Você já pensou em participar de um projeto de Arqueologia Subaquática
Quem
não se lembra daqueles filmes de Jacques Costeau onde diversas pessoas, dentro
de um navio, discutiam sobre mapas e imagens do fundo do mar e depois
mergulhavam em locais fascinantes e incomuns? Não é impossível ter aquele
tipo de trabalho. Os arqueólogos subaquáticos têm uma rotina não tão
mágica como a dos filmes de Costeau, mas pode-se dizer que eles têm sim um
trabalho fascinante e incomum. No Brasil, incomum mesmo é encontrar
um desses profissionais. Flávio Rizzi Calippo é um desses raros arqueólogos
subaquáticos brasileiros.
Bacharel
em Oceanografia e Mestre em Arqueologia pela USP, ele é hoje pesquisador do
Centro Estudos de Arqueologia Náutica e Subaquática do Núcleo de Estudos
Estratégicos da UNICAMP. Calippo já participou de diversas pesquisas em
Arqueologia Subaquática no Brasil e no exterior, através das quais, ao lado de
Gilson Rambelli e Paulo Fernando Bava de Camargo, tornou-se instrutor da
Nautical Archaeology Society – NAS. A entidade é uma organização
não-governamental internacional, sediada na Grã-Bretanha, que conta com o
apoio da UNESCO e do International Comitte of Underwater Cultural Heritage –
ICUCH, do ICOMOS, para qualificar recursos humanos em arqueologia subaquática e
trabalhar em prol da proteção e gestão do Patrimônio Cultural Subaquático.
Segundo
o consenso internacional, dos especialistas, uma das maneiras mais eficientes de
preservar o Patrimônio Cultural Subaquático é torná-lo acessível a todos.
"Quanto mais as pessoas visitarem os sítios arqueológicos submersos,
participarem de projetos sérios de pesquisa e se tornarem mais sensíveis para
a importância histórica e turística desse patrimônio, mais fácil será a
sua proteção e gestão. Na verdade, o que se espera é que, um dia, os
mergulhadores sejam tão defensores do Patrimônio Cultural Subaquático como
são da fauna e flora", explica Calippo.
Buscando
desenvolver tal consciência no mergulho brasileiro, desde 2000, juntamente com
Rambelli e Bava de Camargo, Calippo ministra os cursos de Introdução à
Arqueologia Subaquática da NAS. No próximo mês de abril, haverá um curso NAS
na cidade paulista de Jundiaí. Esta pode ser uma oportunidade para muitos que
sempre imaginaram ter um trabalho fascinante e incomum. O curso de Introdução
à Arqueologia Subaquática da NAS é o tema da nossa entrevista.
Acompanhe:
HH
– Antes de tudo, você poderia, em poucas palavras, definir o que é a
Arqueologia Subaquática?
FC – Plagiando o meu amigo Rambelli, a Arqueologia Subaquática nada mais é
do que a versão "molhada" da Arqueologia. É importante deixarmos
claro que é a mesma ciência. Pois, os sítios arqueológicos submersos no
Brasil sofrem conseqüências gravíssimas, até da própria legislação,
devido a esta incompreensão conceitual. A água não limita a capacidade do
arqueólogo de estudar a cultura material que se encontra submersa em águas
interiores (rios, lagos, represas), costeiras ou oceânicas.
HH
– Como é o curso NAS?
FC
– Além de dar aos iniciantes uma idéia geral do histórico e do mundo da
Arqueologia Subaquática, a proposta do curso é preparar qualquer pessoa para
participar de pesquisas em Arqueologia Subaquática. É importante ressaltar que
não pretendemos, com o curso, formar arqueólogos subaquáticos, mas sim,
permitir que apaixonados pelo assunto possam travar um maior contato com a
Arqueologia, participando de projetos de pesquisa coordenados por arqueólogos
que mergulham.
HH
– Só mergulhadores podem fazer o curso?
FC
– Não. Qualquer pessoa pode fazer um curso NAS. Justamente por isso ele é
divido em vários Módulos. O Curso que estaremos ministrando em Jundiaí tem
dois módulos que poderão ser feitos simultaneamente: o primeiro é teórico,
para quem ainda não mergulha; o segundo, além da parte teórica, envolve a
realização de exercícios e a aplicação, em piscina (para quem mergulha), de
técnicas de registro arqueológico. E, mais para frente, estamos planejando
também a realização de um outro módulo, o Nível 2 da NAS, que é a
continuação de tudo isso, com a participação do aluno em uma pesquisa
científica.
HH
– Por que fazer um curso de Arqueologia Subaquática?
FC
– É um tema que fascina muita gente, mas é pouco difundido! Assim, eu
colocaria a informação, o conhecimento, em primeiro lugar. Em segundo, eu
destacaria a possibilidade de o despertar de uma futura especialização. Em
outras partes do mundo não é raro encontrar profissionais de diferentes
áreas, tais como fotógrafos, administradores, engenheiros, advogados,
jornalistas, geólogos e etc, integrando, como voluntários, equipes de
pesquisa. Seja de uma forma ou outra, o curso é importante para a Arqueologia
brasileira, e em particular para a Subaquática, pois permite uma aproximação
de pessoas sensíveis à temática, que nos auxiliam na árdua luta contra a
pilhagem do patrimônio cultural subaquático no Brasil.
HH
– Que tipo de credenciamento e onde o aluno poderá atuar ao concluir o curso?
FC
– Os participantes receberão um certificado internacional da NAS, no formato
de um Passaporte, através do qual poderão participar ativamente em projetos de
pesquisa coordenados, em todo mundo, por arqueólogos mergulhadores,
comprometidos com a Convenção da UNESCO. Além de participar, nesse passaporte
são registrados os cursos e as experiências acumuladas pelos alunos,
permitindo-lhes assumir funções cada vez mais especializadas a cada nova etapa
de pesquisa.
HH
– Qual é a importância da NAS no mundo? O que representa ser um
instrutor NAS?
FC
– A NAS tem entre seus objetivos principais qualificar pessoas em Arqueologia
Subaquática e fomentar atividades em prol da proteção e gestão do
Patrimônio Cultural Subaquático, dando, assim, suporte às demandas que
surgiram em decorrência da adoção, pela UNESCO, da "Convenção sobre a
Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático". Portanto, ser um
instrutor NAS é mais do que ter o privilégio de tomar contato com o que de
mais significativo foi produzido em Arqueologia Subaquática no mundo. É ter a
oportunidade de sensibilizar e qualificar pessoas que possam efetivamente vir a
contribuir conosco na difícil, mas necessária tarefa de proteger para as
gerações futuras o Patrimônio Cultural subaquático em águas brasileiras.
Os interessados no curso
NAS em Jundiaí podem obter outras informações através do telefone (11)
45865051.