Sobre o autor[1]
Antes de tudo é fundamental citar que a obra de Neves e Piló, “O Povo de
Luzia”, é, sem dúvidas, uma leitura formidável, sem complicações, onde é
alcançado um elevado nível didático, não só falando de pré-história e achados,
mas também outros variados assuntos contextualizando Lagoa Santa - MG (onde
foram encontrados os fósseis) e a história de Luzia. Com textos e comentários
muito bem elaborados, até irônicos em algumas ocasiões, é possível fazer uma
viagem pela origem humana e pelos sítios arqueológicos brasileiros encontrados,
principalmente em Minas Gerais, muito bem descritos na obra. É composta por oito
capítulos sendo que a partir do capítulo 6, Neves e Piló fazem uma espécie de
retrospecto fixando algumas passagens dos capítulos precedentes com o intuito de
lembrar o caudaloso número de informações certificando-se que o leitor assimilou
cada uma delas contidas na obra.
O Povo de Luzia, num primeiro momento, fala sobre o processo de
hominização, como surgiram os homens na terra. Os autores citam que o homem
nasceu de um processo natural como qualquer outro ser vivo, os processos de
evolução biológica e seleção natural, teoria de Darwin. Segundo eles evolução
não tem projeto, nem mesmo a do homem e que, como expressou Jaques Monod, prêmio
Nobel francês, é puro resultado do acaso, não é possível fazer visões no campo
da evolução biológica por conseqüência das variabilidades genéticas e mudanças
ambientais, a prova disso seria o imenso número de espécies que se extinguiram
no passado. Ainda falam que Evoluir é tão diferente de tornar-se melhor quanto
de tornar-se mais complexo, que seria apenas mudar mantendo-se adaptado. Seleção
natural não fixa sempre alternativas perfeitas, elege a melhor entre as
disponíveis e ainda ironizam a dificuldade que a evolução tem em gerar coisas
absolutamente revolucionárias, visto o tempo elevado que demora pra surgir e
adaptar uma espécie num determinado ambiente, prova disto o abundante número de
fósseis espalhados pelo planeta.a.a.
Fazem uma revisão no surgimento da vida no planeta registrando que as
bactérias surgiram cerca de 3,5 bilhões de anos, criaturas multicelulares há 1,8
bilhões de anos, primeiros animais há 575 milhões de anos, formais animais hoje
existentes há 530 milhões de anos, citam que 9/10 da evolução da vida ocorreu
embaixo da água. Plantas terrestres há 500 milhões de anos, primeiros
invertebrados e vertebrados terrestres há 450 e 360 milhões de anos
respectivamente, dinossauros e mamíferos há 250 milhões de anos, sendo que os
dinossauros extinguiram-se há 65 milhões de anos, primatas surgem aos 55 milhões
de anos e enfim os homens e seus ancestrais diretos, os hominíneos, surgem há 7
milhões de anos.
Numa frase atrevida, expressam que a pergunta se nós homens viemos do
macaco é totalmente desnecessária, pois somos um grande macaco! Deste ponto em
diante fazem uma análise fenotípica e comportamental entre os primatas, grupo
onde se inclui o homem. Fazem ainda uma análise evolutiva e classificatória dos
antropóides, especialmente os macacos propriamente ditos e os hominóides
(pongíneos, gorilíneos e hominíneos). Após a análise começa então a história dos
bípedes, onde o mais antigo foi encontrado em 2001 no Chade com datação de 7
milhões de anos e citam que, diferentemente do que pensava Darwin, a fixação da
bipedia pela seleção natural se deu nas florestas e não nas savanas. Falam à
grosso modo que os hominíneos existentes no planeta entre 7 e 2 milhões de anos
eram verdadeiros chimpanzés em pé. Assim como o homem dista 7 milhões de anos do
ancestral comum com os chimpanzés atuais (que tem uma identidade gênica entre
95% e 98% em relação aos humanos, sendo considerados nossa “espécie irmã”),
estes também evoluíram 7 milhões de anos em relação ao mesmo ancestral. Ainda
fazem uma análise das características ósseas desses primeiros hominíneos.
