ISSN 1807-1783                atualizado em 26 de janeiro de 2005   


Editorial

Expediente

De Historiadores

Dos Alunos

Arqueologia

Perspectivas

Professores

Entrevistas

Reportagens

Artigos

Resenhas

Envio de Artigos

Eventos

Curtas


Nossos Links



Destaques
Fale Conosco
Cadastro
Newsletter


Caçadores de tesouros: proposta de uma taxonomia

por Filipe Castro


Caçadores de tesouros
Cortesia: www.melfisher.com
Caçadores de tesouros

 

 

 

 

 

 

 

A respeito do autor

Texas A&M University

 

            A arqueologia é a disciplina que estuda os vestígios de actividades humanas passadas. Há milhares de arqueólogos no mundo, com interesses diversos e condições de trabalho variadas. Nos últimos cem anos os eruditos e curiosos que escavavam amadoristicamente nas traseiras das suas propriedades transformaram-se em profissionais especializados, que estudam aspectos cada vez mais particulares de uma determinada cultura, e que usam tecnologias cada vez mais sofisticadas para atingir estes objectivos.

 

            Em países como os Estados Unidos da América os arqueólogos vêem como uma obrigação básica divulgar as suas descobertas em revistas científicas e encontros profissionais, mas também em revistas de grande tiragem, em reportagens televisivas e agora também a um público especifico, que é considerado cada vez mais importante pelo governo: os alunos do ensino secundário, de onde sairá a próxima geração de cientistas. A popularidade da arqueologia continua a crescer no mundo, e toda a gente percebe a importância do estudo do patrimônio cultural, quer do ponto de vista social, quer do ponto de vista lúdico, do prazer puro de investigar uma das últimas e mais formidáveis fronteiras do conhecimento: o passado.

 

            Os arqueólogos têm assim cada vez menos problemas com os seus inimigos tradicionais: promotores imobiliários, empreiteiros, políticos e minorias étnicas. É bem verdade que todos os ramos e especializações da arqueologia têm de competir contra a erosão, as cheias, os deslizes de terras, os caçadores de potes, os colecionadores de antiguidades e em alguns casos também alguns grupos de arqueólogos amadores. Mas existe um pequeno grupo de arqueólogos que tem de lidar com um flagelo muito pior: os caçadores de tesouros. Quem estuda os navios do período dos Descobrimentos tem que viver sempre com a suspeita, quase sempre idiota, de que o sítio arqueológico que pretende escavar alberga “um tesouro.” 

 

            Os arqueólogos que estudam navios romanos, gregos, ou vikings, ou os que trabalham em países desenvolvidos, onde a caça aos tesouros é ilegal, têm a vida facilitadíssima e não dão geralmente valor às penas que os seus colegas de profissão passam. A pilhagem industrializada de sítios arqueológicos por caçadores de tesouros é uma actividade criminosa que ainda sobrevive, quer em alguns países em vias de desenvolvimento, quer em águas internacionais, apesar dos esforços da UNESCO e de um número crescente de políticos, eruditos e cidadãos esclarecidos. Vale a pena, portanto, dedicar-lhes alguns minutos, quanto mais não seja por curiosidade antropológica.

 

            Quando se começa a pensar neste verdadeiro flagelo as perguntas sucedem-se em turbilhão. Quem são os caçadores de tesouros? Qual é a diferença entre caçadores de tesouros e ladrões de antiguidades? De onde é que eles vêm? O que é que têm em comum? Como é que operam? Quais são as suas crenças e os seus valores? Por que é que uma actividade tão destrutiva não e proibida em todo o mundo? Por que é que os caçadores de tesouros não estão todos na prisão? Por que é que toda a gente concorda em proibir a caça aos tesouros em sítios arqueológicos terrestres e não há consenso sobre a protecção de sítios subaquáticos?

 

            É sempre difícil definir grupos de pessoas, e é sempre estúpido fazer generalizações, mas ao fim de 10 anos de convivência com estas empresas atrevo-me a postular aqui que os caçadores de tesouros podem ser divididos sem grande dificuldade em três grupos mais ou menos homogéneos.

 

            O primeiro grupo é constituído por profissionais silenciosos e eficazes, dos quais nunca ouvimos falar senão quando uma leiloeira conhecida anuncia um leilão com porcelanas, lingotes e jóias. Estas situações não são freqüentes, até porque a maioria dos achados destes caçadores de tesouros é vendida discretamente, sem aparato. Estes caçadores de tesouros privilegiam o silêncio e nem sempre trabalham legalmente. Quando os navios pilhados se encontram em águas territoriais, e há perigo de os governos locais actuarem e apreenderem as colecções antes de elas serem dispersas por venda, é comum destruírem os restos arqueológicos depois de pilhados. Um conhecido caçador de tesouros inglês ficou célebre por ter dinamitado os restos de um navio holandês do século XVIII depois de ter recuperado a sua carga de porcelana chinesa.

