Continuação da Segunda Parte
Continuação
da
Segunda Parte
Os
ataques dos índios cavaleiros às monções no rio Taquari, segundo Holanda,
começaram depois de 1725, quando os Paiaguá obtiveram sucesso numa de suas
investidas, roubando as mercadorias que eram transportadas pelas canoas. Nesse
tempo, seria impossível o povoamento da barra do Taquari, devido à ação
desses índios. Foi tentado o povoamento, mas sem sucesso. Holanda não concorda
com o número apontado por fontes do século XVIII, afirmando que os Eyiguayegui
seriam responsáveis pela morte de mais de quatro mil pessoas que haviam se
deslocado para Cuiabá[i].
Esse exagero certamente foi fruto da preocupação em alertar o governo do
problema que os Cavaleiros estavam causando à política de conquista e expansão
portuguesa. Era necessário fazer algo para conter a onda de ataques do grupo às
monções e aos povoadores da região.
No
governo de João de Albuquerque de Melo, foi dissolvida a Comissão Demarcadora
da Fronteira. Foi nesse governo que o cenário belicoso deslocou-se do Guaporé
para o Paraguai e que foi confiado a José Joaquim Ferreira o comando do Forte
de Coimbra que, segundo Corrêa Filho, não
tardou conquistar as boas graças dos Guaicuru, a esse tempo hostilizados pelas
colunas do Coronel Espíndola, que os perseguiu até o vale e Miranda e
foi nesse tempo também que o governo estabeleceu aliança com os Eyiguayegui[iii].
Em
Extremo Oeste e Monções, Sérgio Buarque de Holanda dedicou parte da obra a
comentar sobre o encontro-confronto dos Eyiguayegui com os luso-brasileiros no
Pantanal no período das monções. O que ficou evidente em suas obras foi que o
grupo sempre foi considerado um empecilho para o propósito de expansão de
terras e riqueza da Coroa portuguesa.
Na
avaliação de Holanda, os Eyiguayegui obtiveram vantagens no confronto com os
espanhóis e portugueses devido a alguns fatores: o armamento utilizado pelos ibéricos
era insuficiente e inoportuno para enfrentá-los, pois o arco e flecha eram mais
eficientes e mais rápidos que os rifles utilizados pelos europeus;
o grupo tinha um conhecimento vastíssimo do terreno em que combatiam,
atacando e empreendendo fugas nos terrenos desconhecidos e de difícil acesso
para os ibéricos; o grupo estava muito mais adaptado às intempéries da
natureza local do que os ibéricos; a tática do grupo de atacar de surpresa e
em campo aberto pegava de surpresa os ibéricos; e finalmente, o cavalo
introduzido pelos europeus foi empregado com eficiência pelo grupo nos seus
ataques[iv].
Os
fatores acima mencionados não foram os únicos mas, certamente, foram
importantes - que contribuíram para que o grupo garantisse, por quase dois séculos,
o poder hegemônico sobre a região do Chaco e Pantanal. O seu poder
hegemônico[v]
começou a decair depois da introdução dos fortes portugueses e espanhóis na
região de fronteira entre a província do Paraguai e a Capitania do Mato
Grosso.
Holanda
afirmou que os Eyiguayegui passaram da banda oriental do rio Paraguai para a
margem esquerda (Pantanal), depois de 1632, quando os bandeirantes paulistas
assolaram Santiago de Jerez e as reduções do Itatim. Portanto, devido a essas
expedições paulistas, o grupo encontrou, nos campos de Vacaria, terreno propício
para a criação de seus cavalos, gado vacum e lanígero. Bastos estabeleceu
outra data para a passagem do grupo para a margem oriental do rio Paraguai. Como
já foi mencionado, Bastos coloca que esses índios passaram para o lado
oriental a partir de 1661.
Segundo
Holanda, há esse tempo (1632)
ainda não tinham adquirido esses índios o uso do cavalo, que deles iria
fazer um adversário temível. Conforme Azara, somente em 1672 o grupo
começou a roubar cavalos dos espanhóis. Em outra fonte castelhana consultada
por Holanda, sustentou-se que somente depois de 1716 o grupo - após as
bandeiras que cedem lugar para as monções - tornou-se mais afoito em seus
ataques, com os cavalos convertendo-se verdadeiramente no gentio cavaleiro. Portanto, Holanda conclui
que os ataques dos Guaicuru aos portugueses tornaram-se mais eficientes, somente
quando o uso do cavalo os fez
particularmente audaciosos e agressivos[vi].
