ISSN 1807-1783                atualizado em 18 de junho de 2012   


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A Região do Contestado Catarinense: Aspectos Histórico-Geográficos

por Isonel Sandino Meneguzzo

Sobre o autor[1]

INTRODUÇÃO

Este artigo, de caráter teórico-empírico, tem como principal objetivo apresentar uma discussão histórica e geográfica acerca da região onde ocorreu a Guerra do Contestado, situada entre os estados sulinos de Santa Catarina e Paraná. Foram visitados os principais municípios catarinenses (Figura 1) que no início do século passado estiveram envolvidos no conflito armado.

Índios dos grupos Kaigang e Guarani habitavam originalmente a região antes da chegada dos homens brancos (WACHOWICZ, 1988).

Pessoas provenientes da Guerra dos Farrapos e da Revolução Federalista, ambas ocorridas no Rio Grande do Sul, migraram para a região do Contestado (sudoeste do Paraná e oeste de Santa Catarina) por volta do último quartel do século XIX. Da miscigenação de indígenas e negros, resultou a população cabocla, a qual vivia basicamente do extrativismo vegetal e de atividades agropecuárias, antes da chegada de empresas estrangeiras na região. Os caboclos eram trabalhadores pobres (LOPES, 2008) que viviam sem a atenção e a assistência do poder público, seja na esfera regional ou nacional.

Ressalta-se que antes mesmo da Guerra Civil do Contestado ocorrer, Brasil e Argentina tiveram divergências em relação aos limites de seus territórios, situados a oeste da linha imaginária de Tordesilhas, gerando inclusive problemas diplomáticos entre as duas nações. A guerra foi um episódio complexo, pois sua gênese está pautada em vários fatores que se entrelaçam, os quais envolviam aspectos sociais, econômicos, políticos e culturais (FRAGA, 2006).

A hipótese levantada para a consecução deste artigo foi a de que a região do Contestado catarinense analisada nos dias atuais só pode ser compreendida se estudada sob o viés dos aspectos históricos de uso e ocupação da terra levando em consideração o conflito ocorrido no início do século XX.

Estudos envolvendo aspectos da História e da Geografia da região do Contestado catarinense são de suma importância para a divulgação e preservação da cultura e da memória de um povo que sofreu inúmeras injustiças no início da era denominada de "Brasil República".

FIGURA 1 - MAPA DE LOCALIZAÇÃO DA REGIÃO DO CONFLITO NO ESTADO DE SANTA CATARINA FONTE: O AUTOR (2011)

METODOLOGIA

Para a consecução desta pesquisa foram realizados os seguintes procedimentos metodológicos: revisão bibliográfica, trabalhos de campo e síntese dos dados obtidos.

No que tange à revisão bibliográfica, foram levantadas informações sobre o tema "Guerra do Contestado" e sobre aspectos geográficos da região em questão. Nesta etapa da pesquisa, utilizaram-se fontes secundárias, tais como livros, teses e artigos científicos.

Em relação aos trabalhos de campo, os mesmos foram realizados entre os dias 18, 19 e 20 de março de 2011. Foram visitados os seguintes municípios catarinenses: Três Barras, Matos Costa, Calmon, Caçador, Lebon Régis, Iomerê, Salto Veloso, Videira, Treze Tílias e Irani. Inicialmente foi estabelecido um itinerário que compreendeu a visita a museus, os quais, majoritariamente situam-se nas antigas estações ferroviárias dos principais municípios envolvidos na região do Contestado. As observações em campo foram sistemáticas, pois envolveram a visualização direta dos aspectos históricos e geográficos num intervalo temporal previamente determinado.

Adicionalmente, pôde-se também estabelecer diálogos de caráter informal com moradores da região, procedimento este que permitiu verificar o que a Guerra do Contestado representa para estas pessoas na atualidade.

