ISSN 1807-1783                atualizado em 10 de agosto de 2010   


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Marcados pelo Sangue: Os Pardos de Pernambuco e a Luta por Inclusão Social no Espaço Colonial (XVIII) (Parte 1)

por Janaina Santos Bezerra

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(...) Ninguém se desanime, nem pela falta de premio, nem pela baixeza do nascimento, cada um é capaz de fazer-se nobre, este é o segundo nascimento que depende do próprio valor, e em que se nasce, não para uma vida breve, mas sim para a eternidade de um grande nome(...)[1]

Para uma melhor apreensão da situação de inferioridade racial e social em que vivia grande parte dos pardos de Pernambuco no século XVIII, achamos por melhor, fazer um estudo sobre as origens de tal preconceito. Para isso, buscando compreender qual era a mentalidade da época, assim como, de que forma o estatuto de “Pureza de Sangue” e teorias religiosas influenciaram o pensamento da época, a ponte de excluir os pardos de um reconhecimento social.

Para essa análise a nossa primeira inquietação esteve voltada para uma definição do termo pardo; como foi aplicado, interpretado no contexto pernambucano no século XVIII, visto que, até então, não existia uma pesquisa que pudesse identificar as semelhanças e particularidades da terminologia, em comparação às outras regiões do Brasil. Vários foram os pesquisadores que se debruçaram na busca de um significado para esta abordagem. Porém, esses estudos estão concentrados, em sua maioria, na região Sudeste, com destaque especial às pesquisas realizadas por Sheila Faria[2], Hebe Mattos[3] e Larissa Viana[4]. Logo, acreditamos ser importante rever essas diversas concepções em torno do termo como, também, trazer uma abordagem complementar a estes estudos, analisando o uso da terminologia em Pernambuco, uma vez que o seu uso não estava restrito apenas a uma pigmentação da pele.

Um aspecto que pode ser destacado no que concerne ao termo pardo é sua semelhança em significado com a denominação mulato. Para entendermos melhor as atribuições dadas a ambos os termos, buscamos em alguns dicionários de época os seus respectivos significados. No dicionário de Bluteau, datado do início do século XVIII, o significado para cada uma dessas designações se apresentava em meio a uma considerável semelhança. De acordo com o respectivo dicionário o termo pardo era considerado uma “cor entre branco e o preto”, própria do pardal, o que parecia justificar o nome. Segundo Bluteau, o “homem pardo” teria uma associação ao “mulato”, assim como uma ligação curiosa com uma fera, “o leopardo”[5]. Para o termo mulato o dicionário esclarece que seria o filho ou filha originada a partir do intercurso sexual entre um “branco e uma negra ou entre negro e branca”. A origem do nome mulato, assim como o termo pardo, advinha de um animal chamado Mu ou Mulo, gerado pelo cruzamento de dois outros animais de espécie diferentes. Ou seja, seriam o pardo e o mulato mestiços de brancos com negros, conforme o dicionário de Bluteau[6]. No dicionário organizado por Joaquim de Santa Rosa de Viterbo, datado para o início do século XIX, encontramos para o termo mulato uma definição semelhante à apresentada por Bluteau. Nele constatamos que a terminologia também estava ligada ao resultado de um cruzamento entre dois animais, “cavalo e burra” [7]. Esse significado também está presente no dicionário compilado por Antônio Moraes Silva, igualmente datado do início do século XIX, em que o termo mulato representava o filho de cavalo com burra, assim como o indivíduo resultante de um processo de miscigenação entre o “preto com branco, ou às avessas, ou de mulato com branco até certo grau”. Para o termo pardo, Moraes Silva define como a “cor entre branco e preto, como a do pardal” [8].

