ISSN 1807-1783                atualizado em 16 de fevereiro de 2007   


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Arqueologia Subaquática em Portugal

por Glória Tega


Francisco Alves esteve no Brasil em 2005
Foto de Glória Tega

O português Francisco Alves hoje é diretor do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS – Portugal), mas o caminho até aqui não foi fácil. O arqueólogo tem muita história para contar e muitos conselhos para dar. Sobre a situação do patrimônio cultural subaquático brasileiro ele diz: “Um país como o Brasil, com sua espantosa potencialidade, só vai se enriquecer se realmente mudar seu caminho e só vai se empobrecer se o mantiver no estado em que está.”. Confira a entrevista.

H-H: Como o senhor se envolveu com Arqueologia?

FRANCISCO ALVES: Eu comecei por acaso. Eu estava fazendo um curso mais centrado em história da antiguidade, especificamente sobre a mitologia grega.

H-H:  O senhor fez faculdade de história?

FRANCISCO ALVES: Sim. E eu mesmo procurei várias disciplinas e todas elas estavam ligadas aos mitos da navegação, à pirataria, à guerra no mar. Uma das disciplinas que era obrigatória era a arqueologia, que tinha uma componente, também obrigatória, que era participação em escavações. E esse foi o meu primeiro contato com arqueologia. A partir daí, eu nunca mais larguei. Acabei me desviando da história das religiões e da antiguidade e trabalhando somente com coisas ligadas à arqueologia. Mas houve um fato que acabou sendo decisivo no meu desvio para a arqueologia náutica e subaquática. Depois dessa fase de formação, eu vivi um período de 11 anos na França e depois voltei à Portugal para trabalhar em Braga, ao norte do Porto, durante quatro anos, e aí, pela primeira vez, tive a oportunidade de trabalhar e criar uma equipe de arqueologia no quadro de um grande salvamento urbano. E foi em decorrência deste trabalho de Braga que eu fui convidado para voltar a Lisboa, num período de reorganização da arqueologia portuguesa. Na época o Museu Nacional de Arqueologia estava fechado. Eu aceitei, com algumas condições que se referiam a estabilidade da minha equipe em Braga, a minha perspectiva sobre a arqueologia regional e arqueologia regionalizada. Essas propostas foram aceitas em conjunto com vários instrumentos legais como a legislação sobre os serviços regionais sobre arqueologia, a revitalização do Museu de Arqueologia de Braga, enfim, então eu fui para Lisboa. Durante dois anos, ao mesmo tempo em que eu era diretor do Museu Nacional de Arqueologia, participei da organização do setor de Arqueologia do Patrimônio do Instituto Português do Patrimônio Cultural (IPPC). Foi aí que começaram a ser organizados os serviços regionais do Norte, do Centro e do Sul, também foi organizado um Conselho Consultivo Nacional. Bem, passados alguns anos eu apenas fiquei com a direção do Museu Nacional de Arqueologia até 1986. Fui durante 16 anos diretor desse Museu e desde o primeiro ano, estando numa posição central da arqueologia portuguesa, todos os relatórios sobre a arqueologia portuguesa passavam por mim. Então eu comecei a anotar,  fazer cópias e organizar, pela primeira vez, tudo que era relativo ao patrimônio subaquático. Muitos desses casos obrigavam a uma intervenção in sito, o que poderia ser facilitado pelo fato de eu ser mergulhador diplomado desde meus 17 anos. Bem, pouco a pouco, a organização desse núcleo do Museu Nacional deu origem ao projeto Carta Arqueológica, a criação do núcleo de bibliografia autorizada, a criação de infra-estruturas laboratoriais, a aquisição de equipamentos e até de embarcações. De modo que depois de dois ou três anos, resolvi que já tínhamos condições de montar uma campanha de arqueologia subaquática nos destroços do L’occean, na praia da Salema, sul de Portugal. E esse foi o ponto de partida e tudo começou a crescer. No Museu começou a funcionar o Centro Carta Arqueológica e Inventário, pessoas começaram a trabalhar de forma permanente neste setor. Nos anos 90 já havia um grupo ligado às questões da arqueologia subaquática que já publicava trabalhos. Assim, em 1992 decidiu-se criar uma instituição para dar corpo, digamos, ao movimento que se tinha gerado de pessoas, de amigos arquitetos, advogados, militares, mergulhadores, etc. Funcionou como uma sessão de amigos do Museu, que era a Arqueonáutica. Porém poucos meses depois eu percebi que o que estavam querendo fazer era uma legislação para a caça ao tesouro. E nesta altura, passamos a ver o rosto do adversário, que era a minha hierarquia, mas ao mesmo tempo ganhamos uma razão de ser, uma bandeira na luta contra a caça ao tesouro. E por razões políticas e eleitorais, em 1995, eles perderam as eleições e nós já tínhamos tido eco social suficientemente para que o partido socialista impusesse no seu programa a revogação da a legislação, criando outra coerente com o ponto de vista científico. Foi o que aconteceu em 1997, juntamente  com a instalação do Instituto Português de Arqueologia, do CNANS e,  ao mesmo tempo, começou a ser realizado o maior projeto de Arqueologia Subaquática: Ria de Aveiro A. Esse projeto se encaixou imediatamente na Expo 98 e, desta maneira, os anos de 96, 97e 98 foram fundamentais em virtude desses achados. Isso tudo nos possibilitou a  chamar o pessoal de fora e fazer simpósio internacional. Foi neste período que houve a brecha para começar os trabalhos da elaboração da Convenção. Nós já estávamos apontados como o país que já tinha vencido aquilo que a Convenção se propunha a vencer.

