ISSN 1807-1783                atualizado em 06 de agosto de 2007   


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“A legislação brasileira é a pior do mundo”

por Glória Tega


Robert Grenier
Foto de Glória Tega
Texto de capa

Esta é a opinião do Arqueólogo canadense Robert Grenier a respeito da Lei brasileira que trata do Patrimônio Cultural Subaquático. Ativo no âmbito dos trabalhos da redação da “Convenção da UNESCO sobre a Proteção do Patrimônio Cultural Subaquático”,  Robert Grenier é um dos arqueólogos mais empenhados na luta por princípios e normas de gestão deste patrimônio à escala mundial, e para o Brasil aconselha: “se todo mundo se unir, mais cedo ou mais tarde, o governo vai se mexer”. 

Grenier é o responsável pela importante equipe de Arqueologia Subaquática do Parcs Canada, que dirigiu um dos mais famosos projetos de Arqueologia Subaquática do mundo: a escavação, ao longo de uma década, do sítio dos destroços de um galeão basco de meados do século XVI, naufragado em Red Bay, no Labrador, Canadá. Tal trabalho foi tão importante que ele se arrisca : “Foi como descobrir a arca de Noé!”.

Como Presidente do Comitê Internacional sobre o Patrimônio Cultural Subaquático (ICUCH) do ICOMOS e porta-voz deste órgão consultivo da UNESCO, Grenier sabe da importância da divulgação científica: “Nem todos os arqueólogos sabem da importância disso. É preciso saber popularizar a nossa atividade sem falar besteiras”.

E depois de algum tempo de uma agradável conversa, fica claro que Robert Grenier só é o respeitado arqueólogo, presidente do ICUCH e emprenhado na divulgação da Convenção da UNESCO por que é um apaixonado:“Eu amo os naufrágios, acho que isso transparece quando eu falo”.

H-H: Como foi seu envolvimento com Arqueologia Subaquática?

Robert Grenier: Isso aconteceu mais ou menos por acidente. Na ocasião de um trabalho de verão, como arqueólogo, num projeto de restauração com os Parcs Canadá em Luisburgo, na Nova Escócia, em um porto muito importante. Eu me interessei e intriguei-me pela história de um colega de lá que procurava um barco, do ano de 1725, com objetos da “Nouvelle France”.  Eu comecei a mergulhar com esse colega. Alguns anos mais tarde, em 1966, quando eu parei de trabalhar com ele, o Parcs Canadá começou a realizar trabalhos oficiais debaixo d’água. Constatei que eu era o único arqueólogo nesta época no Canadá que mergulhava. Então, pediram-me para formar uma equipe.

H-H: Então seu interesse inicial...

Robert Grenier: Foi o mar. A Arqueologia Subaquática no começo às vezes me interessava, às vezes não. Mas eu amava o mar, era novo para mim pois eu nunca havia visto o mar, e em Luisburgo o mar é muito forte. E aí eu compreendi porque muitos poetas e escritores falam do mar com termos impressionantes. Eu queria ficar perto do mar e dos pescadores, esta foi a motivação inicial. Mais tarde, ao começar a trabalhar com o Parcs Canadá debaixo d’água, eu descobri os navios e os desafios que neles repousam. E a tecnologia, a metodologia, tudo começou a me fascinar. E isso foi se acumulando pouco a pouco.

H-H: E em relação aos seus estudos, como foi sua formação?

Robert Grenier: Sou formado em Estudos Clássicos, especificamente Arqueologia Clássica. Em 1968 eu fiz Arqueologia Subaquática Clássica em Chipre, no Mediterrâneo. Era um navio grego muito antigo, do século III antes de Cristo. O que mais me impressionou, fora o próprio navio, os objetos e os destroços, foi a vida daquela época, coisas de um mundo antigo que eu estava descobrindo. Foi o verão mais fascinante da minha vida. Eu estava no paraíso. Eu entendi o mundo Mediterrâneo.


Robert Grenier em palestra ministrada no I Simpósio Internacional de Arqueologia Subaquática, em setembro de 2005
Glória Tega

H-H: E depois de Chipre?

Robert Grenier: Começamos importantes escavações no Canadá. Quando eu voltei de Chipre, o Parcs Canadá estava desenvolvendo uma equipe para fazer escavações  num grande navio de guerra francês. Fui convidado a ser o assistente do coordenador. Naquela época eu lecionava em Québec. Foi uma decisão difícil pois, apesar de gostar muito de Arqueologia – eu a praticava todo verão, a vida em Québec era paradisíaca. Era uma explosão de cultura, de poesia e de criatividade. Tudo estava efervescente e fascinante. Otawa, a cidade para onde eu tinha de me mudar, era uma cidade anglo-saxã, muito austera. Mas como eu queria ser arqueólogo subaquático, aceitei. Em Otawa, tudo aconteceu muito rápido. Realizamos um enorme projeto de escavação, na época o maior das Américas, e tudo se tornou muito mais profissional.

