ISSN 1807-1783                atualizado em 04 de novembro de 2009   


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Escravidão e etnias africanas nas Américas: restaurando ligações

por Rogéria Alves e André Mascarenhas Pereira

RESENHA: “Slavery and African Ethnicities in the Americas: Restoring the links”; HALL, Gwendolyn Midlo. The University of North Carolina Press, 2005.

Sobre a autora *

Sobre o autor **

A conquista e colonização da América, pelos europeus, implicaram na demanda pela força de trabalho africana, envolvendo um sistema de tráfico e escravidão que perdurou por mais de 400 anos. Publicado em 2005, “Slavery and African Ethnicities in Americas: Restorig the links”, trata especialmente da história do tráfico atlântico e da escravidão. Inserido numa perspectiva inovadora, o livro entende o tráfico Atlântico como uma via de mão dupla: o tráfico de mão-de-obra africana visto a partir da África e dos africanos e não só através da visão dos europeus e americanos brancos, envolvidos neste intercurso cultural.

De autoria de Gwendolyn Midlo Hall, professora emérita da Universidade de Rutgers, que possui vários trabalhos na área de estudos coloniais - especialmente sobre as relações estabelecidas entre a América escravista e a África - a obra pode ser considerada uma referência no campo da história da escravidão e do tráfico atlântico. Apesar de sua relevância, o trabalho desenvolvido pela pesquisadora Hall ainda é pouco conhecido no Brasil, ou pelo menos, pouco divulgado. Tivemos acesso a um único artigo de sua autoria publicado e traduzido, numa revista de circulação no meio acadêmico brasileiro, a Topoi[1], revista publicada pelo programa de pós-graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Detendo-se em aspectos culturais, Gwendolyn Hall preocupa-se, especialmente em analisar as questões em torno das etnias e da identificação étnico-cultural utilizada pelos africanos, seus descendentes e pelos europeus. Segundo Hall, a questão da auto- identificação dos cativos pelas suas origens é um trabalho complexo, pois envolve quatro séculos de tráfico atlântico, em que participaram empreendedores vindos de vários países europeus e que traficaram africanos de diversas partes da África – um continente de diversidades culturais. Assim, o estudo de questões delicadas como esta exige um nível de especialização e aprofundamento grande. Como alternativa a esta dificuldade de se analisar mais consistentemente o passado afro-americano, Hall nos apresenta seu grandioso trabalho de pesquisa, o “Lousiana Slave Database - 1719-1820”.

O “Lousiana Slave Database” é um banco de dados, fruto de quinze anos de pesquisa, que reúne informações sobre o tráfico de escravos e sobre os africanos que desembarcaram na América. Montado a partir de documentos cartoriais, fontes ricas para o estudo da escravidão – já que os escravos eram juridicamente considerados propriedades e tinham suas características registradas. Publicado pela Universidade do Estado da Lousiana em 2000, o Lousiana Slave Database, encontra-se disponível para download gratuitamente[2].

A perspectiva de olhar lançada por Hall leva-nos a compreender o passado afro-americano numa dimensão maior, segundo Hall, seu estudo objetiva tornar visível os africanos que estavam invisíveis numa leitura homogênea do tráfico e da formação cultural afro-americana. Assim, o livro encontra-se dividido em sete capítulos que tratam da questão cultural - advinda do tráfico atlântico - estabelecido entre as “Américas” e a África.

O primeiro capítulo “Gold, God, Race and Slaves” trata das correntes de pensamento e ideologias que foram construídas acerca da escravidão e do racismo nas Américas. Para Hall, a escravidão é uma categoria histórica de estudo e não sociológica. Ou seja, leva-se em conta todo o dinamismo desta complexa relação, que muitas vezes apresenta alterações, nem sempre previsíveis, ao longo do tempo. Neste primeiro capítulo também é proposta uma revisão bibliográfica em termos de escravidão atlântica. São citados nomes como John Thornton, Alberto Costa e Silva, Mariza Soares e Eric Willians. Fica claro o conhecimento que a autora possui das obras – acerca da mesma temática – que foram produzidas em outras partes da América, que não seja a América do Norte.