A pesquisa foi realizada sob a luz do método histórico. A abordagem preconizada pelo método histórico consiste na investigação de acontecimentos, processos e instituições do passado para que ocorra a verificação da influência na sociedade atual, haja vista que as instituições alcançaram sua forma atual através de alterações de suas partes componentes ao longo do tempo (MARCONI e LAKATOS, 2009, p. 34). Dessa forma, a abordagem pautada no método histórico pode promover um contexto para a análise das organizações, ou seja, as ligações existentes entre organizações e sociedade (GOLDMAN, 1994).

Além disso, o uso da percepção nas visitas realizadas aos municípios que foram palco da guerra foi utilizado enquanto uma forma diferenciada de ver e compreender a região. Considera-se assim, a percepção como uma atividade mental de interação da pessoa com o ambiente que ocorre por meio de mecanismos perceptivos (visão, audição, tato, olfato e paladar) e cognitivos (que envolvem a inteligência, também fazendo parte as motivações, os humores, os conhecimentos prévios, os valores e as expectativas) (ROCHA, 2007).

A GUERRA DO CONTESTADO

Os antecedentes da Guerra do Contestado remetem-se a problemática luso-espanhola, onde os dirigentes de Portugal e Espanha não conseguiram estabelecer os seus limites territoriais na América. Posteriormente ao período colonial, houve um problema alusivo aos limites internos, onde, de um lado estava a Capitania (depois província e hoje estado) de Santa Catarina e, de outro, a Capitania (depois província de São Paulo e a partir de 1853, a província, depois estado do Paraná) (FRAGA, 2005).

Diversos são os fatores causadores da Guerra do Contestado. Nesse sentido:

"A antiga questão de divisas entre o Paraná e Santa Catarina (incluindo disputas pela posse de terras ricas em erva-mate e araucárias e a ausência governamental no território disputado), a presença do capital internacional representado pela ferrovia São Paulo - Rio Grande, através da empresa Brazil Railway e pela madeireira Southern Brazil Lumber & Colonization Company; os conflitos fundiários decorrentes da implantação da ferrovia; o sistema de estratificação social centrado no coronelismo sertanejo e o sistema econômico regional pautado no extrativismo florestal, além de outras secundárias foram causas decisivas para a deflagração da Guerra do Contestado." (TOKARSKI, 2002, p. 153).

Ainda sobre as questões que envolveram a gênese do conflito cabe ressaltar que:

"Os camponeses dessa região litigiosa viam na República a lei do diabo, uma vez que durante a Monarquia eles viviam ali, em liberdade, cultivando a terra e extraindo as riquezas das florestas que compunham o interior catarinense. A imposta República chegou trazendo consigo novas medidas de ocupação dessa região." (FRAGA, 2005, p. 245)

Nos dizeres de Giumbelli (1997), a Guerra do Contestado foi um movimento religioso rural que teve como um dos principais atores, os sertanejos[2] da região serrana de Santa Catarina. Também denominada de Guerra Santa do Contestado, a mesma teve repercussão nacional e envolveu além das questões acima referidas o messianismo-milenarismo (NEGRÃO, 2001).

A presença de três "monges", pessoas que diziam realizar curas e milagres na região estavam ao lado dos caboclos, liderando inclusive alguns grupos contra as forças militares. Na época, a igreja apontava a figura dos monges como inimigos do clero (FERREIRA, 2007).

Entre os anos de 1912 e 1916, forças do Exército Brasileiro e da polícia do Paraná e de Santa Catarina estiveram em oposição à população cabocla de uma região situada no sudoeste do Paraná e oeste de Santa Catarina. A área disputada por estes dois estados desde o período do "Brasil Império" compreendia a região limitada pelos rios Uruguai, Iguaçu, do Peixe e pelas fronteiras da Argentina, perfazendo um total de aproximadamente 48.000 km2 (WACHOWICZ, 1988).