 

            O segundo grupo é o mais abundante e mais visível, e é constituído por pequenas empresas, tipicamente com um barco de pequenas dimensões e duas ou três pessoas, que aos fins de semana destroem restos de navios há muito pilhados, e recuperam artefactos que custam mais dinheiro a conservar do que se conseguiria obter por eles em leilão. Por exemplo, há centenas de empresas destas na Flórida e a sua importância económica é relevante enquanto consumidoras de equipamentos de detecção – sondas e detectores de metais, por exemplo – e de revistas e livros populares sobre o assunto. São estes caçadores de tesouros que periodicamente aparecem nas revistas de mergulho à procura dos navios de Cristóvão Colombo com videntes e equipamentos obscuros, cheios de esperanças de enriquecer, e sempre tristemente longe das rotas do conhecido navegador. Falhando sistematicamente nos seus propósitos de enriquecer com a caça aos tesouros, esta actividade está presentemente em franco declínio nos EUA, por pura exaustão. A maioria destes caçadores de tesouros activos investiu pequenas fortunas, há cerca de duas décadas, comprando direitos a explorar áreas “potencialmente rentáveis” aos caçadores de tesouros da Flórida que lançaram esta actividade nos anos oitenta. Como dizia Bertrand Russel, quanto mais louca é a crença mais fervorosos são os seus seguidores, e apesar de nunca nenhuma destas empresas ter encontrado outro tesouro, os detentores das licenças continuam a encorajar as empresas, a quem venderam as concessões, garantindo-lhes a possibilidade de encontrar outro tesouro como o do galeão Atocha, que deu início a esta febre dos tesouros. Mas hoje há na Flórida menos da metade dos caçadores de tesouros que havia há vinte anos e é cada vez mais difícil encontrar investidores que acreditem que ainda haja tesouros nas áreas concessionadas. E o governo da Flórida não atribui mais concessões.

 

            O terceiro grupo não é muito mais sofisticado do que o segundo, mas actua a outro nível e goza do interesse da imprensa e do público menos esclarecido. É este terceiro grupo que alberga as personalidades que eu considero os mais perigosos, talvez porque os tenho encontrado no meu caminho com mais freqüência, e talvez porque, como arqueólogo, sou especialmente sensível ao tom superficial com que esta gente justifica o roubo puro e simples do património dos países pobres e a destruição irreversível de um património que é da Humanidade. E sou particularmente sensível à hipocrisia dos sem-vergonha que tratam das relações públicas destas empresas. Acho que os trabalhos sujos se deveriam fazer de maneira suja. Não há roubo que não seja violento, e o modo de operar destas empresas, em recepções com champanhe, aristocratas, políticos e discursos sobre o património, é um exemplo de hipocrisia insuportável.

 

            A diferença entre caçadores de tesouros e ladrões de antiguidades é muito ténue. Os primeiros actuam geralmente na legalidade e os segundos não. O maior contraste aparece-nos talvez entre o terceiro grupo dos caçadores de tesouros, que é majoritariamente constituído por “pessoas respeitáveis”, financeiros e aristocratas, e os ladrões de antiguidades que aparecem nos jornais. Estes últimos são caracteristicamente camponeses esfomeados, do interior da Guatemala ou das costas desérticas do Peru e os primeiros são pessoas bem vestidas e bem falantes, rodeados de advogados e, ultimamente, também de arqueólogos sem escrúpulos. Não se sabe muito bem de onde é que esta gente – os caçadores de tesouros – vem, de que buraco é que saíram, nem como é que se reproduzem. O certo é que se conhecem em festas, um pouco por esse mundo a fora.  Geralmente definem-se como pessoas “divertidas” que “gostam de aventuras” e “viagens a sítios exóticos.”  Nestas “aventuras” há freqüentemente uma estrela do rock, um arquiduque, ou um ditador aposentado.

