Uma Metáfora sobre a caça ao tesouro
Uma
Metáfora sobre a caça ao tesouro
Por:
George F. Bass
Quando olhei para o céu naquela noite, primeiro pensei que uma nuvem havia
coberto uma parte da Via Láctea. Mas o ar fresco da noite não tinha nenhuma
umidade. Depois de limpar os meus óculos e olhar outra vez, percebi que a
estrela Mizar tinha desaparecido e
liguei para o observatório da universidade mais próxima.
Falta uma estrela, eu
disse, A estrela Mizar não está lá!
No momento não temos
nenhuma informação, foi a resposta.
A edição seguinte da Tempus,
a nossa melhor revista, trazia uma explicação. Com o título Ciência
apresentava uma breve informação:
O astrônomo Claude Blakely,
depois de anos de pesquisa e experimentação, conseguiu finalmente desenvolver
um método para capturar estrelas. Por um preço que não revelou, vendeu a
estrela Mizar a um colecionador anônimo
em Genebra. Este, através de um porta-voz de Nova Iorque, assegurou ao público
que a estrela será exposta num planetário particular, dentro dos próximos
dois anos, e que centenas de cidadãos assim poderão vê-la.
Indignado,
comecei a enviar cartas à revistas, editores e políticos. As estrelas, dizia
eu, pertencem a toda a gente. Aos astrônomos cabem fazer os mapas das estrelas,
medi-las e estudá-las nos mínimos detalhes. Mas, acrescentava eu, os astrônomos
devem correr atrás do conhecimento. Não era suposto possuírem as estrelas. E
eu não julgava que o Sr. Blakely devesse ser chamado de astrônomo.
A
sua atitude me choca pela arrogância, respondeu-me um dos mais conhecidos
colunistas. Claude Blakely sabe mais de astronomia do que qualquer doutor, ou
então não poderia ter capturado aquela estrela. E de qualquer modo, porque é
que os astrônomos profissionais hão de ter todas
as estrelas? Há um número suficiente por aí a fora. O senhor só está com
inveja por nunca ter capturado nenhuma.
A
minha objeção de que o público, tal como os astrônomos, tinham direito às
estrelas e de que as gerações futuras tinham o direito de vê-las no céu,
ficou sem resposta.
Algumas
pessoas escreveram aos seus congressistas, mas devido ao fato da grande maioria
viver em cidades poluídas, onde nunca podiam ver quaisquer estrelas, poucas
cartas foram enviadas. Um jovem congressista de um dos Estados, onde o céu era
excepcionalmente claro acabou por promulgar uma legislação contra a prática
de se capturar estrelas.
Nessa
ocasião, porém, Blakely já tinha vendido os direitos do seu sistema de
capturar estrelas a um certo número de sócios.
As
mãos viscosas da iniciativa governamental estão tentando arrancar os despojos
do trabalho árduo do último dos grandes inventores, trovejou o colunista.
Claude Blakely e os seus sócios representam a última fronteira da
iniciativa privada.
Na
noite em que reparei que a estrela Sirius
já não estava no céu, abri o Boletim
dos Amigos das Estrelas Particulares, que tinha chegado no correio daquela
tarde; tinha como logotipo uma águia segurando uma estrela nas suas garras,
flanqueada por bandeiras americanas ondulantes.
Caros
cidadãos, escrevam aos seus congressistas sobre a conspiração de inspiração
comunista que quer retirar os nossos direitos de capturar e de vender as
estrelas. Há milhões de estrelas nos céus, como qualquer criança sabe. E nem
sequer se podem ver todas porque algumas delas estão longe demais. Não pode
haver qualquer razão racional para se querer que todas
elas fiquem lá em cima. Especialmente quando há bilhões de dólares para se
ganhar por investidores privados. Manifestem-se por seus direitos de americanos,
manifestem-se pela livre iniciativa!
Entretanto
o céu, à noite, começou a ficar esmorecido. Os investidores andavam atrás
das estrelas mais brilhantes e cintilantes, e assim as de primeira magnitude
começaram a desaparecer numa proporção alarmante.
Os
astrônomos juntaram-se e tomaram posições públicas sobre o que estava
acontecendo.
Conhecimentos
preciosos sobre a formação do universo estão se perdendo para sempre. Não me
dá nenhum prazer saber que a estrela Betelgeuse
está no porão de um duque austríaco qualquer escreveu um. Está fora do
contexto.
Um
senador de um Estado com o céu extremamente poluído declarou para um jornal
local: Finalmente a astronomia está dando dinheiro e não simplesmente
gastando-o. Agora serão poupados milhões de dólares de bolsas da Fundação
Nacional de Ciência, que de outro modo seriam desperdiçados em telescópios
maiores ou em mais rádio-telescópios. Alguma vez todos os astrônomos,
gastando todo este dinheiro durante séculos, produziram um centavo para o público?
Eles falam de conhecimento. Claude Blakely é o primeiro a mostrar bom senso.
Quando
a estrela Polaris foi capturada, tive
a certeza de que a maré ia virar a favor dos astrônomos amadores e
profissionais. Mas, com exceção de alguns navegadores, a maioria das pessoas
estava olhando para as telas de seus aparelhos de televisão e não podiam se
preocupar com isso.
Por
que é que eles não usaram o satélite? Perguntou a minha irmã quando leu
um artigo sobre um marinheiro que se perdeu por causa das estrelas desaparecidas
e acabou encalhando nas rochas. É para isso que servem todos estes satélites,
não é ?
Eles
irão roubar satélites logo-logo, murmurei eu. Deixei cair todas as
fotografias de noites estreladas uma após uma, numa pilha no chão entre meus pés.
Era assim que costumava ser.
No debate político sobre a
legislação do patrimônio cultural subaquático nos EUA, a revista Sea
History, publicou em 1979, este celebre e clássico underground de
George F. Bass, então presidente do Institut
of Nautical Archaeology. Em carta anexa o autor observava que se
substituirmos naufrágio por estrela nesta história, teremos a descrição
precisa do que está acontecendo neste país e no mundo relativos à arqueologia
subaquática.
Diga
Não à caça às estrelas!
Diga
Não
à caça aos tesouros...
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