Sobre o autor
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O Brasil vive hoje um impasse
que atinge fundo sua estrutura de funcionamento. No campo econômico, de que
maneira é possível desenvolver as atividades produtivas se há carências na
infraestrutura para tal? Paradoxalmente, como reforçar essa infraestrutura se não
há desenvolvimento das atividades produtivas? Nos
campos social e ambiental, o problema não é só brasileiro, mas continua de
maneira semelhante. Uma sociedade miserável (material e intelectualmente)
consegue proteger o meio ambiente (natural ou cultural) das táticas de sobrevivência
e exploração predatórias? O meio ambiente está a salvo numa sociedade rica
que demanda cada vez mais insumos para faze-la funcionar e expandir-se? Chegando
às instâncias governamentais, evidenciam-se os eternos debates sem solução
simples: controle centralizado ou descentralizado? Controle estatal ou controle
de mercado?
Esses
paradigmas atingem todas as instâncias da nossa vida, mas nosso objetivo é
centrar o foco nos conflitos existentes na relação entre empreendedorismo,
profissionais da área ambiental e cultural e autarquias públicas.
Apesar
desses conflitos volta-e-meia resultarem em escaramuças e confrontos, existe a
possibilidade de diálogo entre os vários agentes envolvidos nesse processo e
uma solução conciliatória é viável. Mas para isso é preciso haver
planejamento, troca de informações entre as partes, levantamento dos
problemas, tomada de decisões e estabelecimento de ações preventivas
conjuntas, fazendo com que, num futuro muito próximo, os empreendimentos, ainda
em suas fases de concepção, estejam em sintonia com as peculiaridades
ambientais locais. A palavra de ordem, neste e noutros casos é: prevenção.
Ultimamente
tem-se dito que o desenvolvimento econômico é brecado pelo, entre outras
coisas, custo ambiental dos empreendimentos. Só para citar o exemplo mais
recente, esse foi o tema da reportagem apresentada no dia 04 de janeiro de 2005
no Jornal da Band, quando foi dito pelo seu Âncora que a burocracia,
principalmente a ambiental, tem dificultado a realização das obras de melhoria
e ampliação do porto de Santos. Embora esse discurso seja parcial, porque foi
o apelo midiático unilateral da corrente emprego/ expansão infraestrutural/
entrave ambiental que deu o mote à reportagem, ele dá voz à realidade de
mercado e, de alguma forma, os profissionais envolvidos com o meio ambiente,
seja ele natural, ou cultural, têm que dar uma resposta à altura. O primeiro
ponto que demanda a resposta é que esses profissionais efetivamente fazem parte
do mercado; o segundo envolve a finalidade do trabalho desses profissionais que,
indefectivelmente deve gerar um retorno social (meio ambiente digno para seres
vivos, dentre eles, os humanos). Ora, para haver o retorno, tem que haver uma
demanda, ou seja, a necessidade das pesquisas nas áreas que serão afetadas
(bens materiais ou imateriais) tem que ser percebida pelo mercado através dos
anseios da sociedade. Por um lado, a sociedade já está suficientemente
convencida da precariedade da infraestrutura do país e faz sistematicamente
demandas aos governos, estimulando os empreendedores, os quais se arvoram nessas
manifestações para pressionar a tudo e todos. Mas será que a sociedade é de
antemão consciente da necessidade de proteção e incremento de sua herança
ambiental e cultural? A produção acadêmica é sempre condenada por seu
isolamento nos campi, mas será que a produção do meio empresarial ambiental e
cultural, tida como aplicável à realidade, chega até o público comum? É difícil
que isso esteja acontecendo... Essa valoração social do meio ambiente tem que
surgir, sempre, antes dos problemas se concretizarem, antes dos bebês-foca
serem escalpelados, dos golfinhos enlatados e dos budas dinamitados, porque
depois será possível apenas mitigar os danos, gerando uma nítida perda de
confiabilidade das instituições e pessoas envolvidas.
Tratando
especificamente da área de arqueologia empresarial, houve um grande
desenvolvimento técnico na capacidade da predição da ocorrência de vestígios
materiais do passado no subsolo, especialmente com o uso de ferramentas geofísicas.
Entretanto, os problemas teóricos continuam sendo tratados como “coisas de
gabinete” e a metodologia funciona como uma mera “ponte” entre a teoria e
a técnica. Ou seja: os trabalhos de arqueologia voltados para o mercado,
algumas vezes possuem muitas mãos fortes e hábeis na abertura de sondagens,
mas um corpo e uma mente fracos para produzir conhecimento através dos restos
exumados. Esse quadro é, em parte, reflexo geral do desenvolvimento da
arqueologia no país. Não podemos taxar a arqueologia empresarial de
superficial, haja vista que em termos acadêmicos, embora seja notada uma maior
variedade dos temas das pesquisas, seguindo uma lógica que muitas vezes não
tem nada de mercadológica, os resultados padecem da mesma polarização que
ocorre na arqueologia comercial: campo e gabinete quase nunca discutem, mas
sempre brigam.
A
partir desse extraordinário desenvolvimento técnico faz-se necessário
estabelecer uma metodologia de intervenção arqueológica, preventiva e sistemática,
que seja tratada como uma política pública, gerando mapas probabilísticos
culturais.