Lopes (2008) aponta que o conflito ocorreu independentemente da questão de limites territoriais entre os estados do Paraná e de Santa Catarina. Este mesmo autor comenta também que o fato de existir a disputa territorial entre os dois estados pode ter contribuído para agravar o problema entre a população pobre e os coronéis e as empresas - concessionária da ferrovia e exploradoras de madeira e erva-mate, "donas" da região (LOPES, 2008).

Na época, a região era muito rica em pinheiros (Araucaria angustifólia) nativos, imbuía (Ocotea porosa), canela (Ocotea puberula) e erva-mate (Ilex paraguaiensis). Dessa forma, a mesma era cobiçada pelos grandes empreendedores da época. Assim, para estes, a população cabocla era vista como um empecilho, pois os mesmos dificultariam a exploração florestal da região.

Nos dizeres de Gallo (2001), os caboclos no início do século XX deviam viver em seus redutos com laços de irmandade e colocando à disposição da coletividade todos os bens materiais que possuíam.

No final do século XIX e início do século XX a linha férrea ligando São Paulo ao Rio Grande do Sul começou a ser construída e atravessa a região compreendida entre os rios Iguaçu e Uruguai (FRAGA, 2005). A empresa Brazil Railway detentora dos direitos sobre a construção da ferrovia possuía também o direito sobre as terras situadas as margens da estrada de ferro (FERREIRA, 2007). Dessa forma, "... tratou de colocar para fora de seus domínios todas as pessoas que ocupavam terras e não possuíam títulos de propriedade." (FRAGA, 2005, p. 67)

Ressalta-se que na época do império a concessão da construção dava direito de exploração de terras situadas a até 30 quilômetros de ambas as margens da ferrovia. No período republicano esses limites diminuíram para 15 quilômetros em ambas as margens (FRAGA, 2005). A concessão simplesmente ignorava posseiros e até mesmo proprietários antigos (KRÜGGER, 2004).

Os motivos que levaram o governo imperial a construir a estrada de ferro entre o interior do Paraná e de Santa Catarina era o de preenchê-lo, para garantir a integração entre o Brasil do Sul e o Brasil do Centro-Oeste (FRAGA, 2010) e promover a fixação de imigrantes nas terras devolutas dos campos do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, e nos sertões do Paraná e de São Paulo (SACHET e SACHET, 1997).

No período da guerra, o Contestado constituiu um território, que num primeiro momento do conflito foi dominado pelos caboclos e, posteriormente pelo estado nacional e forças militares dos dois estados em questão. Tokarski (2002) em artigo que trata das pluralidades e singularidades entre os conflitos de Canudos e do Contestado comenta que à época destas divergências, a inércia das políticas públicas no âmbito nacional era sustentada por um semifeudalismo econômico presente no Brasil República.

Sobre o número de pessoas que perderam a vida no conflito, não existem informações precisas. Estes números divergem bastante de açodo com os diferentes autores que tratam do Contestado. Entre os militares morreram aproximadamente 320 pessoas e entre os civis as estimativas variam entre 3 mil e 20 mil pessoas (KRÜGGER, 2004).

Em período posterior a guerra, o ano de 1917 é tido historicamente como o "ano da limpeza" étnica das terras que estavam sob domínio da madeireira Lumber e dos coronéis. Com a saída da imprensa da área do conflito, os coronéis latifundiários junto com o corpo de segurança da empresa Lumber trataram de expulsar e assassinar os posseiros ainda remanescentes da guerra (FRAGA, 2010).

Muitos sobreviventes da Guerra do Contestado migraram para fugir das perseguições e buscaram nas matas fechadas de erva-mate e pinheiro do sudoeste paranaense abrigo (KRÜGGER, 2004) para refazerem suas vidas.

A MEMÓRIA DA SOCIEDADE EM RELAÇÃO À GUERRA

A memória alusiva a Guerra está materializada em museus, monumentos e placas comemorativas, os quais são encontrados em diversos municípios da região. Os museus apresentam um rico acervo de objetos do período da guerra. Estes variam desde fotografias até fardas militares e armas utilizadas nos combates do Contestado.

