O I
Workshop Brasileiro de Mergulho Científico, realizado pela Universidade
Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)
entre 06 e 09 de junho, possibilitou a criação da Sociedade Brasileira de
Mergulho Científico. Na cidade de Natal, o evento reuniu pesquisadores que usam
o mergulho como ferramenta de trabalho, estudantes, representantes de
credenciadoras, operadoras e escolas de mergulho.
De
acordo com a Tatiana Silva Leite, professora da UFRN e vice-presidente da comissão
organizadora, a idéia do Workshop surgiu de um curso de Mergulho Científico
que, o também professor da UFRN e presidente da comissão organizadora, Jorge
Lins ministrou para os alunos de da faculdade de Oceanologia da Fundação
Universidade Federal de Rio Grande (FURG), na
cidade de Rio Grande, RS. “Aí começamos a amadurecer essa idéia: eu e o
Rodrigo Torres junto com o Jorge. De lá até aqui foram 3 anos de batalha atrás
de patrocínio”, conta Tatiana.
Jorge
Lins, em seu discurso de abertura, salientou que o evento foi uma iniciativa de
profissionais ligados tanto à UFRN quanto à FURG. “Durante a realização da
disciplina “Mergulho Científico” na FURG, em 2004, foi discutida a
possibilidade de se protagonizar um evento que congregasse não somente as
universidades e institutos de pesquisas do Brasil que utilizam o mergulho como
ferramenta de trabalho, mas, sobretudo, as credenciadoras e escolas de mergulho
recreativo e técnico, de forma que pudéssemos discutir a implementação e o
ordenamento do mergulho científico nas instituições que desenvolvem
atividades de pesquisa em ambiente aquático”.

Tatiana Leite e Jorge Lins
Glória Tega
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Segundo
o professor, a criação da Sociedade Brasileira de Mergulho Científico foi a
conseqüência de discussões propostas pelos objetivos iniciais do evento. A idéia
era que as Universidades, Institutos de Pesquisa e credenciadoras de mergulho do
Brasil debatessem sobre a padronização de ensino, procedimentos e segurança.
“Atualmente, a utilização do mergulho autônomo como ferramenta de trabalho
para estudos marinhos é imprescindível. Há uma necessidade crescente de
qualificar os cientistas em técnicas de mergulho que os permitam levar a bom
termo os seus estudos. Diversos países têm implantado em seus currículos
universitários direcionados às ciências marinhas a disciplina de Mergulho
Científico. No Brasil, embora haja um grande número de cursos universitários
e de projetos científicos, onde se faz necessário o uso do mergulho autônomo,
ainda é raro uma disciplina que permita aos alunos o acesso aos conhecimentos técnicos
do mergulho e sua utilização em estudos sobre o meio marinho”,
comenta Jorge Lins.
Dessa
forma, depois de quatro dias de apresentação de palestras de cientistas e de
representantes de credenciadoras de mergulho e mesas redondas, chegou-se a
conclusão que, devido a amplitude do tema “Mergulho Científico”, era
necessária a criação de uma associação, uma pessoa jurídica, a Sociedade
Brasileira de Mergulho Científico para que ela possa, a partir de agora,
determinar os parâmetros do Mergulho Científico no Brasil.
A importância do workshop

O representante do CNPq Jorge Alexandre Carvalho da Silva
Glória Tega
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“A
realização desse workshop é tão importante que o CNPq
(Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) apoiou o
projeto para a realização desse evento. Estou aqui mais como um observador, não
como um avaliador, porque isso já foi feito”, dizia Jorge Alexandre Carvalho
da Silva, representante da coordenação do Programa de Pesquisas Oceanográficas
e Impactos Ambientais do CNPq. Porém, a exposição da pluralidade de opiniões
e visões sobre Mergulho Científico concentradas em um só evento e a segurança
da atividade foram os assuntos mais mencionados pelos participantes, quando
questionados sobre a importância do workshop. Para Ewerton Wegner, professor da
Universidade do Vale do Itajaí, SC - UNIVALI
, o workshop veio atender um anseio antigo dos pesquisadores, que estavam
ligados às Universidades e Institutos de Pesquisas, em discutir o Mergulho
Científico na realidade brasileira. “O que normalmente acontecia é que os
cientistas iam buscar sua formação no exterior. Viam uma realidade no Canadá,
Europa, EUA, Austrália e aqui no Brasil se confrontavam com outra situação”,
explica. E essa realidade também envolve a indústria do mergulho. “Acho que
a ocasião é importante por ser uma chance de juntar cientistas e pessoas que
estão ligadas às operações de mergulho comerciais”, salienta João
Barreiros, da Universidade dos Açores,
Portugal. Marly Costa Simões , uma das instrutoras de mergulho recreativo mais
experientes do Brasil e que ministra cursos de mergulho para os alunos de
Oceanografia na Universidade de São Paulo – USP,
também acredita que o mergulho científico necessitava da aproximação de
diferentes interesses. “É realmente um marco histórico, como ressaltado pelo
Rambelli. O meio científico, educacional, credenciadoras, operadoras de
mergulho tinham uma carência. Todos seguiam caminhos paralelos e, através
desse evento, se encontraram”. Na opinião de Ariel Scheffer, biólogo e
professor da Universidade Federal do Paraná – UFPR,
é exatamente a exposição de diferentes interesses que fizeram a diferença.
“Estava havendo uma dicotomia: uma questão de mercado com as credenciadoras e
uma questão profissional com os mergulhadores cientistas. O Mergulho Científico
nada mais é que o cientista embaixo d’água, mergulhando. Desta forma, as
credenciadoras não teriam condições de treinar ciência. Eu creio que as
Universidades têm de tomar a lida do negócio, mas sem fechar para a participação
das credenciadoras, e as credenciadoras têm de aproveitar a oportunidades de
gerar bons mergulhadores. E é a primeira vez que a gente se junta para discutir
isso, tudo está bem democrático e produtivo”.

