Expropriação de propriedade intelectual Randal Fonseca
Expropriação
de propriedade intelectual
Randal Fonseca [A]
Considerando
"O que faz História e-História" [B]
"(...) fomentar os estudos históricos e a qualidade do ensino nos vários
âmbitos escolares" e "(...) aumentar a qualificação dos
profissionais e alunos de história", e ainda, considerando os artigos publicados
em "Perspectives - Newsmagazine of the American Historical
Association (Vol.42, No.2 pp17-23; 3 pp21-25. 2004)" somos levados a
refletir sobre a necessidade de alertar professores e
estudantes para adotarem práticas responsáveis ao empregar textos obtidos pela
Internet em seus trabalhos acadêmicos.
Um problema antigo em âmbito universal
Nos diversos
artigos publicados por Perspectives [C]
on-line, historiadores vêm abordando continuamente a questão do plágio nos
trabalhos de história; uma prática perniciosa que não constitui um
privilégio localizado, mas disseminado por todos os meios onde a produção
intelectual conduz ao prestígio, à colocação profissional, à obtenção de
bolsas de estudo e à distinção acadêmica.
Os norte-americanos John Higham da Johns Hopkins University - EUA e Robert L.
Zangrando da University of Akron - EUA, enfatizam que nas universidades norte-americanas a identificação de um plágio pode resultar em aplicação de sanções
legais, que abrangem não só o universo acadêmico, como o cancelamento de
bolsa de estudos, expulsão do quadro discente e demissão do docente, mas
também pode implicar em processo criminal com penas que vão de pagamentos de
multas e indenizações a decreto de prisão.
O
plágio se caracteriza com a apropriação ou expropriação de direitos
intelectuais. O termo "plágio" vem do Latin "plagiarius",
um abdutor de "plagiare", ou seja, "roubar". Na prática, afirma Barbara D. Metcalf [D],
da American Historical Association AHA,
"o plágio entre alunos raramente chega a alcançar instâncias fora do
âmbito acadêmico". Metcalf é membro de um grupo de cinco professores
eleitos para integrar o "Professional Division [E]",
um órgão da AHA dedicado às questões de propriedade intelectual e
plágio acadêmico entre historiadores.
A expropriação do texto de um outro autor e a apresentação desse texto como
sendo de cunho próprio, caracteriza um plágio e, segundo a Lei de Direitos
Autorais: 9.610 de 19 de fevereiro de 1998, é considerada
violação grave à propriedade intelectual e aos direitos autorais, além de
agredir frontalmente a ética e ofender a moral acadêmica.
As queixas com relação ao plágio foram tantas que chamaram a atenção do
Conselho de Ética da AHA. No ano passado o tema foi abordado em discussões por violar os códigos profissionais dos historiadores e pelo fato desse assunto
estar previsto no "Statement on Standards of Professional Conduct [F]".
A matéria se revelou contundente e foi então encaminhada para considerações
mais aprofundadas no encontro anual de historiadores que ocorreu em Washington [G],
devido ao fato de implicar não apenas em conceitos éticos e morais, mas,
principalmente, em aspectos legais.
Um problema antigo potencializado em âmbito internacional
A Internet tem
possibilitado que alunos e professores tenham acesso aos mais diversos temas e
contam com recursos preciosos (obviamente quando devidamente selecionados) que
passam por resenhas, resumos comentados, sínteses de teses, imagens, planos de
aulas, questões de provas, apenas para enunciar alguns.
É sabido que o plágio existe muito antes da Internet, a se considerar pela origem do termo. Mas,
é evidente que com a tecnologia informacional e a disponibilidade de textos através da Internet, a prática de plagiar
autorias ficou muito mais fácil e vem se expandindo de forma jamais experimentada.
Considerando que os estudos históricos são
acumulativos e que o
historiador ao produzir textos contribui com a historiografia, as citações
criteriosas e consistentes das
fontes bibliográficas nas obras são elementos fundamentais. Os créditos e referências ao
elenco representam um peso considerável à qualidade final de um trabalho, mas,
quando omitidos caracterizam expropriação, conduzindo a uma falsa leitura da autoria
e, conseqüentemente, à perda da integridade. Quando uma obra plagiada é
consultada por outros historiadores, inadvertidamente, e trechos ou conceitos
vêm a ser incluídos em novas obras, o processo assume uma forma epidêmica "contaminando" a produção historiográfica
doravante com falsas
origens e prejudicando, ao longo de percursos inimagináveis, todos os trabalhos
que dali se originem.
