Sobre a autora[i]
Luis Felipe Freire Dantas Santos[ii]
O PATRIMÔNIO CULTURAL NO BRASIL E OS SEUS PARADOXOS
O presente artigo apresenta reflexões realizadas em 2009, objetivando levantar
argumentações que atentem para o atual abandono do Patrimônio Ferroviário
Laranjeirense, através da análise de documentos, publicações científicas, dos
resultados obtidos por meio de entrevistas com a população laranjeirense e das
recentes discussões propiciadas pelos movimentos de proteção ao patrimônio
ferroviário, expõe-se, desta maneira, a situação de precariedade que se encontra
o patrimônio ferroviário. Para assim, abrirmos uma lacuna de discussão no cerne
acadêmico do Estado de Sergipe, que ainda carece atribuir uma maior atenção a
esse patrimônio.
Para entender a formação da identidade patrimonial no Brasil é necessário
entender uma série de marcos, desde a expansão do capitalismo mercantilista
pelas Américas até a criação do Programa Monumenta. Entretanto, se abrangermos
esse grau analítico acabaríamos construindo uma tese no lugar de um artigo.
Portanto, para se entender o descaso para com a Estação Ferroviária de
Laranjeiras apresentaremos uma síntese que possibilite iniciarmos uma discussão
sobre a referida temática.
A noção de patrimônio atual sofreu modificações ao logo dos séculos, recebendo
novas conotações e abandonando antigos referenciais. (COSTA, 2004) O patrimônio
como bem público surgiu no renascimento (juntamente com o conceito atual de
arte) e na segunda metade do séc. XIX firma-se como justificativa ideológica
para a construção de uma identidade nacional.
Reflexo das unificações do XIX na Europa, a formação da identidade nacional é
baseada em três elementos: território, língua e uma origem comum. Como todos
esses fatores são passíveis de modificações, com a origem não seria diferente.
No séc. XIX a arqueologia surge como uma ferramenta estatal para localizar a
origem dos antigos povos que ocuparam o território europeu, ou seja, buscar não
uma origem comum e sim buscar um passado grandioso que garantisse a soberania do
Estado (COSTA, 2004).
Dessa mesma forma, crescem as mitologias a cerca do Stonehenge e a suposição de
que os mounds norte-americanos fossem feitos por algum povo "superior" no
lugar dos índios pré-históricos.
O início do séc. XX no Brasil, essa justificativa ideológica promovida pelo
patrimônio tende a uma ascensão, mas caminha junto ao desejo da população de
desenvolvimento. Para Funari (2001), essa necessidade da população não surge por
acaso, pois a bandeira do Brasil na Proclamação da República já trazia os
dizeres Ordem e Progresso, inspirado no positivismo de Auguste Comte.
Por exemplo, em 2009 foram realizados questionários sobre a legislação
patrimonial na cidade de Laranjeiras (SE), pelos cursos de graduação em
Arqueologia e Museologia na disciplina Gestão do Patrimônio Cultural da
Universidade Federal de Sergipe em parceria com o IPHAN e os resultados foram
esclarecedores. A população laranjeirense sente orgulho de morar em uma cidade
histórica, apesar de não se identificar com as construções da elite do séc. XIX,
recentemente restauradas pelo Programa Monumenta. O Iphan tombou todo o centro
histórico de Laranjeiras, entretanto algumas residências não possuem a
relevância histórica que justifique o tombamento. Em meio a essa situação de
"preservação patrimonial" são encontradas pessoas insatisfeitas em não poder
construir uma garagem, um segundo andar ou mudar a pintura da casa, pois
desconhecem a importância dessa preservação e são abandonadas, muitas vezes,
pela administração local em questões como orientação e incentivos.
Dentre as ascendentes políticas de restauração de edifícios históricos, é
somente após 1970 (COSTA, 2004), que surge um novo questionamento sobre a
relevância dos excluídos da história. Esses questionamentos abrangiam,
entre outros, o porquê de preservar a casa grande e ignorar a senzala. São
incorporados diferentes grupos da sociedade representados através de etnias,
gêneros, crenças, etc. A exemplo disso temos as pesquisas arqueológicas de
Canudos e da República de Palmares.
