Sobre a autora[1]
A palavra Maraú atualmente nos remete a um lugar paradisíaco considerado por
muitos como a “polinésia baiana”, cuja península tem sido visitada por turistas
do mundo inteiro, ganhando cada vez mais destaque nas páginas de revistas e
sites que versam sobre o potencial turístico baiano. Mas, esse município de rica
diversidade, divide-se em muitos, são dois distritos -Ibiaçú e Piabanha -, e
dez povoados – Barra Grande, Campinho, Taipus, Tanque, Taboleiro, Quitumgo,
Tremembé, Sapinho, Caubi e Saquaíra – constituindo-se num rico universo de
belezas naturais e culturais, e só em 1938, a Vila foi elevada à categoria de
Cidade. Atualmente consta no relatório sobre a Bahia, na categoria dos
Municípios com Registro de Comunidades Quilombolas 2005,[2]cinco
comunidades: Empata Viagem, Piracanga, Torrinha, Boité ,Terra Seca.
Se esse presente exuberante encanta pela paisagem, o passado rememorado por quem
mora na ex-vila nascida no século XVIII, encanta pela representatividade, cujo
cotidiano foi palco de emblemáticas negociações e conflitos. O olhar sobre as
narrativas e memórias do cotidiano da vila, especialmente na segunda metade do
século XIX, nos traz uma história de resistências.
O ponto de partida são as narrativas de sujeitos marcados pelas heranças
africanas na sua localidade e em espaços de sociabilidades ainda vigentes, em
memórias de ações de liberdade, de trabalho pesado na vigência da escravidão e
mesmo na pós-abolição, nas resistências engendradas por livres, cativos e
libertos. Nesta pesquisa, busca-se analisar a trajetória histórica dos homens e
mulheres escravos que viveram na Vila de Maraú, bem como nos seus distritos no
século XIX, destacando a relação trabalho e sociabilidades e ainda, fé e festa,
a partir das reminiscências trazidas tanto pela oralidade, quanto pelos
documentos consultados que evidenciam que essas experiências foram criadas nos
universos das irmandades, do folguedo do cucumbi e mandú, e na relação de
trabalho na usina de “João Branco”.
Esses três elementos são e acionam sinais diacríticos como referenciais de
identidade e identificação,são manifestadas no presente ora pelas memórias dos
moradores que contam ,lembram e narram; ora pelo reviver da festa que, a partir
de 2001, e mais recentemente da apresentação teatral, pelo Grupo de Teatro
Amador de Maraú vem retratando o re-surgimento do Cucumbi na região.
O estudo desses três elementos – as irmandades, as festividades tanto no
cucumbi quanto no Mandú, e a relação com a usina -, pode nos permitir examinar
padrões de comportamentos marcados pelas lutas e resistências vivas em
discursos coletivos, de tais modos, que apontam a festa como protesto pela
impossibilidade de freqüentar a igreja no século XIX, e esta ter surgido como
manifestação e reafirmação de uma identidade e irmandade que construiu para si
um outro espaço de culto, a igreja de Nossa Senhora da Conceição do Cambuízo.
Os rastros de memória sinalizam de que modo se deram as experiências da
escravidão e da liberdade, em sua dinamicidade nas comunidades sul baianas
egressas dessas realidades escravagistas. Foi da memória de velhos como lugar de
lembrança e de suas narrativas, como lugar de histórias, que esta discussão
nasceu. Nesta, “fica o que significa”[3]
como afirma Bosi, e ao lidar com essas experiências do lembrar como fonte,
encontramos verdadeiros guardiões da história de uma comunidade. Na Bahia, o
rico mosaico de comunidades com patrimônios materiais e imateriais tem sido
objeto de intensa pesquisa, em diversos recortes e leituras interdisciplinares.
Nestes, a História Oral como fonte e metodologia oferece-nos possibilidades de
ir ao presente-passado de uma dessas comunidades, que no Oitocentos figurou na
sociedade sul baiana como ponto de dinâmico encontro diaspórico de africanos
escravizados.
As memórias de alegria, folgança e festa, são entremeadas aos sentidos de
resistência negra, e alternam-se, entre os relatos de tristeza, escravidão e
exploração no trabalho escravo e depois deste, assim como no período de
transição e pós-abolição. O caminho da pesquisa foi dos relatos às fontes, dos
depoimentos aos arquivos e assim, destes entrecruzamentos de dados, essa
discussão ganhou corpo e indica novos caminhos, - cujos diálogos estão entre os
relatos e os documentos escritos, especialmente no Arquivo Público do Estado da
Bahia, e que tem se tornados, cada vez mais profícuos.