Além disso, municípios como Calmon e Matos Costa, por exemplo, levam o nome de personagens importantes da Guerra do Contestado. Consta no sítio oficial do Governo de Santa Catarina que Calmon leva o sobrenome de um de seus desbravadores caboclos que investiram no corte da madeira no início do Século XX (GOVERNO DO ESTADO DE SANTA CATARINA, 2011). Já o município de Matos Costa leva este nome em homenagem ao capitão João Teixeira de Matos Costa, morto durante o conflito.

No município de Irani[3] (Figura 2), mais precisamente na área conhecida como Vale da Morte, teve início, no ano de 1912 a Guerra do Contestado. Nesse local, que no passado possuía uma pequena vila onde residiam caboclos, as tropas comandadas pelo coronel João Gualberto, provenientes do estado do Paraná, entraram em conflito dando início a maior guerra civil brasileira.

No sítio oficial do Governo Federal, consta um pequeno fragmento dizendo que o conflito representa o descontentamento popular com sua situação em relação ao domínio das terras naquela região (BRASIL, 2011).

FIGURA 2 - MONUMENTO ALUSIVO A GUERRA DO CONTESTADO. Fonte: O autor (2011).

A passagem de alunos (as) de mestrado e doutorado da Universidade Federal do Paraná pela região do Contestado deu origem a uma entrevista do professor Doutor Nilson Cesar Fraga para uma rádio do município de Calmon, no dia 18 de março de 2011.

Na entrevista, o professor Dr. Nilson Cesar Fraga, quando questionado pelo por um funcionário da rádio local, deixa explícita, por meio de suas palavras, a importância de uma visita de campo na região para que a história regional e a forma como o espaço foi construído (núcleos urbanos, ferrovias e rodovias, por exemplo), não sejam esquecidas pela sociedade em geral. Ressalta também que, no estado do Paraná, a questão do Contestado é um item esquecido pela sociedade.

Entre os moradores da região as visões sobre a guerra variam desde aquelas pessoas que não querem tocar no assunto, até aquelas que discursam de forma apaixonada sobre a guerra. Exemplo disso foram as explanações e conversas de caráter informal realizadas com o diretor de Turismo do município de Videira quando o mesmo relatou suas experiências junto a antigos moradores locais, descendentes de europeus ou mesmo imigrantes europeus. Segundo o diretor, muitas vezes essas pessoas negam-se em falar sobre a guerra. Nesse sentido, Fraga (2010) também argumenta tal fato dizendo que:

"Não se duvida de que a sociedade contestadense foi envolta por uma política de fazer esquecer, pois se incutiu a idéia de que os caboclos e os que lutaram com eles se resumiam numa horda de bandidos fanatizados - assim se constrói a idéia de sentir vergonha pelos fatos mencionados." (FRAGA, 2010, p. 84)

Já no município de Salto Veloso, parcela da comunidade local desenvolve o Projeto "O Contestado em Canto e Dança" desde o ano de 2006. Na praça central da cidade um grupo de jovens atores retrata numa peça teatral a Guerra do Contestado, resgatando assim a história regional. O projeto conta com o patrocínio do governo estadual de Santa Catarina e apoio da prefeitura municipal.

A REGIÃO DO CONTESTADO NOS DIAS ATUAIS

Para os dias atuais é mais apropriado adotar o conceito de região para referir-se ao conjunto dos locais que foram palco do conflito. Assim, adota-se o conceito proposto por Roberto Lobato Corrêa onde este autor coloca que a região é uma classe de área, ou seja, um conjunto de unidades de área, tal como os municípios, que apresentam grande uniformidade interna e significativa diferença diante de outros conjuntos (CORRÊA, 1997).