H-H: Então, esse foi seu projeto mais importante?

Robert Grenier: Foi. Ele foi importante porque nos permitiu desenvolver uma metodologia. Não foi um trabalho muito bem feito, sob vários aspectos. Foi um trabalho extremamente difícil. A água era turva e bastante poluída. Algumas pessoas até ficaram  seriamente doentes. Por isso, tivemos de inventar e desenvolver estratégias para contornar esses problemas.

H-H: E qual foi realmente a importância desse projeto?

Robert Grenier: Foi no sentido de aprendizado. Nem sempre os acontecimentos mais gloriosos são os mais decisivos. Quando chegou o nosso maior projeto, aquele do galeão basco, em Labrador, pudemos fazer um trabalho que se tornou uma referência internacional, porque já tínhamos uma certa maturidade. Isso não vem de um dia para o outro. Não dá para ter o navio dos sonhos com o trabalho dos sonhos. Tem de  haver um aprendizado primeiro. É preciso passar pela adolescência! (risos)

H-H: E toda a sua equipe passou por isso?

Robert Grenier: Um dos traços mais importantes da minha carreira foi que a equipe inicial permaneceu a mesma. Crescemos, mas a base continua a mesma. Não foi fácil, porque todos nós temos personalidades muito fortes. Mas apesar das tensões, continuamos juntos porque somos apaixonados pela nossa atividade. E isso faz toda a diferença. Conseguíamos realizar períodos de escavação de três, quatro ou cinco meses, graças a nossa organização.

H-H: E escavação do galeão basco?

Robert Grenier: Foi um trabalho muito importante porque se tratava do início da História do nosso país, na época do primeiro estabelecimento. Antes disso, havia tido em 1534, 1536 e 1541 as vindas de Jacques Cartier, mas ninguém tinha conseguido se fixar. E esse galeão basco afundou quarenta anos antes do Samuel Champelain, portanto, foi de suma importância para conhecer as origens da América do Norte. Foi como descobrir a arca de Noé ! Realmente, ninguém sabia que os bascos tinham uma atividade tão intensa, vindo aos milhares caçar baleias todo ano. Eles transportavam o óleo das baleias para a Europa e faziam um comércio muito lucrativo. Naquela época, ninguém falava disso nas cidades. Mas no caso da América do Norte, foi o começo da exploração das riquezas e da navegação contínua entre o velho e o novo continente.

Foi por essa razão que a UNESCO reconheceu a qualidade do nosso trabalho e o significado desse navio, consagrando-o como símbolo universal do patrimônio subaquático.

 


O Galeão Basco pesquisado pela equipe de Grenier virou símbolo universal do patrimônio subaquático da UNESCO
Unesco

H-H: A população canadense sabe da importância da Arqueologia Subaquática? Há divulgação das pesquisas pela imprensa?

Robert Grenier: Está começando agora a ser mais conhecida, graças a essa descoberta do galeão de Labrador, mas demorou bastante. Éramos mais conhecidos em outros lugares, como nos Estados Unidos ou na Europa. O Canadá é um país que demora a reagir. Quando a notícia saiu, fez muito barulho. Hoje, o povo canadense orgulha-se do fato de que a Arqueologia Subaquática nacional esteja implantada a muitos anos e que seja reconhecida no mundo inteiro. Quando eu recebi  a ordem do Canadá – que é uma condecoração de muito prestígio no nosso país – as pessoas acharam isso legal. No que diz respeito à mídia, hoje ela funciona muito bem.

H-H: Fala-se também em caçadores de tesouros?

Robert Grenier: Não muito no Canadá porque a água é gelada! (risos)

Bom, infelizmente, ocorreram alguns casos em Nova Escócia porque a legislação federal ainda deve ser implantada no outono deste ano. Mas as legislações provinciais são muito boas e rigorosas, o que faz com que os caçadores de tesouros fiquem com medo. Menos nessa província, o que é uma pena porque é a região mais rica em naufrágios. 

H-H: Aqui as pessoas acreditam que  Arqueologia Subaquática é caçar tesouros.

