ISSN 1807-1783                atualizado em 16 de fevereiro de 2007   


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"Brasil já passou por tudo e todavia há ainda muito que passar"

por Glória Tega



É o que pensa uma das mais experientes arqueólogas especialista Arqueologia Subaquática a mexicana Pilar Luna Erreguerena sobre o futuro do patrimônio cultural subaquático brasileiro. A Pioneira em Arqueologia Subaquática no México esteve no Brasil em 2005 para participar do I Simpósio Internacional de Arqueologia Subaquática, durante o XIII Congresso da Sociedade de Arqueologia Brasileira. Responsável pela criação em 1980 no México do Departamento de Arqueologia Subaquática do Instituto Nacional de Antropologia e Historia – INAH e a frente dele até hoje, Pilar contou a trajetória de sua carreira, projetos e o como ela vê o futuro da Arqueologia Subaquática no Brasil e no mundo.

H-H: Primeiramente eu queria que a senhora descrevesse seu percurso profissional e porque a arqueologia subaquática?

PILAR LUNA: Na verdade foi um presente. Um presente da vida, porque antes fui estudar antropologia, que no México possui cinco ramos. Mas temos um, que se chama tronco comum, que é feito nos primeiros dois anos. Assim, tínhamos todas as matérias nesse período, era uma introdução à arqueologia, à antropologia social, à antropologia física, às histórias, etc, para ter uma idéia geral dos ramos da antropologia. E quando estava cursando a Introdução à Arqueologia, com um professor muito famoso, o Eduardo Matos que escavou a cidade dos astecas no centro da Cidade do México, eu comecei a me perguntar o que se passava com a arqueologia que estava embaixo das águas. Isso porque eu nasci em Tampico, que é um porto, e desde muito pequena meu pai me levava para o mar e assim eu sempre fui uma amante do mar. Então essa relação incentivou essa inquietação do que se passava com a arqueologia embaixo das águas. Em que águas? Do mundo e do México, assim temos o oceano Pacífico, o Mar de Cortês, o Golfo do México e o Caribe Mexicano. E também as águas interiores: os lagos, as lagunas, os rios, os mananciais, os cenotes. Então, eu estava na minha escola, na Escola Nacional de Antropologia e História, eu estava no Museu Nacional de Antropologia, que é um Museu muito importante no México, quando acabou a aula de Introdução à Arqueologia eu fui correndo à biblioteca ver se havia algo que se chamasse “Arqueologia Marinha” ou “Hidro-arqueologia” . Procurei muito e encontrei só um livro que se chama em inglês “Underwater Archeology” , que é Arqueologia Subaquática, escrito pelo Doutor George Bass, que conhecemos como o pai da “Arqueologia Subaquática”. Eu levei o livro para casa, o li e percebi que era aquilo que eu queria fazer na minha vida. Eu já havia lido sobre Arqueologia, mas “Arqueologia Subaquática” foi um presente, uma inspiração divina. E eu vi que o assunto já existia no mundo, eu nunca havia ouvido falar.

H-H:  No México a senhora foi a primeira?

PILAR LUNA: Sim.

H-H: A senhora não mergulhava ainda?

PILAR LUNA: Não. Não mergulhava, mas era nadadora. Então desde aí, em pouco tempo organizamos um curso que se chamou “Curso de Arqueologia Subaquática”. Sabíamos que não teríamos professores no México que poderiam nos dar aulas de Arqueologia Subaquática, mas também sabíamos que teríamos que começar a ter aulas de mergulho, pois o mergulhar seria o veículo que nos levaria aos sítios. Então a primeira coisa era ter aulas de mergulho. Tivemos as aulas em 1972, 73 numa piscina olímpica que havia sido construída em 1968 quando ocorreram as olimpíadas na Cidade do México. Então aprendi a mergulhar para fazer arqueologia subaquática.

H-H: E depois?

