Sobre o autor[*]
Os dois últimos anos do primeiro mandato do presidente Luís Inácio Lula da Silva
(2005-2006), suscitaram discussões que já haviam atravessado todo o século XX e
que ainda causam frisson nos debates políticos, culturais e intelectuais. Se no
século passado as questões que trataram do papel do intelectual e seu
engajamento, de sua intervenção ou não na cena pública, do prejuízo ou não dos
valores universais em prol do realismo político, além de sua politização ou não,
ocuparam o debate intelectual em determinados momentos, está claro, no limiar do
novo século, que tais dilemas estão longe de serem resolvidos.
Na verdade, nas últimas décadas do século XX, o desenvolvimento tecnológico dos
meios de comunicação e sua subsequente ampliação, tanto espacial como social,
fez emergir a dúvida sobre o posicionamento que o intelectual deveria assumir a
partir dali, se é que tivesse que adotar algum. Trata-se de observar que
convergiram alguns fatores para que esse papel do intelectual portador dos
valores universais, que sustentava a determinação de ser o norte da opinião
pública e falar por ela, perdesse terreno na flexibilização das funções
intelectuais no mundo contemporâneo. A profissionalização crescente de setores
como o da educação, da informação e da pesquisa, estimulou a entrada no mercado
e na esfera pública de um contingente considerável de profissionais que de uma
forma ou outra lidam com o conhecimento, com a palavra e com a opinião pública,
o que lhes dá status de "intelectuais" diante da sociedade, além de certa
autoridade, dependendo do meio que utilizam para veicular suas ideias. Nesse
sentido, a imprensa sustenta uma função importante nessa flexibilização do
trabalho intelectual no cenário atual, já que incorpora e monopoliza
praticamente todos os meios de veiculação de ideias, conceitos, informações,
ideologias etc.
É nessa dinâmica acelerada (cada vez mais) entre sociedade, política, imprensa e
funções intelectuais, que o presente texto pretende se desenvolver, mais
especificamente ao discutir o que é o intelectual hoje, quais suas funções e
qual o peso da imprensa nessa relação entre intelectual, informação, crítica e
sociedade. Para tanto, tomou-se como estímulo para o estudo, a efervescência
opinativa destacada no ano eleitoral de 2006 no Brasil, como também as
considerações sobre o escândalo político nomeado de "mensalão". As
interpretações e opiniões que vieram de todos os lados e de todos os setores
estimularam que qualquer ator social se valesse de sua posição para tecer
elucubrações muitas vezes incautas acerca do delicado momento histórico pelo
qual passava o Brasil. Viu-se uma avalanche de análises equivocadas, atuações
promíscuas da imprensa, jogadas políticas mesquinhas, acusações infundadas e
fundadas (Ver Lima, 2007). Enfim, o palco teatral criado pela midiatização da
crise agregou muitos personagens, o que fez com que uma parcela social de
notável importância em situações de crise, os intelectuais, ficasse atrás das
cortinas ou, no máximo, como integrantes da plateia, que assistia àquele
"espetáculo" grosseiro com atores egocêntricos, quase que obrigatoriamente.
Tanto os intelectuais como a sociedade em geral - mesmo que com posturas
diferentes -, pareceram investidos na posição do personagem Alex do filme de
Stanley Kubrick, Laranja Mecânica (1971), interpretado por
Malcolm
McDowell,
pois foram expostos, forçosamente, a um tratamento de choque, para assimilarem e
acreditarem em tudo o que viam naquele circo que se tornou a política brasileira
e todos os envolvidos nela, seja como jornalistas, críticos, cientistas
políticos e sociais, "intelectuais" ou políticos.
Torna-se sintomático, pois, que naquele exato momento, a figura do intelectual
começasse a ser admoestada, indagada e cobrada. Acusações de que os intelectuais
se calaram foram muitas e recorrentes, e não raras vezes usadas ideológica e
politicamente, já que vociferava a oposição governista que os intelectuais
estavam partidarizados e alinhados ao Partido dos Trabalhadores (PT), pois
preferiam não se manifestar, já que viam seus ideais sucumbirem junto ao governo
de esquerda representado por Luiz Inácio Lula da Silva. Diante de tais
cobranças, Marilena Chauí defendeu a categoria:
O retraimento do engajamento ou o silêncio dos intelectuais é, aqui, signo de
uma ausência mais profunda: a ausência de um pensamento capaz de desvendar e
interpretar as contradições que movem o presente. Não se trata de uma recusa a
proferir um discurso público, e sim da impossibilidade de formulá-lo (Chauí,
2006, p. 30).
A autora referia-se, obviamente, ao espetáculo, ao bombardeamento de
informações, à imediatez da crítica, à impossibilidade de vislumbrar qualquer
interpretação mais concreta frente ao universo turvo, disforme e efervescente em
que se encontrava o país. Teceu, nas entrelinhas, uma crítica a todos que
proferiram discursos no calor do momento e, também, fez menção ao processo de
substituição do intelectual engajado pelo especialista competente. Não apenas a
economia, como também a política, tornaram-se assuntos de especialistas cujas
decisões pareciam ser de natureza técnica. Expunham uma linguagem secreta que,
publicadas, exigiam certo grau de interpretação e uma determinada decodificação,
o que a tornou uma linguagem incompreensível para a maioria dos cidadãos (Idem,
p. 33).