Entretanto, mesmo incluindo novos grupos, outros ainda são excluídos por não
serem portadores de um passado de "grandes feitos" tendo suas construções
igualmente excluídas. Nesse momento encontramos a Estação Ferroviária de
Laranjeiras, um prédio em ruínas que representou para a população de Laranjeiras
um local de intensa dispersão para outras cidades do estado, entre 1914 e meados
na década de 1970.
Na pesquisa realizada referente à Estação Ferroviária e o centro histórico de
Laranjeiras, os resultados demonstraram o quanto à população se identificava
mais com temas relacionados à Estação do que com o Quarteirão dos Trapiches,
local de funcionamento da Universidade Federal de Sergipe restaurado pelo
programa Monumenta. Então, porque não há o interesse de preservar o edifício da
Estação Ferroviária?
METODOLOGIA
Gabinete
Tratando-se de um trabalho de gestão patrimonial e de Arqueologia histórica, o
levantamento documental é de fundamental relevância para identificação de
lacunas como o estabelecimento dados comparativos.
Foram realizados levantamentos bibliográficos na Biblioteca de Laranjeiras e São
Cristóvão, sem muitos resultados reforçando mais uma vez a nebulosidade que
ronda a história da Estação. A realização de entrevistas a partir de
questionários previamente elaborados, com pessoas contemporâneas ao
funcionamento da estação ou que detenham informações sobre o entorno do prédio,
trouxe resultados importantes para a presente pesquisa.
Na entrevista, foram abordados transeuntes no centro comercial de Laranjeiras,
com renda mensal inferior a mil reais e foram questionados sobre informações da
Estação; se conheciam a existência, se conheciam a localização, se utilizaram o
trem, se sabiam a razão do término do transporte de passageiros e, por fim, se
viam benefícios em um estudo e/ou revitalização da Estação.
Em mídias e redes sociais foram estabelecidos contatos com ex-funcionários da
Rede Ferroviária Federal S.A., que permaneceram anônimos. Em diálogos
estabelecidos, foi demonstrado que ocorreu um processo de sucateamento da
estatal e a insatisfação quanto ao seu abandono.
Campo
Na visita de prospecção, foram realizados caminhamentos sistemáticos (na
localidade do prédio e em regiões do entorno na linha férrea) e assistemáticos
(seguindo a linha férrea). Em um estudo posterior deverá ser realizada a
topografia da região principal, croqui do edifício da estação, croqui de
estruturas do entorno próximo, fotografias de todas as estruturas (entorno
próximo e distante), delimitação da área por GPS.
Para a construção de qualquer linha férrea existem intervenções obrigatórias na
região que ela irá percorrer, dentre elas existe a escavação e realização de
aterros com cerca de um metro de profundidade e altura, portanto nenhuma
interferência sub-superfície, em um possível trabalho de escavação, poderá ser
realizada na linha férrea nessa área de aterro respeitando a distância de 2
metros a partir dos trilhos, pois a malha ferroviária sergipana é construída em
bitola métrica.
PRIMEIROS RESULTADOS: CONTEXTO NACIONAL E MUNDIAL DO TRANSPORTE FERROVIÁRIO
"No
man is an island."
Teilhard de Chardin
Laranjeiras é um município do estado de Sergipe, localizado a 22 quilômetros de
Aracaju, pela BR101 e menos de 18 quilômetros pela estrada de ferro. Trata-se de
uma cidade que possuiu importância no passado, foi o berço de diversos
intelectuais sergipanos sendo considerada como a Atenas Sergipana. A importância
da cidade é refletida nas suas ruas, casarios e igrejas que transpiram o século
XIX, a áurea economia se refletiu na existência de um porto fluvial que servia
para o escoamento da cana-de-açúcar produzida na região e para a chegada de
mercadorias. Com o declínio da economia portuária no inicio do século XX
acontece construção da malha ferroviária sergipana, passando por Laranjeiras,
servindo como uma forma de elevação de seu status.