Já no dicionário composto por Bernardo de Lima e Melo Bacellar, datado para o final do século XVIII, encontramos uma definição para o termo mulato como “de cor do enegrado”[9]. Por outro lado o termo pardo, assim como vem sendo apresentado, estaria ligado a sua origem animal, caracterizado como “animal cinzentado” [10]. Outra definição para o século XVIII corresponde ao dicionário compilado por Pedro J. Fonseca por ordem de Dom José I (que reinou entre 1750-1777) que classificava o termo “pardo” como sinônimo de “fusco, tringueiro, ou aquele que tira para o negro” [11]. Uma visão semelhante parte de Pereira da Costa em seu Vocabulário Pernambucano que traz termos utilizados em Pernambuco no período colonial e imperial. Segundo o autor, o termo mulato era definido como o filho de branco com negro. “É dessa mistura do branco com o preto que vem chamar-se mulato em Portugal, ao café com leite” [12]. Já o termo “Pardavasco” o autor classifica como “mulato disfarçado”, ou seja, “marcado como Caim, tem a cara pintadinha, pardavasco, trigueirinha”[13]. Para Ronaldo Vainfas em seu Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808) o termo mulato foi “herdado do castelhano e consagrado no português, ainda no século XVI, para designar os filhos de branco e negro, ou vice-versa”. Nesse caso, segundo o autor, a terminologia dizia respeito à ascendência e propriamente à cor. Por outro lado, no que diz respeito ao termo pardo, o autor descreve que o mesmo era usado muitas vezes, no período colonial, como sinônimo de mulato[14]. Nesse sentido é fácil perceber as semelhanças, segundo os dicionários de época, entre o termo pardo e mulato no contexto colonial; por outro lado, parece ter sido o termo pardo mais utilizado na sociedade setecentista pernambucana. Na documentação analisada, em que podemos incluir os livros de batismo, casamento e compromisso, não foi possível identificar nenhum sujeito que se denominasse como mulato. Isso talvez encontre explicação na própria desqualificação do termo, associado ao estigma da “mulatice”, que classificava geralmente esses sujeitos como “perturbadores da ordem”, “soberbos”, “arrogantes” dentre tantas outras expressões agressivas. É bem provável que os sujeitos em Pernambuco almejassem uma “identidade parda”, revestida de uma positividade, o que seria na verdade uma identidade reivindicada[15]. Frei Jaboatão, em um discurso proferido na festa de São Gonçalo Garcia, no Recife, em 1745, expressou bem essa preferência pelo uso do termo pardo quando em seu sermão fez uso do dicionário de Bluteau para esclarecer a cor do Santo Gonçalo Garcia:

Como este é o ponto principal, e todo o tropeço do nosso discurso, para procedermos nele com a clareza necessária, e distinção possível havemos definir primeiro, que coisa seja pardo, não só nesse sentido, mas também no comum, e vulgar do povo. Pardo em termos vulgares, diz o padre D. Rafael Bluteau no seu vocabulário da língua portuguesa, na letra M. mulato é aquele, que é filho de branco, e negro; pardo, assim como nós o proferiremos, diz o mesmo autor na letra P, é aquele, que nem é branco, nem é negro, mas participa destas cores ambas; e misto, vem a ser o mesmo, que pardo, porque é uma cor meia, que participa de ambas as cores, preta, e branca; diz o sobredito Bluteau na letra M[16].

Em seu discurso Jaboatão deixou transparecer uma preferência pela utilização do termo pardo, comparado ao termo mulato, considerado pelo franciscano como uma definição “vulgar do povo”. O Frei, em seu sermão, ao tentar esclarecer a cor do santo Gonçalo Garcia, ainda fez uso de outra expressão, “pardo legítimo”. “Do que fica dito já podíamos concluir, que o beato Gonçalo Garcia é pardo legítimo por natureza, e descendência; pois participa por uma parte de cor branca, e da preta pela outra” [17]. A necessidade da expressão “pardo legítimo” serve como indício que na sociedade colonial pernambucana existiu também o “pardo não legítimo”, ou seja, o termo poderia até ter um significado fixo, assim como no dicionário de Bluteau; porém, no cotidiano ele se fez flexível e sujeito a transformações, alterações e flutuações.

Nesse sentido, não podemos nos limitar em definir o termo pardo partindo apenas dos aspectos étnicos. Acreditamos que, além desses, existiu uma grande influência do social que, relacionado aos primeiros, delimitava a posição ocupada pelos sujeitos na sociedade colonial pernambucana. Assim, é necessário que tenhamos uma idéia das diversas abordagens em torno do termo pardo em outras regiões do Brasil, tendo em vista as suas variações étnicas e sociais para em seguida observarmos as particularidades do uso da terminologia em Pernambuco.

