ISSN 1807-1783                atualizado em 11 de agosto de 2009   


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Contos, lendas, história e literatura afro-brasileira no espaço escolar

por José Alexandre da Silva e Maria Antônia Marçal

PRANDI, Reginaldo. Contos e lendas afro-brasileiras: a criação do mundo. Ilustrações de Joana Lira. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

Sobre o autor[1]

Sobre a autora[2]

Integrando a coleção Contos e Lendas da editora Companhia das Letras, ‘Contos e lendas afro-brasileiras: a criação do mundo’, é uma obra escrita por Reginaldo Prandi, ilustrada por Joana Lira e distribuída nas escolas públicas de todo país pelo Ministério da Educação através do PNBE[3] (Programa Nacional da Biblioteca da Escola) 2009 – é bom lembrar que a inclusão de uma obra em um programa de tal natureza pressupõe a disponibilização desta mesma, em larga escala, para um público que talvez não tivesse condições de adquiri-la financeiramente. O autor, que leciona sociologia na Universidade de São Paulo, também é dono de uma sólida produção acadêmica na área da religião e cultura afro-brasileira e já havia lançado outros livros infanto-juvenis envolvendo esta mesma temática. Joana Lira é uma artista plástica pernambucana também já tendo alguns trabalhos na literatura infanto-juvenil.

Uma das características do gênero literário, acima mencionado, é que as ilustrações trazem ao texto uma nova dimensão, podendo tanto ilustrar o que está escrito como criar novos significados numa linguagem diferente da textual. Sobre a literatura infanto-juvenil brasileira já foram realizados estudos atestando que os negros são invisibilizados, ou ainda possuem sua historicidade vinculada ao processo produtivo, à escravidão[4]. Mesmo a escravidão negra tendo sido uma relação que esteve presente na maioria do período de existência do nosso país e ser também responsável em grande parte pelo preconceito que ainda existe contra os negros (homens e mulheres) no Brasil, não é motivo para o negro ter sua imagem ligada quase que exclusivamente ao mundo do trabalho ou enfrentando alguma situação degradante.

Crianças negras, e brancas, que possam ter acesso a materiais com tais características podem ter a consciência de si e de sua etnia gravemente prejudicadas. Para além da discussão acerca da identidade, que se constrói na relação com o outro, podemos apontar alguns problemas na construção da consciência histórica de alunos brancos e negros. Para os primeiros consolida-se a imagem de um grupo étnico inferiorizado e, por conseguinte, “inferior” dentro da nossa sociedade. Já os alunos negros silenciam e negam sua historicidade, já que ser negro parece estar sempre associado á escravidão. Felizmente já podemos encontrar no mercado editorial brasileiro obras que representam com dignidade e de forma positiva a história e a cultura dos povos africanos e afro-brasileiros. Devemos lembrar também que tal estado de coisas se insere num quadro de lutas e reivindicações por parte da população e dos movimentos negros que já vem se configurando de longa data. Podemos dizer que a obra resenhada atende essa demanda da população afro-brasileira.

A personagem central da história é Adetutu, uma jovem de origem iorubá que se encontra num navio negreiro sendo transportada para uma terra desconhecida. Para suportar as duras condições da longa viagem, Adetutu, se refugia nas histórias de seu povo que lhe haviam sido transmitidas oralmente. Além de recordar a jovem se faz presente nestes sonhos testemunhando toda a criação de acordo com suas tradições. Assim, pode testemunhar quando Olorum, ser supremo, criou os orixás e ordenou a Oxalá que ficasse encarregado dos afazeres da criação. Presenciou também quando o mesmo Oxalá criou os seres humanos de barro com a ajuda de sua irmã Nanã entre outros tantos eventos.