A estação de Laranjeiras foi inaugurada em 1914, no
trecho aberto entre Aracaju e Rosário do Catete. É a penúltima estação da linha
por onde passa o trem cargueiro da Ferrovia Centro-Atlântica vindo do sul, que
estaria seguindo até a estação de Riachuelo. Inicialmente chamado de ramal de
Timbó, a linha que ligaria a estação de São Francisco, em Alagoinhas, a Sergipe
foi aberta em 1887 até a localidade de Timbó, atual Esplanada. A partir desse
ponto, foi sendo prolongada aos poucos a partir de 1908, atingindo Aracaju em
1913, Cedron em 1915 e Propriá somente em 1956, às margens do rio São Francisco.
Para se ligar com a linha vinda do Recife naquele ponto, então, somente nos anos
1970, quando a ponte sobre o rio foi construída permitindo a interligação
ferroviária direta com o Nordeste. (Giesbrecht,
2009)
Pertenceu de início à
Cia. Chemins de Fer Federaux du L'Est Brésilien (1914-1935), depois à
Viação Férrea Federal do Leste Brasileiro (1935-1975), à Rede Ferroviária
Federal S.A. (1975-1996) e por fim à Ferrovia Centro Atlântica (1996 - atual).
Localizada na Rodovia Engenheiro Clovis Scripilliti,
próximo ao hospital São João de Deus.
Linha Norte - km 447.
Para situar linha férrea sergipana no contexto nacional e internacional
é necessário entendermos que qualquer debate que possua como tema o transporte
ferroviário remete a função recentemente atribuída a esse conjunto: a de
Patrimônio Cultural. Por todo o Brasil, e pelo Mundo, o transporte ferroviário
teve um papel preponderante quando se trata de desenvolvimento e inclusão. O
trem está na memória de todas as pessoas, até das que nunca realizaram uma
viagem. Fundaram cidades, centralizaram a vida das povoações, serviram como
agências de correios, trouxeram o progresso e foram em geral construídas com
arquiteturas diferentes, desde as mais suntuosas até as mais simples
(GIESBRECHT, 2009).
Em 09/10/2009, o Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural (IPHAN)
reuniu-se com representantes do movimento ferroviário, de secretárias estaduais
e municipais de turismo de todo o país no I Encontro das Cidades Históricas e
Turísticas. O foco desse Encontro foi à utilização do patrimônio material e
imaterial da Rede Ferroviária Federal S.A., uma estatal surgida em 1957 e
unificou 42 ferrovias. Em 1996, seu sucateamento era evidente e ela foi dividida
e privatizada em várias empresas, entre elas a Ferrovia Centro-Atlântico,
atualmente pertencente à empresa Vale. Essas ações de sucateamento são
provenientes, não da diminuição do uso do transporte e sim da falta de envio de
recursos por parte do Governo Brasileiro. O início exato desse boicote às
ferrovias teve início na década de 60, durante a febre do concreto e continuou
em 1972 na construção da malha rodoviária por todo o Brasil e altos
investimentos no transporte rodoviário (SANTOS et all, 2009).
"Esse foi o grande problema que envolveu o Brasil,
iniciado em 1956, com posse de Juscelino Kubitschek. As grandes empresas
internacionais obtiveram grandes lucros com esse surto de desenvolvimento. A
classe média, consumidora de bens duráveis, principalmente de automóveis,
símbolos de status se beneficiou muito com a fabricação nacional e a abertura de
mais estradas de rodagem. Entretanto, a maioria da população, que não tinha
acesso ao automóvel, não viu melhorias no transporte coletivo, pois não se
priorizou o transporte coletivo, o trem." (PEDRO E LIMA, 2004, p.311)
Todo esse posicionamento contrário ao transporte ferroviário ocorreu
principalmente devido à grande influência estadunidense no Brasil, afinal os
grandes produtores de carros na época eram os EUA. Analisando essa influência é
possível ver que a "paixão" do brasileiro por carros não passa de apelos
comercias exercidos por multinacionais. Entretanto, os EUA são grandes
utilizadores do transporte ferroviário e entendem a importância dele. Segundo
Farias (2009), além de
pequena em relação ao tamanho do país, temos ainda o subuso da potencialidade
ferroviária que já existe. Nós estamos na era da roda quadrada. Seguimos na
contramão da história. ao contrário do que ocorre em países continentais como a
Rússia, China e Estados Unidos, que transportam grande parte da sua produção
agrícola e mineral por redes ferroviárias, o Brasil está na lanterna da
densidade ferroviária. A cada mil quilômetros quadrados, o país utiliza apenas
3,4 contra 29,8 dos EUA.