Peter Eisenberg, pesquisador que se propôs a estudar as alforrias em Campinas (SP) no século XIX, procurou uma explicação lógica que pudesse expressar o uso da terminologia, defendendo que as designações mulato e pardo não se referiam necessariamente à cor da pele, mas também, à condição de livres de ascendência africana[18].

Essa visão também é defendida por Sheila Faria quando argumenta que o termo pardo tinha um duplo significado, pois tanto “podia indicar uma miscigenação, como se referir a filhos ou descendentes de crioulos”. Dentro desse viés interpretativo, a autora defende que, além dos mestiços, o termo também podia sintetizar para um arranjo social no qual os descendentes de africanos, especialmente quando vivendo em liberdade, tendiam a ser classificados nos registros paroquiais como pardos, mesmo que não fossem mestiços. O que fez a autora concluir que:

O termo pardo fosse uma espécie de curinga, pois qual outra denominação deveria ser dada aos filhos, já nascidos livres, de africanos libertos, por exemplo? Pretos não podiam ser, porque não nasceram na África. Mulato e cabra também não, porque não eram mestiços. Restava o pardo, amplamente utilizado para se referirem aos que não eram africanos ou crioulos, na escravidão, e aos filhos de alforriados, na liberdade[19].

Assim sendo, Faria chegou à conclusão que “pardo, como negro, preto, dentre outras expressões, eram pessoas que não tinham cores diferentes, mas diferentes qualidades”[20].

Quando comecei a observar que havia casos de pessoas que perderam a referência à cor/condição nos registros paroquiais em que estavam nomeados, imaginei que se tratava de casos de ‘branqueamento’. A mobilidade social, através da ausência de referência à cor ou à condição social, estava presente, e talvez signifique a origem do nosso sistema classificatório atual[21].

Deste modo, o termo pardo indicava uma cor mais clara do que as dos negros. Mas não só isso. Representava também a condição de livres. Ou seja, por estar livre, uma pessoa de cor, segundo a autora, tinha uma aparência mais clara. O preto, sempre escravo, trazia em si um significado claro. Quando alforriado havia a necessidade social de frisar que a pessoa assim qualificada estava liberta. Filhos de pretos forros já poderiam não ser mais designados como pretos; quase sempre eram pardos, mas sempre pardos forros, apesar de muitas vezes nunca terem sido escravos[22]. Hebe Mattos, que também se debruçou no estudo sobre o tema, possui uma linha de raciocínio semelhante à de Peter Eisenberg e Sheila Farias. A autora ressalta que, apesar da literatura sobre o tema, em geral, o significante pardo de um modo restrito é pouco problematizado. Os estudos realizados pela pesquisadora em uma coleção de processos civis e criminais fizeram-na chegar à seguinte conclusão:

Na qualificação dos réus e testemunhas, nestes documentos, a cor era informação sempre presente até meados do século XIX. Neles, todas as testemunhas nascidas livres foram qualificadas como brancas ou pardas. Deste modo, ao contrário do que usualmente se pense, o termo me parece que era utilizado (no período colonial e mesmo no século XIX, pelo menos para as áreas em questão) apenas como referências à cor de pele clara do mestiço, para a qual se usava preferencialmente o significante mulato. A designação de pardo era usada, antes, como forma de registrar uma diferenciação social, variável conforme o caso, na condição mais geral de não-branco. Assim, todo escravo descendente de homem livre (branco) tornava-se pardo, bem como todo homem nascido livre, que trouxesse a marca de sua ascendência africana, fosse mestiço ou não[23].