Há a preocupação em buscar na oralidade, a valorização de práticas atuais que
na Vila que foram retomadas pelo turismo, cujas lógicas comerciais desconhecem
suas heranças africanas, e os sentidos pelos quais estas práticas nasceram e
vicejaram: as festas do Mandu e do Cucumbi, as ruínas da Usina de João Branco
são pontos de visitação turística atualmente,e ambos tem muito a dizer ,pois em
sua historicidade transcendem, em condição de patrimônio material e imaterial,
são narrativas, testemunhas vivas, acionadas a falar de si, seja pelo turismo ou
pelas memórias de dor,alegria e trabalho que suscitam ainda hoje, e da qual
alguns moradores fazem uso destas.
A vila, e ainda mais sua sede, ainda tem grande força na sociabilidade das quais
gozam as pequenas comunidades, o que deixa em evidência a arte de narrar
experiências individuais e coletivas, o que inclusive, permitiu a reativação da
festa pelos mais novos, os netos desses sujeitos, o ouvir e o contar de como era
no passado e sua recriação no presente desde 2001. É ainda Bosi[4]
que discute como essas narrativas, misturam-se com a história dos próprios
narradores, o que explica o fato de, desses relatos ter renascido as
festividades, com informações dos moradores mais antigos e a iniciativa dos mais
novos; e esse lugar do qual fala esses mais velhos advém das reminiscências do
ouvir de seus pais e avós, escravos e libertos que as instituíram. Os fatos
narrados são retirados do acervo memorial da comunidade, trazem memórias que
atravessam o Atlântico, e trazem uma África diasporicamente ressignificadas em
terras sul baianas. O estudo utiliza-se das fontes orais, como fonte
privilegiada e, além delas, fontes escritas dos arquivos da fábrica e jornais de
circulação local, dentre outras
Vamos pensar em experiências de sujeitos que na Bahia provincial recriavam e
reelaboravam coletivamente e em diferentes dimensões seu viver, aqui tomado
desde a construção de uma nova igreja e de uma nova ordenação do espaço
religioso, a dos negros, atravessando o período da abolição, respeitando o
recorte que as memórias demonstraram ser importantes nos acontecimentos locais,
trazendo o trabalho na usina como desfecho maior desses episódios de lutas e
embates.
Três narrativas dão-nos uma idéia da vila de Maraú no século XIX, das práticas
legítimas de festar e folgar, estabelecidas no século XIX. Em seguida recorro a
estas, como forma de introduzir os recortes aqui propostos.
“Em 22 de maio de 1843 os escravos de Maraú apresentam uma petição na Igreja de
São Sebastião do Maraú e pedem o direito de funcionamento de uma confraria[5]
, a de São Benedito , naquela paróquia e para tal justificam o modo como são
zelosos e organizados”.O
documento dá a idéia de um grupo de africanos organizados e que se intitulam
merecedores desta autorização. A confraria é um dos objetos aqui pensados, e a
festa do Cucumbi, tem imbricamentos com esta, que por hora, exige-nos pensar
primeiramente na relação da confraria com a criação e permanência das festas dos
negros escravos, libertos e livres da localidade.
Esta relação tem sido tema de vasto estudo. Ao se debruçar sobre as culturas
africanas, Artur Ramos[6]
esclarece que essas associações originaram-se do regime da escravidão. Foi um
esforço coletivo que fizeram os negros, de reação ao regime que os oprimia.
Reação na confraria religiosa, a busca de um consolo ou derivação espiritual.
Reação, no grupo de jogo, nas festas cíclicas, no desfile do cucumbi pela vila
reafirmando a cultura africana. Carneiro sugere que estas estão então as
contribuições dos bantos para a cultura baiana, que foram muito maiores e
significativas:
(...) introduziram os cucumbis (a auto dos Congos), as festas do Imperador
divino, o louvor a São Benedito, etc., já estudados por pesquisadores vários, e
– conforme resultado de minhas pesquisas pessoais, - o samba, a capoeira de
angola, o batuque, as festas do boi, autos, danças de conjunto, lutas e festas
populares comuns a todo recôncavo e mesmo à zona litorânea do Estado. A sua
influência se entendeu, ainda, à própria religião, - até então monopólio dos
negros jejes-nagô, - criando os atuais “candomblés de caboclo”, tão ricos de
sugestões para o estudioso da etnografia religiosa afro-brasileira.[7]
Os depoentes[8]
afirmaram que o Cucumbi assim como a capela, foram organizados pela irmandade,
mas não sabiam detalhar qual o período. Desse modo, a consulta ao arquivo
revelou que além das organizações comuns, a existência do pedido da Confraria de
São Benedito em 1843, depois da construção da capela - que oralmente e
orgulhosamente atribuída aos escravos e atrelada á festa do Cucumbi que
fortalecia o ânimo para ações coletivas como esta, a da construção e do
enfrentamento simbólico-, e
da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário em 1854[9].