Nos sonhos da jovem se desenrolam os mitos que na cultura de seu povo explicam a domesticação do fogo, a utilização de instrumentos de metal e de utensílios como o pilão, a existência das tempestades e a criação da morte pelo mesmo Oxalá. Depois de desembarcar na terra desconhecida nos idos de 1830, Adetutu é vendida para um senhor que a explora como escrava de ganho em ambiente urbano. É batizada na religião cristã e aprende uma nova língua, depois de trabalhar cerca de trinta anos consegue juntar um pecúlio e comprar sua alforria. Outrora a jovem Adetutu, ainda em sua terra, fora iniciada como sacerdotisa de Xangô e agora mesmo tendo sido obrigada a praticar outra religião nunca esquecera o culto dos orixás e junto com outros irmãos escravizados criou na nova terra, o Brasil, a religião denominada de Candomblé. Mesmo este personagem podendo ser fictício, este enredo certamente foi vivenciado por muitas pessoas e é capaz de ilustrar muito bem a forma como o culto aos orixás africanos foi construído no Brasil.

O livro também conta com um apêndice, recheado de ilustrações e fotografias intitulado ‘os deuses da mitologia afro-brasileira’, que elenca e descreve as principais características dos orixás cultuados no Brasil bem como os principais ritos do Candomblé. ‘Contos e lendas afro-brasileiras: a criação do mundo’ além de bom entretenimento também tem seu caráter informativo que pode bem servir de base e estímulo para quem vier a se interessar por religião e cultura afro-brasileira. Pensando o universo escolar, e os saberes por este veiculados, pode-se afirmar que a cosmovisão africana precisa integrar o rol de saberes veiculados pela escola.

O conhecimento das diferentes disciplinas que compõem o currículo ainda está pautado no Ocidente enquanto que outras bases culturais e presentes em nosso país ainda são esvaziadas, invisibilizadas e ou apagadas. Neste viés, em específico, as tradições afro-brasileiras constituem uma de nossas matrizes culturais estruturantes, contudo, não são consideradas como tal. Muitos professores alegam desconhecimento e falta de material para que a lei 10.639/03 seja implementada no espaço escolar. Portanto, estes e outros tantos livros que chegaram às bibliotecas das escolas públicas vem de certa forma suprir esta necessidade. Espera-se que a partir destas obras os professores possam fazer uma leitura da sociedade e pensar a escola numa perspectiva multicultural.[5]


[1] Professor de História da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED) e membro do Grupo de Estudos em Didática da História (GEDHI). http://www.jmnews.com.br/index.php?SETOR=BLOG&BID=5421 alexandre875@hotmail.com

[2] Professora de História da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED), membro do Grupo de Estudos em Didática da História (GEDHI) e mestre em Educação pela UEPG. ariammarcal@yahoo.com

[3] De acordo com dados do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), o PNBE/2009 contemplou 23,6 milhões de estudantes das séries finais do ensino fundamental (6º ao 9º ano) e contando com um orçamento de R$ 76,6 milhões. Para saber mais acesse: http://www.fnde.gov.br/home/index.jsp?arquivo=biblioteca_escola.html

[4] Entre outros, nos referimos a: LIMA, Heloisa Pires. Personagens Negros: um breve perfil na literatura infanto-juvenil. In: MUNANGA, Kabengele. Superando o Racismo na Escola. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2008, p. 97-111. CASTILHO, Suely Dulce. A Representação do Negro na Literatura Brasileira: Novas Perspectivas. Olhar de Professor. Ponta Grossa, Ano 7, Número 1, 2004, p. 103-113.

[5] Nos referimos ao conceito de multiculturalismo, não como tolerância ao outro, mas como um conjunto de representações de raça, classe, gênero e as relações de poder envolvidas na construção histórica das diferenças, utilizado em: RAMOS, Márcia Elisa Teté. O Ensino de História e a questão do multiculturalismo depois dos Parâmetros Curriculares Nacionais. In CERRI, Luís Fernando. Ensino de História e Educação: olhares em convergência. Ponta Grossa: UEPG, 20007, p. 93-111.