O surgimento do gênero Homo se da por volta de 2 milhões de anos nas
savanas africanas, como consta na obra. A partir daí começa a explicação sobre a
evolução humana falando principalmente do Homo erectus que tão logo ao seu
surgimento começou a se expandir para outros continentes, tendo chegado ao
Cáucaso (entre Europa e Ásia) por volta de 1,75 milhões de anos. Alguns autores
acreditam segundo análises em crânios, em duas espécies distintas: Homo ergaster
(Ásia) e Homo erectus (África). Por volta de 1,6 milhões de anos começaram a
surgir ferramentas de pedra lascada, mas sem uma concepção formal do objeto
desejado. Indústria lítica conhecida como Acheulense e acredita-se que apenas
depois dessa indústria o homem tenha saído da África.
Por volta de 800 mil anos os primeiros grandes cérebros começaram a
surgir. O autor sugere que poderiam ser todos reunidos em uma única espécie
chamada: Homo heidelbergensis (homem fisicamente moderno). Concretizam que
datada em 400 mil anos, uma lança de madeira foi encontrada junto a esqueletos
de cavalos pré-históricos na Alemanha, nos anos 1990. Ainda citam que por volta
dos 250 mil anos desenvolveram uma técnica revolucionária no lascamento de
pedras dando início a indústria lítica chamada Musteriense e que essa indústria
teve seu auge entre os Neandertais, que surgiram há 200 mil anos no Norte da
Europa Ocidental. Segundo os autores, os heidelbergensis, por volta dos 300 mil
anos, passaram a apresentar uma morfologia craniana notável, faces para frente
afastadas do neurocrânio, característica mais importante do crânio neandertal.
Concluem que ao contrário do que se pensava, os neandertais não possuíam nenhum
tratamento ritual aos mortos, enterrando-os em covas rasas e mal elaboradas
provavelmente por razões higiênicas ou evitando predadores, e que sua extinção
(29 mil anos) coincidiu com a chegada e expansão do Homo sapiens (homem
comportamentalmente moderno - 45 mil anos) no Oriente Médio e na Europa por
volta dos 40 mil anos. Daí em diante começam a tratar das teorias de expansão do
homem pelos outros continentes e principalmente sua chegada à América.
Daí então começa a discussão sobre o homem na América. Os Clovistas
norte-americanos, por conta de seu egocentrismo inigualável, começam a disputar
com os sul-americas as origens do homem na América. Esqueletos encontrados nos
EUA datados com 11 mil anos provariam a chegada do homem à América. No entanto,
aparece Luzia, um esqueleto datado com 11,5 mil anos no Brasil entre vários
outros achados arqueológicos em sítios brasileiros, colombianos, argentinos
entre outros. Estava então formada a disputa entre Arqueólogos da América do Sul
contra os da América do Norte. A comunidade arqueológica e antropológica
norte-americana, pelo seu dogmatismo, retardou assim por décadas o avanço do
conhecimento sobre o assunto. Os autores ainda falam das dificuldades
encontradas pela profissão, as várias pedras no caminho impostas pelos
acadêmicos, ainda mais não sendo norte-americano, onde tradicionalmente
encontram-se arqueólogos “mais competentes”.
Em 1825, chegou ao Rio de Janeiro, Peter Lund, o pai da arqueologia
brasileira. Após ir e voltar da Europa, Lund chega à Minas Gerais, em 1834,
junto ao botânico Ludwig Riedel, onde começam escavações. Durante a viagem, Lund
foi informado das cavernas existentes em Lagoa Santa, ao sul de Curvelo, onde
encontrava-se. Foi lá que Lund passou a encontrar vários fósseis de espécies já
extintas. Notou que nas cavernas existia um padrão geral de sedimentação. No
piso existia uma argila fina, abaixo uma capa estalagmítica não muito espessa,
após uma argila vermelha que podia atingir alguns metros de profundidade que
apresentava muitas ossadas fósseis. Em 1843 ocorreu um esvaziamento da Lagoa do
Sumidouro e Lund pode revelar um verdadeiro baú de ossos encontrado numa gruta
que ficava embaixo da água localizada no sopé de um maciço calcário que margeia
parcialmente a lagoa. Então, após analisar os crânios e ossos ali encontrados,
lançou a hipótese de que o homem teria surgido primeiro na América e depois
migrado para a Ásia, onde teria dado origem às populações mongólica, procedendo
do imperfeito para o mais perfeito. Após 10 anos de escavações e vários achados,
Lund interrompeu suas escavações alegando através de uma carta para sua família
que não tinha mais saúde nem condições financeiras para prosseguir.