E a associação entre confrarias e irmandades e a vigência das “festas de
preto”, dão um tônus a essas manifestações que transcendem as descrições
folclorizadas tão arraigadas nos olhares de viajantes e memorialistas .
É ainda Artur Ramos em relação a essas confrarias que afirma que autos e
festejos populares como os Congos, Taieiras, Cucumbis, Caboclinhos, Reisados,
Maracatus, como elementos que estavam diretamente vinculados as confrarias.
Entre os relatos orais e a consulta ao arquivo, emergem documentos como a
existência da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário que parece acompanhar a
realidade que justifica, até certo ponto, pelo fato da devoção ter sido
introduzida já na África, pelos colonizadores portugueses.
A pesquisa tem revelado sinais nítidos da presença da cultura centro-ocidental
africana que havia passado pelo processo de intensa presença católica
portuguesa, área de onde muitos escravos eram oriundos. Essa busca pelas
irmandades e confrarias possui muitas acepções, mas ambas estão situadas no
cruzamento entre práticas lusitanas medievais com as mais variadas formas de
manifestação cultural de origem africana. Assim, poderíamos suscitar diversos
eixos pertinentes de análise e que subjazem nesta associação, mas o que aqui
enfatizamos desde o mostrar das solidariedades verticais e horizontais até sua
constituição simbólica que ensaiava em si mesma velados exercícios de
experiências cotidianas de autonomia e liberdade, ainda mais que, legalmente os
cativos não eram considerados como cidadãos. Sob muitos aspectos estas podem
ser tratadas, num universo de nascimento, morte, sacramentos obrigatórios que
permeavam a vida cristã, o batismo, a comunhão a confissão, o casamento, e as
festividades como ápice da vida social pública do grupo que se mostra.
Nessa circularidade, as confrarias e irmandades tornaram-se espaço de
sociabilidades, inaugurando outros sentidos, como o da importância social e
econômica experenciada por sujeitos naquele contexto, mas sem deixar de ser
também um espaço de autonomia, reconhecimento, e no sentido mais pleno e que
aqui nos interessa, o da negociação e do conflito.
Cunha[10]
discorre sobre as novas possibilidades interpretativas nas festas e “danças de
pretos”, nomeados com legítima tradição. Destas decorrem as narrativas sobre os
desfiles nas ruas de reis e rainhas, que em diversos pontos da Bahia contrariava
os lugares estabelecidos pela sociedade escravista. Outro espaço vinculado e que
possibilitava estas condições eram as Irmandades, como espaço de devoção, também
se preocupava em fazer dos seus, parte desse mundo católico. A devoção aos
santos padroeiros parece servir como auxilio em diversos momentos cotidianos.
Os arquivos recentemente consultados referentes à Vila de Maraú no século XIX
comprovam e enriquecem muitos aspectos apontados pelas narrativas vivas nas
memórias dos moradores sobre as festas, o trabalho na usina de “João Branco” e a
relação entre escravos, livres e libertos e os padres da freguesia no cotidiano.
E que, de fato esses relatos estão ancorados em evidências bem guardadas no
APEB, seção colonial e provincial. Os moradores não fazem referências às datas
precisas, mas às estratégias, aos sofrimentos e aos momentos de folgança e de
demonstração pública pelas quatro ruas que a vila possuía, mas cuja força ecoava
em seus dois distritos e nos dez povoados. Daí percebe-se a recriação de
práticas culturais nascidas da diáspora que ligou intrinsecamente o Brasil ao
continente africano no cotidiano, nas sociabilidades e engedramentos simbólicos,
religiosos e festivos.
A associação entre o momento do folguedo e suas reminiscências são repetidas
pelos moradores e atribuídas a uma mesma origem temporal: a colonial, e na
expressão de uma das moradoras mais antigas[11]
, sobre a organização da folgança revela “ o cucumbi foi os pretos, os pretos da
costa”. Quanto aos primeiros organizadores do folguedo, é sabido de todos que
foram os negros africanos que trouxeram e a manifestaram na Vila com sentidos
diferenciados, e o atual organizador da festa[12]
explica que, na retomada da festa do Cucumbi, deu-se desse modo: “segundo
algumas histórias, ouvidas, passadas pelos antigos, fala muito que a questão do
Cucumbi veio da África, né, quer dizer que surgiu lá no norte do Congo, na
África”.