PILAR LUNA: Passaram sete anos sozinha, fazendo Arqueologia Terrestre e formando-me como autodidata. Isso foi a partir de 1972, 73 e em 1978 escrevi uma carta ao Dr. Bass, que disse que foi uma carta que o emocionou, pedindo para dar aulas no curso que eu organizei, com muitas matérias ligadas à Arqueologia Subaquática, em janeiro de 1979 no México. O curso foi um sucesso e o Doutor Bass me convidou para trabalhar na Turquia com ele. Ele me disse que não poderia me oferecer nada porque o governo turco não aceitaria, pois era a primeira vez que se chamava para trabalhar um latino americano e ainda mulher. Então ele me disse que eu teria que ir pelos meus próprios meios, ele me ofereceria era abrigo em um acampamento numa colina em condições muito difíceis. Mas eu disse que, mesmo assim, para mim, era um trabalho de arqueologia subaquática. Aí depois de algum tempo chegou um telegrama dizendo que a minha ida havia sido acertada e aí eu fui. Eu fui sozinha, era muito difícil chegar da Grécia à Turquia, foi uma aventura, eu falava inglês, Francês, Italiano, Espanhol, mas não turco. E eles não falavam nada além de turco. Aí eu passei dois ou três dias em uma vila de pescadores na costa sudoeste da Turquia, esperando a chegada de Doutor Bass e seu grupo. Finalmente chegaram e saímos par um lugar que não havia nada. Além de mim havia somente três mulheres no grupo. Passamos três meses trabalhando em condições muito difíceis, mas fantásticas. Depois eu voltei em outubro de 1979 para o México e na época havia uma informação que haviam encontrado um canhão em águas mexicanas. Então em novembro me atribuíram a responsabilidade de organizar isso e foi a gota d’água, porque havíamos apresentado um projeto para a criação de uma área de arqueologia subaquática. Então em fevereiro de 1980 se criou a área de Arqueologia Subaquática dentro do Instituto Nacional de Antropologia Histórica.

H-H: Sob a coordenação da senhora?

PILAR LUNA: Sempre, desde o início. Então já tenho 25 anos neste cargo.

H-H: E com esses 25 anos de trabalho já deu para inibir a ação dos caçadores de tesouros no México?

PILAR LUNA: Não, todavia durantes esses anos e, sobretudo nos últimos 10 anos foram muito difíceis as pressões dos caçadores de tesouros. Mas eu acredito que o México teve a sorte de pensar antes a consciência e o esforço para não permitir que se perdesse nosso patrimônio.

H-H: Essa consciência preservacionista já está presente na população?

PILAR LUNA: Não. É um processo. Foram 25 anos muito difíceis, mas vamos cada vez mais tomando um lugar. E é muito interessante porque oficialmente nos grandes discursos e nos eventos de 1980 até 1999, dezenove anos passaram para que pela primeira vez lembrassem da Arqueologia Subaquática. É incrível, não? Dezenove anos. Aqui no Brasil acho que vai mais rápido. Então agora o próprio direito de participar na elaboração do texto da Convenção, como representante do México, e bom desde 1982 sou membro dos conselhos de Arqueologia Subaquática que andaram se criando no mundo: Do ICUCH, desde 1991, quando foi criado.

H-H: Há algum caso de pressão para a liberação da caça ao tesouro no México?