O governo FHC é duramente criticado por ex-funcionários da Rede Ferroviária
Federal S.A. como responsável pelo seu sucateamento e privatização. O governo
Lula estava mais consciente sobre a importância da ferroviária, no dia 5 de
setembro de 2003,
o representante do Ministério dos Transportes, Edson Gonçalves disse que o
Governo Lula tinha o maior interesse em revitalizar as ferrovias brasileiras,
tanto que lançou o "Plano Nacional de Revitalização das Ferrovias".
Segundo este Plano, os patrimônios considerados históricos poderão ser
repassados, preferencialmente para as Prefeituras, para serem utilizados pela
população. Entretanto, em 2005, o CREA-BA publicou a décima edição da revista
CREA-BA e afirmou que de acordo
com dados do Ministério dos Transportes, o Plano Nacional de Revitalização das
Ferrovias não recebeu um centavo dos R$ 4,2 bilhões previstos. A verba foi
liberada
para recuperação da malha rodoviária, que responde por mais da metade do sistema
de transportes brasileiro.
Em paralelo a esse contexto, em 2006, ocorreu na Unicamp o
Seminário Latino-Americano Museologia e Ferrovia, o
objetivo do seminário é justamente discutir o uso museológico e cultural das
estações ferroviárias com o objetivo de revitalizá-las e inseri-las no contexto
das comunidades locais, pois em geral elas ocupam regiões antigas e deterioradas
das cidades.
Em 18 de dezembro de 2007, o Ministério dos Transportes retomou o Plano Nacional
de Revitalização das Ferrovias através de um projeto relacionado a trens de
passageiros como Programa de Resgate do Transporte Ferroviário de Passageiros
que cria as condições para o retorno o retorno do transporte de passageiros às
ferrovias, promovendo o atendimento regional, social e turístico, onde viável, e
a geração de emprego e renda. Entre os objetivos dos trens de turismos estão
inclusos a geração de emprego e renda, desenvolvimento do turismo nas cidades
servidas, preservação do patrimônio histórico ferroviário.
Dentre as ações básicas previstas houve uma seleção dos trechos viáveis para
serem inseridos nesse plano e o trecho São Cristóvão - Laranjeiras foi um dos
aprovados no projeto apresentado.
Essa dinâmica em prol do Patrimônio Ferroviário Brasileiro tem passado de
setores para setores do governo, pois já foi anunciado que as antigas estações
iriam para o administração das prefeituras, depois foi anunciado que são de
responsabilidade do ministério dos transportes, depois foram transferidas para
um edital do ministério do turismo que prometia revitalizá-las e retornam para o
abandono.
A falta de uma unidade política para satisfazer as necessidades de uma população
é sentida em quase todos os serviços governamentais, e o patrimônio Ferroviário
não seria exceção.
Acompanhando toda essa movimentação em âmbito nacional e internacional,
Laranjeiras não poderia ficar isolada dessa dinâmica e o encerramento das
atividades da Estação Ferroviária de Laranjeiras coincidiu com a construção da
Rodovia Translitorânea, na década de 1970.
Apesar da existência da discussão sobre a preservação da materialidade do
prédio, a imaterialidade que lhe atribui valor está desaparecendo à medida que a
população contemporânea ao seu funcionamento envelhece e as novas gerações
desconhecem esse valor.
O POTENCIAL ARQUEOLÓGICO LATENTE DA ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE LARANJEIRAS
A Estação Ferroviária de Laranjeiras é um patrimônio edificado que está
desaparecendo, pois as gerações que são posteriores ao seu tempo de
funcionamento ignoram a sua importância e até mesmo a sua localização.
