É o que pensa uma das mais experientes arqueólogas especialista Arqueologia
Subaquática a mexicana Pilar Luna Erreguerena sobre o futuro do patrimônio cultural subaquático
brasileiro. A Pioneira em Arqueologia Subaquática no México esteve no Brasil
em 2005 para participar do I Simpósio
Internacional de Arqueologia Subaquática, durante o XIII Congresso da Sociedade de Arqueologia Brasileira. Responsável
pela criação em 1980 no México do Departamento de Arqueologia Subaquática do
Instituto Nacional de Antropologia e Historia – INAH
e a frente dele até hoje, Pilar contou a trajetória de sua carreira, projetos e
o como ela vê o futuro da Arqueologia Subaquática no Brasil e no mundo.
H-H:
Primeiramente eu queria que a senhora descrevesse seu percurso profissional e
porque a arqueologia subaquática?
PILAR
LUNA: Na verdade foi um presente. Um presente da vida, porque antes fui estudar
antropologia, que no México possui cinco ramos. Mas temos um, que se chama
tronco comum, que é feito nos primeiros dois anos. Assim, tínhamos todas as
matérias nesse período, era uma introdução à arqueologia, à antropologia
social, à antropologia física, às histórias, etc, para ter uma idéia geral
dos ramos da antropologia. E quando estava cursando a Introdução à
Arqueologia, com um professor muito famoso, o Eduardo Matos que escavou a cidade
dos astecas no centro da Cidade do México, eu comecei a me perguntar o que se
passava com a arqueologia que estava embaixo das águas. Isso porque eu nasci em
Tampico, que é um porto, e desde
muito pequena meu pai me levava para o mar e assim eu sempre fui uma amante do
mar. Então essa relação incentivou essa inquietação do que se passava com a
arqueologia embaixo das águas. Em que águas? Do mundo e do México, assim
temos o oceano Pacífico, o Mar de Cortês, o Golfo do México e o Caribe
Mexicano. E também as águas interiores: os lagos, as lagunas, os rios, os
mananciais, os cenotes. Então, eu estava na minha escola, na Escola Nacional de
Antropologia e História, eu estava no Museu Nacional de Antropologia, que é um
Museu muito importante no México, quando acabou a aula de Introdução à
Arqueologia eu fui correndo à biblioteca ver se havia algo que se chamasse
“Arqueologia Marinha” ou “Hidro-arqueologia” . Procurei muito e
encontrei só um livro que se chama em inglês “Underwater Archeology” , que
é Arqueologia Subaquática, escrito pelo Doutor George Bass, que conhecemos
como o pai da “Arqueologia Subaquática”. Eu levei o livro para casa, o li e
percebi que era aquilo que eu queria fazer na minha vida. Eu já havia lido
sobre Arqueologia, mas “Arqueologia Subaquática” foi um presente, uma
inspiração divina. E eu vi que o assunto já existia no mundo, eu nunca havia
ouvido falar.
H-H:
No México a senhora foi a
primeira?
PILAR
LUNA: Sim.
H-H:
A senhora não mergulhava ainda?
PILAR
LUNA: Não. Não mergulhava, mas era nadadora. Então desde aí, em pouco tempo
organizamos um curso que se chamou “Curso de Arqueologia Subaquática”. Sabíamos
que não teríamos professores no México que poderiam nos dar aulas de
Arqueologia Subaquática, mas também sabíamos que teríamos que começar a ter
aulas de mergulho, pois o mergulhar seria o veículo que nos levaria aos sítios.
Então a primeira coisa era ter aulas de mergulho. Tivemos as aulas em 1972, 73
numa piscina olímpica que havia sido construída em 1968 quando ocorreram as
olimpíadas na Cidade do México. Então aprendi a mergulhar para fazer
arqueologia subaquática.
H-H:
E depois?