O certo, é que ao falar da festa, a associam aos momentos de descanso, de
alegria e ou de enfrentamento. Fatos históricos como a alegria da abolição
aparecem no sentido do ouvir falar, repete-se , “os mais velhos contam” ,e faz
com que a mesma depoente exulte , enfatizando o poder e o teor de extrema
festividade do Cucumbi em momentos cruciais como a abolição, e conta , “ (...) e
aí a filha do reis viu o padecimento deles, ai libertou todos os escravos. Aí
desse dia eles ficaram tão alegres de sair desse padecimento e foram brincar o
Cucumbi, foram para rua enfeitados brincar”. Mas, a maioria das narrativas, traz
o momento de enfrentamento e de afirmação de identidade negras às manifestações.
Há um entrelaçamento entre a festa do Cucumbi e um sentido de resistência de
escravos, livres e libertos durante o século XIX..
Além deste, outro momento de sociabilidade era o Mandú[13]
que foi retomado há oitenta anos, as narrativas são ricas em detalhar suas
origens que notadamente na Bahia, essa festa é associada aos escravos da Vila,
como afirma Yeda Pessoa[14]
como sendo um “cortejo carnavalesco com a figura de um ser enorme, de cabeça
gigante, revestido com lençol branco, muito popular no Recôncavo do município de
Maraú, cerca de 140 km de Salvador.” Esse ainda é o retrato do que ocorre em
Maraú dias antes do carnaval, os escravos estavam proibidos de participar do
Carnaval e com criatividade, eles instituíram o seu próprio Carnaval. Para a
fantasia bastava o cesto no qual transportavam peixe, o lençol, o paletó e um
cabo de vassoura amarrado no quadril. Como tinham que trabalhar durante o dia e
faziam a festa durante a madrugada e, como eram proibidos de entrar na cidade,
ficavam na periferia onde moravam, essa manifestação está sendo preservada pelos
marauenses e visitantes. As festividades – o cucumbi e o mandu- e o trabalho na
usina são entendidos aqui como amostras de possibilidades de leitura e
interpretação de ocasiões festivas e cotidianas diversas sob a ótica da história
social.
O que há como denominador comum nesses modos de rememorar é o que aponta Cunha,
como “a idéia da resistência inerente às práticas festivas dos “populares” e de
suas tradições (...) no interior deste diálogo, o conflito se produz,reproduz e
realiza[15]”
Ao olhar para a Bahia setecentista, Lara analisa os significados dos reinados de
congo e oferece um panorama das sociabilidades negras na Vila de Nossa Senhora
da Purificação e Santo Amaro e retira de Calmon[16]
informações sobre as festas,cortejos e irmandades do século XVIII no recôncavo
baiano,especialmente em Santo Amaro, a autora encontra em Calmon as primeiras
referências sobre os Cucumbis no Brasil.[17]
E apresenta uma trajetória deste, informando que a primeira descrição data de
1753 na visão de Sotério da Silva Ribeiro como uma “jocosa peripacéssia”
composta de 13 figuras ricamente ataviadas que cantava e dançava ao modo
etiópico ao som de violas,pandeiros”.Para Moraes Filho[18]
os congos seriam danças e representações alusivas a episódios da história e da
mitologia da África Centro-Ocidental interpretados por africanos escravizados no
Brasil., o autor propõe, inclusive, que o nome Cucumbi foi um substituto para
“congo” em algumas regiões do país Cucumbi narravam a morte de um filho do rei e
da rainha e exigiam a sua ressurreição, obtida por meio de rituais mágicos.
Quanto ao Cucumbi baiano, este foi discutido por Manoel Querino[19].
A vila de Maraú, no Sul da Bahia tem dois padroeiros e duas histórias, dois
lados do Atlântico se encontram nos altares, o protetor em homenagem aos frades
italianos e a protetora instituída e ressignificada pelos africanos. “Os
padroeiros do município são São Sebastião e Nossa Senhora da Conceição, esta
chamada de “Cambuízo”, que têm como data festiva 20 de janeiro e 08 de dezembro,
respectivamente. ”[20]
De uma aldeia indígena a um reduto de negros escravos, assim teve origem com a
presença dos frades capuchinhos italianos, onde antes era aldeia de índios
“Mayrahú”, descoberta por estes em 1705. O Distrito foi criado em 1717, e a
Capela construída pelos Frades elevada à categoria de Freguesia, com o nome de
“São Sebastião de Mayrahú”, pelo arcebispo Dom Sebastião Monteiro da Vide, no
mesmo ano e a freguesia foi elevada à categoria de Vila, em 17 de junho de 1761,
no período em estudo, a vila contava com 2.000 habitantes em 1818[21].