Intimidados e cautos, os intelectuais, no vórtice de acusações dirigidas aos
seus papel e função sociais, reagiram da forma que julgaram possível: passaram a
analisar o porquê do silêncio dos intelectuais, a conjuntura que determinava tal
posição e o papel do intelectual ontem e hoje. Tal empreendimento foi levado a
cabo num ciclo de conferências nomeado O silêncio dos intelectuais,
concebido pela Artepensamento em 2005, que ocorreu no Rio de Janeiro, São
Paulo, Salvador, Brasília, Curitiba, Belo Horizonte e Porto Alegre. O resultado
foi o livro O silêncio dos intelectuais, organizado por Adauto Novaes e
editado pela Companhia das Letras, em 2006. Não se trata de aprofundar na
análise sobre o livro e nas ideias contidas ali, mas de observar que a
publicação do mesmo foi uma clara reação dos intelectuais diante das acusações
impetradas, e entender o que os próprios intelectuais assumiram como suas
funções no mundo atual. É obvio que apenas alguns representantes da categoria
tiveram a oportunidade de manifestarem-se, o que não atesta uma posição
generalizada e consensual, contudo, não se perde a interessante contribuição que
a obra oferece para a história intelectual, a história das ideias e para a
história do tempo presente no Brasil.
Por mais que se tenha estudado, analisado e publicado obras sobre os
intelectuais no século passado, parece que tal assunto sempre gera polêmica e é
motivo de discussões inacabáveis. De fato, o século XX foi estimulante para os
intelectuais, para que estes se colocassem na esfera pública defendendo
posições. Tomando como base o recorte de tempo de Hobsbawm (2003) - o breve
século XX -, é possível elencar, apenas para citar alguns eventos nos quais os
intelectuais foram exigidos, a revolução russa de 1917 até o desmantelamento da
União Soviética em 1991, passando por duas guerras de proporções mundiais, uma
guerra fria/ideológica, descolonização, tiranias, ditaduras, movimentos
culturais e contra-culturais, "fim" do socialismo etc. Não faltaram
oportunidades e possibilidades para que a categoria dos intelectuais interviesse
diretamente na sociedade e na política, o que gerou debates inúmeros sobre o seu
papel no mundo social.
Toda querela se deu entre dois pólos de interpretação, cabendo talvez um
terceiro que de certa forma mesclava os dois primeiros, defendido por
intelectuais como Barthes. O primeiro pólo apareceu devido a um movimento que
ocorreu em meados do século XIX, conhecido como modernidade. Os modernos
buscaram separar-se dos "homens-comuns", criando uma aristocracia simbólica.
Impuseram regras no jogo literário para fazer reconhecer suas especificidades e
recusaram-se a ter débito com a agitação momentânea, seja ela social ou política
(Denis, 2002, p. 20). O que procuravam era esmerar a arte de escrever, atentar
para as regras da literatura, para a estética da obra e deixar seus nomes e
textos para a posteridade, reconhecidos pela técnica e capacidade de produzir
uma obra de arte, dentro de um idealismo moderno.
Pensadores como Benda, Ortega y Gasset, Mannheim e Croce eram partidários
dessa literatura idealista, que pairava acima da sociedade não intervindo nas
questões mundanas. Não foi à toa, pois, que Benda tinha como seus principais
alvos de críticas o bergsonismo, o existencialismo e o marxismo, linhas de
pensamento que sustentavam posturas que instigavam a ação; e Mannheim procurou
separar o engajamento cultural do engajamento político, dando maior visibilidade
ao primeiro, não mundano, ligado à arte e ao espírito, não às ações políticas do
homem em sociedade, no cotidiano (Bobbio, 1997, p. 132). Buscava-se, na verdade,
o desenvolvimento espiritual, estético, artístico e cultural, não ligado às
coisas do mundo e do homem no seu dia-a-dia. Não se cogitava a intervenção da
arte na política, o que afastava os homens de letras das agitações as quais
todos estão envoltos repetidamente, atestando que o mundo secular não entrava
nas preocupações do mundo espiritual dos modernistas.
Foi apenas com E. Zola - e aqui se tem o início do segundo pólo - que esta
postura distanciada do intelectual se arrefeceu, no exato momento em que o
escritor tomou partido em prol do oficial judeu Dreyfus, acusado injustamente de
espionagem. Assim, Zola iniciou esse tipo de "intelectual justiceiro", que usa
suas armas - as palavras - para intervir no meio social e político no qual se
encontra (Silva, 2004, p. 42-43). Publicou o J'accuse no jornal
L'Aurore, em 13 de janeiro de 1898, texto direcionado contra os generais e
outros oficiais franceses que, em nome da "razão do Estado", pretendiam condenar
Dreyfus para não manchar a imagem do governo e do exército, mesmo que para isso
um inocente sofresse as consequências. Alguém precisava ser o "bode espiatório"
no caso em que documentos secretos franceses foram parar nas mãos dos alemães.