Nesse caso, o termo pardo também poderia ser tomado como indicativo de um lugar social. A pesquisadora Hebe Mattos avaliou que houve uma mudança na percepção sobre ser livre, na passagem do século XVIII para o XIX. No centro dessa mudança esteve o significado da cor, que era um mecanismo de distinção social no século XVIII e, para efeito de status social, tinha o seu sentido definido através da condição de livre dos brancos e a escravidão dos negros. Esta distinção perdeu força à medida que muitos indivíduos de cor passaram a usufruir da condição de serem livres. Segundo Mattos, a liberdade com status social deixou de ser prerrogativa dos brancos e deixou de ter seu significado ligado única e exclusivamente à cor da pele. Ou seja, ser “pardo” não era necessariamente ser mestiço; a sua denominação estaria não apenas nos seus aspectos étnicos, mas hierárquicos. A condição de liberto dada a um indivíduo, independente de sua cor, dava-lhe a liberdade do uso do termo. Mattos sugere que pardo seria sinônimo de não-branco, independente da cor da pele, e branco teria significado de livre, ou seja, pessoa comprovadamente livre. Daí serem livres, ou brancos, muitos de cor negra ou mestiça[24]. Em concordância com Sheila Faria ela defende que o qualitativo “pardo” sintetizava, como nenhum outro, a conjunção entre classificação racial e social no mundo escravista. Logo, as designações, que até então se atribuíam à palavra “pardo”, delimitavam um lugar social, caracterizado como exceção, numa sociedade racialmente estratificada. Correspondia à ascendência cativa entre os homens livres, nascidos no Brasil, como também à ascendência “branca” (livre) entre os escravos crioulos. “É fato conhecido que, desde o período colonial, qualquer perspectiva de ascensão social passava por um processo individual de branqueamento”. Mas o uso preferencial da designação “pardo”, para os homens livres, sem referência necessária à mestiçagem, “representa muito melhor o ideal hierárquico desta sociedade, que reserva um lugar social específico para os escravos, para os libertos, para os descendentes livres de africanos e para os cristãos velhos e brancos” [25]. Larissa Viana, que também se propôs a definir o termo pardo, reconhece a complexidade de um significado que englobe um único sentido.

No século XVII, por exemplo, era usado em São Paulo para designar indígenas escravizados ilegalmente. No nordeste açucareiro, de mais acentuada presença africana, tendia a ser sinônimo de mulato, mas deve-se ter em conta, como adverte uma vez S. Schwartz, que a emergência dos pardos no século XVII esteve ligada também às uniões entre europeus e africanos, e destes com indígenas[26].

Segundo a autora, no Centro-sul o termo era usado por colonos para designar indígenas escravizados no século XVIII quando as restrições legais para o cativeiro indígena conduziam os colonos a evitar termos como cativo ou escravo. Correspondia ainda à descrição da miscigenação entre europeus, africanos, indígenas e seus descendentes[27]. Assim, como Sheila Faria e Mattos, a autora acredita que na sua complexidade o termo representaria mais do que identificação de um matiz de cor ou origem; estaria também relacionado à condição social e status das pessoas no universo colonial[28]. Para Larissa Viana, diante das semelhanças de significado do termo pardo e mulato, a preferência da utilização do termo pardo nas irmandades e na legislação do período colonial estaria provavelmente ligada à questão da noção de “impureza” de sangue do mulato.

O qualitativo mulato era muito freqüentemente associado à noção de ‘impureza’ de sangue e a atributos como preguiça, desonestidade, astúcia, arrogância e falta de confiabilidade. Explorando a ambigüidade das categorias de cor e condição então empregadas, notei que o qualitativo pardo foi muitas vezes acionado de modo a criar uma versão mais positiva da identidade. Dos mestiços, em contraponto ao mulato tantas vezes descrito como moralmente inferior. Construía-se, especialmente nas irmandades de pardos, uma noção de distinção a um só tempo mestiça e colonial, capaz de integrar e criar oportunidades de coesão para aqueles que buscavam distinção em meio a um contexto marcado pela idéia de ‘defeito’ e ‘impuro’[29].

A autora acredita que o termo pardo tenha inicialmente servido mais aos mestiços, porém, ampliou-se ao longo do século XVII e XVIII para contemplar, além dos “mistos entre as duas cores”, conforme se dizia na época, os homens e mulheres livres, de cor, nascidos no espaço colonial[30]. O que seria o termo sinônimo de liberdade, assim como defende Peter Eisenberg, Hebe Mattos e Sheila Faria.

