JÚNIOR, Jackson Gomes. SILVA, Luís Geraldo da. COSTA, Paulo Afonso Bracarense.
Paraná Negro. Curitiba: UFPR/PROEC, 2008.
Sobre o autor[1]
Sobre a autora[2]
No Estado do Paraná, como nos outros Estados do Sul, durante muito tempo se
acreditou que a escravidão negra havia sido muito pouco significativa nestas
regiões por terem prevalecido as invernadas e fazendas de criação de gado que
necessitavam de muito menos mão de obra que os engenhos do Nordeste Açucareiro e
as fazendas de café da região Sudeste. Regiões onde prevaleciam a grande
propriedade sustentada pelo trabalho escravo, com produção destinada a abastecer
o mercado externo e abastecidas pela pecuária das províncias do Sul que
configuravam economias de abastecimento do mercado interno.
Nas regiões de grandes escravarias uma das principais formas de resistência por
parte da população escravizada era o aquilombamento, prática em que os escravos
fugiam das propriedades de seus senhores para locais de difícil acesso onde
formavam comunidades e ali viviam. O quilombo mais conhecido em nossa história é
o de Palmares pelo número de habitantes que teve e a quantidade de tempo que
durou. Nos últimos anos os pesquisadores também vêm descobrindo comunidades
remanescentes de quilombolas que reivindicam a regularização da posse da terra
em que habitam e lutam para manter suas tradições. Ao longo de décadas
construiu-se no Paraná uma representação de um Estado branco, onde foi mais
significativo o trabalho de imigrantes europeus. Contudo, foram mapeadas no
Estado 90 comunidades de remanescentes de quilombos com 36 destas já
reconhecidas pela Fundação Palmares. Esta reordenação de discursos e dados
historiográficos permite dar visibilidade a um grupo étnico outrora silenciado
na história deste Estado, a população negra.
Historiadores e pesquisadores vinculados a uma corrente historiográfica que já
foi denominada como ‘nova história social da escravidão’[3]
jogaram por terra os argumentos que sustentavam a concepção equivocada de que a
escravidão no Paraná – e por consequência a resistência a esta mesma - não foi
significativa. Tal argumento que só vem a ser corroborado com a publicação do
livro de fotos ‘Paraná Negro’ organizado por Jackson Gomes Júnior, Geraldo Luís
da Silva e Paulo Afonso Bracarense Costa. O conteúdo da obra, fotografias e
informações, é fruto de um levantamento feito pelo Grupo Clóvis Moura cujo
objetivo era mapear as comunidades de descendentes de quilombolas. Este livro
traz três capítulos, dos quais, o primeiro traz uma contextualização histórica
situando o Brasil na rota dos “descobrimentos”, bem como uma definição
antropológica sobre comunidades remanescentes de quilombolas. Já o segundo faz
uma breve descrição da origem das comunidades de acordo com seus moradores e o
terceiro chama a atenção para alguns elementos importantes da cultura material
destas comunidades.
Se por um lado as fotografias nos remetem para a imagem de pessoas alijadas de
qualquer conforto material e que durante as últimas gerações foram completamente
esquecidas pelas autoridades políticas em nível municipal e estadual. Por outro,
podemos perceber elementos que proporcionaram a estas mesmas se manter enquanto
comunidade. Algumas destas comunidades, também chamadas, ‘terras de pretos’
ficam em locais tão afastados que foi necessária a utilização de GPS para saber
o município que está localizado. É possível ainda perceber nas imagens, a
miscigenação pela quais estas populações passaram já que boa parte das pessoas
retratadas nas fotos, principalmente os mais jovens e crianças, demonstram que
estas comunidades também se constituíam de pessoas pertencentes a outros grupos
étnicos, tais como os indígenas. Entretanto, o elemento mais significativo é a
cultura material e imaterial que conseguiram preservar.
Entre os elementos retratados na obra podemos mencionar tanto os mutirões
realizados nas plantações de um determinado membro da comunidade e que conta com
a presença de seus vizinhos, quanto às orações coletivas e a ‘dança de São
Gonçalo[4]’,
praticadas em algumas destas comunidades, que servem para manter vivo o sentido
de comunidade. Já no aspecto da cultura material podemos citar as casas de
pau-a-pique, algumas das quais chegam a lembrar construções indígenas, os fornos
em forma de cupinzeiro, os fogões a lenha e principalmente o pilão[5]
e a cozinha afastada do restante da casa[6].
