ISSN 1807-1783                atualizado em 26 de maio de 2009   


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Noite e Neblina

por Cristiano Guedes Pinheiro

NOITE E NEBLINA. Direção: Alain Resnais, Texto: Jean Cayrol, Música: Hanns Eisler, Narração: Michel Bouquet. França: Aurora DVD, 1955. 1 DVD. (31 min.), son., color./p.b, legendado, documentário.

Sobre o Autor [1]

Uma década após o fim da Segunda Guerra, a pedido do Comitê da História da Segunda Guerra Mundial, o cineasta francês Alain Resnais realizou o documentário “Noite e Neblina”, sobre os campos de concentração nazistas.

Em dias de “Holocausto-negação” [2] onde pretende-se a obliteração da consciência e a clandestinidade da narrativa, o filme continua a ter em seus 31 minutos, o desafio da memória. Quando se esquece promove-se um segundo assassínio das vítimas do Holocausto. Assistir ao documentário, possibilitará, não só a referência visual dos horrores dos campos de concentração e uma boa fonte para o debate, como também, um ótimo recurso contra a amnésia dos acontecimentos históricos. O Holocausto nunca deve ser esquecido, tampouco banalizado devido a sua importância universal, e é justamente a memória viva destes acontecimentos (os monumentos, os memoriais, os museus, os livros, os filmes ...) que impedirá a volta “de estranhos carrascos”, questionamento final do documentário. Além disso, a mensagem do filme não poderia ser mais oportuna para o atual contexto homofóbico, xenófobo, racista e de inúmeras intolerâncias em que vivemos.

O poeta francês Jean Cayrol, ex-prisioneiro do campo de Mauthausen, na Áustria, escreveu o texto para o documentário. Por vezes irônico, sem, no entanto, cair no denuncismo vazio, Cayrol captura a atenção do espectador de forma quase poética. Por seu turno (no outono de 1955), Alain Resnais gravou imagens coloridas dos campos poloneses de Auschuwitz-Birkenau [3]e Majdanek. Nelas, aparecem cenas bucólicas de “construções inofensivas”, rodeadas de pântanos, aves, rolos de feno e muito verde. Na montagem da película, Resnais justapôs as cenas coloridas às imagens de arquivo em preto-e-branco, “costurando-as” com o belíssimo texto de Cayrol.

O nome do documentário foi inspirado na coletânea de poemas de Jean Cayrol “Poèmes de la Nuit et du Brouillard” (Poemas da Noite e da Neblina), de 1945. Essa expressão surge com a cena da chegada dos trens, durante a noite, sob forte neblina. Em muitas dessas noites, por falta ou excesso de nomenclatura, a SS nomeava os recém chegados apenas com: N N –“Nacht und Nebel” [4] (Noite e Neblina).

As imagens de arquivo revelam a conjugação que os nazistas tentaram fazer entre a meticulosidade técnico-científica e a crueldade humana, conjugação que mais tarde Hannah Arendt (1999), em seu livro Eichmann em Jerusalém, desvela brilhantemente na figura de Eichmann, quando nos apresenta um funcionário “exemplar” do governo Hitleriano que cumpriu e desempenhou suas atribuições com esmero e afinco. Esmero e afinco, o qual Hannah só consegue explicar a partir do conceito de “banalidade do mal.” [5] Eichmann foi uma das peças fundamentais na chamada “Solução Final” [6]. Solução inventada pelos nazistas, para resolver o que Jean Cayrol chamou de uma “Realidade desprezada pelos que a criaram... incompreensível para os que a viviam...”

Apesar da realidade incompreensível: dos portões que diziam com ironia "ARBEIT MACHT FREI" (O Trabalho Liberta), das IG Farben [7] com seus Zyklons B, dos ossos utilizados como fertilizantes, dos cabelos utilizados para a fabricação de tecidos e de uma passividade aparente... houve resistência! Homens e mulheres submetidos pelo regime sonhavam, escreviam, fabricavam e se organizavam, minuto a minuto, hora a hora, dia-a-dia e, o simples fato de não fenecerem simbolizava essa resistência, simbolizava a negação da condição de sub-homem imposta pelo regime. A luta por uma migalha de pão, por uma colher de sopa, por um minuto a mais de sono ou de descanso – como testemunhou Primo Levi (1988) em seu É Isto Um Homem? – também foi uma forma de resistência.[8]

Com o final da guerra e a quase inexistência de “culpados”, nem Kapos, nem oficiais, nem chefes, o filme faz um alerta e um chamado à vigília:

Quem de nós vigia nesse estranho observatório para avisar da vinda de estranhos carrascos?

Será que eles são diferentes de nós?

[...]

Há os que não acreditavam, [...]

E há nós, [...]

Nós, que fingimos que isso pertenceu a um tempo, a um país.

E que não olhamos em volta de nós...

E que não ouvimos o grito que não cala.

Ainda que o Holocausto não tenha sido uma tragédia exclusivamente dos judeus (as estimativas são de que os nazistas tenham exterminado cerca de 20 milhões de pessoas, entre elas, 6 milhões de judeus), ele foi também uma tragédia e um fato da história judaica (BAUMAN 1998, p. 12), assim, sob o ponto de vista do filme é impossível não suscitar, além da continuidade da memória, uma reflexão sobre os atuais acontecimentos beligerantes no Oriente Médio, uma vez mais, envolvendo o povo judeu.

