Resenha
Lúcio Menezes Ferreira
Mestre
e Doutorando em História Cultural - UNICAMP. Bolsista
Fapesp
Membro
do Núcleo de Estudos Estratégicos.
Por
uma Lingüística Crítica: Linguagem, Identidade e a Questão Ética.
São
Paulo: Parábola Editorial, 2003, 143 p.
ISBN:
85-88456-13-3.
Intervenções
de um Lingüista
Kanavillil Rajagopalan, professor titular de Semântica e Lingüística Aplicada
na UNICAMP, é dono de vasta produção acadêmica, escrita em inglês e português,
em livros e revistas especializadas da Europa, Brasil e Estados Unidos. Parte
dela, agora, pode ser acompanhada em Por uma Lingüística Crítica, que reúne
textos resultantes de conferências e comunicações em diversos congressos
brasileiros. Em forma de livro, os textos saem das redes dos centros de pesquisa
e ensino, ganham a rua e acionam, na trama dos fios condutores que percorrem os
capítulos, um curto-circuito nas relações entre a linguagem e as sociedades
globalizadas.
Um
primeiro choque, uma primeira provocação, é desferida contra a comunidade dos
lingüistas. Rajagopalan, amparando-se na Sociologia do Conhecimento, aponta-nos
– como o fazem, pelo menos desde meados dos anos 1970, os pós-colonialistas
em relação às Ciências Naturais e às Humanidades – as cumplicidades históricas
entre a Lingüística e o Imperialismo. Conluio que se mantém vivo e atuante no
presente. Rajagopalan mostra-nos como, em meio aos enunciados da Lingüística
contemporânea, ainda circulam as proposições da Lingüística Comparativa de
Max Müller, cujo desejo de pureza e o temor dos contatos interétnicos levou-o
a afirmar que não existem línguas mistas (“Es gibt keine Mischsprache”)
– idéia essencialmente racista, atada à lógica binária e darwiniana que,
repartindo as culturas entre inferiores e superiores, legitimou o domínio
colonial.
A Lingüística moderna, diz-nos Rajagopalan, foi varrida pelo ideal nomotético
de ciência, por um desejo de submetê-la aos mesmos rigores de verificação e
experimentação das Ciências Naturais. Encará-la como Ciência Natural, como
ainda o querem os chomskianos,
implica naturalizar o seu objeto de estudo, a língua. Essas considerações de
Rajagopalan remetem-nos ao livro de Bruno Latour, Nous n’avons jamais
été modernes (1991). Para Bruno Latour, há um equívoco epistemológico,
herdado da modernidade, de trabalhar com conceitos puros; de um lado, estaria
Hobbes, fundador das Ciências Políticas e Sociais e, de outro, acharíamos
Boyle, o “pai” das Ciências Naturais. Essa separação entre um poder científico,
representativo dos objetos naturais, e um poder político, representativo dos
sujeitos, é um dos pontos de partida do paradoxo moderno, que cinde cultura e
natureza como duas entidades estanques. E encontra-se, argumenta Rajagopalan, no
cerne da Lingüística moderna, sobretudo na figura de Chomsky, que arranja, em
campos opostos, suas intensas
atividades políticas e científicas; o modelo gerativista de linguagem, para
Chomsky, não teria implicações de ordem política e, portanto, a fortiori, éticas.
Do mesmo modo que não há conceitos puros, não há línguas puras; como os
conceitos, as línguas são híbridas. Afirmando-o, Rajagopalan descarrega um
segundo choque, uma segunda provocação, dirigida ao macro-evento chamado de
globalização. Mais especificamente, Rajagopalan discute as relações entre as
línguas e a formação de identidades no mundo globalizado; enfatiza que a
constituição de identidades não se desatrela das políticas de representação
sobre os sujeitos e grupos sociais. Em termos lingüísticos, quando se opta por
não pensar as políticas de representação de identidades no interior dos
esquemas que a concebem como essencialistas, deparamo-nos com duas posturas
antagônicas. A primeira, derivada das proposições estruturalistas de
Saussure, afirma que as identidades se forjam num acordo tácito entre os
sujeitos de uma comunidade de fala, por meio da partilha de um sistema simbólico
comum; a segunda assevera que o consenso mascara, na verdade, os jogos de poder,
que manipulam o sistema simbólico com o fito de instaurar, na representação
das identidades, projetos de dominação.
Rajagopalan critica as duas posturas. Uma ignora a presença manifesta das
estruturas de poder, a outra a realidade e dinâmicas próprias das estruturas
simbólicas; por fim, ambas não reservam, em seus arcabouços, lugar para a
vontade do sujeito, para a ação social dos grupos. As identidades lingüísticas,
assim, se construiriam no embate do sujeito com o mundo, nos confrontos diários,
nas lutas políticas em prol da cidadania. Rajagopalan parece concordar com
Foucault: os discursos não somente refletem as lutas, são também o próprio
objeto por que lutamos. Aqui reside o choque fundamental do livro, a principal
provocação, enunciada já no título – por uma lingüística crítica: o
lingüista, como cientista social, executaria um papel político e ético
essencial, contribuindo para a melhoria das condições de vida dos amplos
setores marginalizados da sociedade.