PILAR
LUNA: Passaram sete anos sozinha, fazendo Arqueologia Terrestre e formando-me
como autodidata. Isso foi a partir de 1972, 73 e em 1978 escrevi uma carta ao
Dr. Bass, que disse que foi uma carta que o emocionou, pedindo para dar aulas no
curso que eu organizei, com muitas matérias ligadas à Arqueologia Subaquática,
em janeiro de 1979 no México. O curso foi um sucesso e o Doutor Bass me
convidou para trabalhar na Turquia com ele. Ele me disse que não poderia me
oferecer nada porque o governo turco não aceitaria, pois era a primeira vez que
se chamava para trabalhar um latino americano e ainda mulher. Então ele me
disse que eu teria que ir pelos meus próprios meios, ele me ofereceria era
abrigo em um acampamento numa colina em condições muito difíceis. Mas eu
disse que, mesmo assim, para mim, era um trabalho de arqueologia subaquática. Aí
depois de algum tempo chegou um telegrama dizendo que a minha ida havia sido
acertada e aí eu fui. Eu fui sozinha, era muito difícil chegar da Grécia à
Turquia, foi uma aventura, eu falava inglês, Francês, Italiano, Espanhol, mas
não turco. E eles não falavam nada além de turco. Aí eu passei dois ou três
dias em uma vila de pescadores na costa sudoeste da Turquia, esperando a chegada
de Doutor Bass e seu grupo. Finalmente chegaram e saímos par um lugar que não
havia nada. Além de mim havia somente três mulheres no grupo. Passamos três
meses trabalhando em condições muito difíceis, mas fantásticas. Depois eu
voltei em outubro de 1979 para o México e na época havia uma informação que
haviam encontrado um canhão em águas mexicanas. Então em novembro me atribuíram
a responsabilidade de organizar isso e foi a gota d’água, porque havíamos
apresentado um projeto para a criação de uma área de arqueologia subaquática.
Então em fevereiro de 1980 se criou a área de Arqueologia Subaquática dentro
do Instituto Nacional de Antropologia Histórica.
H-H:
Sob a coordenação da senhora?
PILAR
LUNA: Sempre, desde o início. Então já tenho 25 anos neste cargo.
H-H:
E com esses 25 anos de trabalho já deu para inibir a ação dos caçadores de
tesouros no México?
PILAR
LUNA: Não, todavia durantes esses anos e, sobretudo nos últimos 10 anos foram
muito difíceis as pressões dos caçadores de tesouros. Mas eu acredito que o México
teve a sorte de pensar antes a consciência e o esforço para não permitir que
se perdesse nosso patrimônio.
H-H:
Essa consciência preservacionista já está presente na população?
PILAR
LUNA: Não. É um processo. Foram 25 anos muito difíceis, mas vamos cada vez
mais tomando um lugar. E é muito interessante porque oficialmente nos grandes
discursos e nos eventos de 1980 até 1999, dezenove anos passaram para que pela
primeira vez lembrassem da Arqueologia Subaquática. É incrível, não?
Dezenove anos. Aqui no Brasil acho que vai mais rápido. Então agora o próprio
direito de participar na elaboração do texto da Convenção, como
representante do México, e bom desde 1982 sou membro dos conselhos de
Arqueologia Subaquática que andaram se criando no mundo: Do ICUCH, desde 1991,
quando foi criado.
H-H:
Há algum caso de pressão para a liberação da caça ao tesouro no México?