Este conceito pode ser aplicado levando em consideração a paisagem homogênea, constituída basicamente de pinus, situada num contexto histórico de uso e ocupação da terra peculiar.

No que tange ao aspecto fisiográfico a região oeste de Santa Catarina está inserida num planalto, o qual por sua vez insere-se no macrocompartimento geológico da bacia sedimentar do Paraná (ROSS, 1996). Predominam colinas e morros com topos arredondados, sustentados, principalmente por rochas basálticas. O relevo em certos locais apresenta-se bastante movimentado, o que inclusive pode justificar a presença maciça da monocultura de pinus na região. Atividades agrícolas convencionais, como plantio de soja e milho e utilização de mecanização são de difícil execução diante de um contexto fisiográfico caracterizado pela presença de grandes rupturas de declive e feições de relevo com alta declividade.

No passado (à época da Guerra) predominava na paisagem regional as matas de araucária (Araucaria angustifolia) (MAACK, 2002) pertencentes ao bioma mata atlântica. Ao longo dos últimos cem anos os pinheirais deram origem às extensas áreas de reflorestamento de Pinus (Pinus elliottii) que atendem tanto indústrias moveleiras nacionais como estrangeiras.

Uma das localidades que fogem da homogeneidade econômica e paisagística imbuída pela monocultura de pinus na região do Contestado catarinense é o município de Fraiburgo. Este apresenta significativa produção de maçãs, a qual movimenta a economia local. O cultivo no município de Fraiburgo corresponde a 51% de toda a produção catarinense e a 26% da produção nacional (IBGEa, 2011).

A instalação de grandes agroindústrias na região, principalmente a partir da década de 1950, repercutiu em novas mudanças na paisagem regional. Empresas do ramo alimentício e madeireiro destacam-se na região devido à produção relativamente grande e a existência do fluxo desses produtos que se destinam a diversos locais do país.

Atualmente, a região possui uma dinâmica econômica peculiar no contexto estadual com empresas madeireiras explorando reflorestamentos de pinus. A cidade de Treze Tílias é marcada pela presença de imigrantes austríacos. Possui bom potencial turístico devido basicamente a sua arquitetura e culinária pautada na cultura austríaca.

A Floresta Nacional de Caçador, situada no município homônimo, com reflorestamendo de pinus e araucária constitui a maior área reflorestada de araucária do mundo (IBGEb, 2011).

De um modo geral, a região da Guerra do Contestado, tanto no estado do Paraná, como em Santa Catarina, se caracteriza como pobre, do ponto de vista social e infra-estrutural (FRAGA, 2010).

O município de Irani com seus monumentos históricos e "resquícios" de um parque temático, direcionados à Guerra do Contestado, acena com a possibilidade de alavancar sua economia e divulgar sua história e cultura, por meio do turismo. Porém, o parque ainda encontra-se inacabado.

A migração de pessoas provenientes da Europa e dos Estados Unidos para trabalharem tanto na construção da estrada de ferro, como na companhia Lumber refletem-se até os dias de hoje. Isto pode ser verificado por meio dos sobrenomes dos descendentes destes imigrantes, que vivem na região do Contestado catarinense.

A região que outrora foi palco da guerra possui um bom potencial para o desenvolvimento de atividades de cunho turístico. Efeitos positivos sobre a economia regional podem ocorrer a partir de divulgação das potencialidades histórico-culturais e ambientais existentes na região. Nesse sentido Filippim, Hoffmann e Feger (2006) comentam que tanto os locais onde ocorreram batalhas, como onde os monges realizavam suas pregações ou acampavam são objeto de visitação turística, porém, sem um fluxo consolidado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A região que outrora teve uma dinâmica econômica baseada na exploração de florestas nativas e a utilização da rede ferroviária para circulação de pessoas e matérias-primas, hoje vive um momento histórico diferenciado.