Contanto que, recusando-se a apenas descrever a linguagem, desprendendo-se dos
laços epistemológicos que o amarram à neutralidade científica e à
naturalização de seu objeto de estudo, ele intervenha nas decisões tomadas na
esfera dos planejamentos lingüísticos. Essa é a função da Lingüística crítica.
Ela deve aproximar-se da comunidade leiga. Deve estabelecer com ela um diálogo
permanente, tornando-a partícipe das políticas de representação de
identidades e da linguagem. Se as línguas são a própria expressão de
identidade de quem delas se apropria, o leigo não pode ser excluído das políticas
de representação da linguagem. Afinal, toda atividade política é mediada
pela linguagem; ela é de ordem inescapavelmente discursiva; política e
linguagem, portanto, são indissociáveis; ao se engajarem conjuntamente em
questões de linguagem, o leigo e o lingüista comprometem-se politicamente e
participam de ações eminentemente políticas.
As provocações de Rajagopalan apontam um caminho possível frente aos
descaminhos contemporâneos. Pensemos, por exemplo, no fenômeno designado por
Robert Phillipson como “imperialismo lingüístico”, a “invasão lingüística”
a que vêm sendo submetidas as demais nações, em meio a uma ordem mundial
definida sob a égide da “Pax Norte-Americana”; fenômeno que, outras vezes,
foi conceituado como coca-colonização. Os defensores deste argumento sugerem
que, diante deste imperialismo lingüístico, desta MacDonaldização das
diferentes culturas, estaríamos todos nos transformando em coca-colônias.
Obviamente, adverte-nos Rajagopalan, não escapou a ninguém que os Estados
Unidos, ao destinar, nos anos 1960 e 1970, vultuosas somas aos Departamentos de
Lingüística, esperavam recuperá-las em forma de dividendos imperiais.
Contudo, uma compreensão
distorcida desse processo pode levar-nos a mergulhar na crescente onda xenófoba
e chauvinista que afoga os resident aliens e new age travellers, a massa de
imigrantes que perambula por entre as fronteiras do mundo contemporâneo.
Rajagopalan mostra-nos que as premissas que norteiam a crítica ao imperialismo
lingüístico são anacrônicas, sobrevivências do século XIX, porquanto provém
de uma noção de identidade nacional que associou, num nó górdio, a língua
à cultura. A meta desta cerrada articulação, como lembra-nos Léon Poliakov
em O Mito Ariano (1971), sempre foi a de criar genealogias nacionais distintas,
nobiliárquicas e augustas, obra conduzida, nas palavras do autor, pela
“tirania dos lingüistas”. Tais
noções fechadas de identidade exigem, como quer Rajagopalan, novas formas de
pensá-las e teorizá-las, reconhecê-las em seu caráter notadamente político
– as identidades lingüísticas, culturais e nacionais são monumentos
políticos, erguidos, cultuados e reverenciados conforme as conveniências
do momento.
A resistência ao imperialismo lingüístico, pois, não deve ser ditada por
projetos de Lei como os do nobre Deputado Aldo Rebelo. Ironicamente, esse tipo
de protecionismo lingüístico surge também, com força crescente, exatamente
onde é fabricada a coca-colonização. Nos Estados Unidos, são crescentes os
clamores para que o governo declare o inglês como a única língua de ensino em
todo o território nacional. Para Rajagopalan, no lugar do protecionismo lingüístico,
é preciso ensinar-se línguas estrangeiras, aprendê-las com afinco, torná-las
parte integrante de nossa personalidade, sem permitir, contudo, que elas nos
dominem. Rajagopalan afina-se pelo diapasão conceitual de Stuart Hall e Paul
Gilroy, afirmando que, no mundo atual, os absolutismos étnicos cedem lugar às
identidades diaspóricas, suspensas, em transição, ocupando diferentes posições,
sempre relacionais e contextuais. As identidades culturais, como as línguas, são
sempre híbridas, mistas.
Como o seu “compatriota” Homi Bhabha (brinquemos provisoriamente com os
absolutismos étnicos), Rajagopalan entende que os sujeitos modernos devem
pautar-se pela Tradução, e não pela Tradição. Ao invés de buscarem a
ortodoxia da Tradição, de se acalentarem pelo sonho de redescobrir uma pureza
cultural perdida, os sujeitos modernos, transportados e confrontados pelas
imigrações pós-coloniais, devem ser traduzidos; ao aprenderem uma nova língua,
os sujeitos modernos se traduzem no
turbilhão do mundo, no redemoinho das culturas e línguas híbridas; aprendem a
habitar, no mínimo, duas identidades, a falar duas linguagens culturais, a
traduzi-las e a negociá-las. Esta seria a melhor estratégia para resistirmos
ao imperialismo lingüístico e às ameaças xenófobas e chauvinistas.
Por uma Lingüística Crítica, de fato, ganhou a rua; as intervenções de
Rajagopalan migraram pelos desvãos do mundo globalizado. Com suas provocações,
ele mostra-nos como nossas atividades profissionais, feitas a partir de locais
específicos, nas universidades e centros de pesquisa, permitem que nos
posicionemos criticamente no mundo e assumamos escolhas éticas.
Campinas, 3 de setembro de 2004.