ISSN 1807-1783                atualizado em 04 de janeiro de 2013   


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História do Burgo de Itacaiunas e da Casa Marabá: A Origem de Uma Cidade Amazônica - parte 2

por Heraldo Elias Montarroyos

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5 A biografia política do concessionário do Burgo

Na historiografia regional de Marabá, Carlos Gomes Leitão aparece, às vezes, como vítima de um movimento político sangrento envolvendo a luta pela terra em Goiás. Outras vezes, aparece como herói e empreendedor escolhendo o sudeste do estado do Pará com a intenção de fundar, civilizadamente, uma colônia agrícola moderna na Amazônia. Outras vezes, é um homem generoso, honesto e dedicado à família.

Entretanto, no livro intitulado "O crime do coronel Leitão: sedição na comarca de Boa Vista do Tocantins do estado de Goiás: 1892-1895", do autor Ignácio Xavier da Silva, são encontrados outros aspectos da personalidade desse coronel que não foram contemplados, até então, pela historiografia regional de Marabá.

Segundo informa o conteúdo desse livro, o fazendeiro Carlos Gomes Leitão nasceu no estado do Maranhão, na cidade de Caxias, em 1835. Seu avô, Francisco Germano da Silva, era um político atuante naquela cidade e foi por influência dele que o neto Carlos Leitão se interessou pela política desde cedo.

Especialmente por volta de 1890, na cidade de Boa Vista do Tocantins, Carlos Gomes Leitão decidiu apropriar-se da fazenda Cordilheira, e isso marcaria profundamente a sua biografia como latifundiário imperialista.

Para realizar a sua ambição de maneira aparentemente civilizada o coronel participou num leilão fictício, comprando essa fazenda por apenas 30 cabeças de gado, o que naquele tempo era absurdamente barato.

Informado a respeito do valor pago pelo coronel na compra da fazenda, o missionário Frei Gil de Vila Nova intrometeu-se no assunto e escreveu um artigo em um jornal de Goiás denunciando a transação realizada em condições duvidosas e que resultaram, finalmente, na compra do imóvel por um preço muito abaixo do mercado local.

Por trás do leilão, havia supostamente na opinião dos adversários o oportunismo do coronel, que deveria saber como todos os moradores da cidade sabiam que a proprietária da fazenda Cordilheira tinha sido recentemente assassinada, e o marido dela, o herdeiro legal, estava impossibilitado de assumir e de negociar a propriedade, visto que naquele momento era considerado o principal suspeito da morte de sua mulher. Essa confusão toda dependia da chegada do juiz que deveria julgar e resolver a situação do marido acusado e, por consequência, da fazenda Cordilheira.

De acordo com o que registrou o livro do autor Ignácio Xavier da Silva [3], frei Monsavito tentou neutralizar as ideias separatistas do coronel Carlos Gomes Leitão, excomungando a sua pessoa que daí em diante perdeu a companhia de muitos outros parceiros ideológicos. Frei Monsavito era catequizador antigo dos índios Apinajés. Foi ele quem levantou a capela no lugar que deu origem ao município de Boa Vista do Tocantins. Ele e o Padre João de Sousa Lima foram figuras marcantes na história política do atual estado do Tocantins.

Com a chegada do juiz Henrique Hermeto Martins, o processo judicial a respeito da morte da proprietária da fazenda foi ativado, convocando-se o júri popular com o objetivo de julgar se o marido era culpado ou não da morte da fazendeira. O júri foi marcado para o dia 29 de fevereiro de 1892 e tratava indiretamente, do destino da fazenda adquirida pelo coronel.

Continuando o que descreveu Ignácio Xavier da Silva, o coronel Carlos Gomes Leitão ameaçou expulsar o juiz da comarca, antevendo, provavelmente, o impacto que o julgamento poderia ter sobre a fazenda Cordilheira.

Apesar das ameaças e tentativas com a intenção de expulsar o juiz, Carlos Gomes Leitão não foi bem sucedido e o tribunal acabou sendo instalado, concluindo finalmente que o marido acusado de nome Claudio Gouveia não era efetivamente culpado da morte da esposa e, por extensão, foi absolvido, tornando-se livre e desimpedido para herdar a fazenda. Com esse resultado, o leilão que antes favoreceu o coronel perdeu automaticamente a sua duvidosa validade jurídica.

