismo para acertar velhas contas e tomar a vingança pela crítica” (GORBACHEV, 1988, 92). Não surgiram grandes obras na Era Gorbachev. Os principais êxitos ficaram com livros que retratavam a Era de Stalin ou que foram arquivados pela censura por décadas. A revolução que o líder almejava acabou ficando a cargo dos historiadores (KAGARLITSKY, 1993, 153), como Afanassiev ou Volkogonov, até o momento em que julgaram melhor trocar a facção de Gorbachev pela de Yeltsin. Mas também tiveram um papel importante historiadores dissidentes – Gamsakurdia tornado presidente da Geórgia ou Zhelyu Zelev, sucessor de Jikov na Bulgária, ou os irmãos Medvedev, antes descontentes com o regime e depois contrariados com o desmonte deste.

A campanha pela verdade.

Para Gorbachev, a reforma só caminharia se as massas percebessem as “mudanças palpáveis que darão corpo à agitação e às palavras de ordem da reforma, que não exista o fosso entre a chamada “pela delicadeza” para [em seguida] se deparar com a grosseria nas instituições, nas ruas, nas lojas”. O abismo entre ideologia e realidade seria pior do que se poderia imaginar, pois teria sérias consequências futuras para a mentalidade coletiva. Os “erros do pensamento” teriam implicações trágicas: “não é possível mudar o estilo de vida de repente, e é mais difícil ainda superar a inércia do pensamento” (GORBACHEV, 1986a, 119-121).

A intelligentsia abraçou a “campanha pela verdade” e testou os limites que Gorbachev estava disposto a conceder e a impulsionar. A cada novo teste novas concessões eram feitas, ou não se passava além do julgamento pelas palavras, mantendo sua promessa de não intervenção partidária. No fim de 1987 já se queixava que “a imprensa deve unir e mobilizar as pessoas, em vez de desuni-las e criar insatisfação e falta de confiança” (GORBACHEV, 1988, 87). O resultado a partir de 1988 foi uma iconoclastia que derrubava a estabilidade da reforma e do sistema (FELIU, 2003, 71). Mesmo o símbolo do momento da reforma revolucionária de Gorbachev, Lenin, não deixou de ser atacado nos mesmos pontos que o secretário-geral havia realçado – as liberdades politicas e econômicas, como em uma peça de teatro em 1988. Questionado sobre o que se deveria fazer a respeito, limitou-se a pregar uma campanha publicitária que demonstrasse a verdade sobre Lenin (VOLKOGONOV, 2008, 398). Em 1990 a mídia lançou um anátema contra a possibilidade de um golpe reacionário e a necessidade de um governo forte, ao contrário de Gorbachev (KAGARLITSKY, 1993, 105). Causou repercussão a encenação de um golpe comandado por Gorbachev, transmitido como notícia ao vivo. A nova opinião pública guiada pela intelligentsia apoiava-se no poder da mídia em uma sociedade como a da URSS, em que amplas camadas da população, ao contrário do anedotário, acreditavam, ao menos parcialmente, em jornais como o Pravda ou o Izvestia. Esse controle permitiu a criação, depois da queda do muro de Berlim, do que Medvedev chamou de “ilusão coletiva sobre o mercado”. A reação dos conservadores à glasnost veio em 1988, com a publicação da crítica de Nina Andreeva ao processo de reformas e ao desmantelamento do sistema ideológico e da história do regime. Gorbachev o chamou de “manifesto anti-perestroika” (BROWN, 1996, 172). O apoio de Ligachev ao caso Andreeva fez com que fosse rotulado pela mídia adepta da glasnost como um golpista com intenções de retrocesso, o que foi de serventia para Gorbachev o excluir do Politburo.

A crise da glasnost.