Daí percebe-se a recriação de práticas culturais nascidas da diáspora que ligou
intrinsecamente o Brasil ao continente africano no cotidiano, nas sociabilidades
e engedramentos simbólicos, religiosos e festivos. Os relatos orais sobre o
passado englobam fragmentos das histórias de vida e nos mostram como o modo de
entender o passado é construído, processado e integrado à vida das pessoas. Essa
reconstrução do passado, seja a nível individual ou coletivo, está impregnada de
identificação.
Reconhecendo as dificuldades encontradas na viabilidade de uma pesquisa dessa
natureza, seja pela abordagem ou pela dispersão das fontes, privilegiou-se o
cruzamento de uma variedade documental que se encontra no Arquivo Público do
Estado da Bahia. São correspondências de juízes, do governo da província da
Bahia, atas da câmara das vilas de Maraú, Camamu e Ilhéus, registros policiais e
memórias de viajantes. Apesar do caráter polissêmico da festa, é preciso
considerar aqui o caráter dado pela memória dos que a revivem e o modo como esta
é referenciada, como brincadeira e resistência e, na maioria das vezes, como
momento oposto à dura vida cotidiana de trabalho na usina de João Branco. Como
entrelaçar festa, trabalho e sociabilidades? Esta pergunta move esta pesquisa.
Da sociabilidade ao trabalho
No dia 08 de julho de 1854, o clima era de euforia e de esperanças de futuro
próspero e lucrativo para um grupo de cidadãos na Vila de Maraú, o motivo para
tal, encontra-se registrado na ata da Sessão Ordinária da câmara Municipal de
Maraú[22],
a descoberta de um material que poderia ser muito rentável.
Tratava-se do resultado de uma pesquisa iniciada anos antes. Em 1847, o
presidente da província Antonio Ignácio d’ Azevedo comenta sobre pesquisas na
Vila de Maraú, e que o material encontrado desde 1845, e enviado ao Museu
Nacional, ao que indicava que deveria ser um trabalho realizado por equipe
estrangeira, o material também foi enviado para análise na Inglaterra, que se
tratava de petróleo e nafta encontrados por Tomaz do Nascimento.
A história acima é uma das muitas que vivem na seletividade da memória
marauense. Apenas quatro ruas e muitas histórias para contar, assim é o que se
afirma sobre a sede, Maraú, diante do conjunto de dez distritos que o compõe.
Maraú guarda na memória histórias de muitas festas e lutas, mas, sobretudo, dos
mundos do trabalho. Da farinha de mandioca pela mão de obra escrava até a
produção de óleo e derivados do petróleo, há mais que décadas separando-as, há
memórias e muitos documentos e arquivos, à espera do “contrapelo” proposto por
Walter Benjamim[23].
O histórico da exploração - da mão-de-obra antes da exploração do sub-petróleo -
, tem início no século XVII, no contexto em que o baixo sul baiano, região
marcada por escravos e engenhos, abarcava Cairu, Biopeba e Camamu, e que, junto
com os aldeamentos indígenas vizinhos, tinham um papel bem definido de
produtores de alimentos destes, além de fornecedores de utensílios e madeiras,
mas o principal produto era sem dúvida a farinha de mandioca.
Maraú seguia economicamente o fluxo econômico das outras vilas, na dinâmica de
local de chegada de escravos e saída de farinha e aguardente, tendo o porto de
Camamu como referência para o escoamento da produção das populações das
freguesias de Camamu e Maraú, e seguia para Salvador a farinha e o arroz
produzidos pelos lavradores das margens daquele rio.Observa-se uma certa
especialização desta produção ao longo dos períodos colonial e imperial,
recebendo por parte do governo a obrigatoriedade de corrigir os problemas de
desabastecimento de gêneros alimentícios em razão da crescente população do
Recôncavo e Salvador, suprindo-as. Barickman faz uma estimativa, informa que no
ano de 1799, foram 4.000 alqueires de farinha[24].Parte
dessa produção também foi exportada para a Costa de África e alimentava muitas
frotas e comboios do comércio negreiro entre Portugal e o continente africano.[25]
Barickman ao examinar as vilas de Camamu, Ilhéus, Maraú e Barra do Rio de
Contas, entre 1785 e 1865, concluiu que a inserção de produtos ligados à
exportação, nessas localidades, não inibiu o crescimento da economia de
abastecimento, o certo é que o intercâmbio econômico favoreceu a construção de
laços de solidariedade, familiar e comercial entre os cativos das Vilas
supracitadas. No sul baiano oitocentista, a vila de Maraú estava prestes a
completar um século de existência, em 1860, quando recebeu a presença inglesa
através da instalação de uma usina, nas terras, antes marcadas pelo trabalho
escravo cuja maior produção era a farinha de mandioca, que entre outros
destinos, supria a capital da província.