PILAR LUNA: Sim. Os americanos sempre buscam barcos que tem possivelmente carga de ouro, prata, pedras preciosas. Eles pagam pessoas para investigar artigos, basicamente em Sevilha na Espanha, para encontrar esses naufrágios. E vêm e pressionam por todas as estâncias, pelo governo, pelas Universidades, pelo turismo, por onde podem, para que consigam permissão para explorar o naufrágio no local em que se encontra. E no México tivemos um caso muito difícil, porque haviam firmado um convenio com a secretaria da Marinha para repartir em porcentagens. E foi uma luta de um ano e meio tremenda, onde fui ameaçada de morte, houve tentativa de me subornar, mas conseguimos que não se realizasse e foi muito importante, pois me dei conta que se fosse liberado esse caso, abriria um precedente. E se uma porta é aberta é muito difícil fechá-la. Então nunca foi dada nenhuma permissão a nenhum caçador de tesouros. Mas tenho que reconhecer que se há pequenos saques é de muitos mergulhadores que não tem consciência da conseqüência de tirar uma peça como troféu. É a mesma coisa quando pensamos nas pessoas que retiram das cavernas estalactites ou estalagmites, é pura ignorância.Por isso venho insistido muito na educação, creio que além das leis e as normas que devem existir para regularizar os critérios de trabalho arqueológico, tem de haver um trabalho de educação. Quando falo de educação não falo de escolaridade, falo de profundidade de conhecimento de meio ambiente dos vestígios culturais. É uma educação que nos permita ser beneficiados pelo uso de tudo que está neste planeta, mas que seja um uso sustentável, pensando nas geração futuras. As coisas mudam, mas demandam muita insistência.

H-H: Quando sua equipe chegou ao “Media Luna” o sítio já havia sido mexido. O que aconteceu lá?

PILAR LUNA: Este é um sítio ideal para o mergulho, é um sitio quase obrigatório para todos que estão aprendendo a mergulhar, fazendo todos os tipos de mergulho. As águas são calmas, não há animais perigosos e as profundidades variam de 70 centímetros a 36 metros. É um local ideal. Os primeiros praticantes de mergulho já nos anos 50 foram a esse lugar. E aí começaram a encontrar diversos tipos de coisas, como resto de fauna, por exemplo. E começaram a retirar essas coisas e desafortunadamente esse sítio foi sacado por mais de 50 anos e, todavia, ainda sobraram peças. Nós fizemos apenas duas temporadas de trabalho neste sítio. E um dos propósitos era por um lado fazer os arqueólogos de terra entenderam que quando se trabalha somente os sítios de terra e se esquece dos rios, dos cenotes, está se cometendo um erro. Isso porque os grupos que se assentaram aí, se assentaram pelo cenote, pelo rio. Há uma relação direta de uso como elemento vital e de oferenda também. Então foi um projeto que fiz com estudantes da Escola de Antropologia, para que enquanto trabalhávamos embaixo d’água, eles trabalhassem nos sítios ao redor. Encontramos 17 sítios. E a cerâmica que havia na superfície era a mesma que estava embaixo d’água. Havia uma correlação evidente. Encontramos enterramentos, restos de mega fauna, enfim, vários tipos de material arqueológico. Aí fizemos um documentário para tentar criar essa consciência de que “Não toquem”. Infelizmente não se pode dizer que conseguimos passar isso na sua totalidade.

H-H: Qual foi o projeto que a senhora considera o mais importante desenvolvido e sob qual ponto de vista é o mais importante.

PILAR LUNA: Eu creio que em termos de trabalho, eu não poderia destacar o mais importante, porque não posso determinar que projeto. Para mim o trabalho mais importante foi em primeiro lugar foi o trabalho interior de saber que era uma disciplina que não era conhecida no meu país nem na América Latina e eu queria dedicar minha vida a ela. Então o trabalho mais importante acho que foi o feito a cada dia, a luta por conhecer mais, preparar-me mais e criar a consciência.

H-H: Para finalizar, eu gostaria que a senhora desse um panorama geral da arqueologia subaquática.