Holanda
chegou a afirmar que não precisariam
mudar violentamente suas velhas normas de vida, encontrando nele (cavalo) um estímulo
e reforço para tendências preexistentes no grupo a que pertenciam. O
grupo tornou-se tão temível que Félix Azara chegou a comentar que pouco
faltou para que exterminassem todos os espanhóis do Paraguai. Segundo
Holanda esse modo de ser dos Eyiguayegui pode ser explicado em função da sua
mitologia, segundo a qual
a
cada povo deu o Criador um atributo próprio: o branco recebeu o Dom do comércio,
outros tiveram aptidão para a lavoura; o Guaicuru, porém, esquecido na
partilha, só podia seguir o conselho de uma ave de rapina, o Caracará. O qual
Caracará, retorquindo às suas queixas, disse-lhe que o quinhão dele era o
melhor, pois como o deixaram restava-lhe tomar o que a outros foi dado. O
Guaicuru seguiu bem o conselho que começou por matar a pedradas o próprio
conselheiro. E desde aí a agressão e a rapina ficaram sendo, por assim dizer,
as suas virtudes nativas[vii].
O
mito dos Eyiguayegui foi bem resumido por Holanda. Mas o que venho tentando
destacar é o poder de reação desses índios à situação colonial
imposta pelos conquistadores europeus. Esses índios tiveram a capacidade
de usufruir e incorporarem elementos da cultura européia e adaptarem esses
elementos para usufruto próprio.
Segundo
Holanda, foi no tempo da aliança (1719-1768) entre os Eyiguayegui e os Paiaguá,
que as monções sofreram grandes dificuldades para realizar seu comércio.
Juntos, eram praticamente imbatíveis; os Paiaguá pelas águas e os cavaleiros
por terra. A diferença era que os cavaleiros poderiam tirar a vida das pessoas
que vinham a pé, enquanto que os Paiaguá, além da vida, roubavam as
mercadorias que eles transportavam nas canoas[viii].
Mas o fim de ambos os grupos pareceu o mesmo:
A
mesma acolhida que tiveram no Brasil os Guaicuru, passando a constituir na
fronteira do Império uma força formidável, que os brasileiros
sustentariam com pouca despesa ou quase nenhuma despesa contra a
agressividade dos seus vizinhos do sul, encontraram os Paiaguá em Assunção.
No tempo da ditadura do Doutor Francia seriam mesmo incumbidos de policiar o rio
nas imediações da capital, impedir a aproximação dos estrangeiros e prevenir
todo o comércio de contrabando[ix].
Portanto,
conclui Holanda, somente após a construção dos fortes e a realização da
aliança foi que os luso-brasileiros puderam realizar os planos da coroa
portuguesa em conquistar uma parte das terras do extremo oeste do Brasil e
explorar suas riquezas[x].
O problema Guaicuru começaria a ser
resolvido. Assim,
em
fins do século XVIII, quando tinha passado o maior perigo de assaltos do Paiaguá
e do Cavaleiro, fundaram-se nas margens do São Lourenço e mesmo do Paraguai,
nos terrenos mais elevados que o pantanal periódico não atinge, algumas
fazendas de criar gado e roças de feijão e milho. Foi em um desses sítios
privilegiados, assente à margem direita do Paraguai, que se estabeleceu em 1778
o povoado de Albuquerque, núcleo primitivo da atual cidade de Corumbá[xi].
A
Província do Paraguai também era constantemente atacada pelos índios
chaquenhos. Em 1740, a cidade de Emboscada foi fundada próxima a Assunção,
também com objetivo de conter os ataques dos Eyiguayegui. Em 1749, o grupo
promoveu alguns ataques sobre o Paraguai. Segundo o governador da Província do
Paraguai, Melchor Rodrigues, a grande dificuldade para a expansão paraguaia era
a presença ameaçadora dos Mbayá-Guaicuru, na região do Pantanal[xii].
A erva-mate principal produto de exportação do Paraguai se tornou no século
XVIII em verba destinada ao combate das incursões desses índios. A tática dos
índios chaquenhos era de provocar incursões rápidas; cruzavam o rio Paraguai
roubando bois e cavalos. Ao retornarem para outra margem, sentiam-se em segurança.
Os mais temidos dos bárbaros do Chaco
eram os Mbayá que praticavam
verdadeira
guerra de emboscada: assaltos, ataques e retirada. Tornaram-se ginetes exímios
e possuidores de grandes cavalhadas que lhes permitiam autonomia sobre a superfície
muito grande. Em 1750 ocupavam as duas margens do rio ao sul da foz do Jejui.
Dominavam vasta área que permaneceu sob sua exclusividade até o último
quartel do século XVIII[xiii].