PILAR
LUNA: Sim. Os americanos sempre buscam barcos que tem possivelmente carga de
ouro, prata, pedras preciosas. Eles pagam pessoas para investigar artigos,
basicamente em Sevilha na Espanha, para encontrar esses naufrágios. E vêm e
pressionam por todas as estâncias, pelo governo, pelas Universidades, pelo
turismo, por onde podem, para que consigam permissão para explorar o naufrágio
no local em que se encontra. E no México tivemos um caso muito difícil, porque
haviam firmado um convenio com a secretaria da Marinha para repartir em
porcentagens. E foi uma luta de um ano e meio tremenda, onde fui ameaçada de
morte, houve tentativa de me subornar, mas conseguimos que não se realizasse e
foi muito importante, pois me dei conta que se fosse liberado esse caso, abriria
um precedente. E se uma porta é aberta é muito difícil fechá-la. Então
nunca foi dada nenhuma permissão a nenhum caçador de tesouros. Mas tenho que
reconhecer que se há pequenos saques é de muitos mergulhadores que não tem
consciência da conseqüência de tirar uma peça como troféu. É a mesma coisa
quando pensamos nas pessoas que retiram das cavernas estalactites ou
estalagmites, é pura ignorância.Por isso venho insistido muito na educação,
creio que além das leis e as normas que devem existir para regularizar os critérios
de trabalho arqueológico, tem de haver um trabalho de educação. Quando falo
de educação não falo de escolaridade, falo de profundidade de conhecimento de
meio ambiente dos vestígios culturais. É uma educação que nos permita ser
beneficiados pelo uso de tudo que está neste planeta, mas que seja um uso
sustentável, pensando nas geração futuras. As coisas mudam, mas demandam
muita insistência.
H-H:
Quando sua equipe chegou ao “Media Luna” o sítio já havia sido mexido. O
que aconteceu lá?
PILAR
LUNA: Este é um sítio ideal para o mergulho, é um sitio quase obrigatório
para todos que estão aprendendo a mergulhar, fazendo todos os tipos de
mergulho. As águas são calmas, não há animais perigosos e as profundidades
variam de 70 centímetros a 36 metros. É um local ideal. Os primeiros
praticantes de mergulho já nos anos 50 foram a esse lugar. E aí começaram a
encontrar diversos tipos de coisas, como resto de fauna, por exemplo. E começaram
a retirar essas coisas e desafortunadamente esse sítio foi sacado por mais de
50 anos e, todavia, ainda sobraram peças. Nós fizemos apenas duas temporadas
de trabalho neste sítio. E um dos propósitos era por um lado fazer os arqueólogos
de terra entenderam que quando se trabalha somente os sítios de terra e se
esquece dos rios, dos cenotes, está se cometendo um erro. Isso porque os grupos
que se assentaram aí, se assentaram pelo cenote, pelo rio. Há uma relação
direta de uso como elemento vital e de oferenda também. Então foi um projeto
que fiz com estudantes da Escola de Antropologia, para que enquanto trabalhávamos
embaixo d’água, eles trabalhassem nos sítios ao redor. Encontramos 17 sítios.
E a cerâmica que havia na superfície era a mesma que estava embaixo d’água.
Havia uma correlação evidente. Encontramos enterramentos, restos de mega
fauna, enfim, vários tipos de material arqueológico. Aí fizemos um documentário
para tentar criar essa consciência de que “Não toquem”. Infelizmente não
se pode dizer que conseguimos passar isso na sua totalidade.
H-H:
Qual foi o projeto que a senhora considera o mais importante desenvolvido e sob
qual ponto de vista é o mais importante.
PILAR
LUNA: Eu creio que em termos de trabalho, eu não poderia destacar o mais
importante, porque não posso determinar que projeto. Para mim o trabalho mais
importante foi em primeiro lugar foi o trabalho interior de saber que era uma
disciplina que não era conhecida no meu país nem na América Latina e eu
queria dedicar minha vida a ela. Então o trabalho mais importante acho que foi
o feito a cada dia, a luta por conhecer mais, preparar-me mais e criar a consciência.
H-H:
Para finalizar, eu gostaria que a senhora desse um panorama geral da arqueologia
subaquática.
PILAR
LUNA: Eu creio que a arqueologia subaquática é uma disciplina relativamente
nova, tem 40, 43 anos de existência. Tudo o que aconteceu antes dos anos 60
eram achados casuais, recuperações acidentais ou saques em maior ou menor
escala, intencionais ou não, por ignorância, nada disso previa a conservação.