Cem anos após a chegada de Lund, começam novas escavações na região por
Harold Walter entre outros membros da então formada Academia de Ciências de MG.
Foram encontrados restos de animais pré-históricos junto ao esqueleto do então
chamado “Homem de Confins”.
Entre 1973 e 1976, a arqueóloga francesa Annette Laming-Emperaire
concentrou escavações no abrigo de Lapa vermelha, conhecido como Lapa Vermelha
IV. Após onze metros de escavação estava achado: O esqueleto de uma jovem do
sexo feminino posteriormente denominado Luzia, por Walter Neves, e datado com
idade aproximada de 11,5 mil anos. O que mais espanta em Luzia é sua aparência
fenotípica com os Aborígenes Australianos, a grande questão é como ela teria
chegado à América? Deste ponto em diante abre-se a discussão mundial da chegada
destes povos aqui, visto que há 12 mil anos atrás não existia nenhum tipo de
embarcação ou se existia, não seria capaz de atravessar o oceano e chegar até
aqui. A derrocada do modelo norte-americano “Clovis-first” por Tom Dillehay após
achados pré-Clóvis no Chile, fizeram com que Luzia ficasse famosa no mundo.
Então Walter Neves fez um modelo cronológico de todos os achados de Lund em
Lagoa Santa provando que Luzia não estava sozinha, destruindo assim os
apedeutistas norte-americanos que tentavam derrubar Luzia.
Chegando ao Capítulo 5, começa então uma análise geográfico-física do
Carste de Lagoa Santa onde os autores explicam a formação da região, das
cavernas ao longo de milhares de anos e como foram chegados e espalhados os
fósseis entre suas estruturas explicando as prováveis atividades e costumes dos
grupos forregeadores lá além de explicar também a probabilidade dos costumes e
atividades da megafáuna (mastodontes, tigres dente-de-sabre, gliptodontes,
toxodontes, preguiças e cavalos pré-históricos) encontrada nessa região.
Dando continuidade à obra, os autores explicam todos os possíveis
costumes do Povo de Luzia, baseando-se em outras populações pré-históricas e que
existem até hoje, incluindo as atividades de outros primatas, sua alimentação,
sua organização social, política e comportamental, seus cultos aos mortos entre
outros aspectos. O projeto Origens vem possibilitando novas descobertas na
região e prosseguindo a obra os autores explicam seus ideais pro futuro em Lagoa
Santa. Por último eles mostram o que ainda encontra-se pendente sobre o povo de
Luzia como suas origens continentais entre outros costumes do seu estilo de
vida.
A principal idéia de escrever a obra, segundo os próprios autores, é
divulgar o que está acontecendo no campo da arqueologia no Brasil, apresentar os
principais sítios e o que vem sendo encontrado na nossa terra. Apetecer Jovens
estudantes a juntar-se a eles nas pesquisas, não só em Lagoa Santa, mas em
outros territórios do país para que possamos descobrir e saber cada vez mais
sobre a origem da vida no planeta e a origem do homem. Com o povo de Luzia foram
e são capazes de atingir esse principal objetivo, pois o livro deixa o leitor
com as mesmas “pulgas atrás da orelha” que os autores levantam ao longo da obra
e permite que até possam formular algumas novas teorias que possam de repente
ser válidas algum dia. Luzia agora luta para fazer parte da ciência mundial, a
missão do livro que era apresentá-la aos seus conterrâneos (nós, brasileiros)
está se cumprindo, a janela está aberta, agora basta entrarmos no assunto e
explorá-lo cada vez mais até que todas as dúvidas possíveis sejam esclarecidas!
Bibliografia:
NEVES, Walter A. & PILÓ, Luís B. O Povo de Luzia. São Paulo - SP: Editora Globo.
2008.
[1]
Aluno do curso de Bacharelado em História da Universidade Federal de
Pelotas, UFPel.