Nesta empreitada, Zola cooptou outros pensadores importantes, que também se
alinharam em favor e em nome da justiça. Entre eles estavam
Anatole France,
Georges
Courteline,
Octave Mirbeau
e Marcel Proust, que sofreram várias sanções devido às suas atitudes que estavam
claramente ligadas aos valores universais e contra a "razão de Estado".
Criava-se, pois, o caso Dreyfus, que atravessou o século XX como um dos momentos
mais importantes da história dos intelectuais, até mesmo porque foi neste
momento que o termo "intelectual" foi cunhado, sendo atribuída tal expressão a
Georges Clemenceau.
A partir daí, iniciou-se uma discussão que parece eternizar-se, sobre até que
ponto deve, se é que deve, atuar politicamente um intelectual. O ideal moderno
começava a ser contestado, o que colocava os intelectuais como agentes
importantes para entender, interpretar, atuar e transformar o mundo. Desciam de
suas torres de marfim para imiscuir-se nas mazelas cotidianas, políticas e
sociais, transformando sua autoridade intelectual em autoridade política, em
nome de uma autoridade moral. Assim, estes homens de letras abandonaram as
ideias puras, as considerações abstratas e as "realidades espirituais", e
condicionaram seus pensamentos ao mundo dos homens, ao mundo das relações
políticas e sociais.
A reação não tardou. Aquela tradição moderna ainda insistia em defender suas
regras, seu idealismo literário, o que fez com que alguns autores se inflamassem
contra a atitude desses intelectuais "terrenos". Uma obra de destaque nesse
processo é A traição dos clérigos, de Julien Benda, publicada em 1927.
Ali, Benda atacou essa postura dos intelectuais, chamando-os de traidores, já
que abriram mão dos valores universais da literatura e da posição autônoma dos
homens de letras. Para ele, os intelectuais politicamente ativos haviam manchado
a aura do verdadeiro intelectual, pois se afastaram das questões que realmente
importavam, como a arte, a literatura, os valores universais, para tornarem-se
agentes sociais ativos, fazendo parte do mundo repetitivo dos homens, dos
vícios, dos erros, das relações políticas e promíscuas.
Benda publicou esta obra num momento em que a agitação política e social era
mundialmente latente. Problemáticas relacionadas a teorias, ideologias,
economia, pós-guerra encontravam nichos de desenvolvimento profícuos nos meios
intelectuais. Para além da ação empregada por Zola e seus seguidores, o século
XX abriu-se já apresentando uma guerra mundial, que somou milhões de mortos e
uma revolução proletária, a russa, em 1917. Era quase impossível que os
pensadores não tomassem posição frente a tais acontecimentos, já que estes
transformavam o mundo inaugurando uma nova fase e uma nova sociedade. O século
passado realmente destacou-se por implementar mudanças profundas na economia, na
política e na cultura. A racionalização que tomou conta dos homens, a tecnologia
que se desenvolveu a passos largos, os direitos humanos que tomaram corpo depois
que muito sangue foi derramado por todos os rincões do planeta, seja por guerras
mundiais, regionais, imperialismos, descolonizações, revoluções etc, funcionaram
como pólos catalisadores que, juntos, convidavam os intelectuais a tomarem uma
atitude e uma posição. Parecia paradoxal uma sociedade que ao mesmo tempo em que
desenvolvia seus conhecimentos técnicos e científicos, estagnava quanto às
relações humanas. Por tudo o que este mundo contemporâneo apresentava, pareceu
inevitável certo engajamento intelectual.
As décadas de 1920 e 1930 ficaram marcadas pela aparição desses pensadores que
se tornaram ativos, tanto no campo político/ideológico da direita como da
esquerda. Esse homem de ideias, para Rouanet, possuía a inteligência livremente
flutuante a qual se referia Karl Mannheim, era representante orgânico de sua
classe, nos termos de Gramsci, e saiu do espaço que lhe cabia na divisão social
do trabalho para defender causas universalistas, segundo Sartre (2006, p. 74).
Noutras palavras, foi o momento em que o intelectual passou a participar de
forma mais ativa na sociedade. Foi neste período que Jean-Paul Sartre se
destacou como o representante maior do engajamento intelectual, do segundo pólo
supracitado. Herdeiro do existencialismo cristão, Sartre lançou-se a defender a
literatura engajada, voltada para os problemas cotidianos e políticos (Denis,
Op. Cit., p. 34). Para o autor, a função dessa literatura era atrair a massa
dos cidadãos, dialogar com as questões que afligiam suas vidas, sem ficar presa
à literatura simbolicamente aristocrática, desenvolvida apenas para alguns
iniciados na arte da escrita e leitura. O existencialismo de Sartre não aceitava
a intenção propriamente estética da escritura e dizia que esta necessariamente
se duplicaria em um projeto ético. Isto é, não bastava escrever, o que
interessava era o porquê escrever e com qual objetivo, itens que
explanavam seu "imperativo moral".