Nos anos 60 quando realmente Doutor Bass começa a aplicar métodos e técnicas
da arqueologia terrestre embaixo d’água, e aí houve um controle verdadeiro
do que se fazia. Eu acredito que arqueologia subaquática passou por distintas
fases, um pouco no mundo e um pouco em cada país. A principio foi como um
descobrimento com ênfase nas ferramentas e nas técnicas, sempre muito focado
nas ferramentas tecnológicas para o mergulho. Depois se deram conta que essas
eram somente ferramentas e começaram a prestar atenção nos objetos e na
conservação, depois nos cascos dos barcos, e depois pouco a pouco se
posicionando no entendimento de que eram sítios. Bem, em 43 anos de vida a
Arqueologia Subaquática fez contribuições importantes ao conhecimento e,
inclusive, à arqueologia feita na terra, porque em alguns casos o que se
encontra embaixo d’água serviu para ratificar coisas encontradas em terra.
Embaixo d’água, normalmente, os objetos são conservados de uma maneira
extraordinária e, normalmente, os contextos são conservados como cápsulas do
tempo, é um momento da história que se congela, se mantém. Por isso eu digo
que nesses 43 anos a Arqueologia Subaquática alcançou uma dimensão enorme no
mundo, de tal maneira que já há uma Convenção
da UNESCO, cujo anexo contém as regras do jogo, do trabalho arqueológico.
Isso é uma conquista inacreditável. Agora não podemos ser ingênuos pois
falta ainda muito trabalho, muitos anos para que a consciência do mundo entenda
que os vestígios que estão embaixo das águas são patrimônio da humanidade,
são tão importantes como aqueles que estão na terra, são fonte de
conhecimento, devem ser pesquisados e devemos entender que eles estão submersos
e se os deixarmos lá estarão bem conservados mas a partir do momento que são
recuperados devem ser submetidos a tratamentos de conservação, o que é o mais
custoso num projeto de Arqueologia Subaquática. E eu dizia em um congresso na
Colômbia que a melhor maneira de proteger o patrimônio cultural subaquático
é não tocá-lo, é não negociá-lo, somente cuidá-lo. Então creio que
arqueologia subaquática é um salto quantitativo e qualitativo para o mundo,
porém há muitas diferenças entre os países. Há países que estão muito
adiantados em métodos e técnicas mas não há a investigação cientifica, há
países que negociam com caçadores de tesouros, há países que tem alguns
arqueólogos que tem tomado uma postura de firmeza na luta pela defesa do patrimônio
cultural subaquático, há países muito ricos, outros muito pobres. As diferenças
são enormes. Então temos de buscar condições
para cada país, mas respeitando a lógica de que cada um tem seu
momento. Os organismos internacionais devem ajudar quando tiverem condições,
quando pedirem ajuda em termos de assessoria. Todos os países que têm um
legado cultural rico não têm recursos, mas os recursos podem ser conseguidos.
Eu diria que o mais difícil é ter os recursos humanos. O valor de uma pessoa
que tem a formação, a vocação de pesquisar e preservar o patrimônio
cultural subaquático. Isso não tem dimensão frente aos recursos financeiros
que se precisa. Esses virão de alguma maneira.
H-H:
E o Brasil?
PILAR
LUNA: Eu penso que o Brasil tem um patrimônio vasto e de todas as épocas. Aqui
há pessoas que retiram coisas, por retirá-las, por ter um troféu, há também
os caçadores de tesouros, até de outros países, o Brasil já passou por tudo
e todavia há ainda muito que passar. Mas o mais importante seria rever a
legislação. Deve-se continuar trabalhando com esse grupo que já está
estabelecido aqui que é o CEANS.
Com Gilson
Rambelli a frente, é um grupo forte, é um grupo que tem uma variedade de
componentes, mas que todos tem convicções. Esta é uma vantagem muito grande
para um grupo que apenas engatinha. Em muitos países não temos isso, por isso
temos que dar muita força ao Brasil. E o grupo deve crescer, tem de ter
especialistas de todas as disciplinas afins para enriquecer as oportunidades de
cada projeto, mas tendo paralelamente um crescimento na tomada de consciência
da sociedade de que há um patrimônio e que todos podemos cuidar dele desde
onde estamos: os professores ensinando as crianças, os mergulhadores tendo essa
consciência de ver, de tirar fotografias, mas não retirar nada. Eu acredito
que o futuro é promissor.