ISSN 1807-1783                atualizado em 27 de março de 2012   


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O Humor e Representação de Hagar, O Horrível no Jornal Folha de São Paulo (1973-1974) (Parte 2)

por Fabio Antonio Costa

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Até esse ponto foi discutido sobre a questão interna, ou seja, tentou-se fechar no que compreende o quadrinho e o universo que ele incorpora. Pensando-se, por exemplo, em um ponto-de-vista mais amplo pode-se pensar no papel que os "syndicates" propiciaram aos quadrinhos.

O King Features talvez seja o maior "syndicate" dos Estados Unidos (e também do mundo), foi criado em 1914 e antes se chamava Hearts International Feature Service.[31] Esse e outros Syndicates foram responsáveis pela normatização, padronização, direitos e distribuição das tiras nos Estados Unidos e em grande parte do mundo, possuindo um papel de destaque nas primeiras décadas do século 20 no mundo dos quadrinhos.[32] Não existe um similar no Brasil relativo ao syndicate dos Estados Unidos, e sua forma em muito pouco lembra os sindicatos brasileiros. Os syndicates além de deterem os direitos sobre as tiras em quadrinhos e a distribuição tanto internamente como para outros países, ainda são responsáveis por um código de ética:

[...] as histórias não devem ofender nenhum leitor; não devem conter palavrões explícitos, que poderão ser substituídos por sinais convencionais; não devem conter sugestões de imoralidade; devem evitar controvérsias quanto à religião, raça ou política; devem evitar cenas de violência com mulheres, crianças e animais; não devem incentivar o crime, que será sempre punido.[33]

Uma forma alternativa para os "syndicates" pode ser agência, como na ideia de uma empresa distribuidora, que atualmente atua em mais frentes, como aspectos mercadológicos e proteção dos direitos autorais.[34] No Jornal Folha da Manhã (que futuramente iria compor o grupo jornalístico do Jornal Folha de São Paulo) na década de 1930 estão impressos algumas das primeiras tiras do King Features no Brasil, comprovando ser de longa data a associação entre esses dois grupos.

O King Features em 1985 deixou um relato com significativas ideias sobre Dik e seu quadrinho Hagar

Era uma vez, num bagunçado estúdio na lavanderia de uma casa modesta no tranqüilo subúrbio de Wilton, Connecticut [Estados Unidos], um cartunista batalhador e decidido que olhava fixamente para uma folha de papel em branco. Ele havia começado a sofrer de distúrbios oculares  um problema que compreensivelmente seria da maior preocupação para um cartunista. Outros problemas médicos surgiram no horizonte. Ele tinha uma família para sustentar e estava preocupado com a sua segurança econômica. Era hora de armazenar castanhas para o longe e frio inverno. Ganhava bem, mas não estava preparado para um desastre médico nem para uma aposentadoria precoce. Tinha 56 anos e a única coisa que havia feito com sucesso eram cartuns. Então decidiu mergulhar de cabeça no áspero e inculto mundo das agências [leia-se syndicates] de historias em quadrinhos e criar o seu próprio personagem. Foi um desafio de proporções heróicas. [...].

O cartunista levou a sua idéia [Hagar] para a maior agência de imprensa do mundo, King Features, rezando para que eles a comprassem. Depois da enrolação habitual, eles decidiram lançar "Hagar o Horrível", esperando que conseguissem vendê-lo. Mais de duzentos editores contrataram o novo quadrinho antes de sua estréia, esperando que seus leitores se divertissem com ele. Os leitores reagiram entusiascamente, e a tira disparou para o sucesso. "Hagar o Horrível" ganhou a reputação de ser a obra de crescimento mais rápido da história dos quadrinhos e rendeu uma fortuna ao seu criador. [...]. Ele ganhou o suficiente para pagar as contas do médico e para proporcionar a mulher e aos filhos o que sempre desejou. A família se mudou para um lugar mais confortável na Flórida e desde então vivem muito felizes. [...]. Quem teve o privilegio de conhecer Dik Browne concordaria que ele conseguiu apenas aquilo que merece.[35]