De acordo com o intelectual existencialista francês, não havia literatura
desengajada, já que seria inevitável o envolvimento no mundo. Até mesmo o
silêncio implicaria uma escolha, portanto, calar-se também queria dizer algo. O
silêncio, para Sartre, era uma tomada de postura (Idem, p. 36). O autor se ligou
ao fato de que o publico leitor se multiplicava naqueles anos, que se
escolarizavam mais pessoas, o que criava grupos sociais potencialmente
politizados e politizáveis. Percebeu que esse novo público voltava-se para as
novas mídias (cinema, rádio), já que a literatura elitista impunha um abismo
entre si e os leitores. Era necessário então que o escritor saísse do lugar
sagrado e apelasse ao profano, o que forçava dirigir-se a um público mais amplo,
que era marginalizado simbolicamente do intercâmbio literário. Esse tipo de
intelectual, que tem em Sartre figura de destaque, arriscava perder sua
distinção formal, calcada no cânone moderno, pois se separava do idealismo que
flutuava sobre as cabeças dos homens comuns, para misturar-se a eles, para
abalar as consciências e influir no mundo (Idem, p. 59-60).
Deste modo, a literatura deixava de ser um fim em si mesma e tornava-se
ferramenta a serviço de uma causa ou propósito. Nesse sentido, nas palavras de
Denis,
O escritor engajado renuncia, portanto a apostar na posteridade e escolhe
resolutamente responder às exigências do tempo presente. E ele assume o
sacrifício de sua glória póstuma como inerente ao seu engajamento, vendo aí um
salutar exercício de modéstia que atesta a sua vontade de reunir-se ao mundo dos
homens e de tomar parte nos debates que o agitam (Idem, p. 41).
Tratava-se, pois, de ultrapassar o idealismo moderno tal qual queria
Baudelaire, posição que logo encontrou críticos severos. Surgiu, então, o
eventual terceiro pólo, cuja acusação maior era a da relação promíscua entre
literatura e política, consubstanciada no engajamento direto no mundo secular.
Barthes se colocou contra Sartre ao dizer que na verdade é o desengajamento do
mundo que seria a melhor forma de engajar-se na literatura (dentro da linha de
Flaubert e Kafka), pois o intelectual engajado, de escrita urgente e submetido
às exigências do tempo presente, perde sua essência, o que levará sua obra a ser
julgada no tempo mais longo devido a sua imediatez, o que a leva a perder a
imortalidade da literatura para transformar-se num documento de combate
ultrapassado (Idem, p. 37-41).
Apesar das várias e ácidas críticas que Barthes direcionou a Sartre, não o
renegou por completo, pelo contrário, conservou muitos pontos do
existencialista, corrigindo-os. Por acreditar que o escritor não é senhor de seu
propósito e, consequentemente, não pode medir os efeitos de suas palavras,
Barthes inverte a fórmula de Sartre: enquanto este dava primazia às ideias e não
à forma, aquele fazia o caminho inverso. A escritura para Barthes seria a moral
da forma, já que mesmo ao situar sua obra socialmente e escolher seu público
leitor, o autor não controla o percurso de suas palavras. Será muitas vezes o
porta-voz, o representante do grupo social que escolheu, sem ser lido pelos
mesmos. Nesse sentido, no fim, seus interlocutores serão os próprios cânones.
O que se observa é a intenção de separar literatura e política,
transferindo a necessidade do engajamento para a função crítica. O que assumiria
o papel da literatura engajada seria a crítica, que tomaria posição ideológica
nas questões políticas e sociais. Tal modificação, que se iniciou com as
formulações de Barthes, abriu espaço para outros meios de contestação cultural
que não a literatura. Surgiram, então, músicas, revistas, ficções científicas,
fotografias e quadrinhos engajados (Idem, p. 298-301). A tendência, por
consequência, foi o paulatino enfraquecimento da literatura engajada e do
existencialismo. Muitas das causas desse desaparecimento estão relacionadas às
revelações que surgiram sobre muitos governos defendidos por grandes
intelectuais. Pode-se elencar, entre outros, os gulags na URSS, Stálin, Fidel,
Mao Tse-Tung e Khomeini, além da migração de muitos intelectuais da posição
crítica para os ideais burgueses, ou a confusão entre comprometimento e
alinhamento. Como se vê, foram muitos os fatores que levaram ao enfraquecimento
do campo intelectual, especialmente o engajado.
Por ser de caráter imediato a intervenção engajada, por inferir sobre fatos
isolados e específicos, o intelectual pode induzir o leitor a aceitar ou negar
determinadas ideias ou posturas sem conhecê-las na totalidade. Nesse sentido,
Chauí lembra Merleau-Ponty: "manifestar-se sobre tudo, assumir posição e ter
opinião sobre tudo, mudar de atitude conforme mudem os ventos, abandonar a obra
já escrita, desdizendo-a e desdizendo-se, é irresponsabilidade, não é liberdade"
(citado por Chauí, Op. Cit., p. 26).