Em entrevistas com a população do centro tombado de Laranjeiras, realizadas
pelos alunos da disciplina Gestão do Patrimônio Cultural, foi constatado que a
existência da estação naquela área promovia certa dinâmica sócio-econômica, pois
foram relatas a existência de uma casa de farinha e um local chamado Caixa
D'água, onde a população de Laranjeiras retirava a água da sua subsistência, nas
proximidades da estação. Cabe às pesquisas arqueológicas constatarem a
veracidade ou não desse fato e até acrescentar informações sobre o passado
laranjeirense. Atualmente, no entorno da estação estão localizadas algumas casas
particulares, terrenos vazios e um córrego limpo.
O prédio encontrasse em ruínas, apesar de a linha férrea estar em ótimas
condições e com alguns dormentes recentemente trocados e pintados, o patrimônio
ferroviário do povo de Laranjeiras está ao relento e é eminente a sua
aniquilação.
A cidade de Laranjeiras é claramente negligenciada em relação ao seu potencial
de estudos arqueológicos. Pesquisas realizadas pelo IPHAN em parceria com os
cursos de Arqueologia e Museologia demonstraram (não pelos dados estatísticos e
sim pela conversa pós-entrevista) como a população do centro de Laranjeiras
detém pouco conhecimento sobre as leis de proteção ao patrimônio edificado, não
entendiam o porquê de preservá-lo e acima de tudo ficou clara a distância da
população com a Universidade e com o IPHAN.
O potencial arqueológico da Estação é latente e está em avançado estágio de
degradação, como exemplos do maquinário utilizado e estilo de vida dos que
cotidianamente relacionavam-se com a Estação.
No contexto mundial as estações ferroviárias significam o progresso daquela
região, existem inúmeras pesquisas que desenvolvem justificativas para o
desenvolvimento de sua cidade a partir da implantação do trem. Laranjeiras,
entretanto, não correspondem a essa expectativa. Então surge o questionamento
sobre o que teria significado a Estação Ferroviária para a dinâmica
socioeconômica da cidade.
No sudeste brasileiro, as estações ferroviárias são alvo de intenso trabalho
patrimonial e não é novidade para os órgãos que cuidam do patrimônio cultural a
necessidade de preservar as estações, um exemplo é a restauração realizada pelo
programa Monumenta em Congonhas-MG:
O valor total do investimento foi de R$ 428.288,36.
A área do entorno recebeu tratamento paisagístico
propiciando espaço de lazer para comunidade e visitantes. Está previsto também
no projeto a transferência de um exemplar de vagão que será assentado na área
externa e pode ser adequado como mini-biblioteca pública.
A estação ferroviária da antiga Estrada de Ferro
Central do Brasil é um exemplar representativo da arquitetura eclética do início
do Século 20, inaugurada em 14 de novembro de 1914. A chegada da ferrovia
estabelece uma área de comércio em torno da estação após longa estagnação
sócio-econômica. Na década de 40, conforme registros fotográficos, a linha
ferroviária adquire prestígio como transporte de massas. Com o advento do
transporte automobilístico, na década de 60, gradativamente o transporte
ferroviário de passageiros foi sendo desativado
(Assessoria de Comunicação do Monumenta).
A edificação da Estação de Laranjeiras possui arquitetura eclética, foi
inaugurada em 1914, possuiu prestígio no transporte de massas e com o
crescimento da malha rodoviária e do incentivo automobilístico ela foi
gradativamente desativada. O contexto da Estação de Congonhas do Campo é o mesmo
da Estação de Laranjeiras, então qual seria a justificativa do Programa
Monumenta para restaurar um enquanto ignora o outro?
Além da visibilidade do patrimônio, a Estação de Laranjeiras possui potencial
para estudos arqueológicos através da Arqueologia da Paisagem, Arqueologia da
Arquitetura, Arqueologia Histórica e aplicação de métodos de datação relativa
para traçar estratégias no seu entendimento.
Na etapa de campo foram localizadas pichações por toda a edificação e em uma
ponte férrea próxima à estação existe uma mensagem que pode servir como método
de datação relativa Post Quem, pois existe a mensagem escrita no
concreto da ponte próxima à estação, uma provável referência à "outubro 1947" .