Referências:

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Cia das Letras, 1999.

______. Origens do totalitarismo. São Paulo: Cia das Letras, 1989.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

DAVIDOWICZ, Lucy S. The war against the Jews, 1933 – 45. Londres: [s.n.], 1975.

JOHNSON, Paul. História dos judeus. 3. ed. Rio de Janeiro: 1989,

LEVI, Primo. É isto um homem? Rio de Janeiro: Rocco, 1988.

SUTTON, A. Cyril. Wall Street and the rise of Hitler Disponível em: <http://www.reformation.org/wall-st-hitler.html>. Acesso em: 17 mai. 2009.


[1]Graduando do curso de História (7º semestre) e do Bacharelado em Antropologia Social (2º semestre), ambos pela Universidade Federal de Pelotas/RS. Resenha realizada na disciplina de História Contemporânea II, sob a orientação da Profª. Drª. Lorena Almeida Gill. Endereço Eletrônico: cgptapes@gmail.com.

[2]Além dos movimentos conhecidos como Negacionistas ou Revisores do Holocausto, nos últimos anos tivemos diversas declarações reduzindo a extensão do Holocausto, como a do bispo da Igreja Católica Richard Williamson, em janeiro de 2009. Segundo ele, não houve câmaras de gás e o número de judeus mortos não passou de duzentas a trezentas mil pessoas. Suas declarações podem ser vistas em um vídeo na Internet. Disponível em: <http://www.estadao.com.br/interatividade/Multimidia/ShowVideos.action?destaque.idGuidSelect=FAAFF5B4C8884A80BA54A848EE408188>. Acesso em: 17 mai. 2009.

[3]Auschuwitz, na realidade, é o nome de um conjunto de campos localizados na Polônia, na região da Alta Silésia, destes, três eram os principais: Auschuwitz (o centro administrativo do complexo), Auschuwitz-Birkenau (o campo de extermínio) e Auschuwitz-Monowitz (o campo de trabalho escravo).

[4]Hannah Arendt (1998, p. 493), em Origens do Totalitarismo, descreve que: “Os nazistas, com a precisão que lhes era peculiar, costumavam registrar suas operações nos campos de concentração sob o título "na calada da noite" (Nacht und Nebel).” Nota-se aqui, que a tradução do termo noite e neblina foi diferente, porém, o sentido de lugubridade noturna permanece o mesmo. Encontra-se também, a tradução da expressão, como “noite e nevoeiro”.

[5]Analisando as condições que possibilitaram o extermínio de um número tão grande de pessoas, Hannah propõe que isso se deveu à “temível banalidade do mal”, obtida através de uma prática cientificamente programada e racionalizada da violência, ou como ela bem resumiu, crimes que são melhor definidos com a expressão “massacres administrativos”.

[6]Conforme Johnson (1989), os nazistas decidiram dar início a Solução Final a partir de julho de 1941, antes disso o extermínio já ocorria, porém de forma desordenada e efetivada por unidades móveis (os Einsatzgruppen), dirigidas pelo Escritório Central da Segurança do Reich (RSHA). Em ordem escrita por Hermann Göring, segundo homem mais importante na hierarquia do III Reich, datada de 31 de julho de 1941, tem-se a seguinte determinação a Reinhard Heydrich, chefe do RHSA, que, por sua vez, dava ordens a Eichmann: [...] passo-lhe a incumbência de levar a efeito todos os preparativos necessários com respeito aos pontos de vista organizacionais, substantivos e financeiros, para uma solução total da questão judia na esfera de influência alemã na Europa. [...]” (DAVIDOWICZ, 1975, p. 130, apud JOHNSON, 1989, p. 493). Essas passagens, também são encontradas em Arendt (1999, p. 98).

[7]Segundo Sutton (1976, cap. 2, tradução nossa), a IG Farben foi um conglomerado de empresas alemãs formado em 1925. Esse conglomerado deteve o monopólio quase total da produção química na Alemanha Nazista. O gás venenoso Zyklon B, usado nas câmaras de gás para assassinar massivamente todos os indesejáveis, principalmente os judeus, foi inventado, produzido e distribuído pela IG Farben. Gás suficiente para matar 200 milhões de seres humanos foi produzido e vendido pela IG Farben. Entre as várias empresas que constituíam a IG Farben tem-se a Hoechst, a Agfa, a BASF e a Bayer.

[8] A despeito da idéia de que os judeus marcharam para a morte como carneiros para o matadouro, sem, no entanto, dizer que houve uma resistência organizada ou sequer minimamente factível de fazer frente ao exército alemão ou a SS, pode-se citar o Levante do Gueto de Varsóvia e o atentado ao Crematório III e IV de Auschuwitz-Birkenau, como uma efêmera, mas decidida resistência judaica diante da morte iminente. Aos que chegavam dos trens e imediatamente eram empurrados para as câmaras de gás e sequer tinham tempo de entender o que estava acontecendo, restava o último e único gesto de protesto possível: rasgar o pouco dinheiro que traziam junto ao corpo para que os nazistas não pudessem utilizá-lo