A autora vale-se, ainda, desta citação para justificar o silêncio ao qual
estavam mergulhados os intelectuais na crise política brasileira, pois explicou
que, muitas vezes, o verdadeiro engajamento exige que os pensadores se calem e
que não cedam às exigências cegas da sociedade (Idem, p. 26). Isto é, propôs que
seria mister mais responsabilidade nas emissões de opiniões por parte dos
intelectuais, já que suas vozes carregam um valor simbólico muito maior do que
qualquer outra voz de outras categorias. Os homens de ideias, quando se
manifestam o fazem, e assim se espera, depois de uma profunda análise e
contemplação do momento, o que historicamente o colocou na posição que
tradicionalmente ocupa no complexo meio social. Se, por acaso, for exigida sua
participação, como se fosse de sua alçada esclarecer os fatos, deve ser
cauteloso para não tecer juízos de valor e julgar sem ter uma ideia formada,
apenas pela pressão externa que o leva a falar. Na verdade, neste momento
conturbado, precisa surgir como a voz que destoa, recordando os valores
universais da razão e justiça para lembrar ao público que seu papel como
intelectual não é julgar, mas pensar e buscar compreender. Muitas vezes pode e
deve tratar dos assuntos imediatos, mas de forma neutra, valendo-se de sua
criatividade para elaborar textos, crônicas ou contos que de maneira indireta
exponha os valores universais, dê sugestões aos homens da política e proponha um
caminho, além de fazer o leitor pensar por si próprio.
O sonoro silêncio dos intelectuais brasileiros diante dos acontecimentos
contemporâneos, como no momento do mensalão, deveu-se ao que já foi discutido no
que se refere ao engajamento dos homens de ideias. Por ter se equivocado muitas
vezes ao tomar posição ou defender este ou aquele regime político, o intelectual
hoje muitas vezes age com mais precaução, de forma mais restrita e racional.
Francis Wolff elabora um raciocínio interessante sobre essa questão:
Muitos intelectuais, de vinte anos para cá, avaliaram o peso dos sonhos e o
desastre das utopias. Daqui por diante eles se recusam a esboçar grandes
sistemas de ideias totalizantes nas quais a realidade não pode entrar, senão à
custa de milhões de mortos. Eles renunciaram à pureza. Mas por outro lado,
continuam a avaliar, dia após dia, a miséria dos homens e as injustiças do
mundo. Não podem escolher uma ética da convicção radical, que não leva a nada,
ou leva ao pior, e uma ética da responsabilidade que os condena, cedo ou tarde,
à traição, isto é, a abdicar o estatuto intelectual pelo de expert (2006, p.
68).
Percebe-se um ligeiro pessimismo nas considerações de Wolff, que são um
tanto quanto radicais ao dizer que os intelectuais abriram mão das utopias, que
renunciaram à pureza. É bem verdade que o status do intelectual nas últimas
décadas perdeu a aura que carregava, sendo não menos verdade que muito desta
perda se deve, sim, ao engajamento e às utopias que muitos pensadores defenderam
no calor do momento. Contudo, adotar esta postura seria abandonar a
possibilidade da realização plena dos valores universais no mundo dos homens e
alinhar-se a uma posição conciliadora, remediadora e reformista. Se os homens de
ieias abdicarem das utopias e da total justiça social que os valores universais
carregam simbolicamente, farão um corte abrupto na história humana. A vontade de
potência que era sustentada por esses intelectuais e que inflamava o meio social
a não desistir de sistemas mais coerentes e justos, cairá por terra, levando
todos a encarar o mundo com uma descrença e um pessimismo weberianos,
castradores dos ímpetos dos homens. Nem mesmo depois de Auschwitz, quando se
dizia que nunca mais se faria poesia, os homens de cultura desistiram dos seus
ideais universalistas. Por que seria este o momento?
Está certo que o ataque direcionado aos intelectuais e suas próprias
atitudes em muitos equívocos políticos levaram a tal situação, contudo o momento
é de reflexão. Muito se falou no fim dos valores universais com o predomínio do
relativismo, iniciado com o movimento estruturalista na década de 1970. As
ideias concretas de verdade, justiça, razão e liberdade que foram relativizadas,
desqualificaram todo o trabalho intelectual que buscava certa universalidade
(Novaes, 2006, p. 10-16). Alguns motivos dessa desvalorização das práticas
intelectuais, principalmente a engajada, seria a grande transformação, profunda
e imediata, da sociedade global, cujos saberes e poderes sobre o tempo e o
espaço foram (são) concebidos e utilizados de maneiras tão diferentes. Este
período pós-sartriano, ainda fora marcado pela corrente pós-modernista, que
assegurou a abertura da participação social e a possibilidade de tecer
considerações e juízos sobre a atualidade a uma massa de agentes sociais, o que
inchou a categoria de homens até então qualificados a intervirem
intelectualmente na sociedade. O contexto deu vazão a uma rede de comunicações
múltipla, com diferentes jogadores e jogos, cujas regras são incomensuráveis, o
que estimulou uma competição agonística de uns com os outros.