Algo semelhante já tinha acontecido na cidade de Boa Vista do Tocantins algumas décadas atrás. O avô do coronel Carlos Gomes Leitão, que o criou como filho, chegou a expulsar o juiz Manuel Cardoso de Miranda e desse modo dominou o poder político do município durante vários anos a partir de 1862.

Indignado, provavelmente com a perda da fazenda Cordilheira, menos de um mês depois Carlos Gomes Leitão juntou seus capangas armados na tentativa de conquistar o controle político da cidade de Boa Vista, cuja luta prosseguiu até o dia 1º de abril de 1892. Nos dias seguintes, Carlos Gomes Leitão precisou esconder-se na Barra do Mombuca e fugiu para o Porto Nacional, em Goiás, aonde chegou montado a cavalo, no dia 22 de abril. Depois, seguiu para Goiás Velho, em maio de 1892. Em seguida, no mês de agosto desse mesmo ano, convocou seus jagunços particulares e atacou Boa Vista, sendo de novo derrotado. Nos anos posteriores, fez outras tentativas de invasão ao município, mas nunca conseguiu ser vitorioso.

Seu maior oponente na época era o prefeito da cidade, Francisco de Sales Manoel Perna, além dos missionários que trabalhavam na catequese dos povos indígenas do rio Araguaia.

Admitindo o desgaste político provocado pelas derrotas nos últimos três anos, o coronel (talvez arruinado patrimonialmente e sem mandato eleitoral como deputado estadual por Goiás) buscou apoio providencial do governador paraense Lauro Sodré, obtendo felizmente dele uma concessão pública na forma de uma colônia agrícola no sudeste do estado do Pará, onde conseguiria viver em paz até o dia 13 de abril de 1903, quando então morreu com 68 anos de idade.

Outra referência complementar acerca da pessoa do coronel Carlos Gomes Leitão (que não foi utilizada pela historiografia regional de Marabá até o presente momento) é encontrada no livro "A esfinge do Grajaú", cuja primeira edição é de 1959, escrito por Dunshee Abranches. No começo da República, Abranches era um jovem promotor e visitou a trabalho a região maranhense conhecida como "Sertão dos Pastos Bons", onde moravam pessoas de todas as procedências do Brasil, incluindo-se antigos militantes da Confederação do Equador, negros fugitivos do tempo da Balaiada, brancos pobres e negros libertos. Em suas andanças, o jovem promotor chegou a alcançar as fronteiras do estado de Goiás e do Pará [4].

Nomeado pelo governador do Maranhão para conhecer a "Vila da Chapada" (ou Grajaú), o promotor Abranches recebeu ao mesmo tempo a tarefa de apaziguar os ânimos dos revoltosos que então alimentavam uma guerra política acirrada em torno do poder local que se arrastava desde o tempo da Monarquia, envolvendo agora na época da "Primeira República" o coronel Leão Leda, do extinto partido Liberal, e Araújo Costa, do extinto partido Conservador do Império [5].

Durante essa viagem política, o promotor Abranches conheceu o coronel Carlos Gomes Leitão, que lhe transmitiu pessoalmente a seguinte advertência histórica, "quase profética", nos seguintes termos [6]:

Meu jovem doutor reflita bem [sobre] o que eu vou lhe dizer: todos os sertões do aquém e além Tocantins e, com eles, as vastas regiões que se estendem pelo Araguaia afora em nada se assemelham ao resto das nossas províncias, quer pelo caráter, quer pelos sentimentos dos seus povos e deveriam constituir uma nova divisão autônoma do Brasil. Se as coisas não mudarem e continuarem estes rincões abandonados, oprimidos e massacrados pelos governos, acabarão no futuro por formar um Estado independente, talvez uma vasta República. E, nesse dia, a nossa Pátria, que não soube compreender o Grito do Ipiranga, permanecendo escravizada ao estrangeiro, é possível que tome enfim coragem e se liberte de verdade, soltando o Grito dos Sertões!