João Barreiros, da Universidade dos Açores, Portugal
Glória Tega
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Ariel Scheffer, biólogo e professor da UFPR
Glória Tega
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A
segurança do mergulhador cientista é o que preocupa Cláudio Brandileone,
responsável pela credenciadora de mergulho PADI
(Professional Association of Diving Instructors) no Brasil. “A
PADI tem como objetivo neste evento tentar melhorar a segurança do mergulhador.
Porque quando vemos alguns acidentes acontecendo com o mergulho científico,
começamos a ficar preocupados. Então, como a PADI está a 40 anos nesta
atividade, tentar colaborar na instrução e na formação desse nicho de
mergulho é quase lógico”. Essa também é a preocupação da DAN
(Divers Alert Network), organização internacional sem fins lucrativos para a
segurança do mergulho, representada por Sérgio Viégas. “A DAN
tradicionalmente já cobre os acidentes de mergulho científico no mundo
inteiro. De maneira que ter essa primeira tentativa de padronizar o mergulho
científico no Brasil é fundamental, pois a DAN tem uma “regra do jogo”
para poder oferecer essa cobertura para o mergulhador científico brasileiro”.
Já
Marcus Wernec, na condição de representante da credenciadora de mergulho
SSI (Scuba Schools International) no
Brasil e da Associação Brasileira de Empresas de Mergulho-
ABEM, acredita que a importância
do workshop é a mesma para as duas entidades. “Acho que a importância é
para a industria do mergulho como um todo, seja certificadora, seja operadora,
seja instrutor. O mergulho científico é uma ramificação do mergulho
recreativo. Eu vejo as coisas completamente juntas. Não só comercialmente,
pois é mais um campo de atuação, mas como uma questão de filosofia, como
alguém preocupado com a preservação, com o conhecimento das coisas do mar. A
indústria como um todo está muito envolvida e interessada nesse projeto”.

A mesa redonda "Reconhecimento do Mergulho Científico junto as credenciadoras nacionais" composta por Marcus Wernec, Jorge Lins, Marcelo Zsigmond, da operadora de mergulho Maracajau Diver, Cláudio Brandileone e Alvanir Oliveira (o "Jornada")
Glória Tega
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As Expectativas
Os
participantes apostam na criação da Sociedade Brasileira de Mergulho Científico
como caminho para o setor. “A formação dessa associação é importantíssima
para todo mundo que desenvolve atividades subaquáticas, para que a gente passe
a existir de uma maneira diferenciada do mergulhador profissional, do
mergulhador recreativo e para que a gente não precise se submeter às regras
que existem para o mergulho profissional ou comercial”, explica Heitor Frossad,
instrutor de mergulho e biólogo da Universidade Estadual de Londrina – UEL.
“Eu acredito que a criação dessa Sociedade, envolvendo as
entidades de ensino e pesquisa, as operadoras e certificadoras de mergulho, vai
ajudar muito no processo de regulamentação da atividade”, diz Marcus
Werneck. É o que pensa também Cláudio Brandileone. “A criação dessa
Sociedade e essa discussão do que será feito já é muito importante, já vem
sendo feito no mundo inteiro e finalmente o vai começar no Brasil”.
Marly
Costa Simões acha que a organização
da Sociedade vai delinear os espaços a que compete cada setor, mas que o
trabalho será em parceria. “Os cientistas das Universidades, os mergulhadores
recreativos científicos, as operadoras e escolas de mergulho são parceiros”.
Para Alvanir Silveira Oliveira (o Jornada), responsável pela credenciadora de
mergulho NAUI (National Association of
Underwater Instructors) no Mercosul, essa parceria está justamente no ensino do
mergulho. “Cada certificadora vai dar sua contribuição apenas no sentido
de ensinar o mergulho, que é o que as certificadoras sabem fazer, agora, quanto
à ciência em si, a aplicação em ciência, vai ser o cargo da Academia”. E
o ensino com qualidade é o que justamente espera Ariel Scheffer. “Eu acho que as
credenciadoras podem primeiro formar bons mergulhadores, com especialidades que
venham apoiar a ciência”.