H-H: Qual foi o projeto mais importante e sob qual ponto de vista é o mais importante.


Na ocasião, ele participou o I Simpósio Internacional de Arqueologia Subaquática.
Foto de Glória Tega

FRANCISCO ALVES: O meu projeto mais importante foi o do navio século XV do Ria de Aveiro A. Na sua raridade, naquilo que possibilitou ser infra-estruturado a nível laboratorial para os restos de um navio que são recuperados arqueologicamente, pesquisados tratados e conservados em Portugal. Ele também que deu origem a outras linhas de pesquisa como o da arquitetura, da carga cerâmica, etc,  portanto um leque bastante importante. É claro que Nossa Senhora dos Mártires tem o mesmo peso em outro sentido pois deu o ponta pé de saída para o Filipe Castro fazer o doutoramento dele nos Estados Unidos, deu a oportunidade de nós figurarmos na Expo 98 e termos um conjunto de achados bem circunscritos e muito importantes.

H-H: E o CNANS? A população portuguesa reconhece a instituição?

FRANCISCO ALVES: Sim. Hoje em dia nós estamos inseridos na paisagem cultural. Todo mundo sabe que há arqueólogos que tratam da arqueologia de navios embaixo d’água e etc.

H-H: o começo do CNANS foi complicado assim como é o do CEANS?

Francisco Alves: Foi. Foi uma luta contra empresas, contra os lobbies, todos eles, aliás, personificados por almirantes e altas patentes da Marinha mas também tínhamos muita gente da Marinha do nosso lado.

H-H: Eu queria que o senhor fizesse uma pequena análise da situação da Arqueologia subaquática no mundo e especificamente no Brasil.

FRANCISCO ALVES: Acho que a lei numa escala internacional, em particular no Brasil, não é profundamente favorável ao patrimônio subaquático. Há muitos países no Sudoeste Asiático, no Oriente, no Índico que têm uma arqueologia subaquática fantástica do ponto de vista da política do país ou das suas instituições mais representativas. Não se pode dizer, entretanto, que esta seja uma situação cheia de primaveras, flores e esperança. Não. A situação é muito difícil na escala internacional, face ao resgate, à caça ao tesouro e todos os males. Agora, não há dúvida alguma que há uma dinâmica fundamental na qual hoje em dia participam forças sociais muito poderosas. Por exemplo quando começam a haver lobbies que representam milhões de pessoas como os mergulhadores, com a Padi ou a Cmas, que aderem espontaneamente a todos os princípios da Convenção da Unesco e percebem perfeitamente que não é do interesse do mergulho o apoio a pilhagem legal do patrimônio subaquático feita pelos caçadores de tesouros e seus agentes. Isso começa a ser muito confortante. Agora são vastas as lutas em escala internacional e no interior de todos os países, nas quais  nunca estão vencidas nenhuma das partes. Elas estão sempre ou adormecidas ou resignadas, mas manifestando, sempre que podem, a sua força, a sua contestação, a tentativa de persuasão, na subversão daquilo que é a aplicação dos princípios gerais da arqueologia, neste caso no nosso país, ou nos países que efetivamente estão do lado da Convenção e que sua legislação é condizente com ela. Mas é uma luta muito dinâmica que irá durar décadas senão séculos, e enquanto ela dura é uma ameaça ao patrimônio subaquático. Enquanto os países não adotam medidas preventivas para a preservação de seus bens culturais públicos ou privados, no meio aquático e outros, há uma repercussão igual, ou tão grande, ou maior ainda do que a pilhagem dos caçadores de tesouros. Hoje em dia quando nós falamos em pilhagem não é bem uma pilhagem, mas sim uma exploração comercial que se traduz normalmente numa omissão ou destruição de informação arqueológica. Não acho que a situação seja para estar pessimista, mas não se pode estar otimista. Temos que continuar a lutar nesse plano porque ainda não criamos raízes. É preciso lutar para que as raízes se aprofundem.

Agora esses países como o Brasil são países que tem a riqueza de seu patrimônio e, hoje em dia, tem gente preparada, como os membros do CEANS, para atuar opressivamente na defesa do patrimônio subaquático, desenvolver projetos com consistência, com capacidade de enquadramento científico. É preciso que a situação se modifique, em atenção a esse espaço, a esse desenvolvimento e às novas potencialidades, senão o país entregará a ignorantes seu patrimônio, como se aqui ainda não houvesse a verdadeira arqueologia. Portanto, um país como o Brasil, com sua espantosa potencialidade, só vai se enriquecer se realmente mudar seu caminho e só vai se empobrecer se o mantiver no estado em que está.