Em
1750, os Eyiguayegui atacaram a cidade de Curuguati e mataram 107 pessoas. Em
1772, para frear seus ataques, foram construídos o Forte de Bourbon ou Olimpo
e, em seguida, o de São Carlos ao pé do rio Apa.
O
interesse pela demarcação de limites entre a Província do Paraguai e a
Capitania do Mato Grosso acentuou-se a partir da metade do século XVIII. Uma
Comissão Demarcatória do Tratado de Madri navegou o rio Paraguai em busca da
Foz do Jauru e, nesta viagem, encontrou os Eyiguayegui possuidores de rebanho
bovino. Ela tentou negociar com eles, mas foi violentamente atacada e morta[xiv].
Ambas
as Coroas ibéricas desrespeitaram os limites dos Tratados de Madri e Santo
Idelfonso, num tempo em que os limites entre a Província do Paraguai e a
Capitania de Mato Grosso não estavam totalmente definidas e consolidadas. Os
luso-brasileiros fundaram o Forte do Iguatemi em 1767, numa tentativa brasileira
de consolidar a linha fixada pelos demarcadores da terceira partida do Tratado
de Madri. Porém os espanhóis não
concordavam com a fixação desses limites e fundaram Vila
Real de Concepcion do lado que, pelos demarcadores, seria luso-brasileiro.
Os fortes de Coimbra e Albuquerque foram fundados tendo como base a demarcação
de limites dos tratados de Madri e Santo Idelfonso[xv].
Os
territórios que deveriam ser demarcados não eram ainda tão bem conhecidos
pelos ibéricos; ainda se pensava na possibilidade da existência de riquezas na
região pantaneira. Para os espanhóis, interessava
descobrir um caminho fluvial que pudesse ligar as terras paraguaias com a alta
província de Chiquitos e para os portugueses era necessário garantir
para si a posse dos rios utilizados como via de comunicação até as minas do
Cuiabá[xvi].
A partir da metade do século XVIII, o sul da Capitania de Mato Grosso e sua via
fluvial receberam uma atenção maior do Estado português. Essa região
tornou-se muito importante para as pretensões colonizadoras da Coroa
portuguesa.
A
indefinição da linha divisória entre os ibéricos era motivo de um constante
estado de alerta, que tenderia a crescer em fins dos anos 40 do século XVIII,
quando se observou uma maior movimentação dos espanhóis, por ocasião da
viagem da comissão demarcatória para a aplicação do Tratado de Madri.
Portugal
e Espanha viviam em um momento conturbado e não tinham definidas as fronteiras
coloniais. Em 1761, o Tratado do Pardo anulou o Tratado de Madri, substituído
em 1777 pelo Tratado de Santo Idelfonso e, posteriormente, pelo Tratado de
Badajoz (1801). Enquanto era discutida a questão dos limites com a Espanha, os
portugueses, entre 1750 e 1781, fundaram várias povoações, garantindo por
intermédio do uti possidetis a
incorporação do Pantanal às terras portuguesas[xvii].
Os
Eyiguayegui tornaram-se importantes figuras políticas na definição de
fronteiras entre os ibéricos. Apesar da ocupação luso-brasileira, para os
espanhóis, o Pantanal não existia.
No
século XVIII, houve duas tentativas de missionarização dos Eyiguayegui: uma,
em 1760, com a fundação da redução de Nossa Senhora de Belém pelos padres
jesuítas, José Sanches Labrador e José Mantilla; e outra, com o Frei Miguel Méndez
(1769 a 1774); mas ambas fracassaram[xviii].
Para Bastos, há uma explicação do porque desses índios não aceitarem a sua
redução: eles eram paleolíticos, nômades[xix],
vivendo da caça e pesca, apresentavam condições incompatíveis com o estilo
de vida das aldeias missionadas. Baseado em disciplina rigorosa, na agricultura,
e na religiosidade, o aldeamento em si contou com reduzido número de
participantes[xx].
Os
Eyiguayegui por não aceitarem a submissão à evangelização e nem a política
de conquista e colonização ibérica foram perseguidos durante três séculos.
As expedições punitivas eram justificadas pela guerra justa[xxi],
na qual a humanidade e a legitimidade
da presença ultramarina dos portugueses não sofriam abalo na sua consciência
de cristãos por que as justificativas morais, de religião e de civilização
se alinhavam com os objetivos econômicos e políticos que impeliram a ação
colonizadora[xxii].
Tanto
a guerra justa defensiva (invasão dos índios a estabelecimentos
portugueses) quanto a guerra justa ofensiva (temor certo e infalível de
ataque por parte dos índios) aplicavam-se e justificavam as expedições
punitivas executadas pelos ibéricos aos Eyiguayegui, desde o século XVI: A preexistência de hostilidades por parte do inimigo será, sempre, a
principal justificativa de guerra[xxiii].
