ISSN 1807-1783                atualizado em 09 de setembro de 2009   


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O Paraná negro e a voz dos remanescentes de quilombos

por José Alexandre da Silva e Maria Antônia Marçal


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JÚNIOR, Jackson Gomes. SILVA, Luís Geraldo da. COSTA, Paulo Afonso Bracarense. Paraná Negro. Curitiba: UFPR/PROEC, 2008.

Sobre o autor[1]

Sobre a autora[2]

No Estado do Paraná, como nos outros Estados do Sul, durante muito tempo se acreditou que a escravidão negra havia sido muito pouco significativa nestas regiões por terem prevalecido as invernadas e fazendas de criação de gado que necessitavam de muito menos mão de obra que os engenhos do Nordeste Açucareiro e as fazendas de café da região Sudeste. Regiões onde prevaleciam a grande propriedade sustentada pelo trabalho escravo, com produção destinada a abastecer o mercado externo e abastecidas pela pecuária das províncias do Sul que configuravam economias de abastecimento do mercado interno.

Nas regiões de grandes escravarias uma das principais formas de resistência por parte da população escravizada era o aquilombamento, prática em que os escravos fugiam das propriedades de seus senhores para locais de difícil acesso onde formavam comunidades e ali viviam. O quilombo mais conhecido em nossa história é o de Palmares pelo número de habitantes que teve e a quantidade de tempo que durou. Nos últimos anos os pesquisadores também vêm descobrindo comunidades remanescentes de quilombolas que reivindicam a regularização da posse da terra em que habitam e lutam para manter suas tradições. Ao longo de décadas construiu-se no Paraná uma representação de um Estado branco, onde foi mais significativo o trabalho de imigrantes europeus. Contudo, foram mapeadas no Estado 90 comunidades de remanescentes de quilombos com 36 destas já reconhecidas pela Fundação Palmares. Esta reordenação de discursos e dados historiográficos permite dar visibilidade a um grupo étnico outrora silenciado na história deste Estado, a população negra.

Historiadores e pesquisadores vinculados a uma corrente historiográfica que já foi denominada como ‘nova história social da escravidão’[3] jogaram por terra os argumentos que sustentavam a concepção equivocada de que a escravidão no Paraná – e por consequência a resistência a esta mesma - não foi significativa. Tal argumento que só vem a ser corroborado com a publicação do livro de fotos ‘Paraná Negro’ organizado por Jackson Gomes Júnior, Geraldo Luís da Silva e Paulo Afonso Bracarense Costa. O conteúdo da obra, fotografias e informações, é fruto de um levantamento feito pelo Grupo Clóvis Moura cujo objetivo era mapear as comunidades de descendentes de quilombolas. Este livro traz três capítulos, dos quais, o primeiro traz uma contextualização histórica situando o Brasil na rota dos “descobrimentos”, bem como uma definição antropológica sobre comunidades remanescentes de quilombolas. Já o segundo faz uma breve descrição da origem das comunidades de acordo com seus moradores e o terceiro chama a atenção para alguns elementos importantes da cultura material destas comunidades.

Se por um lado as fotografias nos remetem para a imagem de pessoas alijadas de qualquer conforto material e que durante as últimas gerações foram completamente esquecidas pelas autoridades políticas em nível municipal e estadual. Por outro, podemos perceber elementos que proporcionaram a estas mesmas se manter enquanto comunidade. Algumas destas comunidades, também chamadas, ‘terras de pretos’ ficam em locais tão afastados que foi necessária a utilização de GPS para saber o município que está localizado. É possível ainda perceber nas imagens, a miscigenação pela quais estas populações passaram já que boa parte das pessoas retratadas nas fotos, principalmente os mais jovens e crianças, demonstram que estas comunidades também se constituíam de pessoas pertencentes a outros grupos étnicos, tais como os indígenas. Entretanto, o elemento mais significativo é a cultura material e imaterial que conseguiram preservar.

