ISSN 1807-1783                atualizado em 28 de setembro de 2010   


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Análise sobre os métodos e conceitos em História Cultural

por Leonardo Santana da Silva

Sobre o autor[1].

Ao começarmos esta discussão que tem como propósito analisar o campo da História no que tange aos métodos e conceitos da chamada “História cultural”, precisamos antes de tudo conhecer os principais objetivos que norteiam este campo historiográfico. A partir de então, nesta perspectiva, buscaremos estabelecer um diálogo referente ao tema deste trabalho visando abordar algumas teorias que estejam voltadas para os tópicos relacionados aos métodos e conceitos em História Cultural.

Para darmos início ao tema proposto queremos partir da premissa de que há uma grande diferença entre os dois campos historiográficos que envolvem a História da Cultura e História Cultural. Embora o foco de nossa abordagem esteja direcionado à História Cultural, é necessária uma breve elucidação correspondente às duas correntes para que fiquem explícitas as suas diferenças.

Em rápidas palavras, queremos colocar que a História da Cultura está condicionada a uma leitura em que se propendem a interpretação e a compreensão através das artes, o que ocorre de maneira diferente com a História Cultural. Para esta segunda corrente historiográfica, a preocupação primaz está pautada na leitura interpretativa de tudo aquilo que corresponde ao homem e, conseqüentemente, tudo que está presente nele.

Assim sendo, podemos fazer alusão ao historiador Peter Burke, o qual esboça uma história da História Cultural destacando algumas das suas linhas mestras e evidenciando o seu entrelaçamento. De acordo com Peter Burke, a História Cultural pode ser dividida em quatro momentos: a fase “clássica”; a fase da “história social da arte”, que começou na década de 1930; a descoberta da história da cultura popular, na década de 1960; e a “nova história cultural”[2].

Podemos perceber que, da mesma forma que existe uma diferença entre estas fases caracterizadas por Peter Burke, existem do mesmo modo diferenças entre História Cultural e História da Cultura. O fato é que a chamada História cultural clássica é dotada pela presença forte desta História da Cultura. Este período clássico foi um momento em que os historiadores concentravam seus objetos de estudo na interpretação da arte, filosofia, literatura, música e ciência, ou seja, era a leitura feita por meio das diferentes artes.

Com a História Cultural, o campo historiográfico de investigação torna-se mais amplo por concentrar em seus objetivos as diferentes possibilidades de analisar a trajetória do homem no tempo e espaço. A História Cultural, portanto, compreendem em seus estudos as mais variadas produções do próprio homem; nela podemos desempenhar a observação das representações, a cultura letrada, a cultura popular, as diversas manifestações sociais de determinados grupos, a produção cultural de sociedades diversas, cotidianos, crenças, normas de condutas, sistemas de educação, cultura material. Enfim, uma gama infinita de eixos fundamentais ligados ao polissêmico termo cultura é analisada pelo campo da História Cultural.

É desta forma que a História Cultural viabiliza o processo de evolução histórica. Ela não se limita a analisar apenas a produção cultural, seja ela literária ou artística de um modo geral, mas se propõe estudar as determinadas sociedades como um todo, enfatizado a pluralidade cultural das sociedades que estiverem no anseio do objeto de estudo do historiador.

A palavra cultura, assim como a História Cultural, era usada como sinônimo de alta cultura. Ou seja, ela era empregada para designar os aspectos da alta cultura. Entretanto, com o passar do tempo muitas críticas foram sendo feitas em direção do apropriado sentido do termo cultura. Nesta perspectiva, novas teorias foram surgindo por meio das diversas idéias de distintos historiadores interessados nesta temática.

Assim, a palavra cultura começa a ganhar significados mais abarcantes. Em um primeiro momento, a expressão cultura, que estava referindo-se às artes e às ciências, agora passa a instituir a descrição de características peculiares da sociedade. Temos como exemplo, as formas de comportamento, a medicina popular, as músicas, o folclore etc.

Dando continuidade à evolução na linha de significados do vocábulo cultura podemos perceber que a palavra ainda continuou a exprimir revelações interessantes a partir da investigação de objetos materiais (ferramentas, instrumentos de trabalho etc.) que nos trazem indícios da vida humana, e, da mesma forma, através das práticas sociais (rituais, festas, comemorações, etc.) como fonte reveladora do cotidiano humano por meio do processo comunicativo.

Outro fator de fundamental importância é o enfoque da História Cultural em direção aos mecanismos de produção e os mecanismos de recepção. Tanto a produção como a recepção são formas de produção cultural. A História da Cultura tal como era praticada nos tempos antigos era uma história elitizada, tanto nos sujeitos como nos objetos estudados[3].

Muitos são os elementos primordiais que a História Cultural se utiliza para delinear a produção historiográfica e esta multiplicidade na História Cultural é que tem atraído um interesse especial por parte dos historiadores.

