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Sobre
o autor[i]
1.
O problema Guaicuru no Pantanal (ir para a Segunda
parte)
Somos
entrados nos sucessos de uma época que nos desafia a atenção, para vermos
de um golpe de vista a figura trágica que se nos principia a representar :
entraremos a ver os Portugueses, que nas quatro partes do mundo têm sido a
admiração e o terror dos seus habitantes, feitos agora o alvo da inconstância
e da fortuna, a irrisão destes selvagens (...)[ii].
Durante
os séculos XVI e XVII, os Eyiguayegui-Mbayá-Guaicuru[iii]
foram um obstáculo para a política de conquista, expansão e colonização
espanhola no Chaco. No século XVIII, depois da travessia desses índios para o
lado ocidental do rio Paraguai, o grupo passou a defrontar-se com os
luso-brasileiros e tornou-se um obstáculo para as pretensões colonizadoras
portuguesas no Pantanal[iv].
Segundo Uacury Ribeiro de A. Bastos o Pantanal permaneceu terra de passagem
durante todo o período colonial, tornando-se mais conhecido pelos
luso-brasileiros no século XVIII, depois da descoberta das minas em Cuiabá,
quando as monções cruzavam o Pantanal no último trecho das “estradas móveis”
em busca das riquezas minerais[v].
No século XVIII, o Pantanal foi a principal região de conflitos políticos e bélicos
entre luso-brasileiros, espanhóis e esses índios.
O
governo colonial tentava, através de expedições punitivas, resolver o problema
Guaicuru, mas as expedições punitivas não surtiam o efeito desejado. Um
dos fatores que dificultava o êxito das expedições era o uso de táticas de
ataque muito adequadas por parte do grupo. Além disso, o terreno, de difícil
acesso, dificultava ainda mais a ação punitiva luso-brasileira. Diante dessas
dificuldades, Francisco Rodrigues do Prado, em 1795, perplexo diante do sucesso
desses índios, comentava inconformado: “entraremos
a ver os Portugueses, que nas quatro partes do mundo tem sido a admiração e o
terror dos seus habitantes, feitos agora o alvo da inconstância e da fortuna, a
irrisão destes selvagens”.
Outro
problema que incomodava o governo colonial era a possibilidade dos Eyiguayegui
aliarem-se aos espanhóis, dificultando as pretensões da Coroa portuguesa de
consolidar o domínio das terras do sul da Capitania de Mato Grosso. Assim, não
houve outra alternativa para o governo da Capitania: cativar e estabelecer uma
aliança com o grupo. Isso era uma estratégia política que vinha sendo
proposta pelo governo português já na metade do século XVIII. Essa alteração
da estratégia política trouxe significativas vantagens geo-políticas para a
Coroa portuguesa, que, aos poucos, foi conquistando a região habitada por esses
índios. Mas, antes que isso ocorresse, houve uma série de conflitos que
contribuíram para que se desencadeasse esse fato.
O
palco desses conflitos políticos e bélicos foi o Pantanal, principal moradia
dos Eyiguayegui no século XVIII, que esteve ocupado por espanhóis durante os séculos
XVI e XVII e, a partir do século XVIII, tornou-se espaço luso-brasileiro.
Maria de F. Costa procurou esclarecer que, “por
mais de dois séculos, a imensa planície inundável foi descrita e desenhada
como a fabulosa Laguna de los Xarayes e que o Pantanal é uma invenção
luso-brasileira realizada no transcorrer do século XVIII”. Esse problema
de definição territorial entre os ibéricos na região persistiu durante o período
colonial e levou a Coroa portuguesa a estabelecer novos rumos para a política
indigenista em relação ao grupo. Mas, além disso, Costa nos faz lembrar, e
isso é imprescindível, que o Pantanal é um espaço que como
toda a América, constituía território indígena[vi].
Os Eyiguayegui habitavam o Pantanal, portanto este não pode ser visto somente
como espaço espanhol ou português. A história, cumprindo seu papel sócio-histórico,
permite que se evidencie a presença de grupos indígenas na região.
Os
Eyiguayegui, no século XVIII, tornaram-se um grupo indígena politicamente
estratégico na fronteira entre a Província do Paraguai e o sul da Capitania de
Mato Grosso. Tê-los como aliados significava uma possibilidade maior de sucesso
na definição de limites territoriais para alguma das Coroas ibéricas. Tanto
os portugueses quanto os espanhóis pretendiam utilizar esses índios como força
de trabalho para a proteção da fronteira.
O
governo colonial português percebeu a importância estratégica dos Eyiguayegui
para a consolidação da política de conquista, proteção e povoamento da
fronteira. O grupo enquadrava-se muito mais como defensor do que povoador da
fronteira.