6 A descoberta do caucho no rio Itacaiunas

Alguns autores da historiografia local de Marabá afirmaram que a descoberta de grandes reservas naturais da árvore conhecida com o nome de caucho em torno do Burgo de Itacaiunas começou com as andanças dos colonos que procuravam campos naturais para fazer a pastagem dos bois. Naquele momento, a descoberta da borracha teria acontecido acidentalmente com a força dos tiros que saíram dos rifles dos colonos quando eles se distraíam com o tiro ao alvo e acabaram perfurando algumas árvores leitosas, ainda desconhecidas, o caucho, nos idos de 1895. De acordo com essa versão espetacular, devido ao impacto das balas no tronco das árvores percebeu-se gradativamente que o leite natural escorria e logo depois coalhava transformando-se num material borrachudo e maleável, segundo o que descreveu nesse caso a sertanista Carlota Carvalho, em seu livro "O sertão", publicado em 1924.

Nessa lenda pitoresca, os colonos ficaram impressionados com o fenômeno da coagulação da borracha e levaram uma pequena amostra para o seu patrão que enviou imediatamente parte desse material para Belém com o objetivo de ser avaliado pelos especialistas, cujo laudo - depois de longa espera  acabou atestando que se tratava mesmo do caucho, espécie castilloa, que é diferente da seringueira, da maçaranduba, da maniçoba, da mangaba e da balata, que também são espécies produtoras de borracha.

Na floresta, em estado natural, o caucho cresce 20 metros de altura, desenvolvendo um tronco de meio metro de diâmetro. Para conseguir o leite vegetal dessa espécie, em Marabá e na Amazônia em geral o caucheiro derrubava geralmente a árvore inteira pela raiz; em seguida, aplicava inúmeros golpes no tronco usando um pequeno machado; e por último, fazia a coleta do látex que escorria forçadamente da árvore que se encontrava caída, morta, abatida, "sangrando" no chão.

Outros autores da historiografia regional consideraram na história do caucho a presença da cultura dos povos indígenas que moravam nas margens do rio Tocantins, onde era manipulado tradicionalmente o látex em rituais festivos e religiosos. Diante dessa informação, concluíram alguns autores locais que o conhecimento popular sobre essa espécie vegetal chegaria inevitavelmente aos ouvidos dos colonizadores do Burgo, colocando em xeque, assim, qualquer lenda baseada no acaso.

Essa última versão histórica, digamos realista, parece razoável, porém, pode não ser verdadeira. O mais grave nessa versão, devemos admitir, é que não se projeta a partir dela qualquer visão fantástica sobre a epopeia da primeira grande atividade econômica de Marabá que foi a do caucho.

Independentemente, portanto, se a origem da descoberta do caucho é fictícia ou real, fato é que essa árvore leitosa foi progressivamente explorada e derrubada na região do rio Tocantins até 1920. Nesse ano, particularmente, com o fim da primeira guerra mundial, a situação da borracha brasileira como um todo, incluindo o caucho, ficou ainda pior, visto que a Malásia passou a abastecer o mercado internacional utilizando um novo modelo de produção através da silvicultura ou plantação racional de seringueiras no lugar do extrativismo aleatório praticado largamente na Amazônia.

É importante lembrar, no entanto, que todas as seringueiras da Malásia da espécie hevea brasiliensis eram de origem brasileira e foram transportadas secretamente da Amazônia para o Oriente sem autorização do governo brasileiro através da ação oportunista de um botânico inglês que veio pesquisar a flora amazônica em 1876.

Quando concluiu a sua "pesquisa", o naturalista inglês escondeu no navio mais de 70 mil mudas - ou sementes - de seringueiras que foram plantadas, posteriormente, na colônia oriental da Inglaterra, a Malásia, derrubando mais tarde, dessa forma, a tradicional economia brasileira a partir do ano de 1910.

Conforme atestam os números da receita publicados pela Secretaria Geral do Estado na época do governador Dionísio Bentes, em 1926, o caucho foi a maior fonte de renda do município, mesmo atravessando o difícil e conturbado período da primeira guerra mundial.

