ISSN 1807-1783                atualizado em 26 de setembro de 2007   


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Encontro e confronto entre os Eyiguayegui-Mbayá-Guaicuru e os luso-brasileiros na Capitania de Mato Grosso - Parte I

por Astor Weber


Gravura Carga de cavalaria Guaicuru,
de Jean-Baptiste Debret.

http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/
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Sobre o autor[i]

1. O problema Guaicuru no Pantanal (ir para a Segunda parte)

Somos entrados nos sucessos de uma época que nos desafia a atenção, para vermos de um golpe de vista a figura trágica que se nos principia a representar : entraremos a ver os Portugueses, que nas quatro partes do mundo têm sido a admiração e o terror dos seus habitantes, feitos agora o alvo da inconstância e da fortuna, a irrisão destes selvagens (...)[ii].

Durante os séculos XVI e XVII, os Eyiguayegui-Mbayá-Guaicuru[iii] foram um obstáculo para a política de conquista, expansão e colonização espanhola no Chaco. No século XVIII, depois da travessia desses índios para o lado ocidental do rio Paraguai, o grupo passou a defrontar-se com os luso-brasileiros e tornou-se um obstáculo para as pretensões colonizadoras portuguesas no Pantanal[iv]. Segundo Uacury Ribeiro de A. Bastos o Pantanal permaneceu terra de passagem durante todo o período colonial, tornando-se mais conhecido pelos luso-brasileiros no século XVIII, depois da descoberta das minas em Cuiabá, quando as monções cruzavam o Pantanal no último trecho das “estradas móveis” em busca das riquezas minerais[v]. No século XVIII, o Pantanal foi a principal região de conflitos políticos e bélicos entre luso-brasileiros, espanhóis e esses índios.

O governo colonial tentava, através de expedições punitivas, resolver o problema Guaicuru, mas as expedições punitivas não surtiam o efeito desejado. Um dos fatores que dificultava o êxito das expedições era o uso de táticas de ataque muito adequadas por parte do grupo. Além disso, o terreno, de difícil acesso, dificultava ainda mais a ação punitiva luso-brasileira. Diante dessas dificuldades, Francisco Rodrigues do Prado, em 1795, perplexo diante do sucesso desses índios, comentava inconformado: “entraremos a ver os Portugueses, que nas quatro partes do mundo tem sido a admiração e o terror dos seus habitantes, feitos agora o alvo da inconstância e da fortuna, a irrisão destes selvagens”.

Outro problema que incomodava o governo colonial era a possibilidade dos Eyiguayegui aliarem-se aos espanhóis, dificultando as pretensões da Coroa portuguesa de consolidar o domínio das terras do sul da Capitania de Mato Grosso. Assim, não houve outra alternativa para o governo da Capitania: cativar e estabelecer uma aliança com o grupo. Isso era uma estratégia política que vinha sendo proposta pelo governo português já na metade do século XVIII. Essa alteração da estratégia política trouxe significativas vantagens geo-políticas para a Coroa portuguesa, que, aos poucos, foi conquistando a região habitada por esses índios. Mas, antes que isso ocorresse, houve uma série de conflitos que contribuíram para que se desencadeasse esse fato.

O palco desses conflitos políticos e bélicos foi o Pantanal, principal moradia dos Eyiguayegui no século XVIII, que esteve ocupado por espanhóis durante os séculos XVI e XVII e, a partir do século XVIII, tornou-se espaço luso-brasileiro. Maria de F. Costa procurou esclarecer que, “por mais de dois séculos, a imensa planície inundável foi descrita e desenhada como a fabulosa Laguna de los Xarayes e que o Pantanal é uma invenção luso-brasileira realizada no transcorrer do século XVIII”. Esse problema de definição territorial entre os ibéricos na região persistiu durante o período colonial e levou a Coroa portuguesa a estabelecer novos rumos para a política indigenista em relação ao grupo. Mas, além disso, Costa nos faz lembrar, e isso é imprescindível, que o Pantanal é um espaço que como toda a América, constituía território indígena[vi]. Os Eyiguayegui habitavam o Pantanal, portanto este não pode ser visto somente como espaço espanhol ou português. A história, cumprindo seu papel sócio-histórico, permite que se evidencie a presença de grupos indígenas na região.

Os Eyiguayegui, no século XVIII, tornaram-se um grupo indígena politicamente estratégico na fronteira entre a Província do Paraguai e o sul da Capitania de Mato Grosso. Tê-los como aliados significava uma possibilidade maior de sucesso na definição de limites territoriais para alguma das Coroas ibéricas. Tanto os portugueses quanto os espanhóis pretendiam utilizar esses índios como força de trabalho para a proteção da fronteira.