O segundo capítulo, “Making Invisible Africans Visible: Coast, Ports, Regions, and Ethinicities”, ressalta a necessidade de serem produzidos estudos – concretos e contextualizados - que privilegiem a situação da África na diáspora. Hall alerta-nos para a necessidade de se expor nos estudos sobre as identidades e etnias africanas na diáspora, a metodologia que está sendo adotada. Ou seja: é necessário discernir o embaraço feito entre os nomes dos portos de embarque dos africanos e das etnias africanas – principal fator de confusão na documentação e estudos produzidos neste sentido. Grosso modo, o que ocorre em estudos com este propósito é uma ausência de especificação do contexto de produção da fonte histórica que classifica e nomeia os africanos a partir de suas origens étnicas. Assim, os estudos que envolvem as questões de identificação étnica devem se ater ao tempo e espaço estudados.

Diante da variedade de situações, entre linguagens e culturas envolvidas no comércio de escravos e na escravidão, faz-se necessário um maior cuidado na elaboração de teorias que defendam ou que delimitem a existência de identidades étnicas formada pelos africanos na diáspora. Segundo Hall a necessidade de transcender a visão construída por estes estudos, dentro desta proposta, faz-se urgente, já que durante um bom tempo a historiografia esteve voltada para uma visão europeizada do comércio de escravos e da escravidão africanos. Para a autora é necessário restaurar as ligações dos africanos na África e de seus descendentes nas Américas.

Ressaltado também por Hall neste capítulo, é o processo de auto-identificação que os escravos africanos relatam em alguns documentos, quando questionados acerca de suas origens. Na análise deste processo devem ser considerados fatores peculiares, sabendo-se que padrões de auto-identificação entre os africanos diferem-se de região para região na África e nas Américas. Estudos recentes sobre etnias e identificação étnica entre africanos, na América portuguesa, em especial para o sudeste escravista, têm demonstrado a existência de padrões de identidade, perpetuados entre africanos vindos de uma mesma região. Contudo, ressalvas já vêm sendo colocadas a estes supostos padrões de identidade, a partir da utilização diversificada de fontes históricas para confrontar tais modelos. O fenômeno de diversificação e mistura destas etnias e referências de identidades é outro ponto colocado pela autora. Segundo Hall, o processo de “crioulização”, nas várias regiões da América, deve ser considerado e analisado contextualizadamente.

O capítulo terceiro, “The Clustering of African Ethnicities in the Américas”, ressalta a variabilidade de africanos e etnias participantes do comércio e da escravidão atlântica. O que sobressai nesta análise é uma constatação onipresente em cada parte do referido livro: a existência de ligações contínuas entre as regiões e etnias africanas com as regiões participantes do comércio atlântico e da escravidão, nas Américas. Neste sentido, a principal crítica construída pela autora, é de que existe uma corrente de pensamento no senso comum e também entre os acadêmicos, que defendem a existência de uma “fragmentação” dos africanos ao chegarem ao Hemisfério Ocidental. Outra crítica, é que as influências culturais destes africanos sobre a América foram pequenas. Hall defende que as contribuições dos africanos na formação da sociedade e da cultura americanas foram, na verdade, pouco reconhecidas, mas não inexistentes.

Hall se foca no quarto capítulo, denominado de “Greater Senegambia / Upper Guinea” nos grupos étnicos que povoam a região da Grande Senegambia e Alta Guiné. Ela ressalta sobre a dificuldade de especificar as etnias e nações devido às generalizações estabelecidas pelos traficantes europeus nessas regiões. Por outro lado, a autora traça uma investigação que confirma sua teoria sobre o agrupamento de africanos em seus destinos e o impacto cultural intenso destes nas Américas. Destaca-se que uma das contribuições dessas etnias foram suas participações junto aos nativos americanos no processo de resistência colonial.

Os grupos lingüísticos são os mecanismos mais eficientes para Hall conseguir identificar as etnias e nações na Costa da África Ocidental. Portanto, no quinto capítulo “Lower Guinea, Ivory Coast, Gold Coast, Benim” a autora procura identificar as ramificações que possuem uma língua nuclear em comum: o “mande” falado na Costa Ocidental da África geralmente, deriva-se de culturas da Grande Senegambia; e o “Kwa” que são as línguas e dialetos derivados das nações da região da Baixa Guiné. Porém alguns termos genéricos usados pelos europeus, referentes às especializações e até mesmo regiões das quais os escravos eram comprados, cristalizaram-se criando novas designações culturais aos africanos, como no caso da região da Costa do Ouro, das quais eram denominados como “mina”.