Apesar da relevância desses estudos, em que é possível perceber a complexidade e flexibilidade do termo, esses significados não podem ser seguidos indistintamente em Pernambuco visto as divergências regionais, principalmente em se tratando do Sudeste do Brasil em que são marcantes as variáveis econômicas e, consequentemente, culturais e sociais no século XVIII. Nesse caso é preciso frisar que não se deve buscar uma essência caracterizadora dos pardos como se tratasse de um grupo social homogêneo ou estável. Em Pernambuco, constatamos a existência de “pardos” e “pardos”, ou seja, aqueles que conseguiram ascender socialmente e aqueles que nasceram, viveram e morreram na escravidão, mas nem por isso deixaram de ser considerados “pardos”. É visível que o termo extrapolado os aspectos étnicos, alcançando também o social, mas não podemos considerar, para Pernambuco, que o ser pardo seja sinônimo de liberdade.

Inserido nesse contexto, para pensarmos mais pontualmente o conceito de pardo e, consequentemente, a questão étnica, nos apoiamos nas reflexões de Frederik Barth sobre os grupos étnicos e suas fronteiras culturais. O autor nos sugere que a identidade étnica é construída e transformada na interação de grupos sociais através de processos de exclusão e inclusão que estabelecem limites entre tais grupos, definindo os que os integram ou não. Segundo Barth, “grupos étnicos são categorias de atribuição e identificação realizadas pelos próprios atores e, assim, têm características de organizar a interação entre as pessoas” [31]. Ou seja, os grupos étnicos eram formados pelos próprios indivíduos através de categorias de auto-atribuição e identificação realizadas pelos próprios atores a fim de organizar a interação deles para com as demais pessoas da sociedade. Nesse aspecto, atribuímos aos pardos, protagonistas dessa abordagem, uma capacidade política proporcionada pela possibilidade de se autodefinir pertencente, e não apenas ser inserido, a determinado grupo.

Dentro dessa linha de raciocínio é provável que, aparentemente, os pardos não fossem facilmente identificáveis apenas por sua cor da pele; o mais freqüente seria, talvez, uma auto-identificação desses elementos que se classificavam como tal. A dinâmica da vida urbana no Pernambuco Colonial fez com que muitos descendentes de africanos fossem submetidos praticamente às mesmas oportunidades de trabalho e, convivendo em locais próximos, estes mestiços começaram a perceber as semelhanças que existiam entre eles construindo, assim, aquilo que Fredrik Barth chama de fronteiras étnicas.

Situações de contato social entre pessoas de culturas diferentes também estão implicadas na manutenção da fronteira étnica: grupos étnicos persistem como unidades significativas apenas se implicarem marcadas diferenças no comportamento, isto é, diferenças culturais persistentes[32].

O que nos faz considerar que o uso do termo em Pernambucano se alastrou além da pigmentação de pele, atingindo também outros fatores hierárquicos e, sobretudo, sociais.

Para essas inquietações encontramos algumas respostas nos assentos de batismo. A documentação referente consiste em três livros, datados de 1790 a 1792, 1792 a 1795 e 1798 a 1801, localizados nos arquivos da Igreja do Santíssimo Sacramento de Santo Antônio do Recife. Infelizmente, o livro três que provavelmente seria datado de 1795 a 1798, não se encontra nos arquivos da igreja. Porém, numa perspectiva complementar, também consultamos o índice dos assentos de batismo da Igreja do Santíssimo Sacramento, de 1 a 7, referente aos anos de 1793 a 1813. Essa fonte complementar nos ajudou na coleta de dados correspondentes ao livro 3, inexistente na igreja. Assim, no intuito de uma maior soma de dados e, consequentemente, informações, optamos por fazer uma catalogação completa de todos os registros de batismos contidos na Matriz de Santo Antônio do Recife, referente ao século XVIII, com exceção de alguns nomes cuja leitura foi impossibilitada pelo próprio desgaste documental. Dessa documentação foi catalogado um total de 5.658 sujeitos entre negros (total 1.177/ 20,80%), pardos (total 1.751/ 30,95%), cabras (total 96/ 1,70%), índios (total l10/ 0,18%) e brancos (total 2.606/ 46,06%). Já do índice extraímos um total de 2.123 registros, correspondentes ao livro 3 de batismo, referentes aos assentos realizados entre meados de 1795 a início de 1798. Dessa catalogação tivemos um total de 645 (30,38%) pardos, 992 (46,73%) brancos, 8 (0,38%) índios, 402(18,94%) negros, 53(2,50%) cabras e 23(1,08%) sem denominação. Assim, a pesquisa que se segue teve como auxilio documentar um total de 7.781 registros de batismos.

