Caçadores de tesouros
A
respeito
do autor
Texas A&M University
A arqueologia é a disciplina
que estuda os vestígios de actividades humanas passadas.
Há milhares de arqueólogos no mundo, com interesses diversos e condições
de trabalho variadas. Nos últimos cem
anos os eruditos e curiosos que escavavam amadoristicamente nas traseiras das
suas propriedades transformaram-se em profissionais especializados, que estudam
aspectos cada vez mais particulares de uma determinada cultura, e que usam
tecnologias cada vez mais sofisticadas para atingir estes objectivos.
Em países como os Estados Unidos da América os arqueólogos vêem como uma
obrigação básica divulgar as suas descobertas em revistas científicas
e encontros profissionais, mas também em revistas de grande tiragem, em
reportagens televisivas e agora também a um público especifico, que é
considerado cada vez mais importante pelo governo: os alunos do ensino secundário,
de onde sairá a próxima geração de cientistas. A popularidade da arqueologia continua a crescer no mundo, e toda
a gente percebe a importância do estudo do patrimônio cultural, quer do ponto
de vista social, quer do ponto de vista lúdico, do prazer puro de investigar
uma das últimas e mais formidáveis fronteiras do conhecimento: o passado.
Os arqueólogos têm assim cada
vez menos problemas com os seus inimigos tradicionais: promotores imobiliários,
empreiteiros, políticos e minorias étnicas. É bem verdade que todos os ramos e especializações da arqueologia têm
de competir contra a erosão, as cheias, os deslizes de terras, os caçadores de
potes, os colecionadores de antiguidades e em alguns casos também alguns
grupos de arqueólogos amadores. Mas
existe um pequeno grupo de arqueólogos que tem de lidar com um flagelo muito
pior: os caçadores de tesouros. Quem estuda os navios do período dos Descobrimentos tem que viver
sempre com a suspeita, quase sempre idiota, de que o sítio arqueológico que
pretende escavar alberga “um tesouro.”
Os arqueólogos que estudam navios romanos, gregos, ou vikings, ou os que
trabalham em países desenvolvidos, onde a caça
aos tesouros é
ilegal, têm a vida facilitadíssima e não dão geralmente valor às
penas que os seus colegas de profissão passam.
A pilhagem industrializada de sítios arqueológicos por caçadores de
tesouros é uma actividade criminosa que
ainda sobrevive, quer em alguns países em vias de desenvolvimento, quer em águas
internacionais, apesar dos esforços da UNESCO e de um número crescente
de políticos, eruditos e cidadãos esclarecidos.
Vale a pena, portanto, dedicar-lhes alguns minutos, quanto mais não seja
por curiosidade antropológica.
Quando se começa a pensar neste verdadeiro flagelo as perguntas sucedem-se
em turbilhão. Quem são os caçadores
de tesouros? Qual é a diferença
entre caçadores de tesouros e ladrões de antiguidades?
De onde é que eles vêm?
O que é
que têm em comum? Como é
que operam? Quais são as suas crenças e os seus valores? Por que é que uma
actividade tão destrutiva não e proibida em todo o mundo? Por
que é
que os caçadores de tesouros não estão todos na prisão?
Por que é
que toda a gente concorda em proibir a caça
aos tesouros em sítios arqueológicos terrestres e não há consenso sobre a
protecção de sítios subaquáticos?
É sempre difícil definir grupos de pessoas, e é
sempre estúpido fazer generalizações, mas ao fim de 10 anos de convivência
com estas empresas atrevo-me a postular aqui que os caçadores de tesouros podem
ser divididos sem grande dificuldade em três grupos mais ou menos homogéneos.
O primeiro grupo é constituído
por profissionais silenciosos e eficazes, dos quais nunca ouvimos falar senão
quando uma leiloeira conhecida anuncia um leilão
com porcelanas, lingotes e jóias. Estas
situações não são freqüentes, até porque a maioria dos achados destes caçadores
de tesouros é vendida discretamente, sem aparato.
Estes caçadores de tesouros privilegiam o silêncio e nem sempre
trabalham legalmente. Quando os
navios pilhados se encontram em águas
territoriais, e há perigo de os governos locais actuarem e apreenderem as colecções
antes de elas serem dispersas por venda, é
comum destruírem os restos arqueológicos depois de pilhados.
Um conhecido caçador de tesouros inglês ficou célebre por ter
dinamitado os restos de um navio holandês do século XVIII depois de ter
recuperado a sua carga de porcelana chinesa.