As memórias sobre o duro cotidiano de trabalho na fábrica de João Branco revelam
além de lembranças de sofrimento, dão imagens detalhadas sobre a forma como era
a usina , e detalha até mesmo a existência de uma cadeia. Interessa-nos saber
qual a relação entre esta e a mão-de-obra e se esta teve em sua construção e no
seu funcionamento a mão- de-obra escrava, livre, liberta ou esteve a utilizar a
“mão de obra da transição”. Esta realidade das condições de vida e trabalho
nesta transição, ou fronteira entre a escravidão e a liberdade foi objeto de
intenso escrutínio por historiadores baianos[26].
As condições do trabalho envolvendo escravos, negros livres, brancos pobres tem
exposto uma série de arranjos de trabalho compulsório sinalizando poucas
oportunidades e autonomia na Bahia no período imediato a pós - abolição no
tocante ao trabalho no sul baiano oitocentista.
De modo que, diante das reminiscências que permeiam a memória dos descendentes
de escravos que viviam na vila, foi possível questionar sobre quais teriam sido
as condições de trabalho e particularmente, nas zona rural da Vila, se a
escravidão foi ou não seguida por relações de trabalho assalariado ou por uma
variedade de relações de trabalho compulsório ou não assalariado.
Em meados do Século XIX, o Imperador D. Pedro II outorgou as primeiras
concessões para exploração de carvão, turfa, folhelho betuminoso e petróleo no
sul do da Bahia em busca de fonte de energia para iluminação. A primeira
referência de que se tem notícia remonta às concessões outorgadas pelo Imperador
.A história do petróleo no Brasil começa em 1858, onde o decreto nº 2266
assinado pelo Marquês de Olinda, concede a José Barros Pimentel o direito de
extrair mineral betuminoso para fabricação de querosene de iluminação, em
terrenos situados nas margens do Rio Marau, na então província da Bahia.
A memória de um passado africano e afro-descendente forjada em solo brasileiro
tem sentido para as pessoas que se fazem herdeiras dessas lembranças e do modo
como a atividade de extração de querosene começou a ganhar,importância, devido à
atuação da firma John Grant e Cia..
Sobre esse sujeitos e o mundo do trabalho, Dona Ostília revela suas memórias e
explica “Foi os cativeiros que fizeram esse chamineu (...),oh! Como esses bichos
trabalhavam ali(...)tinha fábrica de tircido (sic),tinha vela,tinha a
cadeia,tinha tudo nesse João Branco”. A memória do lugar narra não só a
construção, mas a vida dura destes que a construiu inclusive com a existência de
uma “cadeia”.
A mão-de-obra livre e despossuída na região seguiria em novas relações de
produção que poderiam ser transitórias, como a meia e a parceria. O
funcionamento da usina no período pós-abolição sugere questionar qual seria a
relação entre os antigos escravos que deixavam as fazendas e os imigrantes, que
chegavam em grande número, em busca de trabalho e de melhores condições de vida.
Os trabalhadores recém libertos da escravidão não possuíam habilidades técnicas
para o trabalho fabril . Os operários imigrantes tinham experiência do trabalho
industrial.A consulta às fontes arquivísticas tem dado mais elementos que
corroboram no diálogo entre a oralidade e os Inventários, há no APEB um total de
sete documentos referentes à Companhia Internacional de Maraú entre 1891 e 1893.
Em meados do século XIX no Brasil, o mundo do trabalho era basicamente
constituído por escravos e por pequenos lavradores que trabalhavam no campo e
cultivavam a terra para seu sustento. Nas cidades os trabalhadores livres eram
artesões, que trabalhavam em pequenas oficinas onde faziam o seu trabalho.
