ISSN 1807-1783                atualizado em 06 de setembro de 2004   


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Intervenções de um Lingüista

por Lúcio Menezes Ferreira


Kanavillil Rajagopalan
Fonte: Unicamp
Resenha

Lúcio Menezes Ferreira

Mestre e Doutorando em História Cultural - UNICAMP. Bolsista Fapesp

Membro do Núcleo de Estudos Estratégicos.

 

Por uma Lingüística Crítica: Linguagem, Identidade e a Questão Ética.

São Paulo: Parábola Editorial, 2003, 143 p.

ISBN: 85-88456-13-3.

 

Intervenções de um Lingüista

    Kanavillil Rajagopalan, professor titular de Semântica e Lingüística Aplicada na UNICAMP, é dono de vasta produção acadêmica, escrita em inglês e português, em livros e revistas especializadas da Europa, Brasil e Estados Unidos. Parte dela, agora, pode ser acompanhada em Por uma Lingüística Crítica, que reúne textos resultantes de conferências e comunicações em diversos congressos brasileiros. Em forma de livro, os textos saem das redes dos centros de pesquisa e ensino, ganham a rua e acionam, na trama dos fios condutores que percorrem os capítulos, um curto-circuito nas relações entre a linguagem e as sociedades globalizadas.

Um primeiro choque, uma primeira provocação, é desferida contra a comunidade dos lingüistas. Rajagopalan, amparando-se na Sociologia do Conhecimento, aponta-nos – como o fazem, pelo menos desde meados dos anos 1970, os pós-colonialistas em relação às Ciências Naturais e às Humanidades – as cumplicidades históricas entre a Lingüística e o Imperialismo. Conluio que se mantém vivo e atuante no presente. Rajagopalan mostra-nos como, em meio aos enunciados da Lingüística contemporânea, ainda circulam as proposições da Lingüística Comparativa de Max Müller, cujo desejo de pureza e o temor dos contatos interétnicos levou-o a afirmar que não existem línguas mistas (“Es gibt keine Mischsprache”) – idéia essencialmente racista, atada à lógica binária e darwiniana que, repartindo as culturas entre inferiores e superiores, legitimou o domínio colonial.

 

    A Lingüística moderna, diz-nos Rajagopalan, foi varrida pelo ideal nomotético de ciência, por um desejo de submetê-la aos mesmos rigores de verificação e experimentação das Ciências Naturais. Encará-la como Ciência Natural, como ainda o querem os  chomskianos, implica naturalizar o seu objeto de estudo, a língua. Essas considerações de  Rajagopalan remetem-nos ao livro de Bruno Latour, Nous n’avons jamais été modernes (1991). Para Bruno Latour, há um equívoco epistemológico, herdado da modernidade, de trabalhar com conceitos puros; de um lado, estaria Hobbes, fundador das Ciências Políticas e Sociais e, de outro, acharíamos Boyle, o “pai” das Ciências Naturais. Essa separação entre um poder científico, representativo dos objetos naturais, e um poder político, representativo dos sujeitos, é um dos pontos de partida do paradoxo moderno, que cinde cultura e natureza como duas entidades estanques. E encontra-se, argumenta Rajagopalan, no cerne da Lingüística moderna, sobretudo na figura de Chomsky, que arranja, em campos opostos,  suas intensas atividades políticas e científicas; o modelo gerativista de linguagem, para Chomsky, não teria implicações de ordem política e, portanto, a fortiori, éticas.

 

    Do mesmo modo que não há conceitos puros, não há línguas puras; como os conceitos, as línguas são híbridas. Afirmando-o, Rajagopalan descarrega um segundo choque, uma segunda provocação, dirigida ao macro-evento chamado de globalização. Mais especificamente, Rajagopalan discute as relações entre as línguas e a formação de identidades no mundo globalizado; enfatiza que a constituição de identidades não se desatrela das políticas de representação sobre os sujeitos e grupos sociais. Em termos lingüísticos, quando se opta por não pensar as políticas de representação de identidades no interior dos esquemas que a concebem como essencialistas, deparamo-nos com duas posturas antagônicas. A primeira, derivada das proposições estruturalistas de Saussure, afirma que as identidades se forjam num acordo tácito entre os sujeitos de uma comunidade de fala, por meio da partilha de um sistema simbólico comum; a segunda assevera que o consenso mascara, na verdade, os jogos de poder, que manipulam o sistema simbólico com o fito de instaurar, na representação das identidades, projetos de dominação.

 

    Rajagopalan critica as duas posturas. Uma ignora a presença manifesta das estruturas de poder, a outra a realidade e dinâmicas próprias das estruturas simbólicas; por fim, ambas não reservam, em seus arcabouços, lugar para a vontade do sujeito, para a ação social dos grupos. As identidades lingüísticas, assim, se construiriam no embate do sujeito com o mundo, nos confrontos diários, nas lutas políticas em prol da cidadania. Rajagopalan parece concordar com Foucault: os discursos não somente refletem as lutas, são também o próprio objeto por que lutamos. Aqui reside o choque fundamental do livro, a principal provocação, enunciada já no título – por uma lingüística crítica: o lingüista, como cientista social, executaria um papel político e ético essencial, contribuindo para a melhoria das condições de vida dos amplos setores marginalizados da sociedade.

