Texto de capa
Esta
é a opinião do Arqueólogo canadense Robert Grenier a respeito da Lei
brasileira que trata do Patrimônio Cultural Subaquático. Ativo
no âmbito dos trabalhos da redação da “Convenção da UNESCO sobre a
Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático”,
Robert Grenier é um dos arqueólogos mais empenhados na luta por princípios
e normas de gestão deste patrimônio à escala mundial, e para o Brasil
aconselha: “se todo mundo se unir, mais cedo ou mais
tarde, o governo vai se mexer”.
Grenier
é o responsável pela importante equipe de Arqueologia Subaquática do Parcs
Canada, que dirigiu um dos mais famosos projetos de Arqueologia Subaquática
do mundo: a escavação, ao longo de uma década, do sítio dos destroços de um
galeão basco de meados do século XVI, naufragado em Red
Bay, no Labrador, Canadá. Tal trabalho foi tão importante que ele se
arrisca : “Foi como descobrir a arca de Noé!”.
Como
Presidente do Comitê Internacional sobre o Patrimônio Cultural Subaquático (ICUCH)
do ICOMOS e porta-voz deste órgão consultivo da UNESCO, Grenier sabe da importância
da divulgação científica: “Nem todos os arqueólogos sabem da importância
disso. É preciso saber popularizar a nossa atividade sem falar besteiras”.
E
depois de algum tempo de uma agradável conversa, fica claro que Robert Grenier
só é o respeitado arqueólogo, presidente do ICUCH e emprenhado na divulgação
da Convenção da UNESCO por que é um apaixonado:“Eu amo os naufrágios, acho
que isso transparece quando eu falo”.
H-H:
Como foi seu envolvimento com Arqueologia Subaquática?
Robert Grenier: Isso aconteceu mais ou menos por acidente. Na ocasião
de um trabalho de verão, como arqueólogo, num projeto de restauração com os Parcs
Canadá em Luisburgo, na Nova Escócia, em um porto muito importante. Eu me
interessei e intriguei-me pela história de um colega de lá que procurava um
barco, do ano de 1725, com objetos da “Nouvelle France”.
Eu comecei a mergulhar com esse colega. Alguns anos mais tarde, em 1966,
quando eu parei de trabalhar com ele, o Parcs
Canadá começou a realizar trabalhos oficiais debaixo d’água. Constatei
que eu era o único arqueólogo nesta época no Canadá que mergulhava. Então,
pediram-me para formar uma equipe.
H-H: Então seu interesse inicial...
Robert Grenier: Foi o mar. A Arqueologia Subaquática no começo às
vezes me interessava, às vezes não. Mas eu amava o mar, era novo para mim pois
eu nunca havia visto o mar, e em Luisburgo o mar é muito forte. E aí eu
compreendi porque muitos poetas e escritores falam do mar com termos
impressionantes. Eu queria ficar perto do mar e dos pescadores, esta foi a
motivação inicial. Mais tarde, ao começar a trabalhar com o Parcs
Canadá debaixo d’água, eu descobri os navios e os desafios que neles
repousam. E a tecnologia, a metodologia, tudo começou a me fascinar. E isso foi
se acumulando pouco a pouco.
H-H: E em relação aos seus estudos, como foi sua formação?
Robert Grenier: Sou formado em Estudos Clássicos, especificamente
Arqueologia Clássica. Em 1968 eu fiz Arqueologia Subaquática Clássica em
Chipre, no Mediterrâneo. Era um navio grego muito antigo, do século III antes
de Cristo. O que mais me impressionou, fora o próprio navio, os objetos e os
destroços, foi a vida daquela época, coisas de um mundo antigo que eu estava
descobrindo. Foi o verão mais fascinante da minha vida. Eu estava no paraíso.
Eu entendi o mundo Mediterrâneo.

Robert Grenier em palestra ministrada no I Simpósio Internacional de Arqueologia Subaquática, em setembro de 2005
Glória Tega
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H-H: E
depois de Chipre?
Robert Grenier: Começamos importantes escavações
no Canadá. Quando eu voltei de Chipre, o Parcs
Canadá estava desenvolvendo uma equipe para fazer escavações
num grande navio de guerra
francês. Fui convidado a ser o assistente do coordenador. Naquela época eu
lecionava em Québec. Foi uma decisão difícil pois, apesar de gostar muito de
Arqueologia – eu a praticava todo verão, a vida em Québec era paradisíaca.