O destaque que essas explorações tiveram faziam parte de uma mentalidade maior,
a da Província que com anseios de progresso, não viu até efetivamente até a
década de 40 do século XIX , ou melhor, não tinha obtido notícias mais
promissoras das riquezas minerais, embora de toda a província , materiais eram
enviados para análise. A presença marcante que a Inglaterra teria advém de seu
pioneirismo no trato como o carvão. O presidente da província em 1847[27]
anuncia os vestígios de betume, o que se transformaria numa verdadeira disputa
por muitas décadas seguintes. O valor histórico, mais que o geológico, nos
conduz a muitas reflexões que do plano econômico vão para o social e abarca os
sujeitos que viviam em Maráu, os que para lá se dirigiram, as ações do governo
provincial e o modo como o entrecruzamento desses interesses encontraram-se.
Quais situações foram experenciadas pelos escravos, livres e libertos do lugar
face às novas instalações e explorações? Dessa fase inicial a da descoberta, os
arquivos e fontes consultadas apresentam um elenco de nomes, datas e diferentes
nacionalidades que passaram a explorar o solo marauense. Há ainda inexploradas
uma farta documentação tanto no APEB, quanto notas de jornais[28],
periódicos, bibliográficas e mais, orais – que na verdade acionaram esta
pesquisa -, que carecem de diálogo e desvelamento, das situações sociais dos
sujeitos que a historiografia econômica subjaz em silêncio, inversamente desta,
essa é a nossa maior proposta. O museu nacional orientava as ações a partir da
cada análise enviada aos Estados Unidos, Inglaterra, em ofícios ao ministro do
negócio do Império, confirmando que uma vez comprovado pelos Estados Unidos,
seria muito útil principalmente na iluminação pública, além de lucrativo. Era o
período das explorações na Fazenda João Branco em Maraú, era para a Corte o afã
de ciência e nacionalismo, de várias partes do país chegavam noticias
promissoras de minerais, que em pouco tempo não vigoravam. Decorre desta postura
o surgimento de um Comitê Científico de Exploração[29]
sugeridas pelo Museu Nacional e o IGHB, dividida em subcomissões partindo do Rio
de Janeiro para os estados brasileiros, ao qual a estadia na Bahia se encontra
num relatório de 1861, com informações sobre a região próxima a Maraú.
Uma verdadeira e disputadíssima corrida marcaram toda a década de 1860, grupos
locais e regionais de Maráu, a figura expressiva de João Pimentel, influente e
que desde maio assinara contrato de iluminação a gás da cidade de Salvador, até
o norte americano Frederick Southwort que em carta ao imperador, em 6 de
dezembro de 1858 pedia além do direito de concessão de dominação inglesa,
Edward Pelew Wilson, vende o direito de exploração a Lord Washington e Jonh
Grant em 1884. A partir daí, em 1885 há informações que foram empregados nesse
ano, 150 trabalhadores e máquinas vindas da Inglaterra aumentariam esse número.
Teixeira[30]
não detalha a origem destes e qual a relação com os moradores da Vila, mas
aponta que em pouco tempo o número subiu para 300 e que inclusive a turfa
gerava energia para construção da fábrica de exploração que durou cinco
anos,entre 1885 e 1890 pela Jonh Grant e Company, inaugurando-a em 1891 e
integrando a Companhia Internacional de Maraú e chegando a empregar 450
trabalhadores.[31]
Nessa transição da mão de obra escrava – durante os cincos anos de construção -
, para a livre, se dá a abertura e o fechamento da fábrica, que entre muitas
versões, apontam uma greve dos trabalhadores da fábrica
Nesta lacuna, a história oral entra em cena e traz o que os moradores
narram,sinalizando que a memória é um processo de construção seletiva,
portanto, o ato de lembrar ou esquecer significa, entre outras questões, a
preservação daquilo que se tem como importante.
Um dos homens mais poderosos do Brasil no século XIX salienta Teixeira[32],
o inglês Wilson teve dificuldades de vender a turfa, daí vendeu a concessão de
exploração a Jonh Grant e junto com esta a Fazenda João Branco, sede da empresa
que faturaria com a venda do óleo extraído da turfa. Muitas perguntas estão
movendo essa pesquisa: quem eram esses trabalhadores?Qual o perfil dos que
trabalhavam na obra durante os cinco anos? Escravos ou livres e em quais
arranjos? Teria de fato existido essa greve? Entre a história oral e história
oficial, há muitas lacunas e um presente que instiga, por que a memória não
deixa adormecer.
Referencias Bibliográficas
BARICKMAN, B. J. Um Contraponto Baiano: açúcar, fumo, mandioca e escravidão no
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VILHENA, Luís dos Santos. A Bahia no século XVIII, (Anot. [H]. Braz do
Amaral.). Salvador: Ed. Itapuã, 1969, Vol. II, Livro II.
