ISSN 1807-1783                atualizado em 06 de abril de 2005   


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Você já pensou em participar de um projeto de Arqueologia Subaquática?

por Glória Tega


Arquivo NAS Brasil
Exercício realizado em piscina.
Você já pensou em participar de um projeto de Arqueologia Subaquática

Quem não se lembra daqueles filmes de Jacques Costeau onde diversas pessoas, dentro de um navio, discutiam sobre mapas e imagens do fundo do mar e depois mergulhavam em locais fascinantes e incomuns? Não é impossível ter aquele tipo de trabalho. Os arqueólogos subaquáticos têm uma rotina não tão mágica como a dos filmes de Costeau, mas pode-se dizer que eles têm sim um trabalho fascinante e incomum. No Brasil,  incomum mesmo é  encontrar um desses profissionais. Flávio Rizzi Calippo é um desses raros arqueólogos subaquáticos brasileiros.

 

Bacharel em Oceanografia e Mestre em Arqueologia pela USP, ele é hoje pesquisador do Centro Estudos de Arqueologia Náutica e Subaquática do Núcleo de Estudos Estratégicos da UNICAMP. Calippo já participou de diversas pesquisas em Arqueologia Subaquática no Brasil e no exterior, através das quais, ao lado de Gilson Rambelli e Paulo Fernando Bava de Camargo, tornou-se instrutor da Nautical Archaeology Society – NAS. A entidade é uma organização não-governamental internacional, sediada na Grã-Bretanha, que conta com o apoio da UNESCO e do International Comitte of Underwater Cultural Heritage – ICUCH, do ICOMOS, para qualificar recursos humanos em arqueologia subaquática e trabalhar em prol da proteção e gestão do Patrimônio Cultural Subaquático.

 

Segundo o consenso internacional, dos especialistas, uma das maneiras mais eficientes de preservar o Patrimônio Cultural Subaquático é torná-lo acessível a todos. "Quanto mais as pessoas visitarem os sítios arqueológicos submersos, participarem de projetos sérios de pesquisa e se tornarem mais sensíveis para a importância histórica e turística desse patrimônio, mais fácil será a sua proteção e gestão. Na verdade, o que se espera é que, um dia, os mergulhadores sejam tão defensores do Patrimônio Cultural Subaquático como são da fauna e flora", explica Calippo.

 

Buscando desenvolver tal consciência no mergulho brasileiro, desde 2000, juntamente com Rambelli e Bava de Camargo, Calippo ministra os cursos de Introdução à Arqueologia Subaquática da NAS. No próximo mês de abril, haverá um curso NAS na cidade paulista de Jundiaí. Esta pode ser uma oportunidade para muitos que sempre imaginaram ter um trabalho fascinante e incomum. O curso de Introdução à Arqueologia Subaquática da NAS  é o tema da nossa entrevista. Acompanhe:

 

HH – Antes de tudo, você poderia, em poucas palavras, definir o que é a Arqueologia Subaquática?
FC – Plagiando o meu amigo Rambelli, a Arqueologia Subaquática nada mais é do que a versão "molhada" da Arqueologia. É importante deixarmos claro que é a mesma ciência. Pois, os sítios arqueológicos submersos no Brasil sofrem conseqüências gravíssimas, até da própria legislação, devido a esta incompreensão conceitual. A água não limita a capacidade do arqueólogo de estudar a cultura material que se encontra submersa em águas interiores (rios, lagos, represas), costeiras ou oceânicas.

 

HH – Como é o curso NAS?

FC – Além de dar aos iniciantes uma idéia geral do histórico e do mundo da Arqueologia Subaquática, a proposta do curso é preparar qualquer pessoa para participar de pesquisas em Arqueologia Subaquática. É importante ressaltar que não pretendemos, com o curso, formar arqueólogos subaquáticos, mas  sim, permitir que apaixonados pelo assunto possam travar um maior contato com a Arqueologia, participando de projetos de pesquisa coordenados por arqueólogos que mergulham.

 

HH – Só mergulhadores podem fazer o curso?

FC – Não. Qualquer pessoa pode fazer um curso NAS. Justamente por isso ele é divido em vários Módulos. O Curso que estaremos ministrando em Jundiaí tem dois módulos que poderão ser feitos simultaneamente: o primeiro é teórico, para quem ainda não mergulha; o segundo, além da parte teórica, envolve a realização de exercícios e a aplicação, em piscina (para quem mergulha), de técnicas de registro arqueológico. E, mais para frente, estamos planejando também a realização de um outro módulo, o Nível 2 da NAS, que é a continuação de tudo isso, com a participação do aluno em uma pesquisa científica.

 

HH – Por que fazer um curso de Arqueologia Subaquática?

FC – É um tema que fascina muita gente, mas é pouco difundido! Assim, eu colocaria a informação, o conhecimento, em primeiro lugar. Em segundo, eu destacaria a possibilidade de o despertar de uma futura especialização. Em outras partes do mundo não é raro encontrar profissionais de diferentes áreas, tais como fotógrafos, administradores, engenheiros, advogados, jornalistas, geólogos e etc, integrando, como voluntários, equipes de pesquisa. Seja de uma forma ou outra, o curso é importante para a Arqueologia brasileira, e em particular para a Subaquática, pois permite uma aproximação de pessoas sensíveis à temática, que nos auxiliam na árdua luta contra a pilhagem do patrimônio cultural subaquático no Brasil.      

 

HH – Que tipo de credenciamento e onde o aluno poderá atuar ao concluir o curso?

FC – Os participantes receberão um certificado internacional da NAS, no formato de um Passaporte, através do qual poderão participar ativamente em projetos de pesquisa coordenados, em todo mundo, por arqueólogos mergulhadores, comprometidos com a Convenção da UNESCO. Além de participar, nesse passaporte são registrados os cursos e as experiências acumuladas pelos alunos, permitindo-lhes assumir funções cada vez mais especializadas a cada nova etapa de pesquisa.  

 

HH –  Qual é a importância da NAS no mundo? O que representa ser um instrutor NAS?

FC – A NAS tem entre seus objetivos principais qualificar pessoas em Arqueologia Subaquática e fomentar atividades em prol da proteção e gestão do Patrimônio Cultural Subaquático, dando, assim, suporte às demandas que surgiram em decorrência da adoção, pela UNESCO, da "Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático". Portanto, ser um instrutor NAS é mais do que ter o privilégio de tomar contato com o que de mais significativo foi produzido em Arqueologia Subaquática no mundo. É ter a oportunidade de sensibilizar e qualificar pessoas que possam efetivamente vir a contribuir conosco na difícil, mas necessária tarefa de proteger para as gerações futuras o Patrimônio Cultural subaquático em águas brasileiras.

 

Os interessados no curso NAS em Jundiaí podem obter outras informações através do telefone (11) 45865051.