Esta imagem está presente na mente da maioria das pessoas
Esta
imagem está presente na mente da maioria das pessoas: um mergulhador que
"escava" um navio naufragado e acaba encontrando um baú cheio de
objetos e moedas de ouro. Estamos descrevendo o quê? O ato de um aventureiro
que se arrisca em naufrágios em busca de baús cheios de tesouros – ou algo
que possa ser vendido - ou a prática de um arqueólogo que mergulha para fazer
arqueologia subaquática? Muitos ficariam com as duas opções pois, no Brasil,
as pessoas ainda acham que buscar tesouros e fazer Arqueologia Subaquática são
práticas semelhantes. Aí você perguntaria: Se existe, então, diferença, o
que é Arqueologia Subaquática? Arqueologia. A única diferença é que o
objeto de estudo da Arqueologia Subaquática é a cultura material que se
encontra submersa em águas interiores (rios, lagos, represas), marítimas ou
oceânicas. Esses são os chamados sítios arqueológicos subaquáticos que
podem ser cidades ou sítios terrestres que foram alagados, sambaquis (aterro de
conchas feito por populações pré-históricas) e os naufrágios, estes
últimos são os que têm mais visibilidade.
Assim, mesmo que os tesouros existam no interior dos navios, eles fazem parte
dessa cultura material e são um bem coletivo e não de uso em benefício de
quem os achou. Em outras palavras: o ouro, a prata, a madeira o caso do navio,
as vigias, por fim, tudo que for encontrado em um sítio arqueológico de
naufrágio é cultura material, é tudo a mesma coisa, não importa se é ouro
ou madeira, por exemplo, nada tem valor monetário pois tudo é bem cultural,
com valor impossível de ser calculado. Enfim, bens culturais não são
vendáveis e não tem preço.
De onde vem?
O
mergulhador que resgata qualquer peça vendável submersa não é arqueólogo e
não está praticando arqueologia. Ele está apenas usando um bem comum, a
cultura material, em benefício próprio, sem pensar no uso científico e
cultural desse bem, sem pensar no conhecimento que poderia ser gerado. E isso
não é claro para grande parte da população brasileira porque "a
Arqueologia, durante muito tempo e até hoje, esteve e está associada à
aventura, ao tesouro e ao souvenir. Se isto é verdade fora d'água, tanto mais
é verdade debaixo d'água, pois há uma tradição milenar de busca de tesouros
e souvenirs em barcos afundados", explica o arqueólogo Pedro Paulo de
Abreu Funari. "Historicamente, o mar é considerado uma espécie de terra
de ninguém, onde apenas os bravos e destemidos se aventuram e que por conta
dessa disposição merecem as devidas recompensas, no caso, o acesso à
exploração privada dos recursos culturais subaquáticos", acrescenta o
arqueólogo subaquático Leandro Duran. "Mitos como o do Eldorado ou do
Indiana Jones (que não era um arqueólogo e sim um caçador de tesouro) ainda
permeiam no inconsciente coletivo de nossa sociedade. Talvez, o sonho de
enriquecer encontrando um pote de ouro ainda seja uma das últimas fronteiras de
nosso imaginário", completa o arqueólogo subaquático Flávio Rizzi
Calippo.
O Baú da imprensa
Essa
imagem, quase mito, do baú de tesouros é constantemente alimentada pela
imprensa, que não sabe o que é Arqueologia Subaquática e incentiva a
exploração comercial, sem critérios e objetivos científicos, de bens
culturais.
Não é difícil entender o problema que se causa, Calippo explica que quando um
jornalista escreve uma matéria na qual mistura a Arqueologia com a prática
danosa da caça ao tesouro ou incentiva essa última, é como se ele assumisse
uma posição de omissão em relação a retira ilegal de madeira amazônica, ao
trabalho escravo ou a corrupção. Para ele, o modo que se faz jornalismo no
Brasil é um dos motivos que explicam a divulgação precária da Arqueologia
Subaquática. "Podemos fazer uma analogia entre jornalistas e caçadores de
tesouro: Todas vezes que ambos têm um grande achado científico em suas mãos
acabam cortando-o, perdendo sumo de sua informação. Os próprios jornalistas
concordam com essa prática, pois, segundo eles, o meio é assim: Falta tempo,
existe a necessidade de adequar palavras a espaços, etc. Porém, com o
patrimônio é o contrário. É um recurso não-renovável, que vem sendo
sistematicamente sub-aproveitado. Inclusive pelos jornalistas", declara
ele.
O estranhamento surge pois não há jornalista que noticie, por exemplo, o roubo
e venda de uma imagem barroca, que faz parte de um contexto histórico que pode
ser uma igreja, no caderno de ciência. Agora, a retirada e venda de uma vigia,
que faz parte de um contexto histórico que é um naufrágio, é ciência. E as
duas peças fazem parte do Patrimônio Cultural brasileiro.