É importante frisar que o plágio não se dá somente nos textos, mas também
quando há apropriação de dados e notas, ou seja, o plágio se caracteriza
sempre que as ações desrespeitarem os critérios de referências. É válido
reiterar que essas táticas refletem uma franca posição de desmerecer a
contribuição dada pelos outros e, em determinadas circunstâncias, essas
ações estarão retirando oportunidades profissionais de quem merece,
apropriando-as a outros com méritos duvidáveis.
A contramedida
O caminho para
reverter este processo passa por diversos aspectos e um deles,
indiscutivelmente, tem início na escola. É lá, na sala de aula, que se
aprende e é de lá, com exemplos e posturas éticas que os alunos, futuros
profissionais, moldarão suas condutas legais. O plágio é aprendido
durante o processo de formação acadêmica e deverá, portanto, ser neste
ambiente que os alunos precisam, desde o início, receber orientações
contundentes a respeito. Se o plágio for tratado como um assunto inócuo e
inocente, o aluno aprende que poderá se valer dele em outros momentos de sua
carreira. No início, os alunos encontram no plágio um modo de obter notas e
produzir trabalhos escolares, mas depois, se não reprimidos, empregarão
possivelmente esse método para obter bolsas de estudos e colocações
profissionais, em detrimento dos verdadeiros autores.
Uma questão de responsabilidade docente e raízes culturais
Este ensaio tem como objetivo alertar os professores em geral, e em particular
os de história, da necessidade de abordarem o tema e enfatizarem a questão,
conduzindo os alunos à conscientização da necessidade de respeitar a propriedade intelectual. Embora, como vimos,
o plágio seja praticado no mundo todo, no Brasil o plágio encontra terreno
muito fértil quando associado aos modismos de descumprir determinadas leis
algo no estilo muito peculiar brasileiro de se justificar - "essa lei não
pegou" , uma irreverência "charmosa" da qual alguns chegam a
se orgulhar, ao invés de se envergonhar.
As instituições de ensino e os professores ao conviverem com o plágio
estarão contribuindo para que outras ações pouco ortodoxas, em relação ao
significado do direito intelectual, sejam realizadas, e com isso, levando a crer
que não há nada de errado em descumprir leis. E, infelizmente, é o que tem
acontecido, pois a maneira como o assunto é tratado nas escolas faz prevalecer
a descabida "Lei do Gerson [H]",
que valoriza o velho jeitinho brasileiro.
O plágio deve ser incluído na pauta das discussões acadêmicas
Negligenciar a
perversidade do plágio é cooptar com sua disseminação. Esse processo nefasto
somente pode ser avaliado por quem perde. É impossível fazer uma projeção da
devastadora depressão e seqüestro emocional ao qual o autor plagiado é
submetido, ao ver que sua
obra intelectual foi expropriada e apropriada por outra pessoa - muitas vezes
por alguém próximo.
Segundo Metcalf (2004), a perda provocada pelo plágio se dá primordialmente
nas esferas do conhecimento, mas pode levar a perdas financeiras quando se
tratar de posição profissional a ser obtida por mérito. Assim, diz ela,
"o plágio
além de um aborrecimento, progressivamente, leva a outros aspectos que incluem o descontentamento e a animosidade entre
membros de uma mesma
instituição educacional, provocando rupturas entre professores, entre alunos e
entre alunos e professores".
O Fórum História e-História
O Fórum
História e-História está aberto para você expor sua opinião. Participe! Seu
depoimento, seu ponto de vista e sua experiência pessoal ou testemunhal
pode auxiliar na sensibilização de pessoas que lançam mão do plágio. Muitas
vezes os plagiadores não percebem a extensão do mal que estão causando.
Alguns copiam da Internet, enquanto outros pagam para alguém copiar. Ao reverter essa prática, em qualquer dimensão, estaremos contribuindo com os
autores e prestigiando a ética, em detrimento da falsidade na qual se apóia o
plágio.
Sua
contribuição será importante para a História.