Estes dois últimos elementos nos remetem à cultura africana e que são uma
constante em várias destas comunidades. O reconhecimento da importância destas
comunidades também pode nos chamar a atenção para a voz dos seus representantes.
Um fato também digno de nota é que as mulheres têm um papel muito importante
nestas comunidades. Não foi por acaso que num encontro de formação de educadores
quilombolas realizado pela Secretaria de Estado de Educação do Paraná,
(SEED/PR), na cidade de Goioerê em 2008, quando a obra ora resenhada havia sido
lançada há pouco tempo, uma mulher, liderança quilombola, se manifestou a
respeito da mesma. A fala da liderança sustentou o argumento de que seu povo não
precisa de livros, por nem saber ler, mas sim de transporte para que suas
crianças possam frequentar escolas, é indicativo de que para além do
reconhecimento da existência destas comunidades é necessário que se criem
instrumentos para que estas mesmas possam ter acesso aos benefícios que os
demais cidadãos o têm.
Nesse sentido, o presente livro é apenas primeiro passo no que diz respeito ao
fortalecimento das identidades outrora silenciadas, no empoderamento de
indivíduos comuns cuja trajetória histórica foi marcada pela resistência em suas
diferentes formas. Esta obra representa a desmistificação da idéia de um estado
marcado pela branquitude de suas origens e retrata a história de indivíduos cuja
incursão no mundo das letras apenas começou e mesmo sem dominar a escrita do
colonizador fez eternizar na memória e na oralidade a força de suas tradições.
[2]
Professora de História da Secretaria de Estado
da Educação do Paraná (SEED), membro do Grupo de Estudos em Didática da
História (GEDHI) e mestre em Educação pela UEPG.
ariammarcal@yahoo.com
[3]
Este termo foi usado pela historiadora Hebe Mattos em conferência do
Simpósio Nacional de História em de 2007 na cidade de São Leopoldo.
[4]
A dança de São Gonçalo é uma manifestação católica portuguesa referente
à pratica de um padre Gonçalo que utilizava a canção e a dança, nas
noites de sábado, com prostitutas afim de que estas, cansadas,
desistissem da vida profana. Nas comunidades quilombolas do Paraná a
dança é uma forma de pagamento de promessa realizada por toda a
comunidade, mesmo que a graça seja individual. Ver: JÚNIOR, Jackson
Gomes. SILVA, Luís Geraldo da. COSTA, Paulo Afonso Bracarense. Paraná
Negro. Curitiba: UFPR/PROEC, 2008, p. 72.
[5]
Uma lenda de tradição iorubá conta sobre um rei, conhecido pela
quantidade de inhames que ingeria, que de certa feita nervoso, por as
mulheres de sua tribo demorarem para preparar inhames, trouxe da
floresta um tronco cilíndrico o qual fez uma das superfícies ser
corroídas por brasas durante vários dias até formar um buraco no qual
com uma haste de madeira as mulheres poderiam amassar rapidamente os
inhames. In: PRANDI, Reginaldo. Contos e
lendas afro-brasileiras: a criação do mundo. Ilustrações de Joana
Lira. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 81-86.
[6]
“(...) o fato remete a um traço ontológico das culturas originais do
continente africano, para quem há grande importância no ato de cozinhar.
Eles crêem que os conhecimentos na arte da mistura dos condimentos e no
uso das ervas têm o duplo significado de prevenir doenças e zelar pela
saúde das pessoas. (...) Também existe a sacra necessidade de
transformar algo que está morto em algo necessário e benéfico á vida
(...) na casa, não devem entrar coisas mortas. Portanto a cozinha é
construída em separado do corpo da residência.” In: JÚNIOR, Jackson
Gomes. SILVA, Luís Geraldo da. COSTA, Paulo Afonso Bracarense. Paraná
Negro. Curitiba: UFPR/PROEC, 2008, p. 95.