Em tese, a documentação analisada nos fez chegar ao seguinte indicativo: o uso do termo pardo em Pernambuco no século XVIII vai além dos significados atribuídos pelos dicionários da época que o classificava como o resultado do cruzamento de branco com negro. As pesquisas realizadas em livros de batismo e casamento, localizados na Igreja do Santíssimo Sacramento do Recife, apontam que os cruzamentos entre pardos e índios, pardos entre si, pardos com negros, cabra com pardos também deram origem a sujeitos classificados como pardos.

Através dessa documentação também foi possível perceber que o uso da terminologia em Pernambuco não seria sinônimo de liberdade, assim como na região Sudeste do Brasil, como nos aponta Sheila Faria[33], Hebe Mattos[34] e Larissa Viana[35]. Em Pernambuco constatamos a existência de pardos escravos que contabilizaram um total de 446 sujeitos, dos 2.396 (30,79%) registros catalogados e 1.922 livres. Assim como pardos que gozaram do privilégio de serem proprietários de escravos, em que conseguimos localizar 29 deles sendo 17 do sexo feminino e 12 do masculino.

Após termos conhecimento da heterogeneidade e flexibilidade do uso do termo pardo em Pernambuco é necessário agora perpassarmos por um caminho que nos possibilite entender a posição de inferioridade racial e social em que estavam inseridos os pardos de Pernambuco no século XVIII.

Logo, é fundamental que se resgate a penetração e desenvolvimento no período colonial de uma mentalidade excludente européia que assumiu aqui dimensão de fenômeno cultural marcando, sobremaneira, o perfil desta sociedade. O reconhecimento social de determinados segmentos das sociedades ibérica e colonial no grupo de status estava diretamente atrelado à aplicação dos conceitos de superioridade e inferioridade que, na sua essência, se apoiavam nos tradicionais conceitos de honra e pureza de sangue. Durante séculos os grupos dominantes procuraram construir uma imagem negativa daqueles que pretendiam marginalizar, a exemplo dos pardos que, por serem descendentes de negros encontraram uma série de barreiras que os impediam de se inserirem socialmente.

Uma possível origem desse preconceito, que limitava a inserção social dos pardos na sociedade colonial pernambucana, pode achar explicação em interpretações de teorias religiosas. Ou seja, pode estar ligada à idéia da maldição de Cam, derivada da narrativa bíblica, contida no Gênesis, na qual esse filho de Noé, após descobrir a nudez do pai, teria sido amaldiçoado com a servidão perpétua de toda a sua descendência. Conta Alfredo Bosi que:

(...) Noé, o cultivador, começou a plantar a vinha. Bebendo vinho, embriagou-se e ficou nú dentro de sua tenda. Cam, pai de Canaã, viu a nudez de seu pai e advertiu, fora, a seus dois irmãos. Mas Sem e Jafé tomaram o manto, puseram-no sobre os seus próprios ombros e, andando de costa, cobriram a nudez de seu pai seus rostos estavam voltados para trás e eles não viram a nudez de seu pai. Quando Noé acordou de sua embriaguez, soube o que lhe fizera seu filho mais jovem e disse: “maldito seja Canaã! Que ele seja, para seus irmãos, o último dos escravos”. E disse também: “bendito seja Iahweb, o Deus de Sem, e que Canaã seja seu escravo! Que Deus dilate a Jafé, que ele habite nas tendas de Sem, e que Canaã seja teu escravo!” (Gênesis, 9, 18-27). [36]

Inserido nesse contexto, é possível que a falta de reconhecimento social dos pardos de Pernambuco se remetesse também a essa idéia de uma maldição original lançada sobre os africanos e seus descendentes, estando diretamente relacionada a questões religiosas e sociais[37]. Assim, o perfil discriminador desenvolvido em Portugal, originário do estatuto de pureza de sangue e teorias religiosas, estruturou-se também na sociedade pernambucana colonial e foi, certamente, um instrumento poderoso para a distribuição de poder. E mais ainda: com a ampla miscigenação desenvolvida no Brasil, muitas destas normas legislativas e sociais foram revistas ou simplesmente não cumpridas.