Nas palavras de Augusto Silva, ao perceber esta dinâmica enlouquecida das
relações no mundo atual, com vários atores ativos, "nunca como agora as
classificações socioprofissionais registraram tantas, tão variadas e tão
massificadas profissões intelectuais e, contudo, poucos intelectuais restam que
possam ser linearmente vinculados ao perfil de Zola" (Op. cit., p. 46).
Sintomática a observação do autor. Ao mesmo tempo em que a categoria
"intelectual" multiplica-se, a figura do intelectual tradicional apaga-se no
meio da multidão de especialistas e técnicos do saber que espalham suas opiniões
para qualquer um que as queira ouvir. Esta situação foi favorecida, ainda, pelos
veículos de comunicação de massa que evoluíram tecnologicamente, possibilitando
que experts encontrassem os meios necessários para converterem-se em
histriões do espetáculo para os novos cidadãos (público dos mais variados meios
e telespectadores do "show" midiático).
Direcionou-se, portanto, a indústria cultural em pleno desenvolvimento, o
pós-modernismo, a desvalorização dos conceitos universais e a desmoralização do
intelectual, para a formação de um novo stablishment na produção e
divulgação de culturas, teorias e conceitos. Aliados, ainda, aos novos projetos
políticos e econômicos que o final do século XX impuseram como bastiões do mundo
contemporâneo o neoliberalismo e a globalização. Tais modelos promulgaram o fim
das utopias e aconselharam a tomada de consciência que substituiria as ilusões
pelo realismo social e a ação possível, marginalizando as volições utópicas.
Assim, o intelectual começou a ser desprestigiado quando a "ordem" começou a
reinar no planeta. Visto de outra forma, a queda do muro de Berlim e a
midiatização intensa provocaram a perda de espaço dos pensadores. O mundo
socialista, dito real, afundou-se e desestruturou as esperanças e, naquele
momento, com o avanço das vanguardas de direita, o hippie foi substituído
pelo yuppie, as drogas deixaram de ser as drogas lisérgicas, do sonho, da
experimentação, e passaram a ser as drogas pesadas e sintéticas, as drogas do
mercado. A virada política tornou-se então muito complicada. O Terceiro Mundo
perdeu seu espaço e igualou suas ambições às do Primeiro Mundo, o mundo do
Norte, juntando-se quase que espontaneamente ao globalitarismo - expressão
cunhada por Milton Santos -, a forma mais eficaz de exploração confeccionada
pelo capitalismo pós-industrial (Tendler, 2004, p. 179).
Aquele Terceiro Mundo que, juntamente com algumas manifestações do Mundo do
Norte, promoveu uma virada cultural nos anos 1960 e 1970, chamada contracultura,
consubstanciada nas descolonizações da África e da Ásia, revolução cubana,
questão dos negros e do feminismo, reações aos governos autoritários implantados
na América Latina, no maio de 1968 e, mais tarde, nos movimentos separatistas do
oriente europeu, perdia-se com a reação conservadora, com as soluções milagrosas
propostas por M. Tatcher e R Reagan, que vislumbravam uma terceira via quase
inacreditável, um ornitorrinco político, econômico e social que colocaria num
mesmo projeto as práticas capitalistas e as reivindicações sociais. Uma moção
racionalmente inviável, tanto que atualmente demonstra suas consequências com as
crises econômicas que afetam não apenas o terceiro mundo, mas, principalmente, o
primeiro.
Neste processo de transformação social e cultural acelerada, a classe média foi
mobilizada pela voracidade do sistema e quis tornar-se serviçal do novo projeto
que se apresentava. Não pretendia perder o trem que levaria a sua evolução
econômica. Não se propôs a discutir mais nada e assumiu uma posição extremamente
pragmática, a posição do individualismo, o mote da rainha de ferro, que
profetizou o fim da sociedade em prol do indivíduo (Idem, p. 181). Neste meio
conturbado, com excesso de contingente "intelectual" que se adequou ao sistema e
profissionalizou-se para atender às necessidades informativas do mercado, o
homem de cultura foi sufocado. Surgiu o que se convencionou chamar de
intelectual midiático, aquele profissional do saber que não resistindo às
benesses e ao reconhecimento que a exposição pública poderia trazer, entregou-se
ao regozijo pessoal que o mercado lhe oferecia. De acordo com Adauto Novaes,
Estaríamos vivendo hoje um segundo momento daquilo que Julien Benda definiu, nos
finais de 1920, como a traição dos clérigos, isto é, a morte do intelectual
desinteressado e o surgimento desse "novo clérigo" submisso à vontade de
potência, ao dinheiro, ao prestígio e ao poder (Op. cit., p. 12).