O segundo grupo é o mais
abundante e mais visível, e é constituído por pequenas empresas, tipicamente com um barco de pequenas
dimensões e duas ou três pessoas, que aos fins de semana destroem restos de
navios há muito pilhados, e recuperam artefactos que custam mais dinheiro a
conservar do que se conseguiria obter por eles em leilão.
Por exemplo, há centenas de empresas destas na Flórida
e a sua importância económica é
relevante enquanto consumidoras de equipamentos de detecção – sondas e
detectores de metais, por exemplo – e de revistas e livros populares sobre o
assunto. São estes caçadores de
tesouros que periodicamente aparecem nas revistas de mergulho à procura dos
navios de Cristóvão Colombo com videntes e equipamentos obscuros, cheios de
esperanças de enriquecer, e sempre tristemente longe das rotas do conhecido
navegador. Falhando
sistematicamente nos seus propósitos de enriquecer com a caça
aos tesouros, esta actividade está
presentemente em franco declínio nos EUA, por pura exaustão.
A maioria destes caçadores de tesouros activos investiu pequenas
fortunas, há cerca de duas décadas, comprando direitos a explorar áreas
“potencialmente rentáveis” aos caçadores de tesouros da Flórida que lançaram esta actividade nos anos oitenta.
Como dizia Bertrand Russel, quanto mais louca é a crença mais fervorosos são
os seus seguidores, e apesar de nunca nenhuma destas empresas ter encontrado
outro tesouro, os detentores das licenças continuam a encorajar as empresas, a
quem venderam as concessões, garantindo-lhes a possibilidade de encontrar outro
tesouro como o do galeão Atocha, que
deu início a esta febre dos tesouros.
Mas hoje há na Flórida
menos da metade dos caçadores de tesouros que havia há vinte anos e é cada vez mais difícil encontrar investidores que acreditem que ainda haja
tesouros nas áreas concessionadas. E
o governo da Flórida não atribui mais concessões.
O terceiro grupo não é muito mais
sofisticado do que o segundo, mas actua a outro nível e goza do interesse da
imprensa e do público menos
esclarecido. É
este terceiro grupo que alberga as personalidades que eu considero os mais
perigosos, talvez porque os tenho encontrado no meu caminho com mais freqüência,
e talvez porque, como arqueólogo, sou especialmente sensível ao tom
superficial com que esta gente justifica o roubo puro e simples do património
dos países pobres e a destruição irreversível de um património que é da Humanidade. E sou
particularmente sensível à hipocrisia
dos sem-vergonha que tratam das relações públicas
destas empresas. Acho que os trabalhos sujos se deveriam fazer de maneira
suja. Não há roubo que não seja
violento, e o modo de operar destas empresas, em recepções com champanhe,
aristocratas, políticos e discursos sobre o património, é um exemplo de
hipocrisia insuportável.
A diferença entre caçadores de tesouros e ladrões
de antiguidades é
muito ténue. Os primeiros actuam
geralmente na legalidade e os segundos não. O maior contraste aparece-nos talvez entre o terceiro grupo dos caçadores
de tesouros, que é
majoritariamente constituído por “pessoas respeitáveis”, financeiros e
aristocratas, e os ladrões
de antiguidades que aparecem nos jornais. Estes
últimos são caracteristicamente camponeses esfomeados, do interior da
Guatemala ou das costas desérticas do Peru e os primeiros são pessoas bem
vestidas e bem falantes, rodeados de advogados e, ultimamente, também de arqueólogos
sem escrúpulos. Não se sabe muito bem de onde é que esta gente – os caçadores de tesouros – vem, de que buraco é
que saíram, nem como é
que se reproduzem. O certo é
que se conhecem em festas, um pouco por esse mundo a fora.
Geralmente definem-se como pessoas “divertidas” que “gostam de
aventuras” e “viagens a sítios exóticos.”
Nestas “aventuras” há freqüentemente uma estrela do rock, um
arquiduque, ou um ditador aposentado.
Se forem considerados juntos, é difícil dizer se existe alguma coisa em comum entre as pessoas que compõem
os três grupos de caçadores de tesouros. Contudo, se excluirmos os primeiros, que só trabalham com investigadores
de arquivos, engenheiros e antiquários extremamente competentes e de confiança
absoluta, os outros têm indubitavelmente em comum uma falta de cultura abominável.
Os caçadores de tesouros do segundo e terceiro grupos são ocasionalmente
inteligentes, mas geralmente rasteiros e incultos, crédulos e broncos.