Não obstante a toda gama de conhecimento produzido através dos desdobramentos que a História Cultural articula, o que devemos entender é que um dos seus objetivos cruciais compreende-se na crítica a uma visão compartimentada da cultura. Isto porque nela encontram-se todas as atividades humanas.

De fato, o cultural se faz presente em todo âmbito contextual, seja na esfera econômica, política ou social. Neste caso, podemos perceber que a História Cultural está mais interessada a uma idéia plural de cultura do que ao um simples conceito de singularidade humana. Esta produção cultural – que é realizada inevitavelmente pela sociedade – resultará no embasamento para as discussões direcionadas a respeito da origem da História Cultural e seus objetivos.

Queremos chamar atenção para o esclarecimento de que neste trabalho não iremos nos prender a explicação narrativa do advento da História Cultural, e sim destacar em linhas gerais os seus objetivos e de que maneira ela vem se estabelecendo como uma das modalidades historiográficas.

O historiador Francisco José Calazans Falcon, no capítulo V de sua obra História Cultural: uma nova visão sobre a sociedade e a cultura (2002), trava um debate em cima do discurso de outro historiador (Roger Chartier). Neste discurso são abordadas as tensões entre a História Social e a Cultural.

Dentro deste debate, a problemática a ser analisada é a forma com que o conceito de cultura imerso na História Cultural ganhou dimensões ampliadas, a ponto de não poder ser classificado como sinônimo de uma análise única ou singular. A História Cultural passa então a estudar o seu objeto no decurso de múltiplos olhares.

A realidade da tensão não implica, porém um retorno ou resgate das velhas e conhecidas metáforas espaciais, e das interpretações ou “explicações” delas outrora derivadas. Aliás, seria agora praticamente impossível conceber este retorno, pois, com o emergir da “história vista de baixo” e da “historia da cultura popular”, a alusão ao “lugar” passou a ser, sobretudo a própria condição da crítica das formas mais tradicionais tanto de se escrever a história quanto de conceber o cultural. Ficou então problemático reduzir a cultura ou cultural à ideologia ou, o que vem a dar no mesmo, situá-la na chamada superestrutura. O estudo das práticas culturais ampliou-se consideravelmente, abarcando tanto as atitudes subjacentes à vida cotidiana como a chamada cultura material (...).

(...) “os métodos quantitativos podem até transformar-se em coluna vertebral da nova história cultural; mas não podem mostrar-nos o passado em carne e osso” (...). [4]

Nota-se que a História Cultural vem passando por uma transformação no seu campo de abordagens historiográficas. Ela vai se desprendendo da utilização da História quantitativa e passa a adotar o campo da micro-história.

Com a micro-história, o historiador pretende canalizar suas observações para um foco que este estudioso tenha selecionado. Deste modo, o pesquisador consegue perceber as nuanças, ou seja, algo a mais que talvez não fosse percebido através de um olhar mais amplo. Esta prática historiográfica, portanto, evidencia a corroboração do modo como é visto o seu objeto e não só por aquilo que é visto apenas simploriamente.

Quando os historiadores utilizam o campo da micro-história, eles observam as especificidades do seu objeto de estudo que, certamente, os revelarão informações importantes para sua pesquisa. “Quando um micro-historiador estuda uma pequena comunidade, ele não estuda propriamente a pequena comunidade, mas estuda através da pequena comunidade”[5].

Considerando o grau de eficiência que a micro-história proporciona quando é aplicada na prática a sua metodologia, testemunhamos que o elemento fundamental está voltado para compreensão mais precisa possível daquilo que foi proposto para realização do estudo. Para isso, “o que importa para a micro-história não é tanto a unidade de observação, mas a escala de observação utilizada pelo historiador, o modo intensivo como ele observa, e o que ele observa”[6].

A abordagem da micro-história levará o pesquisador a desempenhar uma exaustiva análise das fontes através da observação percuciente dos indícios, vestígios ou qualquer sinal vital que possa contribuir para a construção de um raciocínio do ponto de vista historiográfico. Logo, esta construção se dará após as fontes terem sido interpretadas. Todavia, as fontes não são simplesmente meros repositórios de documentos, sendo imprescindível compreender o que elas realmente estão expressando.

Esta é a tarefa do historiador independentemente do campo ou corrente historiográfica que ele está utilizando. É preciso formular as perguntas adequadas a cada tipo de fonte para que, em seguida, possamos obter respostas ainda que, num primeiro momento, estas respostas sejam parciais.

A História Cultural através dos seus múltiplos campos permite-nos analisar o nosso objeto de estudo com diversos enfoques. É por este motivo que ela vem sendo cada vez mais considerada um fator essencial nas realizações de pesquisas.