Era uma explosão de cultura, de poesia e de criatividade. Tudo estava
efervescente e fascinante. Otawa, a cidade para onde eu tinha de me mudar, era
uma cidade anglo-saxã, muito austera. Mas como eu queria ser arqueólogo subaquático,
aceitei. Em Otawa, tudo aconteceu muito rápido. Realizamos um enorme projeto de
escavação, na época o maior das Américas, e tudo se tornou muito mais
profissional.
H-H: Então, esse foi seu projeto mais importante?
Robert Grenier: Foi. Ele foi importante porque nos permitiu
desenvolver uma metodologia. Não foi um trabalho muito bem feito, sob vários
aspectos. Foi um trabalho extremamente difícil. A água era turva e bastante
poluída. Algumas pessoas até ficaram seriamente
doentes. Por isso, tivemos de inventar e desenvolver estratégias para contornar
esses problemas.
H-H: E qual foi realmente a importância desse projeto?
Robert Grenier: Foi no sentido de aprendizado. Nem sempre os
acontecimentos mais gloriosos são os mais decisivos. Quando chegou o nosso
maior projeto, aquele do galeão basco, em Labrador, pudemos fazer um trabalho
que se tornou uma referência internacional, porque já tínhamos uma certa
maturidade. Isso não vem de um dia para o outro. Não dá para ter o navio dos
sonhos com o trabalho dos sonhos. Tem de haver
um aprendizado primeiro. É preciso passar pela adolescência! (risos)
H-H: E toda a sua equipe passou por isso?
Robert Grenier: Um dos traços mais importantes da minha carreira
foi que a equipe inicial permaneceu a mesma. Crescemos, mas a base continua a
mesma. Não foi fácil, porque todos nós temos personalidades muito fortes. Mas
apesar das tensões, continuamos juntos porque somos apaixonados pela nossa
atividade. E isso faz toda a diferença. Conseguíamos realizar períodos de
escavação de três, quatro ou cinco meses, graças a nossa organização.
H-H: E escavação do galeão basco?
Robert Grenier: Foi um trabalho muito importante porque se tratava
do início da História do nosso país, na época do primeiro estabelecimento.
Antes disso, havia tido em 1534, 1536 e 1541 as vindas de Jacques Cartier, mas
ninguém tinha conseguido se fixar. E esse galeão basco afundou quarenta anos
antes do Samuel Champelain, portanto, foi de suma importância para conhecer as
origens da América do Norte. Foi como descobrir a arca de Noé ! Realmente,
ninguém sabia que os bascos tinham uma atividade tão intensa, vindo aos
milhares caçar baleias todo ano. Eles transportavam o óleo das baleias para a
Europa e faziam um comércio muito lucrativo. Naquela época, ninguém falava
disso nas cidades. Mas no caso da América do Norte, foi o começo da exploração
das riquezas e da navegação contínua entre o velho e o novo continente.
Foi
por essa razão que a UNESCO reconheceu a qualidade do nosso trabalho e o
significado desse navio, consagrando-o como símbolo universal do patrimônio
subaquático.

O Galeão Basco pesquisado pela equipe de Grenier virou símbolo universal do patrimônio subaquático da UNESCO
Unesco
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H-H: A
população canadense sabe da importância da Arqueologia Subaquática? Há
divulgação das pesquisas pela imprensa?
Robert Grenier: Está começando agora a ser mais conhecida, graças
a essa descoberta do galeão de Labrador, mas demorou bastante. Éramos mais
conhecidos em outros lugares, como nos Estados Unidos ou na Europa. O Canadá é
um país que demora a reagir. Quando a notícia saiu, fez muito barulho. Hoje, o
povo canadense orgulha-se do fato de que a Arqueologia Subaquática nacional
esteja implantada a muitos anos e que seja reconhecida no mundo inteiro. Quando
eu recebi a ordem do Canadá – que
é uma condecoração de muito prestígio no nosso país – as pessoas acharam
isso legal. No que diz respeito à mídia, hoje ela funciona muito bem.
H-H: Fala-se também em caçadores de tesouros?
Robert Grenier: Não muito no Canadá porque a água é gelada!