Podemos constatar, com alguns exemplos, que o assunto é tratado pela imprensa
como uma verdadeira corrida ao "ouro", incentivando mergulhadores a
pilharem e, assim, degradarem o Patrimônio. Em matéria publicada em 20/10/2004
na revista Isto é Dinheiro, escrita por Carlos Sambrana, pode-se notar que a
preocupação resume-se à exploração comercial dos bens culturais, não
fazendo referencia alguma à produção de conhecimento científico:
"As estatísticas são oceânicas. Estima-se que 25% de todo o ouro e prata
extraídos da terra estão no fundo do mar a espera de resgate. São
preciosidades que estavam a bordo de embarcações que afundaram nos últimos
cinco séculos. (...) Calcula-se que há uma fortuna de US$ 170 bilhões
espalhada pelos oceanos".
(Leia
matéria completa em http://www.terra.com.br/istoedinheiro/372/estilo/caca_tesouro.htm)
A matéria escrita por Luiz Roberto De Souza Queiroz, publicado no jornal O
Estado de S. Paulo de 18/05/2004, faz distinção entre bens de interesse
histórico, sem alto valor como ouro ou prata, e bens de interesse financeiro.
Como se fosse possível fazer essa distinção, atribuir valores monetários a
bens culturais e não considerar os "tesouros" como bens culturais:
"O caso típico de interesse histórico é o do galeão Sacramento,
naufragado em 1668 diante de Salvador, do qual foram recuperados canhões de
1590, 1596, 1622 e 1634. Tesouros existem, por exemplo, no Britania, afundado em
1805 no Atol das Rocas, com 550.000 onças de prata, cerca de 15 toneladas, das
quais se resgatou menos de 10%".
São 2 exemplos dos inúmeros que poderiam ser citados. E os arqueólogos não
se conformam, com razão, com esse tipo de matéria. " As matérias
exploram a questão do imaginário, do tesouro, confundindo 99,9% das vezes a
prática arqueológica de baixo d'água com as atividades de caça ao tesouro e
resgate de bens soçobrados. Essa associação é interessante por que ajuda a
chamar a atenção para o veículo de informação, não tendo compromisso algum
com a informação", analisa Duran.
E essa postura vai de encontro a Convenção
sobre a Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático da UNESCO que
explicitou a importância da proteção dos vestígios arqueológicos
submersos. (Leia Box)
Para onde vai?
Um
a das formas da Arqueologia Subaquática ficar mais próxima da população e
esta se tornar uma fiscalizadora do que se é feito com os bens culturais
submersos seria a imprensa, porém o efeito é oposto pois a divulgação acaba
prejudicando a atuação da ciência no Patrimônio Cultural Subaquático
brasileiro. Isso porque as matérias incentivam a ação predatória nestes
sítios e legitimam a atuação da caça ao tesouro, numa esfera mais ampla, e
da caça ao souvenir, praticada por mergulhadores desportivos que retiram partes
dos sítios arqueológicos para que representem troféus de aventuras. Essa
postura indica claramente a falta de conscientização patrimonial dos meios de
comunicação, que neste caso específico possuem papel fundamental. "À
diferença de outros temas, tratados na escola, a pesquisa arqueológica
subaquática só chega à população por meio do jornalismo. A população toda
perde, se os vestígios são tratados como tesouros, pois perdem a oportunidade
de refletirem, de forma crítica, sobre si mesmos", alerta Funari.
Duran, explica que como a arqueologia se baseia na relação contextual entre os
artefatos em si e deles com o meio, qualquer alteração desse contexto gera uma
perda de conhecimento científico. "A caça ao tesouro e a busca por
souvenirs destroem páginas da história, indicando que a satisfação pessoal
supera o direito à memória da coletividade".
Há solução?
O
problema é imenso. A arqueologia no Brasil ainda está muito longe da
população. E a imprensa que poderia ser o meio o qual ajudaria estreitar essa
acaba por distanciá-la. Mudar esse quadro é uma tarefa para arqueólogos e
jornalistas:
"Os arqueólogos devem divulgar a importância da metodologia do trabalho
de campo, algo que é ignorado não apenas pela imprensa e pelo povo, como pelos
estudiosos de outras ciências. Cabe aos arqueólogos mostrar que a
recuperação de informações por meio da Arqueologia envolve um trabalho
meticuloso e demorado. Os jornalistas devem mostrar que mais importante que um
tesouro é a fruição das descobertas submersas, é a percepção que nossa
vida se relaciona àqueles achados", adverte Funari.
"O que precisamos fazer é encarar com responsabilidade e profissionalismo
a tarefa de educar patrimonialmente a sociedade. Eliminar a associação entre
arqueologia subaquática e caça ao tesouro, divulgando os trabalhos
científicos e enfocando os danos causados pelas condutas equivocadas. Mudar
esse panorama destrutivo é nossa principal missão, tanto dos arqueólogos como
dos jornalistas", considera Duran.
"Creio que jornalistas e arqueólogos deveriam interagir mais e repensar
valores e posturas. Os arqueólogos devem fazer esforços para sistematizar
informações de maneira que possam colaborar com mais eficiência com a
dinâmica da imprensa. Porém, os jornalistas devem pensar mais sobre o seu
papel social", avalia Calippo.
*Matéria
originalmente publicada na Revista VOXSCIENTIAE
- Núcleo José Reis de Divulgação Científica (ECA-USP)
http://www.eca.usp.br/nucleos/njr/voxscientiae/