Os resultados da pesquisa com a comunidade revelaram uma disparidade no
conhecimento sobre a estação, pessoas acima de 40 anos detinham vasto
conhecimento sobre o seu funcionamento, inclusive sobre o nome dos carros da
locomotiva. Enquanto os mais jovens ignoravam completamente a função das ruínas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A Estação Ferroviária de Laranjeiras é considerada um sítio arqueológico,
inserido em diversos contextos, como por exemplo, o arquitetônico e o seu
caráter eclético (MORAIS, 2007), o histórico, social e econômico, devido à sua
dinâmica diária. Antes de qualquer trabalho de revitalização do prédio é
necessário uma pesquisa arqueológica da área, eminente na presença de estruturas
relacionadas à estação e fora do perímetro, artefatos espalhados na área, e
estruturas submersas debaixo da ponte próxima à estação.
Segundo o questionário aplicado, a população de Laranjeiras é conivente com a
revitalização do meio de transporte ferroviário e com a realização de estudos
sobre o prédio, na maioria das entrevistas prevaleceu à importância turística do
trem e do transporte para Laranjeiras. O turismo pode ser a saída para evolução
do setor ferroviário brasileiro. Além desse aspecto existe a parceria com grupos
ecológicos que defendem políticas de conscientização e sensibilização para a
importância da preservação do sistema ferroviário, por ser um meio de transporte
de pouca manutenção, baixo custo em longo prazo e menor agressão ao meio
ambiente.
O que esse artigo propõe é chamar atenção das autoridades da preservação
patrimonial que priorizam cuidados aos prédios pertencentes às realizações de
uma elite, enquanto o que realmente representa algo para a população de
Laranjeiras é negligenciado.
Durante discussões da disciplina Gestão do Patrimônio Cultura, eram buscadas
estratégias para a aproximação da população Laranjeirense com o patrimônio da
elite laranjeirense, como por exemplo, o Quarteirão dos Trapiches. Como atribuir
ideologia de identidade a um povo através de uma construção que nada lhes
representa? A Estação Ferroviária de Laranjeiras possui grande representação
para os habitantes de Laranjeiras, no entanto, está em ruínas. Quem determina o
que deve ser considerado patrimônio não são as massas e sim uma minoria tentando
se expressar para permanecer dominante.
Considerando o indeferimento da revitalização da ferroviária como meio de
transporte existem alternativas de uma revitalização do prédio para fins
culturais ou acadêmicos, sem abrir mão de estudos arqueológicos para
contextualização do patrimônio. Em meio às políticas de restauração de
edifícios, a arqueologia é claramente ignorada e acaba por desligar a construção
de qualquer valor imaterial, restando apenas o valor estético, vazio de razões
pedagógicas, históricas ou até mesmo práticas.
Como dito, existe um plano para a revitalização do trecho ferroviário
Laranjeiras - São Cristóvão numa tentativa de aquecer o turismo na região e
retornar ao transporte ferroviário de passageiros, isso demonstra que a ferrovia
é realmente a solução para o Brasil, enquanto país continental, e que essas
mobilizações são uma marcha contra o atraso gerado pela indústria de consumo dos
tempos de Juscelino Kubitschek.
A Arqueologia entra nessa nova vertente de revitalização como medida para
diminuir os danos da modernidade sobre o passado, gerando assim uma nova fonte
de informação nesse vácuo do registro histórico, social e econômico.
Talvez os conceitos de
estética de Immanuel Kant possam ser aceitos na filosofia do belo, mas na
conservação e restauração do patrimônio arquitetônico ele desvincula todo o
valor nele empregado, por consequência desaparece a razão para haver a
restauração.
BIBLIOGRAFIA
ANDRADE LIMA, Tânia. A proteção do patrimônio Arqueológico no Brasil: omissões,
conflitos e resistências. Revista de Arqueologia Americana, Instituto
Panamericano de Geografia e História. 2001.
ARAÚJO, Francisco Cesar. Estrada de Ferro Bragantina: uma trajetória nos trilhos
do tempo (1872-1967). Prefeitura Municipal de Bragança Paulista, Bragança
Paulista, 1998.