O texto acima de autoria da King Features oferece muitas informações significativas; como ao fato de Hagar ter sido o trabalho de destaque, lembrando-se que Hi e Lois foi uma associação de Dik com Mort Walker, além de não ter o mesmo sucesso que algum tempo depois Hagar alcançou. Pelo que foi estudado anteriormente, Dik Browne era um ilustrador profissional e como é indicado pelo texto, um "cartunista batalhador" que começava a apresentar problemas de saúde, algo que pode ser vinculado a ideia de sua intensiva atividade produtora. Hagar então foi o seu primeiro sucesso individual por um grande syndicate e que lhe trouxe um retorno financeiro bem maior que nos outros empregos anteriores, Dik e família mudaram da gelada Nova Iorque para a agradável Flórida. Devem-se separar alguns valores que o texto tenta trazer, como a exaltação a própria agência "ter salvado" Dik de um mal maior e de um espírito destemido por parte de Dik Browne, mas contrário a isso, observam-se dados que a muito podem acrescentar a essa pesquisa. Outro ponto importante é sobre a informação que o "syndicate" era quem comprava o quadrinho e teoricamente, oferecia esse e outros produtos aos diretores de jornais, conforme o sucesso ia aparecendo, partes dos lucros eram repassadas aos autores, pensando-se sucesso com o número de jornais que fechariam contrato aos quadrinhos. É importante ressaltar que Dik Browne era fã declarado de Robert Crumb e de sua arte crítica.

Outra possibilidade que se possa imaginar é que o quadrinho de Hagar pode ter uma dimensão contestadora[36], ou seja, nele podem-se imaginar formas de poder que não sejam os convencionais, como os governos ou lideranças burocratizadas. Pode-se ponderar que Hagar, assim como acontece com outros personagens, de tiras, história em quadrinhos ou charges (ou senão em seriados ou filmes) retratam de certo modo a nossa sociedade e por isso nos espelhamos neles.[37]

Em suma, cabe ressaltar que as tiras de Hagar originalmente publicadas nos Estados Unidos, mas também apresentadas ao público de outros países, como o Brasil, não só espelham situações de seu espaço de criação, refletindo também em eventos dito mundiais, de longo alcance, ganhando em maiores significados que preso a um universo mais limitado. Nesse breve artigo abriu-se um canal de estudo referente à Dik Browne e sua tira de maior sucesso. Deve-se destacar que a teia de informações espelham como era complexa essa obra de Dik e como através dela pode-se conhecer uma época de intensas transformações, em que sua arte absorveu tais eventos, considerando a personalidade de Dik Browne como um artista que produziu seu Hagar pensando-se na representação de algo mais que a sociedade estadunidense da década de 1960 ou 1970 ou a representação de um viking, e sim num personagem que em seu seio pode ser caracterizado como singular, questionador e confuso, pensando-se no afunilamento que grandes instituições, como os "syndicates", as cadeias jornalísticas e determinados estratos da sociedade, além dos governos (como a rigidez do regime militar brasileiro) impunham aos quadrinhistas, caracterizando a arte que essa "limitação" daria outra configuração, em uma configuração de maior criatividade frente a uma maior limitação.

FONTES

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[31] CYRNE, Moacir. A explosão criativa dos quadrinhos. São Paulo: Vozes. 1970. p. 48. Atualmente as tiras de Hagar, inclusive as mais atuais podem ser conferidas no site oficial da King Features: www.kingfeatures.com

[32] SILVA, José Ricardo Carvalho da. A leitura do gênero tira de humor em uma perspectiva enunciativa. Tese de Doutorado. Universidade Federal Fluminense. 2007.

[33] FURLAN, Cleide. HQ e os "syndicates" norte-americanos. In: LUYTEN, Sonia Bibe (org). História em quadrinhos: leitura crítica. São Paulo: Edições Paulinas. 1984. p. 27.

[34] MARQUES, Edmilson. Super-heróis: ficção e realidade. In: Nildo; REBLIN, Iuri Andréas (orgs.). Super-heróis, cultura e sociedade: aproximações multidisciplinares sobre o mundo dos quadrinhos. São Paulo: Idéias & Letras. 2011. p. 99.

[35] BROWNE, Dik. O melhor de Hagar o Horrível. Nº 3. Porto Alegre: L&PM. 2010. p. 7, 8 e 9.

[36] MARQUES, Edmilson. Super-heróis: ficção e realidade. In: Nildo; REBLIN, Iuri Andréas (orgs.). Super-heróis, cultura e sociedade: aproximações multidisciplinares sobre o mundo dos quadrinhos. São Paulo: Idéias & Letras. 2011. p. 106.

[37] REBLIN, Iuri Andréas. Os super-heróis e a jornada humana: uma incursão pela cultura e pela religião. In: VIANA, Nildo; REBLIN, Iuri Andréas (orgs.). Super-heróis, cultura e sociedade: aproximações multidisciplinares sobre o mundo dos quadrinhos. São Paulo: Idéias & Letras. 2011. p. 56.