Michel de Certeau é outro considerável historiador que faz menção à importância das especialidades e abordagens que a História Cultural traz em seu âmbito. Na obra A cultura no plural (2005), a pesquisadora Luce Giard dedicou ao autor algumas páginas introdutórias intitulada de “A Invenção do Possível”.

Historiador da primeira modernidade da Europa, do século XVI ao XVIII, Michel de Certeau privilegiou o estudo do campo religioso e da experiência dos místicos, nessas épocas tumultuadas em que a tradição cristã se fragmentava em igrejas rivais, quando mais lúcidos viam se obscurecendo os sinais de Deus e se encontravam obrigados a buscar no segredo da aventura interior a certeza de uma presença divina que se tornara inapreensível no exterior. Acerca desse processo de emancipação Certeau investigou com respeito e uma espantosa delicadeza os caminhos obscuros, não para julgar uns ou outros, nem para apontar o domino da verdade e do direito legítimo, mas para aprender com o passado como um grupo social supera o eclipse da sua crença e chega a obter beneficio das condições impostas para inventar sua própria liberdade, criar para si um espaço de movimentação. [7]

Nota-se por meio desta citação uma proeminência com que Michel de Certeau aponta uma ruptura dos paradigmas existentes nas mentalidades da sociedade desta época. O campo religioso começa a deixar de ser o foco principal para a condição de regência da sociedade. Era a passagem do período Medieval para o mundo Moderno, transformando o pensamento teocentrista para outro novo – antropocentrismo – ao longo deste conceito de modernidade da Europa nos séculos XVI ao XVIII.

Em páginas seguintes temos relatos teóricos da maneira como Certeau compreende a existência da ação cultural e sua perpetuação. Vejamos o texto:

Certeau prover mais profundamente e mais longe, aspirando à compreensão e de sua fantasia, e repetia sempre que nenhuma ação cultural ou política que seja inventiva e apoiada no real pode nascer de uma deficiência do pensamento ou se alimentar do desprezo do próximo. Ele desconfiava da visão, tão generalizada, que concebia a ação cultural e social como chuva benéfica que levava à classe popular as migalhas caídas da mesa dos letrados e dos poderosos. Estava igualmente convencido de que nem a invenção, nem a criatividade são apanágio dos profissionais do assunto e que, dos práticos anônimos aos artistas reconhecidos, milhares de redes informais fazem circular, nos dois sentidos, os fluxos de informação e garantem esses intercâmbios sem os quais uma sociedade se asfixia e morre. [8]

Fica claro então que a cultura é produzida através de trocas múltiplas. Há, portanto, uma reciprocidade nas trocas de informações que resulta na ação cultural e, desta forma, a sociedade continua não só existindo como também sobrevivendo. Assim sendo, a ação cultural não é uma dádiva ou uma exclusividade dos letrados e sim um ciclo em constante movimento decorrente da sociedade.

A realização das leituras de obras de autores como estes que foram aqui referenciados nos permitem compreender a história das idéias do homem no tempo e espaço. Na mesma dimensão, estas obras nos oferecem também a oportunidade de uma análise crítica das constantes transformações dos paradigmas que nós mesmos construímos na tentativa de melhor compreendermos o processo histórico que norteia o homem em seu cotidiano.

BIBLIOGRAFIA

BARROS, José D`Assunção. O campo da história: especialidades e abordagens. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004.

BURKE, Peter. O que é História Cultural? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

CERTEAU, Michel. A cultura no plural. Campinas, SP: Papirus, 2005.

CHATIER, Roger. O mundo como representação. Estudos avançados. São Paulo, v. 11, n 5, 1991.

DOSSE, François. A História em migalhas: dos Annales à Nova História. Trad. São Paulo: Ensaio; Campinas: Ed. Unicamp, 1992.

FALCON, Francisco José Calazans. História e Historia Cultural: uma nova visão sobre a sociedade e a cultura. Rio de Janeiro: Campus, 2002.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. História e História Cultural. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.


[1] Professor do Conservatório Brasileiro de Música. Mestrando em Historia Social / USS. Membro do conselho Editorial da Revista Caminhos da História do Programa de Mestrado da Universidade Severino Sombra. Leonardocello@yahoo.com.br

[2] BURKE, Peter. O que é História Cultural? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. p. 15-16.

[3] BARROS, José D`Assunção. O campo da história: especialidades e abordagens. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004. p. 58.

[4] FALCON, Francisco José Calazans. História e Historia Cultural: uma nova visão sobre a sociedade e a cultura. Rio de Janeiro: Campus, 2002. p. 88-89.

[5] Idem, BARROS, José D`Assunção. Op. Cit, p. 153.

[6] Idem ibidem. p. 154.

[7] CERTEAU, Michel. A cultura no plural. Campinas, SP: Papirus, 2005. p. 7.

[8] Idem, CERTEAU, Michel. Op. Cit, p. 9.