(risos)
Bom,
infelizmente, ocorreram alguns casos em Nova Escócia porque a legislação
federal ainda deve ser implantada no outono deste ano. Mas as legislações
provinciais são muito boas e rigorosas, o que faz com que os caçadores de
tesouros fiquem com medo. Menos nessa província, o que é uma pena porque é a
região mais rica em naufrágios.
H-H: Aqui
as pessoas acreditam que Arqueologia
Subaquática é caçar tesouros.
Robert Grenier: É verdade, existe uma confusão. Talvez por causa
de “Tintin e o tesouro de Rackam, o vermelho”! (risos)
Bom,
mas para falar sério, eu acho que tem uma forma correta de se comunicar com a
imprensa. E nem todos os arqueólogos sabem da importância disso. A maioria dos
arqueólogos é muito séria. Eles falam muito mais em função de seus colegas,
talvez para impressioná-los. Eles usam palavras complicadas. Acho que isso é
um erro porque é preciso saber chamar a atenção e interessar as pessoas com a
nossa paixão. Somente depois disso dá para ir além.

O arqueólogo apresentando Work Shop durante o Simpósio de 2005 em Campo Grande, MS
Glória Tega
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H-H: Será
que os arqueólogos têm medo da imprensa ?
Robert Grenier: Sim, de uma certa forma, e às vezes com razão, mas
é difícil de explicar. Eu nunca tive muitos problemas, apesar de que duas
vezes um jornalista escreveu coisas que eu nunca falei. Ainda bem que, como as
autoridades do meu país acompanhavam as minhas atividades, não houve conseqüências
mais sérias. É preciso respeitá-los. Por exemplo, se tal assunto não pode
ser tratado, eu digo “não posso falar”. Não adianta querer enrolar, porque
os jornalistas sentem. Eles têm experiência também. E quando os respeitamos,
geralmente eles nos respeitam. Agora tem aqueles jornalistas sensacionalistas
cujo trabalho não vale nada. A eles eu falo pouco, somente o essencial. Tudo
depende da pessoa, da experiência, do contato. Tem-se este talento ou não. Nem
todo mundo pode captar a atenção do público. É preciso amar o assunto. É
preciso amar o que a gente faz. Não é uma mera questão de metodologia. Eu amo
os naufrágios, acho que isso transparece quando eu falo. É preciso saber
popularizar a nossa atividade sem falar besteiras. Por exemplo, quando eu
encontrei o galeão
de Labrador em 1978, eu usei a palavra “galeão” enquanto tecnicamente
poderia se usar a palavra “nau”. Até meus próprios
colegas perguntavam se eu não tinha medo de usar a palavra “galeão” no
lugar da palavra “nau”, que talvez seria
mas justa. Mas se eu usasse a palavra “nau”,
ninguém entenderia, enquanto “galeão” todo mundo conhece por causa dos caçadores
de tesouros. Então, acho necessário esse tipo de vulgarização, mas tem que
ser feita com consciência. Não dá para ser rígido demais. Bom, é preciso
ter uma boa história, mas quase todas as histórias são boas. Tudo depende do
jeito como elas são contadas. É preciso tornar um assunto científico
compreensível e interessante para o público. Se não corremos o risco de
aborrecê-lo com detalhes.
H-H: O galeão de Labrador tem um potencial enorme.
Robert Grenier: É verdade, tem um potencial ilimitado, eu diria. Nesta história, temos a construção naval e a
navegação do povo mais evoluído da Europa naquela época. Todo mundo temia os
bascos, eles eram os melhores navegadores. Foram eles que inventaram a caça à
baleia. Caçar a baleia era uma aventura multinacional que custava muito caro.
Era uma tecnologia desconhecida. Existe uma série de histórias pequenas ou
grandes que podem ser extraídas de um naufrágio como esse. Tem histórias incríveis
como, por exemplo, em um dia de 1575 certos bascos espanhóis (do sul)
capturaram uma baleia e a rebocavam em direção à baía. Como eles eram ameaçados
de perder a baleia porque uma tempestade se aproximava, eles a esconderam numa
fissura e foram para a baía para esperar a tempestade terminar. No dia
seguinte, a baleia estava a um quilômetro do lugar onde a tinham deixado e
estava sendo esquartejada por bascos franceses (do norte). Então, eles se
aproximaram e os xingaram de ladrões. De volta a Europa, alguns meses depois,
os dois capitães se enfrentaram no tribunal. E isso se arrastou tanto que os
dois morreram e as viúvas continuaram a brigar! É fantástico, porque por
causa dessa baleia, tivemos acesso a documentos extraordinários do ponto de
vista arqueológico. O juiz fazia perguntas bem específicas do tipo: “Quantas
pessoas tinham na traineira?”, “Quantas baleias tinha no estreito de Bering?”