Apesar das enormes limitações internacionais que a borracha sofreu no mercado ao longo do período 1913-1945, a receita de Marabá derivada especificamente do caucho (cujo valor deve ter aumentado, paradoxalmente, por se tornar uma raridade no tempo da primeira guerra mundial) chegou a crescer timidamente como assim demonstra o quadro publicado pelo governo do estado nessa época.

É importante contextualizar que devido à competitividade da Malásia e à desordem existente no comércio internacional durante a primeira guerra mundial, a Amazônia foi quebrada economicamente "ao meio" e nunca mais conseguiu recuperar o esplendor econômico da borracha, mesmo contando com o investimento do magnata americano Henri Ford na década de 1930 que mandou plantar seringueiras em uma extensa área concedida pelo governo estadual no município de Santarém, ao longo do rio Tapajós, contratando pessoas que ele mesmo treinou para desenvolver o sistema racional da silvicultura.

De fato, na grande área geográfica do município de Marabá o decréscimo da produção borracheira medida em toneladas refletiu a sistemática crise reinante no cenário internacional envolvendo esse produto, principalmente a partir do ano de 1915. Entretanto, além da crise mundial da borracha brasileira, existiu outro agravante de ordem local que foi a extinção das reservas naturais do caucho que desapareceram completamente do mapa devido à irracionalidade técnica praticada no processo de coleta depredatória do látex, derrubando-se a árvore leitosa por inteiro.

Os números do governo Dionísio Bentes (em 1926) reforçam a suposição de que a decadência da economia do caucho no período da primeira guerra mundial refletiu a influência de dois fatores históricos: a dificuldade de comercialização internacional dessa matéria-prima e o desaparecimento das fontes naturais acessíveis que inicialmente existiam com relativa abundância no sudeste do estado do Pará.

Além do caucho, na década de 1920 o município de Marabá entrou no mercado internacional exportando a castanha-do-pará, o que gerou rendimentos cada vez mais significativos para a região e favoreceu não apenas os latifundiários, donos dos castanhais, mas também os políticos e funcionários da prefeitura que se aproveitavam descaradamente das verbas provenientes dos impostos derivados dessa prática econômica e também das trocas clientelísticas através das concessões temporárias feitas pela municipalidade em favor dos afilhados políticos  incluindo-se o povo pobre e as famílias locais- que sonhavam ter acesso aos castanhais localizados em áreas públicas.

Os números veiculados pelo governador Dionísio Bentes em 1926, que constam no relatório da viagem do secretário Deodoro de Mendonça (na época um dos maiores exportadores de castanha de Marabá), revelam que a produção da castanha-do-pará medida em hectolitros desenvolveu uma trajetória ascendente depois da primeira guerra mundial (1919).

Por outro lado, especialmente entre os anos de 1914 e 1927, a economia da castanha foi conquistando uma produtividade considerável e apresentou um detalhe ecológico diferente do que aconteceu com a economia do caucho. O diferencial é que a castanheira não podia ser derrubada porque sem a árvore não existiriam, obviamente, os ouriços ou bolas de castanhas que eram valorizadas pelo mercado nacional e estrangeiro.

A renda do caucho em Marabá

Fonte: "Viagem ao Tocantins", de Deodoro de Mendonça, em 1926, Secretário Geral do Estado, governo Dionísio Bentes.

Produção do caucho em Marabá

Fonte: "Viagem ao Tocantins", do secretário estadual Deodoro de Mendonça, 1926.

Derrubada do caucho na Amazônia, 1910, acervo IBGE.

Produção da Castanha em Marabá

Fonte: "Viagem ao Tocantins", do secretário geral Deodoro de Mendonça, em 1926, Governo do Estado.

Conclusão

O nome oficial do município de Marabá não faz referência ao Burgo de Itacaiunas; à poesia de Gonçalves Dias; ao Santo padroeiro da cidade São Félix de Valois; à cultura dos povos indígenas; à árvore leitosa; ao nome do coronel; ou então, ao vitaminado leite da castanha-do-pará servido antigamente com bastante popularidade nas panelas de barro onde se afogava, saborosamente, a carne do macaco, do jacaré, do jabuti, da paca ou do peixe tucunaré.