Entre os elementos retratados na obra podemos mencionar tanto os mutirões realizados nas plantações de um determinado membro da comunidade e que conta com a presença de seus vizinhos, quanto às orações coletivas e a ‘dança de São Gonçalo[4]’, praticadas em algumas destas comunidades, que servem para manter vivo o sentido de comunidade. Já no aspecto da cultura material podemos citar as casas de pau-a-pique, algumas das quais chegam a lembrar construções indígenas, os fornos em forma de cupinzeiro, os fogões a lenha e principalmente o pilão[5] e a cozinha afastada do restante da casa[6]. Estes dois últimos elementos nos remetem à cultura africana e que são uma constante em várias destas comunidades. O reconhecimento da importância destas comunidades também pode nos chamar a atenção para a voz dos seus representantes.

Um fato também digno de nota é que as mulheres têm um papel muito importante nestas comunidades. Não foi por acaso que num encontro de formação de educadores quilombolas realizado pela Secretaria de Estado de Educação do Paraná, (SEED/PR), na cidade de Goioerê em 2008, quando a obra ora resenhada havia sido lançada há pouco tempo, uma mulher, liderança quilombola, se manifestou a respeito da mesma. A fala da liderança sustentou o argumento de que seu povo não precisa de livros, por nem saber ler, mas sim de transporte para que suas crianças possam frequentar escolas, é indicativo de que para além do reconhecimento da existência destas comunidades é necessário que se criem instrumentos para que estas mesmas possam ter acesso aos benefícios que os demais cidadãos o têm.

Nesse sentido, o presente livro é apenas primeiro passo no que diz respeito ao fortalecimento das identidades outrora silenciadas, no empoderamento de indivíduos comuns cuja trajetória histórica foi marcada pela resistência em suas diferentes formas. Esta obra representa a desmistificação da idéia de um estado marcado pela branquitude de suas origens e retrata a história de indivíduos cuja incursão no mundo das letras apenas começou e mesmo sem dominar a escrita do colonizador fez eternizar na memória e na oralidade a força de suas tradições.


[1] Professor de História da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED) e membro do Grupo de Estudos em Didática da História (GEDHI). http://www.jmnews.com.br/index.php?SETOR=BLOG&BID=5421 alexandre875@hotmail.com

[2] Professora de História da Secretaria de Estado da Educação do Paraná (SEED), membro do Grupo de Estudos em Didática da História (GEDHI) e mestre em Educação pela UEPG. ariammarcal@yahoo.com

[3] Este termo foi usado pela historiadora Hebe Mattos em conferência do Simpósio Nacional de História em de 2007 na cidade de São Leopoldo.

[4] A dança de São Gonçalo é uma manifestação católica portuguesa referente à pratica de um padre Gonçalo que utilizava a canção e a dança, nas noites de sábado, com prostitutas afim de que estas, cansadas, desistissem da vida profana. Nas comunidades quilombolas do Paraná a dança é uma forma de pagamento de promessa realizada por toda a comunidade, mesmo que a graça seja individual. Ver: JÚNIOR, Jackson Gomes. SILVA, Luís Geraldo da. COSTA, Paulo Afonso Bracarense. Paraná Negro. Curitiba: UFPR/PROEC, 2008, p. 72.

[5] Uma lenda de tradição iorubá conta sobre um rei, conhecido pela quantidade de inhames que ingeria, que de certa feita nervoso, por as mulheres de sua tribo demorarem para preparar inhames, trouxe da floresta um tronco cilíndrico o qual fez uma das superfícies ser corroídas por brasas durante vários dias até formar um buraco no qual com uma haste de madeira as mulheres poderiam amassar rapidamente os inhames. In: PRANDI, Reginaldo. Contos e lendas afro-brasileiras: a criação do mundo. Ilustrações de Joana Lira. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 81-86.

[6] “(...) o fato remete a um traço ontológico das culturas originais do continente africano, para quem há grande importância no ato de cozinhar. Eles crêem que os conhecimentos na arte da mistura dos condimentos e no uso das ervas têm o duplo significado de prevenir doenças e zelar pela saúde das pessoas. (...) Também existe a sacra necessidade de transformar algo que está morto em algo necessário e benéfico á vida (...) na casa, não devem entrar coisas mortas. Portanto a cozinha é construída em separado do corpo da residência.” In: JÚNIOR, Jackson Gomes. SILVA, Luís Geraldo da. COSTA, Paulo Afonso Bracarense. Paraná Negro. Curitiba: UFPR/PROEC, 2008, p. 95.