 

            Se forem considerados juntos, é difícil dizer se existe alguma coisa em comum entre as pessoas que compõem os três grupos de caçadores de tesouros. Contudo, se excluirmos os primeiros, que só trabalham com investigadores de arquivos, engenheiros e antiquários extremamente competentes e de confiança absoluta, os outros têm indubitavelmente em comum uma falta de cultura abominável. Os caçadores de tesouros do segundo e terceiro grupos são ocasionalmente inteligentes, mas geralmente rasteiros e incultos, crédulos e broncos. O negócio deles não é encontrar galeões com tesouros debaixo de água, mas investidores suficientemente ricos ou suficientemente estúpidos para lhes pagarem as contas. Neste campo operam todos da mesma maneira. Desenterram dos arquivos uma história de um naufrágio qualquer de um navio com um tesouro, real ou imaginário. Às vezes, inventam uma história e metem-lhe elementos plausíveis, dependendo da respeitabilidade dos investidores. O segundo passo consiste em orçar os trabalhos e convencer os políticos do local seleccionado sobre as potencialidades extraordinárias dos tesouros afundados. Isto se passa sempre em países pobres, porque a caca aos tesouros é ilegal em todos os países desenvolvidos do mundo.

 

            É freqüente lermos as estimativas dos tesouros perdidos “nos sete mares” orçarem em trilhões de dólares, como se a caça aos tesouros fosse uma actividade potencialmente rentável, e eu conheço um caso em que se incluíam no rol dos tesouros a resgatar os “tapetes da Ásia” carregados num certo navio perdido nas costas de Portugal no início do século XVII. O outro argumento dos caçadores de tesouros é que os tesouros resgatados por esta ou aquela empresa vão pagar a dívida externa de um país, pôr todas as crianças na escola, salvar o ambiente, etc.

 

            O terceiro passo consiste em angariar fundos para pagar os “trabalhos”. É incrível como a imprensa é sempre a melhor aliada destes projectos. Convoca-se uma conferência de imprensa, apresentam-se os jornalistas mais importantes ao arquiduque ou ao ditador exilado e anuncia-se um ganho na ordem dos bilhões. A experiência demonstra que a mesma pessoa pode anunciar a descoberta dum tesouro no fundo mar, angariar três milhões de dólares, gasta-los em casas e carros, ser investigada pela bolsa por fraude, fechar a empresa, abrir uma ao lado, anunciar um segundo tesouro, angariar fundos, ser proibida de lhe tocar pelo governo, anunciar um terceiro tesouro, e ser sempre tratada com a mesma credibilidade pelos mesmos jornalistas ano após ano, projecto após projecto.

 

            É difícil generalizar sobre os valores desta gente. Depois de falar com dezenas deles, acho que a maioria tem a cabeça fria, quer enriquecer com o dinheiro dos investidores e está-se nas tintas para os aborígenes e ao património.  Os investidores são diferentes: uns não fazem a mínima idéia do que se passa e participam nestes projectos para viajar e confraternizar com aristocratas e estrelas do rock, outros julgam que vão enriquecer e os outros acreditam genuinamente que arqueologia é encontrar artefactos, e que é melhor para os países pobres ficar com “metade dos artefactos” do que “não os gozar no fundo do mar”.

 

            A caça aos tesouros não é proibida em todo o mundo, mas é proibida em todos os países desenvolvidos, e em muitos países em vias de desenvolvimento. Como a destruição do ambiente ou a exploração infantil, a caça aos tesouros só faz sentido em países com necessidades económicas graves, sem opinião pública nem transparência democrática, e só é uma prática legal em sociedades que ainda não fizeram uma reflexão sobre o assunto. Em face das barbaridades cometidas que vêm a público, as pessoas perguntam freqüentemente por que é que não há mais caçadores de tesouros na prisão. A resposta é simples: a caça ao tesouro é largamente um crime de colarinho branco, e a justiça não é igual para todos no nosso planeta.

 

            A última pergunta diz respeito a incongruência das políticas do património. Mesmo em países pobres e subdesenvolvidos a caça aos tesouros em sítios arqueológicos terrestres é ilegal em praticamente todos os países do mundo. Por que é que não haverá então consenso sobre a protecção dos sítios arqueológicos subaquáticos? A resposta é, mais uma vez, simples: mais de 130 países votaram uma convenção na UNESCO que torna a caça aos tesouros ilegal.  Mas historicamente a arqueologia em meio aquático é uma disciplina científica recente – fundada em 1960 pelo Prof. George Bass, na Turquia – e a caça aos tesouros é uma ramificação da indústria dos salvados.  A sociedade demora sempre a perceber a importância do passado em toda a sua extensão.

 

            A importância dos contextos arqueológicos subaquáticos começa enfim a recolher um consenso geral à escala internacional. Afinal de contas, muito antes de haver agricultores ou cidades já havia barcos, e barcos são talvez os artefactos mais complexos que o homem produziu desde, pelo menos, a colonização da Austrália – há mais de quarenta mil anos – e continuaram a sê-lo, pelo menos até ao Renascimento.