CORNEJO, Carlos; GERODETTI, João Emílio. As ferrovias do Brasil nos cartões
postais e álbuns de lembranças. Solaris Edições Culturais. São Paulo. 2005.
COSTA, D. M. Arqueologia Patrimonial: o pensar do construir. Revista Habitus,
Goiânia, v.2, p. 333-360, 2004
COSTA, D. M. Lavras do Abade: estratégias de gestão para o patrimônio
arqueológico histórico em Pirenópolis, Goiás. Dissertação de Mestrado, UCG,
Goiânia; 2003.
Enciclopédia dos Municípios Brasileiros.IBGE,
Rio de Janeiro.1958.
FUNARI, P.P.A. Arqueologia e Patrimônio Cultural. Erechim: Habilis, 2007.
FUNARI, P.P.A. A Arqueologia Pública no Brasil e suas novas fronteiras. In
Praxis Archaelogica 3, 2008. 131-138.
FUNARI, P.P.A. Os desafios da destruição e conservação do Patrimônio Cultural no
Brasil. Trabalhos de Antropologia e Etnologia, Porto, 41, ½, 2001, 23-32.
GIESBRECHT, Ralph Mennucci. Estações Ferroviárias do Brasil. São Paulo, 2008.
GIESBRECHT, Ralph Mennucci. Um dia o trem passou por aqui: História e estórias
dos trens de passageiros no Estado de São Paulo e as saudades que eles
deixaram. São Paulo, 2001.
GUTIÉRREZ, Ramón. História, memória e comunidade: o direito ao patrimônio
construído. Congresso Internacional "Patrimônio Histórico e Cidadania".
Secretaria Municipal de Cultura. São Paulo. DPH/SMC, 1991.
MORAIS, Daisy de. Arqueologia da Arquitetura: Estação Ferroviária de Piraju,
Ensaio de Arqueologia da Arquitetura de Ramos de Azevedo. Erechim, RS, 2007
ORSER Jr, C. E. Introdução à Arqueologia Histórica. Belo Horizonte: Oficina de
Livros, 1992. 143 p.
RAMBELLI, G. Arqueologia até debaixo d'água. São Paulo: Maranta, 2002.
SANTOS, Luis Felipe Freire Dantas; SIMOES, Fernanda Libório Ribeiro. A
Interdisciplinaridade entre a Arqueologia Histórica e a História: Um Diálogo
Necessário. História e-História, v. 2, p. 350, 2011.
SANTOS, Luis Felipe Freire Dantas ; SIMÕES, Fernanda Libório Ribeiro; SOUZA JR.,
Roberval Santana. A revitalização da Estação Ferroviária de Laranjeiras: Uma
proposta teórica. In: II Seminário de Integração da Disciplina Gestão e
Preservação do Patrimônio Cultural, 2009, Laranjeiras. Anais do II Seminário de
Integração da Disciplina Gestão e Preservação do Patrimônio Cultural, 2009.
TRIGGER, B.G. História do pensamento arqueológico. (trad. Ordep Trindade Serra).
São Paulo: Odysseus, 2004.
ZARANKIN, Andrés. Paredes que domesticam; Arqueologia da Arquitetura Escolar
Capitalista, O caso de Buenos Aires. 1. ed. Campinas: Centro da Arte e
Arqueologia -IFCH-UNICAMP, 2002. v. 1. 182 p
Sites Consultados
- Acessado em 28 de novembro de 2009.
- Acessado em 04 de janeiro 2010.
-
Acessado em 28 de novembro de 2009.
- Acessado em 24 de abril de 2010
[i]
Mestranda em Arqueologia pelo ProArq/UFS, Bacharela em Arqueologia pela
Universidade Federal de Sergipe. E-mail:
nanda.liborio@ig.com.br
[ii]
Mestrando em Arqueologia pelo ProArq/UFS, Pesquisador vinculado ao
Laboratório Arqueologia de Ambientes Aquáticos/NAR/UFS, Graduado em
História pela Universidade Tiradentes(2009). E-mail:
luisfelipe_freire@yahoo.com.br