Se por acaso o nome do município tivesse feito alguma referência ao Burgo de Itacaiunas, poderíamos concluir esse estudo afirmando que sua origem foi burguesa. Da mesma forma, sua origem poderia ter sido católica; poética; indígena; borracheira; comercial; florianista, convertendo-se ao nome Florianópolis, ou então se quisermos estender ainda mais a lista de especulações, poderia ter sido leitosa por influência do leite do caucho, da castanha-do-pará, ou do nome do coronel Carlos Gomes - o "Leitão" mais famoso da história de Marabá.

Deixando de lado essa lista fantasiosa de possibilidades históricas, verdadeiramente a origem do nome oficial do município marabaense é barraqueira, representando a breve história de uma grande barraca de madeira que funcionou vendendo não somente gêneros alimentícios de primeira necessidade, mas também a companhia atraente de jovens mulheres meretrizes que vinham, provavelmente, e na maioria, do estado do Maranhão, patrocinadas ou convidadas pelo comerciante Francisco Coelho.

A lei estadual que concedeu autonomia ao distrito de Marabá em 1913 reforçou nada mais, nada menos, a herança barraqueira da Casa Marabá no aspecto físico e simbólico do termo. Reforçando essa teoria social, encontramos como exemplo um livro de história editado pela Prefeitura em 1984 (na página 184), que mostra a persistência dessa característica cultural atravessando gerações, ilustrada particularmente por meio de uma cena grosseira e preconceituosa, flagrada no cotidiano através do seguinte caso de polícia:

[...] o apelido marabaense ficou sendo o de todo indivíduo que fazia desordem em cabaré, desafiava a política local e os valentões da praça. Em Almeirim, uma prostituta de fora fez uma briga certa noite, anavalhou umas três, e pintou o sete antes de ser presa, ficando os moradores murmurando que provavelmente ela tenha vindo de Marabá, o que certamente não era realidade, mas serve para demonstrar a forma não muita meritória dos homens [e mulheres] que passaram pelo duríssimo treino das matas, aqui em Marabá.

O nome oficial do município de Marabá em 1913 reproduziu a memória do antigo barracão, armazém, comércio, cabaré ou bordel, onde havia uma animada movimentação reunindo trabalhadores que passavam semanas coletando o caucho nas florestas e finalmente, no retorno, procuravam se distrair longas horas com as jovens "marabaenses". É importante enfatizar que nesse contexto a comercialização do trabalho sexual de mulheres na Casa Marabá era um fenômeno social esperado no período da economia do caucho, e logo depois, da castanha-do-pará, espalhando-se na orla do rio Tocantins e na foz do rio Itacaiunas, atrelado ao surgimento de outros barracões e ao crescimento populacional masculino da cidade.

Cafuza da Amazônia, século XIX, acervo Biblioteca do Senado.

Moradores mais antigos (como o memorialista Walter Leitão Sampaio, em seu livro "Marabá: Pontal Verde - história mal contada") reforçam a nossa teoria barraqueira da cidade, contando que a rua e o bairro do Cabelo Seco, no antigo pontal, logo depois da extinção da Casa Marabá, presenciaram o aumento do número de residências humildes cobertas de palha de babaçu, feitas com paredes de taipa, e sem nenhum calçamento, construídas em terrenos impróprios e com bastante lama durante a época do inverno. Na década de 1910, há inclusive diversas notícias de constantes incêndios nessa área devido à facilidade de combustão da palha no verão amazônico com o agravante de estarem coladas as residências, ou barracas, uma nas outras. Nessa área conhecida hoje como Cidade Pioneira habitava uma grande população de caucheiros até 1930; nesse local, reuniam-se as "mulheres da vida", os trabalhadores da floresta e os comerciantes com suas lojas, botequins e cabarés.

De acordo com o que detalhou o memorialista Walter Leitão Sampaio, as mulheres que se dirigiam a essa parte da cidade vinham dos estados do Maranhão, Piauí e Goiás. Quando passeavam pelas ruas e tomavam banho no rio, essas mulheres acabavam chamando a atenção dos homens principalmente porque apresentavam exuberantes "cabelos encaracolados". De origem social pobre, as mulheres negras, mulatas e cafuzas que moravam no pontal de Marabá não tinham recursos financeiros para contratar bons cabeleireiros, pedicuras, esteticistas, nem mesmo condições para comprar alguns dos melhores cosméticos de beleza da praça. Por essa razão, quando precisavam cuidar dos cabelos as mulheres mais pobres utilizavam o "azeite de mamona", que era um produto natural economicamente acessível naquela época.