 

    Contanto que, recusando-se a apenas descrever a linguagem, desprendendo-se dos laços epistemológicos que o amarram à neutralidade científica e à naturalização de seu objeto de estudo, ele intervenha nas decisões tomadas na esfera dos planejamentos lingüísticos. Essa é a função da Lingüística crítica. Ela deve aproximar-se da comunidade leiga. Deve estabelecer com ela um diálogo permanente, tornando-a partícipe das políticas de representação de identidades e da linguagem. Se as línguas são a própria expressão de identidade de quem delas se apropria, o leigo não pode ser excluído das políticas de representação da linguagem. Afinal, toda atividade política é mediada pela linguagem; ela é de ordem inescapavelmente discursiva; política e linguagem, portanto, são indissociáveis; ao se engajarem conjuntamente em questões de linguagem, o leigo e o lingüista comprometem-se politicamente e participam de ações eminentemente políticas.

 

    As provocações de Rajagopalan apontam um caminho possível frente aos descaminhos contemporâneos. Pensemos, por exemplo, no fenômeno designado por Robert Phillipson como “imperialismo lingüístico”, a “invasão lingüística” a que vêm sendo submetidas as demais nações, em meio a uma ordem mundial definida sob a égide da “Pax Norte-Americana”; fenômeno que, outras vezes, foi conceituado como coca-colonização. Os defensores deste argumento sugerem que, diante deste imperialismo lingüístico, desta MacDonaldização das diferentes culturas, estaríamos todos nos transformando em coca-colônias. Obviamente, adverte-nos Rajagopalan, não escapou a ninguém que os Estados Unidos, ao destinar, nos anos 1960 e 1970, vultuosas somas aos Departamentos de Lingüística, esperavam recuperá-las em forma de dividendos imperiais. Contudo, uma  compreensão distorcida desse processo pode levar-nos a mergulhar na crescente onda xenófoba e chauvinista que afoga os resident aliens e new age travellers, a massa de imigrantes que perambula por entre as fronteiras do mundo contemporâneo.

 

    Rajagopalan mostra-nos que as premissas que norteiam a crítica ao imperialismo lingüístico são anacrônicas, sobrevivências do século XIX, porquanto provém de uma noção de identidade nacional que associou, num nó górdio, a língua à cultura. A meta desta cerrada articulação, como lembra-nos Léon Poliakov em O Mito Ariano (1971), sempre foi a de criar genealogias nacionais distintas, nobiliárquicas e augustas, obra conduzida, nas palavras do autor, pela “tirania dos lingüistas”.  Tais noções fechadas de identidade exigem, como quer Rajagopalan, novas formas de pensá-las e teorizá-las, reconhecê-las em seu caráter notadamente político – as identidades lingüísticas, culturais e nacionais são monumentos  políticos, erguidos, cultuados e reverenciados conforme as conveniências do momento.

 

    A resistência ao imperialismo lingüístico, pois, não deve ser ditada por projetos de Lei como os do nobre Deputado Aldo Rebelo. Ironicamente, esse tipo de protecionismo lingüístico surge também, com força crescente, exatamente onde é fabricada a coca-colonização. Nos Estados Unidos, são crescentes os clamores para que o governo declare o inglês como a única língua de ensino em todo o território nacional. Para Rajagopalan, no lugar do protecionismo lingüístico, é preciso ensinar-se línguas estrangeiras, aprendê-las com afinco, torná-las parte integrante de nossa personalidade, sem permitir, contudo, que elas nos dominem. Rajagopalan afina-se pelo diapasão conceitual de Stuart Hall e Paul Gilroy, afirmando que, no mundo atual, os absolutismos étnicos cedem lugar às identidades diaspóricas, suspensas, em transição, ocupando diferentes posições, sempre relacionais e contextuais. As identidades culturais, como as línguas, são sempre híbridas, mistas.

 

    Como o seu “compatriota” Homi Bhabha (brinquemos provisoriamente com os absolutismos étnicos), Rajagopalan entende que os sujeitos modernos devem pautar-se pela Tradução, e não pela Tradição. Ao invés de buscarem a ortodoxia da Tradição, de se acalentarem pelo sonho de redescobrir uma pureza cultural perdida, os sujeitos modernos, transportados e confrontados pelas imigrações pós-coloniais, devem ser traduzidos; ao aprenderem uma nova língua, os sujeitos modernos se traduzem  no turbilhão do mundo, no redemoinho das culturas e línguas híbridas; aprendem a habitar, no mínimo, duas identidades, a falar duas linguagens culturais, a traduzi-las e a negociá-las. Esta seria a melhor estratégia para resistirmos ao imperialismo lingüístico e às ameaças xenófobas e chauvinistas.

 

    Por uma Lingüística Crítica, de fato, ganhou a rua; as intervenções de Rajagopalan migraram pelos desvãos do mundo globalizado. Com suas provocações, ele mostra-nos como nossas atividades profissionais, feitas a partir de locais específicos, nas universidades e centros de pesquisa, permitem que nos posicionemos criticamente no mundo e assumamos escolhas éticas.

    Campinas, 3 de setembro de 2004.