Novaes, na verdade, infere que tal situação estabelece a segunda traição
dos clérigos na medida em que os intelectuais se relacionam com a mídia
submetendo-se à lógica dos meios, traindo os princípios universais da luta pela
razão, liberdade, justiça e felicidade (Idem, p. 15). A nova mudança estrutural
da esfera pública (Ver Fiorucci, 2009) fez mal à figura do intelectual, pois o
aumento de participação - destaque-se que positiva - proporcionada pelas novas
mídias, fez com que estes pensadores não tivessem força necessária para formar
um foco, devido à multiplicação de vozes, o que não quer dizer que barrou a
aparição elitista de intelectuais vaidosos. Houve uma transformação no palco, já
que a transfiguração de tudo em imagens e a velocidade exigida esvaziaram o
discurso, estimulando que os atores sempre representassem a si mesmos,
independentemente de sua contribuição ao conteúdo do veículo de comunicação
(Habermas, 2006, p. 4-5). Este capital simbólico que resulta da aparição
pública, fez com que muitos dos intelectuais mais performáticos se destacassem
na televisão e nos meios jornalísticos, ocupando muitas vezes o espaço dos
intelectuais universitários (Coelho, 2004, p. 22). Observe-se, porém, que mesmo
estes últimos perderam sua representação intelectual por converter-se em
profissionais especializados que produzem artigos e pesquisas para atualizarem
seus currículos, o que os leva ao individualismo e à reclusão ideológica (ver
Souza, 2004, p. 107-116), sintoma de uma doença produtivista que acometeu até
mesmo as agências de fomento e pesquisa.
Trata-se de esclarecer a representação intelectual que se configura hoje.
À exceção dos "intelectuais-espetáculos", que vociferam tendências, opiniões,
previsões ou conclusões precipitadas, produzindo em série informações e notícias
que a imprensa requer de modo frenético, o que se ambiciona dos intelectuais é
que intervenham num debate com argumentos, que se dirijam a um público não de
espectadores ansiosos pelo "show" da sabedoria, mas a um grupo de oradores e
destinatários potenciais, capazes de discutir uns com os outros, para que não se
caia num monólogo egocêntrico, numa conversa de via única, na qual uma parte
fala e a outra simula que apreendeu a verborragia desenfreada da "vedete
intelectualizada". Nesse sentido, "o intelectual deveria se distinguir do
jornalista inteligente menos pela forma da apresentação e mais pelo privilégio
de ter de se ocupar apenas paraprofissionalmente dos assuntos da coletividade"
(Idem, p. 5), ou seja, só deveria intervir quando a vida cotidiana saisse dos
trilhos, pois sua diferença é o faro vanguardista para relevâncias e não a
retórica inebriante de belas palavras.
Não quer dizer que este homem de ideias deva voltar à posição flutuante do
idealismo moderno, sem preocupar-se com as "levianidades" da sociedade. Pelo
contrário, o que se espera do intelectual atual é que interfira na vida política
e social, mas que não se encerre nela. Que percorra o caminho do engajamento
pela crítica cultural comprometida com valores universais, transigindo a postura
do intelectual moderno quanto à autonomia do campo cultural com a posição do
pós-moderno, ativo, o que propõe uma intervenção para e não sobre
ou no mundo (Silva, op. cit., p. 56-58). Conclui-se dessas
proposições que, no limite, houve uma mudança da representação intelectual na
esfera pública e não o fim do mesmo. O seu papel continua tão importante quanto
antes - se não mais -, já que é na rede entrecruzada de discursos disformes que
o pensamento intelectual pode sobressair. Sendo assim, não se pode e nem se
deve dispensar todos aqueles que a partir da crítica cultural do mundo e de si
próprios, possam traduzir, interpelar, problematizar, interpretar e modificar o
meio em que vivem. Tanto isto é verdade que, em dois casos específicos para
exemplificar, foi o que aconteceu tanto na França, em 1981, como no Brasil em
2006. Em ambos os países, a eleição de presidentes teoricamente de esquerda
(respectivamente Miterrand e Lula) indicavam planos radicais de mudanças sociais
e econômicas, todavia, em pouco tempo romperam com as ideologias e optaram pela
fidelidade às instituições financeiras internacionais, realismo político e rigor
orçamentário. Noutros termos, foram a continuação do sistema tradicional,
acrescentando-se algumas mudanças (Wolff, op. cit., 45-46).
Nos dois governos, os intelectuais se calaram e não tardou a cobrança da
sociedade civil por suas opiniões quanto aos processos políticos pelos quais
passavam seus respectivos países. Ficou claro que a inundação de notícias
espalhadas aos borbotões pelos meios de comunicação não supriram a necessidade
social de compreender o que acontecia tanto na França como no Brasil. Os
aclamados experts, os âncoras de telejornais que sustentam uma imagem
asséptica, os especialistas enrustidos em guardiões de códigos secretos, não
conseguiam tecer considerações razoáveis sobre a atualidade, exatamente por
falarem quase que diariamente, sem ter o tempo preciso para analisar e
contemplar o processo histórico e político. Como citado no começo do texto, os
intelectuais passaram a ser cobrados, atacados e admoestados. A direita os
apontavam como parciais ideologicamente; a esquerda cobrava a sua defesa dos
ideais sociais ou os nomeavam de traidores por se calarem; por fim, muitos
atestavam a morte do intelectual. Mas mesmo assim sua presença foi mais que
desejada. Foi exigida pela sociedade civil. Tal demanda esclareceu que o
intelectual ainda sustenta posição importante, pois, ao calar-se, atiçou o
desejo por sua voz e intervenção. O não-agir acusou a importância de suas ações.