PILAR LUNA: Eu creio que a arqueologia subaquática é uma disciplina relativamente nova, tem 40, 43 anos de existência. Tudo o que aconteceu antes dos anos 60 eram achados casuais, recuperações acidentais ou saques em maior ou menor escala, intencionais ou não, por ignorância, nada disso previa a conservação. Nos anos 60 quando realmente Doutor Bass começa a aplicar métodos e técnicas da arqueologia terrestre embaixo d’água, e aí houve um controle verdadeiro do que se fazia. Eu acredito que arqueologia subaquática passou por distintas fases, um pouco no mundo e um pouco em cada país. A principio foi como um descobrimento com ênfase nas ferramentas e nas técnicas, sempre muito focado nas ferramentas tecnológicas para o mergulho. Depois se deram conta que essas eram somente ferramentas e começaram a prestar atenção nos objetos e na conservação, depois nos cascos dos barcos, e depois pouco a pouco se posicionando no entendimento de que eram sítios. Bem, em 43 anos de vida a Arqueologia Subaquática fez contribuições importantes ao conhecimento e, inclusive, à arqueologia feita na terra, porque em alguns casos o que se encontra embaixo d’água serviu para ratificar coisas encontradas em terra. Embaixo d’água, normalmente, os objetos são conservados de uma maneira extraordinária e, normalmente, os contextos são conservados como cápsulas do tempo, é um momento da história que se congela, se mantém. Por isso eu digo que nesses 43 anos a Arqueologia Subaquática alcançou uma dimensão enorme no mundo, de tal maneira que já há uma Convenção da UNESCO, cujo anexo contém as regras do jogo, do trabalho arqueológico. Isso é uma conquista inacreditável. Agora não podemos ser ingênuos pois falta ainda muito trabalho, muitos anos para que a consciência do mundo entenda que os vestígios que estão embaixo das águas são patrimônio da humanidade, são tão importantes como aqueles que estão na terra, são fonte de conhecimento, devem ser pesquisados e devemos entender que eles estão submersos e se os deixarmos lá estarão bem conservados mas a partir do momento que são recuperados devem ser submetidos a tratamentos de conservação, o que é o mais custoso num projeto de Arqueologia Subaquática. E eu dizia em um congresso na Colômbia que a melhor maneira de proteger o patrimônio cultural subaquático é não tocá-lo, é não negociá-lo, somente cuidá-lo. Então creio que arqueologia subaquática é um salto quantitativo e qualitativo para o mundo, porém há muitas diferenças entre os países. Há países que estão muito adiantados em métodos e técnicas mas não há a investigação cientifica, há países que negociam com caçadores de tesouros, há países que tem alguns arqueólogos que tem tomado uma postura de firmeza na luta pela defesa do patrimônio cultural subaquático, há países muito ricos, outros muito pobres. As diferenças são enormes. Então temos de buscar condições  para cada país, mas respeitando a lógica de que cada um tem seu momento. Os organismos internacionais devem ajudar quando tiverem condições, quando pedirem ajuda em termos de assessoria. Todos os países que têm um legado cultural rico não têm recursos, mas os recursos podem ser conseguidos. Eu diria que o mais difícil é ter os recursos humanos. O valor de uma pessoa que tem a formação, a vocação de pesquisar e preservar o patrimônio cultural subaquático. Isso não tem dimensão frente aos recursos financeiros que se precisa. Esses virão de alguma maneira.

H-H: E o Brasil?

PILAR LUNA: Eu penso que o Brasil tem um patrimônio vasto e de todas as épocas. Aqui há pessoas que retiram coisas, por retirá-las, por ter um troféu, há também os caçadores de tesouros, até de outros países, o Brasil já passou por tudo e todavia há ainda muito que passar. Mas o mais importante seria rever a legislação. Deve-se continuar trabalhando com esse grupo que já está estabelecido aqui que é o CEANS. Com Gilson Rambelli a frente, é um grupo forte, é um grupo que tem uma variedade de componentes, mas que todos tem convicções. Esta é uma vantagem muito grande para um grupo que apenas engatinha. Em muitos países não temos isso, por isso temos que dar muita força ao Brasil. E o grupo deve crescer, tem de ter especialistas de todas as disciplinas afins para enriquecer as oportunidades de cada projeto, mas tendo paralelamente um crescimento na tomada de consciência da sociedade de que há um patrimônio e que todos podemos cuidar dele desde onde estamos: os professores ensinando as crianças, os mergulhadores tendo essa consciência de ver, de tirar fotografias, mas não retirar nada. Eu acredito que o futuro é promissor.