ISSN 1807-1783                atualizado em 17 de maio de 2006   


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O mito do Baú *

por Glória Tega


Fernanda Rodrigues - Natureza e Imagem-Projeto Carta Arqueológica da Baia da Ilha Grande-CEANS-NEE-UNICAMP
O mergulho e a coleta de dados são apenas uma parte de um grande processo que é a intervenção arqueológica científica.
Esta imagem está presente na mente da maioria das pessoas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esta imagem está presente na mente da maioria das pessoas: um mergulhador que "escava" um navio naufragado e acaba encontrando um baú cheio de objetos e moedas de ouro. Estamos descrevendo o quê? O ato de um aventureiro que se arrisca em naufrágios em busca de baús cheios de tesouros – ou algo que possa ser vendido - ou a prática de um arqueólogo que mergulha para fazer arqueologia subaquática? Muitos ficariam com as duas opções pois, no Brasil, as pessoas ainda acham que buscar tesouros e fazer Arqueologia Subaquática são práticas semelhantes. Aí você perguntaria: Se existe, então, diferença, o que é Arqueologia Subaquática? Arqueologia. A única diferença é que o objeto de estudo da Arqueologia Subaquática é a cultura material que se encontra submersa em águas interiores (rios, lagos, represas), marítimas ou oceânicas. Esses são os chamados sítios arqueológicos subaquáticos que podem ser cidades ou sítios terrestres que foram alagados, sambaquis (aterro de conchas feito por populações pré-históricas) e os naufrágios, estes últimos são os que têm mais visibilidade.
Assim, mesmo que os tesouros existam no interior dos navios, eles fazem parte dessa cultura material e são um bem coletivo e não de uso em benefício de quem os achou. Em outras palavras: o ouro, a prata, a madeira o caso do navio, as vigias, por fim, tudo que for encontrado em um sítio arqueológico de naufrágio é cultura material, é tudo a mesma coisa, não importa se é ouro ou madeira, por exemplo, nada tem valor monetário pois tudo é bem cultural, com valor impossível de ser calculado. Enfim, bens culturais não são vendáveis e não tem preço.
 
De onde vem?

O mergulhador que resgata qualquer peça vendável submersa não é arqueólogo e não está praticando arqueologia. Ele está apenas usando um bem comum, a cultura material, em benefício próprio, sem pensar no uso científico e cultural desse bem, sem pensar no conhecimento que poderia ser gerado. E isso não é claro para grande parte da população brasileira porque "a Arqueologia, durante muito tempo e até hoje, esteve e está associada à aventura, ao tesouro e ao souvenir. Se isto é verdade fora d'água, tanto mais é verdade debaixo d'água, pois há uma tradição milenar de busca de tesouros e souvenirs em barcos afundados", explica o arqueólogo Pedro Paulo de Abreu Funari. "Historicamente, o mar é considerado uma espécie de terra de ninguém, onde apenas os bravos e destemidos se aventuram e que por conta dessa disposição merecem as devidas recompensas, no caso, o acesso à exploração privada dos recursos culturais subaquáticos", acrescenta o arqueólogo subaquático Leandro Duran. "Mitos como o do Eldorado ou do Indiana Jones (que não era um arqueólogo e sim um caçador de tesouro) ainda permeiam no inconsciente coletivo de nossa sociedade. Talvez, o sonho de enriquecer encontrando um pote de ouro ainda seja uma das últimas fronteiras de nosso imaginário", completa o arqueólogo subaquático Flávio Rizzi Calippo.
 
O Baú da imprensa

Essa imagem, quase mito, do baú de tesouros é constantemente alimentada pela imprensa, que não sabe o que é Arqueologia Subaquática e incentiva a exploração comercial, sem critérios e objetivos científicos, de bens culturais.
Não é difícil entender o problema que se causa, Calippo explica que quando um jornalista escreve uma matéria na qual mistura a Arqueologia com a prática danosa da caça ao tesouro ou incentiva essa última, é como se ele assumisse uma posição de omissão em relação a retira ilegal de madeira amazônica, ao trabalho escravo ou a corrupção. Para ele, o modo que se faz jornalismo no Brasil é um dos motivos que explicam a divulgação precária da Arqueologia Subaquática. "Podemos fazer uma analogia entre jornalistas e caçadores de tesouro: Todas vezes que ambos têm um grande achado científico em suas mãos acabam cortando-o, perdendo sumo de sua informação. Os próprios jornalistas concordam com essa prática, pois, segundo eles, o meio é assim: Falta tempo, existe a necessidade de adequar palavras a espaços, etc. Porém, com o patrimônio é o contrário. É um recurso não-renovável, que vem sendo sistematicamente sub-aproveitado. Inclusive pelos jornalistas", declara ele.
O estranhamento surge pois não há jornalista que noticie, por exemplo, o roubo e venda de uma imagem barroca, que faz parte de um contexto histórico que pode ser uma igreja, no caderno de ciência. Agora, a retirada e venda de uma vigia, que faz parte de um contexto histórico que é um naufrágio, é ciência. E as duas peças fazem parte do Patrimônio Cultural brasileiro.
Podemos constatar, com alguns exemplos, que o assunto é tratado pela imprensa como uma verdadeira corrida ao "ouro", incentivando mergulhadores a pilharem e, assim, degradarem o Patrimônio. Em matéria publicada em 20/10/2004 na revista Isto é Dinheiro, escrita por Carlos Sambrana, pode-se notar que a preocupação resume-se à exploração comercial dos bens culturais, não fazendo referencia alguma à produção de conhecimento científico:
"As estatísticas são oceânicas. Estima-se que 25% de todo o ouro e prata extraídos da terra estão no fundo do mar a espera de resgate. São preciosidades que estavam a bordo de embarcações que afundaram nos últimos cinco séculos. (...) Calcula-se que há uma fortuna de US$ 170 bilhões espalhada pelos oceanos".