Gilson Rambelli ministrou a palestra "Estudos em Arqueologia Subaquática"
Glória Tega
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Gilson
Rambelli, arqueólogo, pesquisador do Centro de Estudos de Arqueologia Náutica
e Subaquática (CEANS)
da Universidade Estadual de Campinas, SP- UNICAMP
e instrutor de mergulho, acredita na força da Sociedade Brasileira de Mergulho
Científico para que as credenciadoras, operadoras e escolas de mergulho atendam
às demandas dos cientistas. “A expectativa é que a tiremos daqui uma associação
que sirva como um corpo jurídico para todos os pesquisadores que usam o
mergulho como ferramenta de trabalho, na qual vão estar abertos os trabalhos em
parceria com as operadoras e credenciadoras, mas não atendendo à demanda
deles. Ao contrário, eles devem atender às nossas demandas e expectativas. E aí,
teremos que trabalhar a questão conceitual: o que é o mergulho científico? De
que forma que está sendo feito? Não se trata de vender credencial de
mergulhador científico. Cientistas demoram anos para se formar, mergulhadores
fazem-se aos montes todos finais de semana”.
A criação da Sociedade Brasileira de
Mergulho Científico

Tatiana Leite, Jorge Lins, Cláudio Brandileone, Sérgio Viégas, Ewerton Wegner, a professora Liana de Figueiredo Mendes da UFRN, e Gilson Rambelli durante a mesa que redigiu a
Carta da Sociedade Brasileira de Mergulho Cientifico
Glória Tega
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Assim,
no dia 9 de junho, ocorreu a mesa redonda “Organização da Associação de Mergulho
Científico do Brasil”, presidida por Gilson Rambelli e composta pela professora
Liana de Figueiredo Mendes (UFRN), Tatiana Leite, Jorge Lins, Cláudio
Brandileone, Ewerton
Wegner, Sérgio Viégas. Durante a mesa redonda foi elaborada por todos
os presentes, membros da mesa ou não, de maneira democrática, a “Carta da
Sociedade Brasileira de Mergulho Cientifico”. O documento foi aprovado por
unanimidade estabelecendo então a Sociedade Brasileira de Mergulho Científico:
Natal,
9 de junho de 2007
Os
participantes do I Workshop de Mergulho Cientifico, realizado na Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, de 6 a 9 de
junho de 2007, decidiram pela criação de uma Sociedade Brasileira de Mergulho
Cientifico, que tem como objetivo congregar todos os pesquisadores que utilizam
o mergulho como ferramenta de trabalho em estudos e pesquisas em ambiente subaquático,
bem como deliberar sobre essas atividades.
Define-se
o mergulho científico como:
o
mergulho que requer procedimentos científicos em estudos do ambiente subaquático,
realizado e/ou supervisionado por cientistas ou por cientistas em treinamento,
vinculados a programas de pesquisa.
É
considerado mergulhador científico aquele cientista ou cientista em
treinamento, que tem formação fundamentada no mergulho recreativo reconhecido
pelos padrões nacionais e internacionais da ISO/CE/ABNT e/ou WRSTC, (Conselho
mundial de treinamento em mergulho recreativo) que atue ou tenha atuado em
programas de pesquisas em ambiente subaquático.
A
formação necessária para um mergulhador científico deve conter conhecimentos
teóricos e práticos equivalentes ao Mergulho Avançado, ou adequado ao tipo de
pesquisa, nos padrões da ISO/CE/ABNT e/ou WRSTC, treinamento em suporte básico
de vida e primeiros socorros conforme padrões e protocolos internacionais.
Sobre
a formação:
O
mergulhador científico terá sua formação advinda de cursos conveniados e/ou
instituídos no âmbito das universidades ou instituições de ensino e pesquisa
reconhecidos pela Sociedade Brasileira de Mergulho Científico.
O
mergulhador formado em centros de mergulho recreativo poderá ter sua credencial
reconhecida como Mergulhador Científico Voluntário da Sociedade Brasileira de Mergulho
Científico.
Proposta
de Diretoria:
Presidente:
Prof. Dr. Jorge Lins (UFRN)
Vice
Presidente: Prof. Ms. Ewerton Wegner (Univali)
Secretaria:
Profa. Dra. Tatiana Leite (UFRN)
Conselho
Científico: Profa. Dra. Liana de
Figueiredo Mendes (UFRN)
Profa. Dra. Beatrice
Padovani Ferreira(UFPE)
Prof.
Dr. Ariel Scheffer (UFPR)
Prof. Dr. Gilson Rambelli
(Unicamp)
Prof. Dr.
Rodrigo Leão de Moura (CI-Brasil)
Prof. Dr. Heitor
Frossard (UEL)
Conselho
Técnico:
CMAS, DAN, NAUI, PADI, PDIC, SSI