A rede ferroviária hoje deu lugar à rede rodoviária, onde os caminhões transportam produtos dos ramos agropecuário e industriais. A madeira ainda existe, porém, não mais representada pelos vigorosos pinheiros e imbuías que no início do século XX cobriam naturalmente a região do Contestado. Predominam hoje na paisagem regional as árvores exóticas de pinus, as quais contribuem para a sustentação econômica de inúmeros municípios constituintes da região do Contestado.

Na memória das pessoas que vivem nessa região, existem diferentes visões sobre o que realmente foi a Guerra do Contestado. Para algumas, os caboclos não passavam de pessoas pobres, desempregadas e sem educação. Para outras os caboclos foram vítima da ganância de latifundiários pertencentes à oligarquia rural do incipiente "Brasil República".

Por meio da leitura e análise das diferentes obras consultadas para a consecução deste artigo, pôde-se notar que, no período em que antecedeu a Guerra do Contestado, a região estava vivendo um descaso por parte do governo federal e dos próprios estados do Paraná e de Santa Catarina. Dessa forma, a população abandonada à sua própria sorte desenvolveu a seu modo, uma maneira própria de viver em que não havia interferência direta dos governos (GALLO, 2001).

Não haviam políticas públicas direcionadas a população cabocla que lá vivia antes da chegada da Companhia Lumber e, posteriormente de imigrantes, representados majoritariamente por alemães e italianos.

A transição do Brasil entre o regime monárquico e republicano, aliado a falta de desconhecimento da real situação da região (sob o ponto de vista social, econômico e jurídico) por parte dos governantes estaduais e nacionais certamente contribuíram para a deflagração da guerra e, conseqüentemente para a morte injusta de milhares de pessoas.

É plausível a idéia de que seria melhor o governo republicano e os estados de Santa Catarina e Paraná, prestarem os auxílios devidos à população cabocla que vivia naquela região para que os mesmos ocupassem legalmente aquelas terras, do que deixá-los numa situação de descaso e posteriormente exterminá-los.

A construção de uma estrada de ferro, dando concessão de terras a uma empresa estrangeira, foi uma medida errônea, que não levou em consideração os aspectos humanos, de identidade nacional e de justiça, pois as pessoas que lá estavam eram antes de tudo brasileiras, catarinenses e paranaenses. O capital estrangeiro estava à frente de tudo, em detrimento do bem do povo caboclo - brasileiro, catarinense e paranaense.

REFERÊNCIAS

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CORRÊA, R. L. Região: tradição geográfica. In CORRÊA, R. L. Trajetórias Geográficas. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil. p. 183-196. 1997.

FERREIRA, H. F. Historiografia contestada. In: Santa Catarina em História. Florianópolis: UFSC, v. n. 1. p. 87-97. 2007.

FILIPPIM, M. L.; HOFFMANN, V. E. ; FEGER, J. E. Turismo rural no meio-oeste de Santa Catarina: características de gestão da atividade. IV Seminário de Turismo: Caxias do Sul, 2006. p. 14.

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GIUMBELLI, E. Religião e (Des)Ordem Social: Contestado, Juazeiro e Canudos nos Estudos Sociológicos sobre Movimentos Religiosos. Dados, Rio de Janeiro, v. 40, n. 2, 1997 . Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52581997000200004&lng=pt&nrm=iso> acesso em 23 mar. 2011.

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[1] Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Professor Assistente A, Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). E-mail: imeneguzzo@hotmail.com

[2] Diferentes autores utilizam as terminologias sertanejos e caboclos, referindo-se ao mesmo grupo de pessoas que viviam na região do Contestado.

[3] Atualmente, o local onde teve início a guerra está às margens da rodovia BR-153. Neste local, encontra-se sepultado o "monge" José Maria, um dos líderes caboclos. Também existem estruturas (arquibancada e anfiteatro) inacabadas as quais constituem parte de um parque temático que provavelmente terá suas obras finalizadas nos próximos anos.