No
decorrer do século XVIII, para o governo colonial português, o papel político
do grupo vai se redefinindo, de inimigo e obstáculo no início do século
XVIII, ele foi tornando-se aliado da Coroa portuguesa no final século XVIII. A
imagem de traiçoeiro, bárbaro e selvagem vai sendo substituída pela de
valoroso, altivo e valente.
Conforme
exposto anteriormente, dentre os vários grupos indígenas do Chaco, os
Eyiguayegui foram os que evidenciaram maior mobilidade. Essa mobilidade estava
diretamente relacionada à política de conquista, expansão e colonização
realizada pelos espanhóis nos séculos XVI e XVII. Essas ações políticas
provocaram violentas pressões, determinando grande movimentação dos grupos
indígenas que viviam na região do Chaco. Isso é confirmado por Rodrigues do
Prado que destacou essa mobilidade, desta maneira: “os
Cavaleiros senhoreavam mais vasto terreno, o qual pouco a pouco foram perdendo
com as povoações que formavam os portugueses e espanhóis, estes forçando as
correntes do Paraguai, e aqueles acompanhando as suas águas”[vii].
Com o passar da expansão e ocupação espanhola, o grupo começou a
desestruturar-se e a procurar novos locais para habitar.
Os
Eyiguayegui acabaram deslocando-se do Chaco para a região do Pantanal nos
finais do século XVII e início do XVIII. O território delimitado pela Serra
de Maracaju e os rios Paraguai, Jejui e Mbotetei (Miranda), ocupado pelo grupo
no século XVIII, foi denominado por Uacury R. de Assis Bastos de Terra
Mbaiânica[viii].
Para Bastos, o domínio exercido por esse grupo ocorreu em período anterior a
1750. Segundo ele,
A
presença de grupo indígena chaquenho culturalmente, no território que
anteriormente havia sido ocupado pelos Itatins, revolucionou a distribuição
demográfica indígena no vale. Uma das referências mais antigas do predomínio
dos chaquenhos na região data dos anos vinte do século XVIII. Antônio Pires
de Campos recua o limite da terra mbaiânica para pouco mais ao norte, até o
Taquari[ix].
Para
Bastos, além da Revolução interna dos Comuneros na Província paraguaia,
outro motivo que ocasionou o desinteresse espanhol pelas minas de ouro em Cuiabá
foi o território ocupado do Jejui ao Miranda pelos Eyiguayegui (fronteira dos
infiéis), que ocasionou “um verdadeiro
recuo da colonização espanhola na região paraguaia”[x].
O grupo dificultou a ocupação espanhola da região. Essa intervenção do
grupo na ocupação da região indica uma ação própria sua como agente
provocador de mudanças históricas significativas. Talvez esses motivos
apontados por Bastos não sejam os únicos que provocaram o recuo da colonização
espanhola, mas certamente foram significativos.
Na
metade do século XVIII, o movimento expansionista incursionista dos
Eyiguayegui, que adotaram o uso do cavalo para suas incursões, atingiu o seu
ponto mais alto, ocupando ambas as margens do rio Paraguai[xi].
A adoção do cavalo favoreceu o grupo que utilizou os cavalos nas suas caçadas
e nas ações armadas contra os colonizadores, num território por eles muito
bem conhecido. Isso provocou certa superioridade do grupo frente aos ibéricos,
além de dar-lhes uma liderança em alianças defensivas intertribais com os
outros grupos de índios que não se tornaram cavaleiros, fato importante e
significativo que demonstra a capacidade de adaptação de elementos da cultura
européia pelo grupo. Este fato que não pode ser visualizado como uma espécie
de aculturação, como a simples incorporação de elementos europeus à cultura
indígena. Muito mais, demonstra a capacidade de ação do grupo - sujeitos históricos
– diante da política de conquista, expansão e colonização ibérica.
A
incorporação de novas terras no período colonial era um projeto
economicamente imprescindível para a Coroa portuguesa. Por isso, os portugueses
passaram a ter, no século XVIII, uma atenção especial para com a fronteira
entre a Província do Paraguai e a Capitania de Mato Grosso. Desencadearam a
construção de Vilas, Fortes e povoações ao longo da fronteira. Mas havia um
problema: os grupos indígenas hostis e, nessa categoria, enquadravam-se os
Eyiguayegui, que, com o uso de cavalos, tornaram-se imbatíveis na região
pantaneira. Como esses índios ocupavam um ponto estratégico, primeiramente,
tentou-se expulsá-los do local, mas isso não foi possível, devido à persistência
desses índios em se manterem no local. A partir daí, o governo passou a adotar
uma nova estratégia: utilizar esses índios como guardiães
da fronteira, muralhas do sertão
ou barreira indígena para defender a
Capitania. Defender significava povoar, de modo a não abrir flanco para penetrações
espanholas.