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[1] COUTO, Domingos do Loreto. Desagravos do Brasil e Glórias de Pernambuco. Ed. Fac-similar. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981.p.140

[2]FARIA, S. S. C. Sinhás Pretas, Damas Mercadoras: as pretas minas nas cidades do Rio de Janeiro e de São João Del Rey (1700-1850). 2004. 278 f. Tese (Doutoramento em História). Departamento de História da Universidade Federal Fluminense. Niterói.

[3] MATTOS, H. M. Das Cores do Silêncio: os significados da liberdade no Sudeste escravista (Brasil XIX). 2. Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.

[4]VIANA, L. O Idioma da Mestiçagem: as Irmandades de Pardos na América Portuguesa. Campina, SP: Editora da UMICAMP, 2007.

[5]BLUTEAU, Raphael. Vocabulário português e latino. Vol. 1. Coimbra: Colégio das Artes da Companhia de Jesus, 1712-1727.p. 265

[6] Ibid. 628

[7] VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de. Dicionário Portátil das Palavras, Termos e Frases, em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram. Coimbra, 1825. p.115

[8] SILVA, A. de M. Diccionario da lingua portugueza. Lisboa: Typographia Lacerdina, 1813.

[9] LIMA, Bernardo. MELO, Bacellar. Diccionario da Língua Portugueza. Lisboa: na offic. Aquino Bulhoens. 1783.p.447.

[10] Ibid . p. 463

[11]Ver em: VIANA, L. Op. Cit. p. 86

[12] COSTA. F. A. P. Vocabulário Pernambucano. 2a. ed., coleção Pernambucana, vol. II, Recife: Governo do Estado de Pernambuco, 1976.p.543

[13] Ibid . p. 578.

[14] VAINFAS, Raimundo(Org.). Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808). Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. p. 413

[15] LARA, S. H. Fragmento Setecentista: escravidão, cultura e poder na América Portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[16] JABOATÃO. A. S. M. Discurso Histórico, Geográfico, Genealógico, Político, e Encomiástico, recitado na nova celebridade, que dedicam os pardos de Pernambuco, ao Santo de sua cor, o Besto Gonçalo Garcia, na sua Igreja do Livramento do recife, aos 12 de setembro do ano de 1745. Lisboa: Oficina de Pedro Ferreira, Impressor da Augustíssima Rainha N. S. 1751.p.179

[17] Ibid .184

[18]EISENBERG, Peter L. Ficando Livre: As Alforrias em Campinas no Século XIX. In.:___. Homens Esquecidos: escravos e trabalhadores livres no Brasil - séc. XVIII e XIX. Campinas: Editora da Unicamp,1989. pp. 269-270.

[19] FARIA, S. S. C. op. cit., p. 69

[20] Ibid. p. 78

[21] Ibid. p.73

[22] Idem

[23] MATTOS, H. M. Op. Cit. pp. 29-30

[24] Ibid. p. 91

[25] Ibid . p. 361

[26] VIANA, Larissa. Op. cit., p.36

[27] Ibid. p.86

[28] Ibid. p.36

[29] Ibid. pp. 37-38

[30]Ibid. p.210

[31]BARTH, Fredrik. Grupos Étnicos e suas Fronteiras. In: POUTIGNAT, Philippe, STREIFF-FENART, Jocelyne. Teorias da Etnicidade. São Paulo: Editora da UNESP, 1998. p 189.

[32] Ibid. , p 196.

[33]FARIA, S. S. C. Op. cit.

[34]MATTOS, H. M. Op. Cit.

[35] VIANA, L. Op. Cit.

[36]BOSI, Alfredo. Dialética da Colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.p.256-257.

[37] VIANA, Larissa. op. cit., p.56-57.