[1]
Mestre em Cultura, Memória e Desenvolvimento Regional, Docente da UNEB,
campus XIII e SEC-BA / Email: tianebat@hotmail.com
[2]
http://www.seagri.ba.gov.br/Comunidades%20Quilombolas.pdf
[3]
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade. Lembrança de Velhos,2001
[5]
APEB – Seção Colonial e Provincial – Maço nº 5270 (1826- 1888)
[6]
Ramos, Arthur. Folclore negro no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1935.
[7]
Edison Carneiro, Religiões Negras / Negros Bantos. 2ª ed. Rio de
Janeiro/Brasília, Civilização Brasileira/INL, 1981. p.128.
[8]
Serão apontadas, neste texto, as referencias das entrevistas
especialmente com três moradores da Vila que foram coletadas e
autorizadas em 2007, sob a minha orientação em TCC.
[9]
APEB- Catálogo das Irmandades – Maço n.º 5256 – Pág. 85 – Irmandade de
Nossa Senhora do Rosário
[10]
CUNHA, Maria Clementina Pereira Cunha(org).
Carnavais e outrasf(r)estas: ensaios de história social da cultura
– Campinas/SP: UNICAMP, Companhia das letras, 2003
[11]
Ostília Conceição Sacramento , depoimento concedido a Ramille Roque
Pinheiro em 22/06/2007
[12]
Josenilton Sacramento, neto de Dona Ostília e responsável pelas atuais
apresentações do grupo desde 2001.
[13]
PESSOA DE CASTRO: (banto)1. (BA) –s.m. tipo de mascarado que
consistia em se colocar uma peneira na cabela, e outra junto ao tronco,
escondendo totalmente o corpo e os braços por uma roupa qualquer;
espantalho, figura grotesca, situação ou coisa inóspita; trambolho,
estorvo; (p.ext.) pessoa vestida com roupa maior do que devia.
[14]
PESSOA DE CASTRO, Yeda. No canto do acalanto. Salvador: Centro de
Estudos Afro-Orientais, 1990. (Série Ensaio/Pesquisa, 12)
[15]
CUNHA, Maria Clementina Pereira Cunha(org).
Carnavais e outras f(r)estas: ensaios de história social da cultura
– Campinas/SP: UNICAMP, Companhia das letras, 2003,Pag.18
[16]
CALMON, Francisco. Relação das faustíssimas festas. Introdução e notas
de Oeyda Alvarenga e transcrição de Ronaldo Menegaz. Rio de Janeiro:
MEC-SESC-FUNARTE/Instituto Nacional do Folclore, 1982.
[17]
LARA,
Silvia Hunold.
Significados Cruzados: um reinado de Congos na Bahia setecentista. In:
CUNHA, Maria
Clementina Pereira (Org.) ,pag 89
[18]
FILHO, Mello Moraes. Festas e tradições populares no Brasil. São Paulo:
Itatiaia, 1999, p.177
[19]
Manoel Querino, A Bahia de outrora, 1946, p. 63
[21]
DIAS, Marcelo Henrique. Economia, Sociedade e Paisagens da Capitania
e Comarca de Ilhéus no Período Colonial. 2007. 424f. Tese (Doutorado
em História Social) – I FCH, Niterói, Universidade Federal
Fluminense, 2007, pp.350-353; Vilhena,op. cit. p.204
[22]
APEB- Sessão Colonial e Provincial caixa 1606, Maço 4633
[23]
BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre
literatura e crítica cultural. Trad. Sergio Paulo Rouanet. São
Paulo: Brasiliense, 1994
[24]
BARICKMAN, 2001. Os valores totais de alqueires constituem as remessas
enviadas de farinha de mandioca à cidade da Bahia, Salvador.
[25]
CAMPOS, 2006; REIS, 1996; SCHWARTZ, 1988
[26]
Cf. especialmente FRAGA FILHO, Walter. Na Encruzilhada da Liberdade:
história de escravos e libertos na Bahia (1870 – 1910). Campinas/SP:
UNICAMP, 2006.
[27]
Cf. Cid Teixeira ,2010.
[28]
Jornal Diário da Bahia, de 1863; Correio Mercantil de 1865
[29]
Decreto Lei nº 884 de 01/10/1856
[30]
TEIXEIRA, Cid. História do Petróleo na Bahia, 2010.
[31]
Alfredo Silva publica em 1893, “Pequena Geografia da Comarca de Camamú”
um livro onde detalha os números do capital e dos empregados.