ISSN 1807-1783                atualizado em 26 de agosto de 2004   


Editorial

Expediente

De Historiadores

Dos Alunos

Arqueologia

Perspectivas

Professores

Entrevistas

Reportagens

Artigos

Resenhas

Envio de Artigos

Eventos

Curtas


Nossos Links



Destaques
Fale Conosco
Cadastro
Newsletter


O Homem que roubava as estrelas

por Tradução: Gilson Rambelli


Cortesia: Ceans
O caça-estrelas
Uma Metáfora sobre a caça ao tesouro

 

 

 

 

 

Uma Metáfora sobre a caça ao tesouro

Por: George F. Bass

           

 

 

 

 

 

 

 

 

            Quando olhei para o céu naquela noite, primeiro pensei que uma nuvem havia coberto uma parte da Via Láctea. Mas o ar fresco da noite não tinha nenhuma umidade. Depois de limpar os meus óculos e olhar outra vez, percebi que a estrela Mizar tinha desaparecido e liguei para o observatório da universidade mais próxima.

            “Falta uma estrela”, eu disse, “A estrela Mizar não está lá!”

            “No momento não temos nenhuma informação”, foi a resposta.

            A edição seguinte da Tempus, a nossa melhor revista, trazia uma explicação. Com o título Ciência apresentava uma breve informação:

            “O astrônomo Claude Blakely, depois de anos de pesquisa e experimentação, conseguiu finalmente desenvolver um método para capturar estrelas. Por um preço que não revelou, vendeu a estrela Mizar a um colecionador anônimo em Genebra. Este, através de um porta-voz de Nova Iorque, assegurou ao público que a estrela será exposta num planetário particular, dentro dos próximos dois anos, e que centenas de cidadãos assim poderão vê-la”.

            Indignado, comecei a enviar cartas à revistas, editores e políticos. As estrelas, dizia eu, pertencem a toda a gente. Aos astrônomos cabem fazer os mapas das estrelas, medi-las e estudá-las nos mínimos detalhes. Mas, acrescentava eu, os astrônomos devem correr atrás do conhecimento. Não era suposto possuírem as estrelas. E eu não julgava que o Sr. Blakely devesse ser chamado de astrônomo.

            “A sua atitude me choca pela arrogância”, respondeu-me um dos mais conhecidos colunistas. “Claude Blakely sabe mais de astronomia do que qualquer doutor, ou então não poderia ter capturado aquela estrela. E de qualquer modo, porque é que os astrônomos profissionais hão de ter todas as estrelas? Há um número suficiente por aí a fora. O senhor só está com inveja por nunca ter capturado nenhuma”.

            A minha objeção de que o público, tal como os astrônomos, tinham direito às estrelas e de que as gerações futuras tinham o direito de vê-las no céu, ficou sem resposta.

            Algumas pessoas escreveram aos seus congressistas, mas devido ao fato da grande maioria viver em cidades poluídas, onde nunca podiam ver quaisquer estrelas, poucas cartas foram enviadas. Um jovem congressista de um dos Estados, onde o céu era excepcionalmente claro acabou por promulgar uma legislação contra a prática de se capturar estrelas.

            Nessa ocasião, porém, Blakely já tinha vendido os direitos do seu sistema de capturar estrelas a um certo número de sócios.

            “As mãos viscosas da iniciativa governamental estão tentando arrancar os despojos do trabalho árduo do último dos grandes inventores”, trovejou o colunista. “Claude Blakely e os seus sócios representam a última fronteira da iniciativa privada”.

            Na noite em que reparei que a estrela Sirius já não estava no céu, abri o Boletim dos Amigos das Estrelas Particulares, que tinha chegado no correio daquela tarde; tinha como logotipo uma águia segurando uma estrela nas suas garras, flanqueada por bandeiras americanas ondulantes.

            “Caros cidadãos, escrevam aos seus congressistas sobre a conspiração de inspiração comunista que quer retirar os nossos direitos de capturar e de vender as estrelas. Há milhões de estrelas nos céus, como qualquer criança sabe. E nem sequer se podem ver todas porque algumas delas estão longe demais. Não pode haver qualquer razão racional para se querer que todas elas fiquem lá em cima. Especialmente quando há bilhões de dólares para se ganhar por investidores privados. Manifestem-se por seus direitos de americanos, manifestem-se pela livre iniciativa!”

            Entretanto o céu, à noite, começou a ficar esmorecido. Os investidores andavam atrás das estrelas mais brilhantes e cintilantes, e assim as de primeira magnitude começaram a desaparecer numa proporção alarmante.

            Os astrônomos juntaram-se e tomaram posições públicas sobre o que estava acontecendo.

            “Conhecimentos preciosos sobre a formação do universo estão se perdendo para sempre. Não me dá nenhum prazer saber que a estrela Betelgeuse está no porão de um duque austríaco qualquer” escreveu um. “Está fora do contexto”.

            Um senador de um Estado com o céu extremamente poluído declarou para um jornal local: “Finalmente a astronomia está dando dinheiro e não simplesmente gastando-o. Agora serão poupados milhões de dólares de bolsas da Fundação Nacional de Ciência, que de outro modo seriam desperdiçados em telescópios maiores ou em mais rádio-telescópios. Alguma vez todos os astrônomos, gastando todo este dinheiro durante séculos, produziram um centavo para o público? Eles falam de conhecimento. Claude Blakely é o primeiro a mostrar bom senso”.

             Quando a estrela Polaris foi capturada, tive a certeza de que a maré ia virar a favor dos astrônomos amadores e profissionais. Mas, com exceção de alguns navegadores, a maioria das pessoas estava olhando para as telas de seus aparelhos de televisão e não podiam se preocupar com isso.

            “Por que é que eles não usaram o satélite?” Perguntou a minha irmã quando leu um artigo sobre um marinheiro que se perdeu por causa das estrelas desaparecidas e acabou encalhando nas rochas. “É para isso que servem todos estes satélites, não é ?”

            “Eles irão roubar satélites logo-logo”, murmurei eu. Deixei cair todas as fotografias de noites estreladas uma após uma, numa pilha no chão entre meus pés. “Era assim que costumava ser”.

 

            No debate político sobre a legislação do patrimônio cultural subaquático nos EUA, a revista Sea History, publicou em 1979, este celebre e clássico “underground” de George F. Bass, então presidente do Institut of Nautical Archaeology. Em carta anexa o autor observava que “se substituirmos naufrágio por estrela nesta história, teremos a descrição precisa do que está acontecendo neste país e no mundo relativos à arqueologia subaquática”.

Diga Não à caça às estrelas!  

Diga Não à caça aos tesouros... 

Discussão aberta em nosso Fórum História e-História