Entretanto, o efeito colateral desse produto capilar ficaria gravado para sempre na história urbana da cidade de Marabá, visto que o azeite de mamona ressecava os cabelos das mulheres afrodescendentes e com o vento e o sol da praia fazia com que eles ficassem ainda mais arrepiados, despertando assim o olhar interessado dos caucheiros, que diante do que viam, empolgados, pronunciavam em tom de "gabolice" a seguinte provocação:

"-Vamos hoje à casa das mulheres do cabelo seco!".

Foi gradativamente, portanto, a partir do relacionamento "cordial" entre os borracheiros e as mulheres do cabelo "arrepiado" que surgiu o bairro popular do "Cabelo Seco" no pontal de Marabá. Nessa mesma área, conforme descreveu João Brasil Monteiro, em seu livro "O castanheiro" (2001), o cidadão Acácio de Oliveira reaproveitou a estrutura do extinto barracão da Casa Marabá com outro nome, "Salão da Alegria", na década de 1920, reunindo uma quantidade abundante de mulheres disponíveis a fim de satisfazer a carência masculina, dentre elas, Maria Romana, Maria do Carmo e Hortência, procedentes da cidade Porto Nacional, antigamente, estado de Goiás. Além do "Salão da Alegria", existiram outros barracões populares na década de 1930 e 1940 no pontal de Marabá, como: "Antônio Espicha Couro", "Barro Branco", "Wilson Brasil", "Farid Salame", "Grajaú", "Jadão" e "Barata", sendo essas duas últimas boates consideradas as "mais sofisticadas".

Com tantas opções em termos de bares e cabarés, informa ainda o ilustre memorialista João Brasil Monteiro que era comum terem os patrões de resgatar os seus castanheiros tradicionais no xadrez da cidade, de nome São Luiz, uma vez que eles se recusavam - ou não podiam mesmo pagar - a altíssima conta que deviam nesses lugares, onde geralmente, aliás, se enfiavam o dia todo. Precisando, portanto, reiniciar o extrativismo da castanha, os patrões eram obrigados pela situação a falar diretamente com o delegado e a pagar propinas, resolvendo as dívidas da bebedeira e da farra com as mulheres que os melhores castanheiros não conseguiam pagar sozinhos, muito menos, sem a ajuda do "padrinho" coronel.

Até o ano de 1906, conforme registrou a historiografia local, a Casa Marabá foi o maior ponto de lazer dos trabalhadores que viviam durante semanas concentrados no trabalho excessivo da floresta e dos rios. Sobre essa realidade, informa a historiografia local que o decreto número 1.344-A, do dia 27 de dezembro de 1904, soube reconhecer de fato e de direito a importância social do barracão Marabá, derrubando o nome Itacaiunas e sobrepondo-se à expressão popular "Pontal", a grande ponta de terra que se projeta ainda hoje na direção do rio Tocantins, atualmente Núcleo Cidade Pioneira.