(Leia matéria completa em http://www.terra.com.br/istoedinheiro/372/estilo/caca_tesouro.htm)
A matéria escrita por Luiz Roberto De Souza Queiroz, publicado no jornal O Estado de S. Paulo de 18/05/2004, faz distinção entre bens de interesse histórico, sem alto valor como ouro ou prata, e bens de interesse financeiro. Como se fosse possível fazer essa distinção, atribuir valores monetários a bens culturais e não considerar os "tesouros" como bens culturais:
"O caso típico de interesse histórico é o do galeão Sacramento, naufragado em 1668 diante de Salvador, do qual foram recuperados canhões de 1590, 1596, 1622 e 1634. Tesouros existem, por exemplo, no Britania, afundado em 1805 no Atol das Rocas, com 550.000 onças de prata, cerca de 15 toneladas, das quais se resgatou menos de 10%".
São 2 exemplos dos inúmeros que poderiam ser citados. E os arqueólogos não se conformam, com razão, com esse tipo de matéria. " As matérias exploram a questão do imaginário, do tesouro, confundindo 99,9% das vezes a prática arqueológica de baixo d'água com as atividades de caça ao tesouro e resgate de bens soçobrados. Essa associação é interessante por que ajuda a chamar a atenção para o veículo de informação, não tendo compromisso algum com a informação", analisa Duran.
E essa postura vai de encontro a Convenção sobre a Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático da UNESCO que explicitou a importância da proteção dos vestígios arqueológicos submersos. (Leia Box)
 
Para onde vai?

Um a das formas da Arqueologia Subaquática ficar mais próxima da população e esta se tornar uma fiscalizadora do que se é feito com os bens culturais submersos seria a imprensa, porém o efeito é oposto pois a divulgação acaba prejudicando a atuação da ciência no Patrimônio Cultural Subaquático brasileiro. Isso porque as matérias incentivam a ação predatória nestes sítios e legitimam a atuação da caça ao tesouro, numa esfera mais ampla, e da caça ao souvenir, praticada por mergulhadores desportivos que retiram partes dos sítios arqueológicos para que representem troféus de aventuras. Essa postura indica claramente a falta de conscientização patrimonial dos meios de comunicação, que neste caso específico possuem papel fundamental. "À diferença de outros temas, tratados na escola, a pesquisa arqueológica subaquática só chega à população por meio do jornalismo. A população toda perde, se os vestígios são tratados como tesouros, pois perdem a oportunidade de refletirem, de forma crítica, sobre si mesmos", alerta Funari.
Duran, explica que como a arqueologia se baseia na relação contextual entre os artefatos em si e deles com o meio, qualquer alteração desse contexto gera uma perda de conhecimento científico. "A caça ao tesouro e a busca por souvenirs destroem páginas da história, indicando que a satisfação pessoal supera o direito à memória da coletividade".
 
Há solução?

O problema é imenso. A arqueologia no Brasil ainda está muito longe da população. E a imprensa que poderia ser o meio o qual ajudaria estreitar essa acaba por distanciá-la. Mudar esse quadro é uma tarefa para arqueólogos e jornalistas:
"Os arqueólogos devem divulgar a importância da metodologia do trabalho de campo, algo que é ignorado não apenas pela imprensa e pelo povo, como pelos estudiosos de outras ciências. Cabe aos arqueólogos mostrar que a recuperação de informações por meio da Arqueologia envolve um trabalho meticuloso e demorado. Os jornalistas devem mostrar que mais importante que um tesouro é a fruição das descobertas submersas, é a percepção que nossa vida se relaciona àqueles achados", adverte Funari.
"O que precisamos fazer é encarar com responsabilidade e profissionalismo a tarefa de educar patrimonialmente a sociedade. Eliminar a associação entre arqueologia subaquática e caça ao tesouro, divulgando os trabalhos científicos e enfocando os danos causados pelas condutas equivocadas. Mudar esse panorama destrutivo é nossa principal missão, tanto dos arqueólogos como dos jornalistas", considera Duran.
"Creio que jornalistas e arqueólogos deveriam interagir mais e repensar valores e posturas. Os arqueólogos devem fazer esforços para sistematizar informações de maneira que possam colaborar com mais eficiência com a dinâmica da imprensa. Porém, os jornalistas devem pensar mais sobre o seu papel social", avalia Calippo.

 

*Matéria originalmente publicada na Revista VOXSCIENTIAE - Núcleo José Reis de Divulgação Científica (ECA-USP) http://www.eca.usp.br/nucleos/njr/voxscientiae/