Vinculou-se o termo “mina” a escravos da região do Cabo de Biafra ou Costa do Ouro que trabalhavam em atividades mineradoras. Outro ponto abordado por Gwendolyn Hall, no que tange ao uso da designação étnica-cultural “mina”, diz respeito à suposta ligação que esta etnia teria com rebeldia e fugas escravas. A autora esclarece que encontrou documentos referentes aos escravos da América do Sul que - devido à geografia típica das regiões montanhosas e de exploração aurífera - trabalhavam em um terreno densamente florestado e montanhoso, fator que propiciava condições de fuga a estes escravos. Assim, tornou-se comum, em tais regiões, a associação de que todo escravo considerado fugitivo fosse necessariamente um africano “mina”. Sabe-se que estes escravos considerados “mina” impuseram uma grande influência cultural, criando irmandades, quilombos, cabildos de nações e comunidades sociais semelhantes no Brasil e Cuba. Porém, a designação étnica “mina” é ambígua nas Américas, devido à imprecisão da região em que estes eram capturados.

O destaque dado pela pesquisadora no sexto capítulo, “Lower Guinea: The bight of Biafra” diz respeito à parte da Guiné chamada de “Baixa Guiné”. A razão de se analisar esta parte da Guiné, separadamente, justifica-se pela pelas diferentes características geográficas, econômicas e políticas e por um padrão diferente também no que diz respeito ao comércio transatlântico de escravos efetuado nesta região.

A preocupação de Hall em seu último capítulo “Bantulands: West Central África and Mozambique” é entender as influências e impactos dos escravos vindos desta região nas diferentes partes da América, para onde foram exportados. E também, entender as particularidades e características do comércio de escravos nesta região. Devido ao contato entre a cultura européia e a africana, ocorreram hibridações lingüísticas nas quais os dialetos Bantu, ao sofrerem influências constantes entre portugueses, espanhóis e africanos, transformaram-se em dialetos semelhante às línguas latino-ibéricas, como o português e o espanhol. As influências dos grupos Bantu, sobretudo na América Portuguesa incrementaram - a partir do final século XVIII e decorrer do XIX - devido à presença do tráfico lusitano em Moçambique e Angola.

O significado das etnias africanas na América, para Hall, deve ser analisado, levando-se em consideração, sempre, o contexto histórico analisado e a noção de etnia ao longo do tempo e do espaço, na perspectiva do tráfico atlântico. A diversidade de nomenclatura dada a determinadas regiões e atribuídas a grupos de africanos também são pontos destacados pela autora, uma vez que a partir da percepção destas diferenças, torna-se mais claro a maneira que se deu a construção de identidade pelos negros africanos e também pelos próprios brancos.

Hall confronta as análises que agrupam africanos e europeus no mesmo grau de responsabilidade sobre o tráfico transatlântico. Para ela, os africanos foram muito mais lesados, e os europeus tiraram proveito da rede escravista já existente no continente. Como, por exemplo, quando os europeus acirravam os conflitos entre nações inimigas, a fim de desestabilizarem as sociedades africanas. Assim, é sabido que a existência de etnias africanas remonta, inclusive, antes do período de tráfico e colonização na África. A negação da história africana reforça a tendência de generalizar e desumanizar os africanos.

A obra de Gwendolyn Hall chama-nos a atenção para o estudo do tráfico atlântico, especialmente para as relações entre África e América. Ampliar a visão que se possui acerca do tráfico atlântico, analisando-se as duas “margens” envolvidas neste intercurso de mão-de-obra, cultura, benefícios e malefícios, é o principal alerta que Hall nos deixa.


* Licenciada em História pela Universidade Federal de Ouro Preto. Mestranda em História Social da Cultura pela Universidade Federal de Minas Gerais. Bolsista do CNPq – Conselho Nacional de Pesquisa.

** Licenciado e Bacharelado em História pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Mestrando em História Social da Cultura pela Universidade Federal de Minas Gerais. Bolsista da FAPEMIG - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais

[1] O artigo “Cruzando o Atlântico: etnias africanas nas Américas” foi publicado em: TOPOI, v. 6, n. 10, jan.-jun. 2005, pp. 29-70 e se encontra disponível em: www.ppghis.ifcs.ufrj.br/media/topoi10a2.PDF.Site consultado em 17/04/2009, às 23h46min.

[2] Para consultar o histórico da produção deste banco de dados e consultar seus registros para pesquisas, basta acessar http://www.ibiblio.org/laslave/introduction.php. Site consultado em: 05/04/2009, às 00h19min.