Continua
na
Segunda parte.
[i]
Coordenador e professor do Curso de História da UNIMEO/CTESOP em Assis
Chateaubriand- PR.
[ii]
PRADO, Francisco Rodrigues do. História dos Índios Cavaleiros ou da Nação
Guaycurú. In: Revista do Instituto Histórico e Geographico do Brazil. t.
I, 2. ed., n. 1, 1795. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1908. p. 32 Foi
comandante do Forte de Coimbra. Esteve em contato direto com os Eyiguayegui
e escreveu sobre a vida desses índios. Os relatos de Rodrigues do Prado
sobre esse grupo indígena podem ser encontrados na Revista do Instituto
Histórico Geográfico Brasileiro (IHGB) que consta na bibliografia deste
trabalho.
[iii]
Optei pela denominação Eyiguayegui-Mbayá-Guaicuru para designar o grupo
indígena em questão, por considerar o termo mais adequado. Eyiguayegui,
porque assim se autodenominavam; Mbayá e Guaicuru, por ser uma designação
dada pelos Guarani para definir o mesmo grupo indígena. Eyiguayegui é uma
autodenominação dada pelo grupo, no entanto, vou considerar Mbayá ou
Guaicuru, embora seja uma denominação dada pelos Guarani, como uma extensão
da denominação Eyiguayegui. Para mais informações sobre o termo
Eyiguayegui procurar na dissertação de WEBER, Astor . Os Eyiguayegui-Mbayá-Guaicuru:
encontros e confrontos com os luso-brasileiros na capitania de Mato Grosso.
Dourados/MS: UFMS, Campus de Dourados, 2002. 125 p.
[iv]
Como o Pantanal foi palco do encontro e confronto dos luso-brasileiros com
os Eyiguayegui no século XVIII, é importante definir sua localização.
Maria de Fátima Costa define a área em 136.700 km2, que se estende desde a foz do rio
Jauru até a foz do rio Apa (Costa, 1999, p. 21). Informações mais
detalhadas sobre a história do Pantanal podem ser retiradas do próprio
trabalho de COSTA, Maria de Fátima. História
de um país inexistente. São Paulo: Estação Liberdade, 1999.
[v]
BASTOS, Uacury Ribeiro de A. Expansão
Territorial do Brasil Colónia no Vale do Paraguai (1767-1801). São
Paulo: USP, 1972. p. 28
[vi]
COSTA, Maria de Fátima. História de
um país inexistente... op. cit. 22, 31
[vii]
PRADO, Francisco Rodrigues do. História dos Índios Cavaleiros ou da Nação
Guaycurú. op. cit.p. 22
[viii]
Delimitação que segundo estudioso da questão é exagerada, pois
confirmaria uma forma de propagar o Mito do Pantanal Guaicuru/Paiaguá.
Outras fontes devem ser consultadas para verificar a localização geográfica
do grupo nesse período
[ix]
BASTOS, Uacury Ribeiro de A. Expansão
Territorial do Brasil Colónia no Vale do Paraguai (1767-1801). São
Paulo: USP, 1972. p. 149
[x]
A transferência de grupos Mbayá da vertente ocidental para a oriental do
rio Paraguai teve importância muito grande na formação de um território
tampão entre as minas de Cuiabá e a região sob hegemonia de Assunção
BASTOS, Uacury Ribeiro de A. Expansão
Territorial do Brasil Colónia no Vale do Paraguai (1767-1801). op. cit.
p. 150. Para o professor e pesquisador Jorge E. Oliveira esse território
apontado como Terra Mbaiânica por Bastos é muito extenso para apenas um
grupo indígena ocupar. Não foi apenas os Eyiguayegui que ocuparam esse
espaço e tornaram-se hegemônicos
na região. op. cit. p. 158
[xi]
Para Uacury R. de A. Bastos, os Eyiguayegui tiveram a capacidade de criar
um novo gênero de vida, inédito entre as populações indígenas, baseados
no aproveitamento de animais domésticos de origem européia e na prática
da transumância, condicionada aos avanços e recuos das inundações, que
levavam e traziam, ao longo da linha de contato com as terras emersas, as
aldeias volante dos Guaicuru. BASTOS, Uacury Ribeiro de A. Expansão Territorial do Brasil Colónia no Vale do Paraguai (1767-1801).
Op. cit. p. 34