De acordo com a historiografia regional, o fim da Casa Marabá ficou associado na memória popular dos moradores do bairro Francisco Coelho - ou bairro popular Cabelo Seco - ao tiro de espingarda acidental que atingiu supostamente o pé desse comerciante, que ficou ferido, não cicatrizou e evoluiu para uma grave infecção generalizada que provocou finalmente a sua morte. Apesar de ser essa versão histórica muito popular no imaginário social e na mídia marabaense é importante destacar o fato de que não existe nenhuma fonte primária comprovando essa notícia que pode, inclusive, estar omitindo uma realidade pior, que na época provocaria, talvez, uma grande revolta ou indignação no distrito, caso fosse revelada publicamente. Também existe outra versão popular sobre esse triste acontecimento afirmando que Francisco Coelho teria sido vítima do ataque de uma arraia dentro do rio, mas nada disso tem qualquer comprovação ou indício confiável até hoje. Diante da escassez de fontes primárias a respeito desse tema da história social de Marabá, existe a possibilidade de ter ocorrido um homicídio, admitindo-se, por exemplo, algum tipo de pendência mal resolvida entre Francisco Coelho e a família do falecido Carlos Gomes Leitão na época da extinção do Burgo associada cronologicamente com a prosperidade econômica da Casa Marabá que poderia muito bem ter despertado a inveja e o revanchismo de outros barracões concorrentes ou mesmo dos agregados do coronel Carlos Gomes Leitão. Além disso, existem outras possibilidades palpitantes como, por exemplo, algum problema de ordem particular do comerciante Francisco Coelho com suas empregadas, servas ou quase escravas que trabalhavam - não se sabe em que condições - fornecendo carícias e prestando serviços domésticos numa época em que não havia, inclusive, nem carteira de trabalho!

É importante considerar, por último, que a exploração sexual de mulheres adolescentes que vinham de fora, principalmente do estado do Maranhão, não foi exclusividade da Casa Marabá. Em 1897, ou seja, mais de cem anos atrás, existiam várias localidades no interior da Amazônia frequentadas pelo povo masculino que também desenvolviam esse tipo de prática social, inclusive ao longo do rio Tocantins. Como exemplo desse fato, o inspetor Ignácio Moura (1910, p. 147) registrou em seu relatório de viagem, perto da cidade de Cametá, no Baixo Tocantins, que "[sua] tripulação se reanim[ou] com a aproximação do Arumateua, ponto obrigado de aguada na navegação e onde se encontra[va] grande pessoal para completar as tripulações; carne fresca para fazer a matalotagem; folguedos para passar alguns dias; e mulheres que vend[iam] carícias, fumo e aguardente" [grifo nosso].

Referências

ALBUQUERQUE, Luiz Cavalcanti. Estudos econômico-financeiros: A Amazônia em 1893. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1894.

CARVALHO, Carlota. O sertão: subsídios para a história e a geografia do Brasil. Imperatriz: Ética, 2000.

MARABÁ. Prefeitura Municipal (administração Paulo Bosco Rodrigues Jadão). Marabá: a história de uma parte da Amazônia, da gente que nela vivia e da gente que desbravou e dominou, fazendo-a emergir para a civilização de 1892 até nossos dias. [s.l.], [s.n.], 1984.

MONTEIRO, João Brasil. O castanheiro. Marabá: s.n., 2001.

MOURA, Ignácio Baptista. De Belém a S. João do Araguaia: vale do rio Tocantins. Rio de Janeiro: H. Garnier Livreiro Editor, 1910.

SAES, Guillaume Azevedo Marques de. A república e a espada: a primeira década republicana e o florianismo. São Paulo: Universidade de São Paulo, USP, 2005.

SAMPAIO, Walter Leitão. Marabá: pontal verde  história mal contada. São Paulo: Art Link Comunicação e Assessoria, 2000.

SILVA, Ignácio Xavier da. O crime do coronel Leitão (1935). Disponível em: www.usinadeletras.com.br ou www.mariormartins.com.br. Acesso: 15 de março de 2011.


[3] Todas as informações atribuídas ao conteúdo desse livro foram extraídas da resenha disponível no site www.usinadeletras.com.br.

[4] Informação extraída de um escrito de autoria do professor Alan Kardec Gomes Pacheco Filho, da Universidade Estadual do Maranhão, departamento de História e Geografia, e doutorando em História pela Universidade Federal Fluminense, com orientação da professora doutora Ana Maria Mauad Essus. O título do escrito é "O sertão do maranhão pela historiografia local". Disponível na internet. O escrito especificamente utilizado em nossa pesquisa não apresenta indicativo de que tenha sido publicado em alguma revista especializada, nem apresenta data de publicação.

[5]Informações obtidas no escrito do historiador Alan Kardec Gomes Pacheco Filho, da Universidade do Estado do Maranhão.

[6] Disponível no escrito avulso que faz parte da tese de doutorado do professor Alan Kardec, intitulada "O sertão do Maranhão pela historiografia local".