As
notícias que chegavam das ações tomadas na fronteira pelos Eyiguayegui
preocupavam muito ao governo colonial, tanto que
No
ano de 1766 para o de 1767 mandou o Luis Antonio de Souza Botelho Mourão, que
então era General da Capitania de São Paulo, uma expedição de trezentos e
tantos homens ao rio Iguatemi estabelecer um Presídio, o qual sendo
estabelecido e fortificado com artilharia e tropa reguladas além de algumas
companhias de aventureiros, se conservou nesta figura daquele ano até o dia 26
de outubro de 1777, por que neste mesmo dia foi tomado pelos Castelhanos
associados com o Gentio Cavaleiro denominado Guaicuru[xxiv].
Somente
depois, com uma nova postura política iniciada pelo Marquês de Pombal, foi que
se iniciou um projeto mais amplo do Estado português, que seria o de
civilizar os Eyiguayegui.
Voltar
para a Segunda
parte.
[i]
HOLANDA, Sérgio B. de. O extremo oeste.
São Paulo: Brasiliense,
1986. p. 72-73
[ii]
COSTA, Maria de Fátima. História de
um país inexistente. Op. cit. p. 219
[iii]
CORRÊA FILHO. Virgílio. Portugueses em Mato Grosso.
In: Revista do Instituto Histórico
Geográfico Brasileiro. v. 245, Out./Dez.
Rio de Janeiro: Departamento Nacional de Imprensa, 1960. p. 225
[iv]
HOLANDA, Sérgio B. de. O extremo oeste. Op.
cit. p. 55-60
[v]
Essa hegemonia do grupo sobre o Chaco e o Pantanal é exagerada e propagada
como mito pela historiografia. Segundo o pesquisador e professor Jorge E.
Oliveira, essa questão deve ser revista, pois o Chaco e Pantanal
compreendem uma área de 7.000 km2.
[vi]
HOLANDA, Sérgio B. de. O extremo oeste. Op.
cit. p. 61-65
[ix]
HOLANDA, Sérgio B. de. Monções.
3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1990. p. 313
[x]
HOLANDA, Sérgio B. de. O extremo oeste.
Op. cit. p. 86
[xi]
HOLANDA, Sérgio B. de. Monções.
Op. cit. p. 293
[xii]
BASTOS, Uacury Ribeiro de A. Expansão
Territorial do Brasil Colónia no Vale do Paraguai (1767-1801).Op. cit.
p. 205
[xvi]
COSTA, Maria de Fátima. História de
um país inexistente. Op. cit. p. 210
[xviii]
HERBERTS, Ana Lucia. Os Mbayá-Guaicuru:
área, assentamento, subsistência e cultura material. São Leopoldo/RS,
1998. 345p. Dissertação (Mestrado em História) UNISINOS/RS. p. 44-45
[xix]
Segundo Jorge E. Oliveira, essa afirmação de Bastos é anti-antropológica
e evolucionista.
[xx]
BASTOS, Uacury Ribeiro de A. Expansão
Territorial do Brasil Colónia no Vale do Paraguai (1767-1801).Op. cit.
p. 31
[xxi]
As causas legítimas da guerra
justa seriam a recusa ou o impedimento da propagação da Fé, a prática
de hostilidades contra vassalos e aliados portugueses e a quebra de pactos
civilizados. Os Paiaguá e os Caiapó, juntamente com os Mura e os Guaicuru
ficaram famosos por sua reação violenta à colonização e constituirão
exatamente os casos de exceção de liberdade declarada pela carta régia de
12/5/1789 (ver n. 11) PERRONE-MOISÉS, apud CUNHA, 1992, p. 117 a 132).
[xxii]
MEIRELES, Denise Maldi. Guardiães da
fronteira: rio Guaporé, século XVIII.
Rio de Janeiro: Vozes, 1989. p. 148
[xxiii]
PERRONE-MOISÉS, Beatriz, Índios livres e índios escravos: os princípios
da legislação indigenista do período colonial (séculos XVI a XVIII). In:
CUNHA Manuela C. da. História
dos índios no Brasil. São
Paulo: Cia. das Letras, SMC: FAPESP, 1992.
p. 125
[xxiv]
SOUZA, Cândido Xavier de Almeida e. Discripção diaria dos progressos da
expedição destinada da capitania de S. m. São Paulo. p.a as fronteiras do
Paraguay, em 9 de outubro de 1800, dedicada ao Illm.o e Exm.o Sr. Dom
Rodrigo de Souza Coutinho por... In: Revista do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro. t. LXXVII, Rio de Janeiro: Imprensa
Nacional, 1916. p. 132