O governo colonial português percebeu a importância estratégica dos Eyiguayegui para a consolidação da política de conquista, proteção e povoamento da fronteira. O grupo enquadrava-se muito mais como defensor do que povoador da fronteira.

No decorrer do século XVIII, para o governo colonial português, o papel político do grupo vai se redefinindo, de inimigo e obstáculo no início do século XVIII, ele foi tornando-se aliado da Coroa portuguesa no final século XVIII. A imagem de traiçoeiro, bárbaro e selvagem vai sendo substituída pela de valoroso, altivo e valente.

Conforme exposto anteriormente, dentre os vários grupos indígenas do Chaco, os Eyiguayegui foram os que evidenciaram maior mobilidade. Essa mobilidade estava diretamente relacionada à política de conquista, expansão e colonização realizada pelos espanhóis nos séculos XVI e XVII. Essas ações políticas provocaram violentas pressões, determinando grande movimentação dos grupos indígenas que viviam na região do Chaco. Isso é confirmado por Rodrigues do Prado que destacou essa mobilidade, desta maneira: “os Cavaleiros senhoreavam mais vasto terreno, o qual pouco a pouco foram perdendo com as povoações que formavam os portugueses e espanhóis, estes forçando as correntes do Paraguai, e aqueles acompanhando as suas águas”[vii]. Com o passar da expansão e ocupação espanhola, o grupo começou a desestruturar-se e a procurar novos locais para habitar.

Os Eyiguayegui acabaram deslocando-se do Chaco para a região do Pantanal nos finais do século XVII e início do XVIII. O território delimitado pela Serra de Maracaju e os rios Paraguai, Jejui e Mbotetei (Miranda), ocupado pelo grupo no século XVIII, foi denominado por Uacury R. de Assis Bastos de Terra Mbaiânica[viii]. Para Bastos, o domínio exercido por esse grupo ocorreu em período anterior a 1750. Segundo ele,

A presença de grupo indígena chaquenho culturalmente, no território que anteriormente havia sido ocupado pelos Itatins, revolucionou a distribuição demográfica indígena no vale. Uma das referências mais antigas do predomínio dos chaquenhos na região data dos anos vinte do século XVIII. Antônio Pires de Campos recua o limite da terra mbaiânica para pouco mais ao norte, até o Taquari[ix].

Para Bastos, além da Revolução interna dos Comuneros na Província paraguaia, outro motivo que ocasionou o desinteresse espanhol pelas minas de ouro em Cuiabá foi o território ocupado do Jejui ao Miranda pelos Eyiguayegui (fronteira dos infiéis), que ocasionou “um verdadeiro recuo da colonização espanhola na região paraguaia”[x]. O grupo dificultou a ocupação espanhola da região. Essa intervenção do grupo na ocupação da região indica uma ação própria sua como agente provocador de mudanças históricas significativas. Talvez esses motivos apontados por Bastos não sejam os únicos que provocaram o recuo da colonização espanhola, mas certamente foram significativos.

Na metade do século XVIII, o movimento expansionista incursionista dos Eyiguayegui, que adotaram o uso do cavalo para suas incursões, atingiu o seu ponto mais alto, ocupando ambas as margens do rio Paraguai[xi]. A adoção do cavalo favoreceu o grupo que utilizou os cavalos nas suas caçadas e nas ações armadas contra os colonizadores, num território por eles muito bem conhecido. Isso provocou certa superioridade do grupo frente aos ibéricos, além de dar-lhes uma liderança em alianças defensivas intertribais com os outros grupos de índios que não se tornaram cavaleiros, fato importante e significativo que demonstra a capacidade de adaptação de elementos da cultura européia pelo grupo. Este fato que não pode ser visualizado como uma espécie de aculturação, como a simples incorporação de elementos europeus à cultura indígena. Muito mais, demonstra a capacidade de ação do grupo - sujeitos históricos – diante da política de conquista, expansão e colonização ibérica.

A incorporação de novas terras no período colonial era um projeto economicamente imprescindível para a Coroa portuguesa. Por isso, os portugueses passaram a ter, no século XVIII, uma atenção especial para com a fronteira entre a Província do Paraguai e a Capitania de Mato Grosso. Desencadearam a construção de Vilas, Fortes e povoações ao longo da fronteira. Mas havia um problema: os grupos indígenas hostis e, nessa categoria, enquadravam-se os Eyiguayegui, que, com o uso de cavalos, tornaram-se imbatíveis na região pantaneira. Como esses índios ocupavam um ponto estratégico, primeiramente, tentou-se expulsá-los do local, mas isso não foi possível, devido à persistência desses índios em se manterem no local. A partir daí, o governo passou a adotar uma nova estratégia: utilizar esses índios como guardiães da fronteira, muralhas do sertão ou barreira indígena para defender a Capitania. Defender significava povoar, de modo a não abrir flanco para penetrações espanholas.