Ocorreu uma “crise teológica” da ideologia na URSS, a perda de sua “alma”. O sistema ficou “privado dessa “força passional” sem a qual o corpo não sabe justificar suas funções físicas”:

“La ideología soviética, el “istmat” (abreviación de materialismo histórico), era objeto de fe, como cualquier otra religión. Eso significaba que, como religión, sus dogmas e presupuestos no sólo no estaban abiertos a la comprobación y a la crítica, sino que se les protegía de ambas. El problema era que, el “istmat” no era únicamente religión. También era una teoría para el desarrollo social referida a hechos y sometida a pronósticos verificables. Como dice el profesor Furman, “a diferencia del cristianismo o del islam, el “istmat” no podía proclamar su independencia de la experiencia”, pero al igual que cualquier otra religión debía protegerse de la verificación empírica. Ambos vectores, el religioso y el científico, colisionaban en esta especie de “religión laica”. Los aspectos científicos del “istmat” estaban llamados  reventar los aspectos religiosos. Por eso, como religión, el “istmat” fue tan efémero, comparado con el cristianismo, el islam u otras religiones que crearon civilizaciones” (FELIU, 2002, 4).

Nesse sentido, as ideias de Gorbachev podem ser compreendidas como a tentativa de fundação de uma nova ideologia, que considerava mais adequada aos tempos atuais, às necessidades individuais, à aproximação com a Europa Ocidental e a sua incorporação pela sociedade através apenas de propaganda. Mas no início de 1987 ainda afirmava que “a prioridade [...] é a promoção da democracia na produção [...], autogestão nos coletivos de talhadores”. Sua preocupação era com a supressão “a quem faz críticas e sugestões” no ambiente de trabalho (GORBACHEV, 1987a, 60; 91). Uma visão estreitamente instrumental e econômica da glasnost.

Ao fim de 1987 Gorbachev definia os objetivos da glasnost como “mais abertura nas questões públicas em todas as esferas da vida. As pessoas deveriam saber o que é bom e o que é ruim, a fim de disseminar o bem e combater o mal”. Ela estava intimamente ligada a um novo pensamento individual e coletivo, à releitura da história, à atuação cívica na participação e acompanhamento político: “um atmosfera moral, normal e mais favorável da sociedade, que faz com que as pessoas compreendam melhor o que nos aconteceu, o que está ocorrendo agora e aquilo pelo qual estamos lutando” como forma de trazê-las para o campo da reforma (GORBACHEV, 1988, 83). O drama da glasnost foi que a ineficiência e rigidez que o regime havia adquirido barraram de tal forma sua modernização que este entrou em colapso econômico, ao mesmo tempo em que a abertura possibilitou a criação, organização e disseminação de programas alternativos (ou radicais quanto ao tempo de transição) e eleições permitiram que lideranças anticomunistas chegassem ao poder, como uma reação diante da crise. “A glasnost a fim de forçar a perestroika: deveria ter sido o contrário” (HOBSBAWM, 2007, 310).  A influência de uma nova mídia sem censura e defensora entusiasta da aceleração das reformas foi fundamental – e um pesadelo para as diretrizes do ex-chefe da KGB, Yuri Andropov, que havia recomendado a censura como um dos pilares ideológico e político de sustentação do regime.

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[1] Tornou-se famosa a passagem de Kruschev por uma exposição de arte em Moscou. Após percorrer a galeria destinada ao realismo socialista, se deparou com a seção de escultura e arte moderna. “Até um jumento pode pintar melhor que isso!”, “como podem fazer uma pintura tão ruim do rosto humano?”, perguntas respondidas pelos seus assessores sugerindo a periculosidade da dissidência artística: “essas pinturas são rostos de trabalhadores. Eles são elitistas, não gostam do povo”.

[2] O principal medo era o da eclosão de greves e distúrbios como os de 1980-81, a série de revoltas nos anos 70 (1970, 1976, 1979) e os boicotes eleitorais a partir de 1987.

[3] Como o relatório de Nikolai Fedorenko, diretor do Instituto Econômico-Matemático da Academia de Ciências, de maio de 1975.

[4] “A penetração de estereótipos de cultura de massa estranha à nossa gerou vulgaridade e mau gosto, aumentando a aridez ideológica” (GORBACHEV, 1988, 21) – ao mesmo tempo em que abria associações estatais de rock para a juventude.