ISSN 1807-1783                atualizado em 05 de abril de 2011   


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Considerações a respeito do ensino de História, a propósito de uma coletânea.

por Raquel dos Santos Funari

Sobre a autora[1]

A literatura sobre o ensino de História amplia-se a cada dia, mas continuam raros os estudos que partem das experiências desenvolvidas em sala de aula. Esta coletânea parte dessas vivências cotidianas, articulados em dois eixos: trajetórias e movimentos. Daí a importância da publicação de obras sobre o tema do ensino de História, como a iniciativa da Universidade do Estado de Mato Grosso[2]. Thais Fonseca começa com um balanço da historiografia do ensino de História no Brasil. Nota que a maior parte dos estudos privilegia o ponto de vista dominante. As mudanças curriculares a partir de meados dos anos 1980 levaram à História local e à maior integração entre a produção acadêmica e o ensino. Osvaldo Cerezer explora os problemas e potencialidades do estágio supervisionado. Cabe aos professores perceberem a escola como realidade multifacetada, com suas incertezas, conflitos e interesses.

Valeska Oliveira aponta para a necessidade de um professor mais ligado, que use uma linguagem mais próxima dos estudantes. Renilson Ribeiro dá continuidade a seus estudos sobre os livros didáticos e ressalta que, desde a década de 1980, introduziu-se nas pesquisas sobre o ensino de História a preocupação com o desenvolvimento de procedimentos da pesquisa histórica na sala de aula. Os excluídos da História foram incorporados e, hoje, procura-se criar novas práticas de leitura e interpretação do mundo, ao evitar o dogmatismo. Nauk de Jesus e Luiz Symansky voltam-se para um dos grupos excluídos: os africanos e afro-descendentes. Constatam que muitas vezes tais temas não estão bem representados nos livros didáticos. .

Roberto Ferreira dá continuidade ao tema afro, com o estudo das famílias escravas na sala de aula. Lucybeth de Arruda volta-se para outro grupo humano excluído, ao explorar a questão indígena em Mato Grosso. Visa a oferecer estratégias de uso da documentação sobre os índios na sala de aula. Naine de Jesus explora o uso de vídeos e áudios nas aldeias indígenas, como meio de estudo da História. Nos audiovisuais produzidos pelos e sobre os índios é possível mostrar aos alunos como eles podem ser sujeitos da sua própria História. Marion Valério conclui o volume, com um belo estudo sobre Dom Pedro Casaldáliga e o ensino de História.

O volume congrega jovens pesquisadores que se dedicam ao tema do ensino de História. Apresentam reflexões teóricas e metodológicas bem fundamentadas e atualizadas, ancoradas em estudos de caso que partem da sala de aula. Como ressalta Paulo Miceli, no prefácio, a cada capítulo o leitor é lembrado que toda História e História do presente, um compromisso social. Para ensinar História é preciso saber e só se sabe a partir de uma prática constante de pesquisa e de problematização do conhecimento. Obra original, ela merece a leitura atenta, por parte dos que se interessam por uma História engajada e transformadora.


[1] Licenciada em História, Mestre e Doutora em História pela Unicamp, Colaboradora em Pós-doutoramento no Departamento de História da Unicamp.

[2] Nauk María de Jesus, Osvaldo Mariotto Cerezer, Renilson Rosa Ribeiro, orgs, Ensino de História, Trajetórias em Movimento. Cáceres, Unemat, 2007, 120pp., ISBN 8589898636.