É o tipo de coisa que os marinheiros nunca falavam, mas como era o juiz que
perguntava... Essa história tem um potencial fantástico. É o dia a dia de 500
anos atrás!

A maquete do que foi encontrado nas pesquisas do Galeão Basco de meados do século XVI, naufragado em Red Bay, no Labrador, Canadá
Glória Tega
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H-H: E
como você vê e analisa a Arqueologia Subaquática
hoje no mundo?
Robert Grenier: Bom, primeiro, em 1975 a
UNESCO publicava um livrinho chamado
“A
Arqueologia Subaquática, uma disciplina emergente” porque, na época, não tínhamos
experiência nenhuma. Hoje, pelo menos no Canadá, já alcançamos uma certa
maturidade. Mas globalmente, as coisas estão bem desiguais. Existem lugares
onde as pessoas nem sabem o que é, outros onde as pessoas acham que é caça ao
tesouro. Há também lugares onde as coisas estão começando a se organizar,
como o Brasil e a Argentina, por exemplo.
H-H: E
o Brasil ?
Robert Grenier: Bom, acho que faz uns
quinze anos que o Brasil está envolvido. O Brasil sempre chamou minha atenção
porque observando o mapa do Atlântico Sul, percebe-se que ele avança muito no
oceano e que, portanto, é um país que deve ter sido muito freqüentado pelos
barcos, como a Nova Escócia no Canadá. Portanto, é normal que haja muitos
naufrágios. É também um país cuja História política é muito desigual,
cuja mentalidade é igual à dos caubóis. O Brasil se formou avançando sobre a
floresta. É um país rico e, eu diria, português. Os portugueses são um povo
bem peculiar. Eu gosto muito deles. É um povo empreendedor, mas não
estruturado como os espanhóis ou os franceses. Portanto, são pessoas que
desenvolvem coisas muito rapidamente mas nem sempre dentro de uma estrutura
rigorosa. Daí vêm as riquezas e os problemas! Bom, mas para o Brasil, tenho
duas percepções: de um lado a percepção do arqueólogo canadense e do outro
a percepção do presidente do Comitê Científico. Como presidente, eu tento
desenvolver a Arqueologia Subaquática, protegê-la e convencioná-la. Sob esse
aspecto, o Brasil é um marco muito importante. Se a gente perder o Brasil nesta
batalha, será uma enorme derrota. Existem outros paises com
problemas como o Honduras, o Panamá, mas eles são muito pequenos. O
Brasil além do tamanho continental, ele se une a África através da língua
portuguesa, formando um sistema colonial de grande importância. Então é
importante para a comunidade internacional ter o apoio do Brasil. O problema é
solúvel mais não vai ser fácil porque, para mim, a legislação brasileira é
a pior do mundo. Existe uma lei da UNESCO que se opõe à comercialização dos
bens culturais submersos. Tem objetos que se encontravam nos navios que a gente
não encontra mais na terra. Por exemplo, no Mediterrâneo, encontramos uma série
de explicações sobre tipos de comércios dos quais havíamos totalmente
perdido o rastro na terra. Como os livros, os naufrágios possuem essas explicações,
e tudo isso está ameaçado a ser levado embora, perdido. Eu acho que a
comunidade tem que fazer alguma coisa aqui, porque se todo mundo se unir, mais
cedo ou mais tarde, o governo vai se mexer. É um pouco paradoxal porque aqui,
as equipes estão unidas. O Brasil é um país cheio de riquezas, cheio de
potencial, mas também, atualmente, cheio de turbulências. Mas a
equipe brasileira é muito forte, o Gilson escolheu pessoas apaixonadas pelo
que fazem. E ele está certo porque sem essa paixão ficamos muito mais vulneráveis
aos ataques e diante das tentações.
Então
o Brasil é tudo isso... pode-se dizer que o Brasil parece com o livrinho da
UNESCO de 1975, não é mais bebê, mas ainda está na infância.