Continua na Segunda parte.


[i] Coordenador e professor do Curso de História da UNIMEO/CTESOP em Assis Chateaubriand- PR.

[ii] PRADO, Francisco Rodrigues do. História dos Índios Cavaleiros ou da Nação Guaycurú. In: Revista do Instituto Histórico e Geographico do Brazil. t. I, 2. ed., n. 1, 1795. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1908. p. 32 Foi comandante do Forte de Coimbra. Esteve em contato direto com os Eyiguayegui e escreveu sobre a vida desses índios. Os relatos de Rodrigues do Prado sobre esse grupo indígena podem ser encontrados na Revista do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (IHGB) que consta na bibliografia deste trabalho.

[iii] Optei pela denominação Eyiguayegui-Mbayá-Guaicuru para designar o grupo indígena em questão, por considerar o termo mais adequado. Eyiguayegui, porque assim se autodenominavam; Mbayá e Guaicuru, por ser uma designação dada pelos Guarani para definir o mesmo grupo indígena. Eyiguayegui é uma autodenominação dada pelo grupo, no entanto, vou considerar Mbayá ou Guaicuru, embora seja uma denominação dada pelos Guarani, como uma extensão da denominação Eyiguayegui. Para mais informações sobre o termo Eyiguayegui procurar na dissertação de WEBER, Astor . Os Eyiguayegui-Mbayá-Guaicuru: encontros e confrontos com os luso-brasileiros na capitania de Mato Grosso. Dourados/MS: UFMS, Campus de Dourados, 2002. 125 p.

[iv] Como o Pantanal foi palco do encontro e confronto dos luso-brasileiros com os Eyiguayegui no século XVIII, é importante definir sua localização. Maria de Fátima Costa define a área em 136.700 km2, que se estende desde a foz do rio Jauru até a foz do rio Apa (Costa, 1999, p. 21). Informações mais detalhadas sobre a história do Pantanal podem ser retiradas do próprio trabalho de COSTA, Maria de Fátima. História de um país inexistente. São Paulo: Estação Liberdade, 1999.

[v] BASTOS, Uacury Ribeiro de A. Expansão Territorial do Brasil Colónia no Vale do Paraguai (1767-1801). São Paulo: USP, 1972. p. 28

[vi] COSTA, Maria de Fátima. História de um país inexistente... op. cit. 22, 31

[vii] PRADO, Francisco Rodrigues do. História dos Índios Cavaleiros ou da Nação Guaycurú. op. cit.p. 22

[viii] Delimitação que segundo estudioso da questão é exagerada, pois confirmaria uma forma de propagar o Mito do Pantanal Guaicuru/Paiaguá. Outras fontes devem ser consultadas para verificar a localização geográfica do grupo nesse período

[ix] BASTOS, Uacury Ribeiro de A. Expansão Territorial do Brasil Colónia no Vale do Paraguai (1767-1801). São Paulo: USP, 1972. p. 149

[x] A transferência de grupos Mbayá da vertente ocidental para a oriental do rio Paraguai teve importância muito grande na formação de um território tampão entre as minas de Cuiabá e a região sob hegemonia de Assunção BASTOS, Uacury Ribeiro de A. Expansão Territorial do Brasil Colónia no Vale do Paraguai (1767-1801). op. cit. p. 150. Para o professor e pesquisador Jorge E. Oliveira esse território apontado como Terra Mbaiânica por Bastos é muito extenso para apenas um grupo indígena ocupar. Não foi apenas os Eyiguayegui que ocuparam esse espaço e tornaram-se hegemônicos na região. op. cit. p. 158

[xi] Para Uacury R. de A. Bastos, os Eyiguayegui tiveram a capacidade de criar um novo gênero de vida, inédito entre as populações indígenas, baseados no aproveitamento de animais domésticos de origem européia e na prática da transumância, condicionada aos avanços e recuos das inundações, que levavam e traziam, ao longo da linha de contato com as terras emersas, as aldeias volante dos Guaicuru. BASTOS, Uacury Ribeiro de A. Expansão Territorial do Brasil Colónia no Vale do Paraguai (1767-1801). Op. cit. p. 34