Sendo assim, o que menos poderia se afirmar é que o papel que o intelectual
ocupou e ocupa na sociedade seja dispensável. Trata-se, tal equívoco, de uma
interpretação precipitada de técnicos do saber, que remonta ao fim de períodos
conturbados, quando a "ordem" volta a reinar no mundo dos homens. Uma referência
cabal, para entender o que está em discussão, foi o fim do regime autoritário no
Brasil, que se iniciou em 1964. Naquele momento, em meados dos anos 1980, quando
o governo militar passou por uma abertura "lenta, gradual e segura", e que a
elite e a classe média já haviam compreendido o tamanho do erro que haviam
cometido ao apoiar tal regime, vários atores passaram a assumir o discurso que
até então fora sustentado pela produção e crítica cultural. Se nos anos 1960 e
1970, a oposição ao autoritarismo vinha das categorias intelectualizadas por
meio da produção artística - claro, quando não armada - como a música, os
quadrinhos, textos literários ou a imprensa alternativa, nos anos 1980, a
crítica foi incorporada por vários setores sociais. Os intelectuais de direita,
a imprensa grande e parte da sociedade civil viram-se qualificados a elaborar
comentários sobre o que se passava, o que sufocou o discurso que até então
sustentara a linha de frente do combate aos militares.
Vê-se, pois, que a crise do intelectual se deu devido a mudanças sociais e
políticas. Com o retorno da democracia e o fim da ditadura, o estatuto político
foi devolvido aos seus verdadeiros titulares: os cidadãos e seus representantes
no governo. Soma-se a este fator, ainda, a crescente profissionalização do
trabalho intelectual, seja na universidade ou fora dela. Jornalistas, músicos,
compositores, professores, pintores, arquitetos etc, foram agrupados na
categoria de homens de cultura, inchando e deformando o que seria de fato o
intelectual tal como se acostumou a vê-lo.
Ademais, não se poderia propugnar que hoje a literatura de engajamento e o
intelectual são dispensáveis, já que são eles que se levantam sempre pelos
direitos e valores universais. O que dizer de escritores que viveram em países
que enfrentaram governos de opressão e usaram a literatura como forma de
resistência? Nomes como os de Júlio Cortazar, Milan Kundera e Vissili
Vassilikos, apenas para citar alguns exemplos, demonstraram a importância e a
qualidade da literatura engajada, obras que não se tornaram apenas documentos
políticos que se perderam com o tempo, mas que produziram textos que são
admirados tanto por seu veio crítico como pelo esmero da produção literária. Não
se bifurcam, necessariamente, a arte e a política. As obras dos autores acima
não podem ser tomadas apenas como manifestação política, haja vista que a
qualidade da arte literária transcende o tempo e o local em que foram
confeccionadas. Não se trata, então, de impossibilitar a prática política e
literária de forma conjunta, mas de ter consciência que a qualidade do texto
depende da capacidade artística do autor e não do propósito ao qual se destina.
Não se pode afirmar que todas as obras produzidas pelo idealismo moderno são de
qualidades inatacáveis e nem que toda literatura engajada seja vazia
artisticamente. Tal postura seria incauta por parte do analista e crítico
literário, além de generalizante, pois colocaria todo e qualquer texto no mesmo
patamar apenas por se vincularem a determinada corrente de pensamento.
Enfim, as considerações que se desenvolveram ao longo do texto procuraram para
além de esclarecer o processo de transformação que sofreu o papel do intelectual
durante o século XX, fazer uma análise sobre qual a função dos homens de cultura
na sociedade globalizada, pós-moderna e aberta a todas as vozes que queiram
participar ativamente do debate social. Por mais que a figura do intelectual
tenha sido (é) atacada, sufocada e desprestigiada, está claro que seus encargos
sociais são indispensáveis, principalmente em períodos problemáticos, no qual
todos já ensaiaram uma solução para as querelas que afetam a vida cotidiana e
não há nada mais a ser dito, senão por essas figuras que se mantêm afastadas da
dinâmica política para avaliar com mais sensatez o que se passa naquele momento.
Não é por acaso que suas atitudes muitas vezes são cobradas, exigindo-se que os
intelectuais assumam o papel o qual a própria sociedade civil infligiu a eles, e
que também eles próprios aceitem com certo regozijo e satisfação pessoal. A
título de conclusão, há de se dizer que o cerne do problema não é exatamente o
intelectual midiático, mas sua forma de ação. Este, não peca pela vaidade,
inerente a todo ser humano, sendo neste aspecto nem melhor e nem pior que
qualquer outro. Peca pela presteza, pela rapidez e pelo imediatismo. Deixa-se
seduzir pela lógica do sistema e pela ânsia do reconhecimento instantâneo,
quando na verdade seu maior orgulho e sua nobre função, estão e sempre estiveram
ligados ao apelo que o mundo faz à sua inteligência para resolver questões que
todos os outros foram incapazes de solucionar.
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[*]
Professor do Instituto Federal do Paraná - IFPR/Jacarezinho, Doutorando
pela Universidade Federal de Goiás, Bolsista CAPES