Isso
é possível e absolutamente necessário principalmente em centros urbanos de médio
e grande porte, onde a quantidade de pessoas estabelecidas em pequenas e
valorizadas áreas demanda pesquisas diretas (tipificadas pelas escavações)
muito rápidas. Dessa forma, a união das plantas cadastrais dos terrenos e
edificações, com mecanismos de Valoração Cultural do Subsolo Urbano – que
vão desde o simples levantamento de entes urbanos culturalmente relevantes, até
a elaboração de plantas resultantes do cruzamento de cartografia histórica,
com dados aerofotogramétricos e documentos primários sobre a ocupação do
território – podem fornecer dados preciosos para os empreendedores planejarem
suas obras e os arqueólogos e demais profissionais da área de licenciamento
ambiental planejarem suas intervenções antecipadamente. Da mesma forma, o
papel das instituições e autarquias governamentais nesse processo envolve
estabelecer Planos Diretores que protejam áreas sensíveis previamente
determinadas, mas que não paralisem a sociedade e a economia com mecanismos de
controle desnecessários em áreas – novamente – previamente estabelecidas.
Dentro
desse quadro da arqueologia consciente dos problemas apresentados pela realidade
contemporânea, a proposta do Centro de Estudos de Arqueologia Náutica e Subaquática
do Núcleo de Estudos Estratégicos (CEANS/ NEE) da UNICAMP é inovadora, pois
desenvolve Plantas de Valoração Cultural do Subsolo Urbano de outros
compartimentos ambientais normalmente não contemplados pelas pesquisas
tradicionais: as áreas submersas contíguas às cidades, tenham elas vocação
portuária ou não.
Essas
Plantas de Valoração Cultural do Subsolo Urbano Submerso têm suas origens no
Programa Carta Arqueológica dos Bens Culturais Submersos, implantado no Brasil
ainda na década de 1990 dentro do Programa Arqueológico do Baixo Vale do
Ribeira do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP. Hoje, tanto o CEANS
quanto o MAE desenvolvem versões regionais da Carta Arqueológica.
Além
dessa origem acadêmica, as Plantas se enquadram no contexto da portaria do Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) nº. 230/
2002, como um Pré-Diagnóstico Arqueológico, funcionando como uma ferramenta
de Gestão Cultural voltada ao meio Empresarial (Empreendedores e profissionais
do Licenciamento Ambiental) para as localidades situadas à beira de cursos d’água
ou à beira mar.
Empreendimentos
tais como estruturas portuárias, tubulações submersas ou obras de dragagem, só
para citar alguns exemplos, dependem de Licenciamento Ambiental tal como
qualquer outro empreendimento situado em terreno totalmente seco. Entretanto,
apesar da portaria 230/ 2002 exigir pesquisas em todos os compartimentos
ambientais afetados pelas obras, não fazendo distinção entre emersos e
submersos, ainda não há a percepção dos meios Empresarial e Governamental da
necessidade colocada pela lei, tornando a maior parte dos licenciamentos das
obras da interface terra/ água, parciais e incompletos, passíveis de serem
questionados pelos órgãos competentes.
Grande
parte dessa exclusão da arqueologia subaquática nos trabalhos de Licenciamento
Ambiental se deve ao fato da arqueologia subaquática ser confundida
sistematicamente com o resgate de bens soçobrados ou com a caça ao tesouro. Em
verdade, a arqueologia subaquática é apenas a versão úmida da arqueologia.
Tendo
em vista esse outro problema, dentro da proposta do CEANS existe a necessidade
de se divulgar, perante a sociedade, o que a arqueologia subaquática realmente
é: arqueologia.
Uma
das formas mais democráticas e de maior capacidade de difusão da mensagem é a
internet. Por isso, no site www.arqueologiasubaquatica.org.br
pode ser encontrado, além de diversas informações gerais e textos, o Livro
Amarelo, uma cartilha que explica o que é arqueologia subaquática, quais são
as propostas do CEANS e o que cada um pode fazer para proteger o patrimônio
cultural subaquático.
Finalizando,
as Plantas de Valoração Cultural do Subsolo Urbano Submerso têm,
antecipadamente, um caráter mitigatório, pois dão a devida importância ao
potencial cultural do meio ambiente urbano submerso, diminuindo também o
impacto social da obra. Ou seja: o fato da obra já contemplar modelos probabilísticos
da existência de bens culturais submersos, vestígios de nossa e de outras
culturas até o momento desconhecidos, mal-interpretados, desvalorizados e
relegados aos aventureiros, poderá ser legalmente interpretado como uma
demonstração da responsabilidade social do empreendedor, o qual equivaleu bem
público, produção do conhecimento e responsabilidade ambiental. Tal seqüência
não é apenas eticamente íntegra: ela pode vir a diminuir os custos
financeiros duma eventual mitigação, seguindo a mesma lógica que consolidou a
OSCIP como uma versão depurada da ONG.
É
claro que, dentro dessa cadeia de eventos é imprescindível a atuação do
governo, não só como fiscal ou como regulador das ações em prol da sociedade
(de quem ele é representante, é sempre bom lembrar), mas também como parceiro
para empreitadas preventivas, que nem sempre são bem vistas pelos
empreendedores, por terem que ser levadas a cabo antes mesmo que uma área seja
aventada para compra. O papel das instituições governamentais no processo tem
que ser o catalisador para o desenvolvimento dessas Plantas e, eventualmente,
teria ele que entrar com a maior parte dos recursos para os trabalhos de
levantamento prévios, pois, ainda com estas Plantas, não ficam desobrigados os
empreendedores de realizar os licenciamentos tradicionais e de ter custos
financeiros com eles, embora definitivamente menores.