O negócio deles não é encontrar
galeões com tesouros debaixo de água, mas investidores suficientemente ricos
ou suficientemente estúpidos para lhes pagarem as contas. Neste campo operam todos da mesma maneira. Desenterram dos arquivos uma história de um naufrágio qualquer de um navio com um tesouro, real ou imaginário.
Às vezes, inventam uma história
e metem-lhe elementos plausíveis, dependendo da respeitabilidade dos
investidores. O segundo passo consiste em
orçar os trabalhos e
convencer os políticos do local seleccionado sobre as potencialidades
extraordinárias dos tesouros afundados. Isto
se passa sempre em países pobres, porque a caca aos tesouros é
ilegal em todos os países desenvolvidos do mundo.
É freqüente lermos as estimativas dos tesouros perdidos “nos sete mares”
orçarem em trilhões de dólares, como se a caça
aos tesouros fosse uma actividade potencialmente rentável, e eu conheço um
caso em que se incluíam no rol dos tesouros a resgatar os “tapetes da Ásia”
carregados num certo navio perdido nas costas de Portugal no início do século
XVII. O outro argumento dos caçadores
de tesouros é que os tesouros resgatados por esta ou aquela empresa vão pagar
a dívida externa de um país,
pôr todas as crianças na escola, salvar o ambiente, etc.
O terceiro passo consiste em angariar fundos para pagar os “trabalhos”.
É
incrível como a imprensa é
sempre a melhor aliada destes projectos. Convoca-se
uma conferência
de imprensa, apresentam-se os jornalistas mais importantes ao arquiduque ou ao
ditador exilado e anuncia-se um ganho na ordem dos bilhões.
A experiência demonstra que a mesma pessoa pode anunciar a descoberta
dum tesouro no fundo mar, angariar três milhões de dólares, gasta-los em
casas e carros, ser investigada pela bolsa por fraude, fechar a empresa, abrir
uma ao lado, anunciar um segundo tesouro, angariar fundos, ser proibida de lhe
tocar pelo governo, anunciar um terceiro tesouro, e ser sempre tratada com a
mesma credibilidade pelos mesmos jornalistas ano após ano, projecto após
projecto.
É difícil generalizar sobre os valores desta gente.
Depois de falar com dezenas deles, acho que a maioria tem a cabeça fria,
quer enriquecer com o dinheiro dos investidores e está-se nas tintas para os
aborígenes e ao património. Os
investidores são diferentes: uns não fazem a mínima idéia do que se passa e
participam nestes projectos para viajar e confraternizar com aristocratas e
estrelas do rock, outros julgam que vão enriquecer e os outros acreditam
genuinamente que arqueologia é
encontrar artefactos, e que é
melhor para os países pobres ficar com “metade dos artefactos” do que “não
os gozar no fundo do mar”.
A caça aos tesouros não é
proibida em todo o mundo, mas é
proibida em todos os países desenvolvidos, e em muitos países em vias de
desenvolvimento. Como a destruição
do ambiente ou a exploração infantil, a caça aos tesouros
só faz sentido em países com necessidades económicas graves, sem opinião pública
nem transparência democrática, e só é
uma prática legal em sociedades que ainda não fizeram uma reflexão sobre o
assunto. Em face das barbaridades cometidas que vêm
a público, as pessoas perguntam freqüentemente por que é
que não há mais caçadores de tesouros na prisão.
A resposta é
simples: a caça
ao tesouro é
largamente um crime de colarinho branco, e a justiça não é igual para todos no nosso
planeta.
A última pergunta diz respeito a
incongruência das políticas do património. Mesmo em
países pobres e subdesenvolvidos a caça aos tesouros em sítios arqueológicos terrestres é
ilegal em praticamente todos os países do mundo.
Por que é
que não haverá então consenso sobre a protecção dos sítios arqueológicos
subaquáticos? A resposta é, mais uma vez, simples: mais de 130 países votaram uma convenção na UNESCO que torna a
caça
aos tesouros ilegal. Mas
historicamente a arqueologia em meio aquático é uma disciplina científica
recente – fundada em 1960 pelo Prof.
George Bass, na Turquia – e a caça aos tesouros é uma ramificação da indústria dos salvados.
A sociedade demora sempre a perceber a importância do passado em toda a
sua extensão.
A importância dos contextos arqueológicos subaquáticos começa
enfim a recolher um consenso geral à escala internacional.
Afinal de contas, muito antes de haver agricultores ou
cidades já havia barcos, e barcos são talvez os artefactos mais complexos que
o homem produziu desde, pelo menos, a colonização da Austrália – há mais
de quarenta mil anos – e continuaram a sê-lo, pelo menos até ao
Renascimento.