Robert Grenier: É verdade, existe uma confusão. Talvez por causa de “Tintin e o tesouro de Rackam, o vermelho”! (risos)

Bom, mas para falar sério, eu acho que tem uma forma correta de se comunicar com a imprensa. E nem todos os arqueólogos sabem da importância disso. A maioria dos arqueólogos é muito séria. Eles falam muito mais em função de seus colegas, talvez para impressioná-los. Eles usam palavras complicadas. Acho que isso é um erro porque é preciso saber chamar a atenção e interessar as pessoas com a nossa paixão. Somente depois disso dá para ir além. 

  


O arqueólogo apresentando Work Shop durante o Simpósio de 2005 em Campo Grande, MS
Glória Tega

H-H: Será que os arqueólogos têm medo da imprensa ?

Robert Grenier: Sim, de uma certa forma, e às vezes com razão, mas é difícil de explicar. Eu nunca tive muitos problemas, apesar de que duas vezes um jornalista escreveu coisas que eu nunca falei. Ainda bem que, como as autoridades do meu país acompanhavam as minhas atividades, não houve conseqüências mais sérias. É preciso respeitá-los. Por exemplo, se tal assunto não pode ser tratado, eu digo “não posso falar”. Não adianta querer enrolar, porque os jornalistas sentem. Eles têm experiência também. E quando os respeitamos, geralmente eles nos respeitam. Agora tem aqueles jornalistas sensacionalistas cujo trabalho não vale nada. A eles eu falo pouco, somente o essencial. Tudo depende da pessoa, da experiência, do contato. Tem-se este talento ou não. Nem todo mundo pode captar a atenção do público. É preciso amar o assunto. É preciso amar o que a gente faz. Não é uma mera questão de metodologia. Eu amo os naufrágios, acho que isso transparece quando eu falo. É preciso saber popularizar a nossa atividade sem falar besteiras. Por exemplo, quando eu encontrei o galeão de Labrador em 1978, eu usei a palavra “galeão” enquanto tecnicamente poderia se usar a palavra “nau”. Até meus próprios colegas perguntavam se eu não tinha medo de usar a palavra “galeão” no lugar da palavra “nau”, que talvez seria mas justa. Mas se eu usasse a palavra “nau”, ninguém entenderia, enquanto “galeão” todo mundo conhece por causa dos caçadores de tesouros. Então, acho necessário esse tipo de vulgarização, mas tem que ser feita com consciência. Não dá para ser rígido demais. Bom, é preciso ter uma boa história, mas quase todas as histórias são boas. Tudo depende do jeito como elas são contadas. É preciso tornar um assunto científico compreensível e interessante para o público. Se não corremos o risco de aborrecê-lo com detalhes.

H-H: O galeão de Labrador tem um potencial enorme.

Robert Grenier: É verdade, tem um potencial ilimitado, eu diria. Nesta história, temos a construção naval e a navegação do povo mais evoluído da Europa naquela época. Todo mundo temia os bascos, eles eram os melhores navegadores. Foram eles que inventaram a caça à baleia. Caçar a baleia era uma aventura multinacional que custava muito caro. Era uma tecnologia desconhecida. Existe uma série de histórias pequenas ou grandes que podem ser extraídas de um naufrágio como esse. Tem histórias incríveis como, por exemplo, em um dia de 1575 certos bascos espanhóis (do sul) capturaram uma baleia e a rebocavam em direção à baía. Como eles eram ameaçados de perder a baleia porque uma tempestade se aproximava, eles a esconderam numa fissura e foram para a baía para esperar a tempestade terminar. No dia seguinte, a baleia estava a um quilômetro do lugar onde a tinham deixado e estava sendo esquartejada por bascos franceses (do norte). Então, eles se aproximaram e os xingaram de ladrões. De volta a Europa, alguns meses depois, os dois capitães se enfrentaram no tribunal. E isso se arrastou tanto que os dois morreram e as viúvas continuaram a brigar! É fantástico, porque por causa dessa baleia, tivemos acesso a documentos extraordinários do ponto de vista arqueológico. O juiz fazia perguntas bem específicas do tipo: “Quantas pessoas tinham na traineira?”, “Quantas baleias tinha no estreito de Bering?” É o tipo de coisa que os marinheiros nunca falavam, mas como era o juiz que perguntava... Essa história tem um potencial fantástico. É o dia a dia de 500 anos atrás!  


A maquete do que foi encontrado nas pesquisas do Galeão Basco de meados do século XVI, naufragado em Red Bay, no Labrador, Canadá
Glória Tega

H-H: E como você vê e analisa a Arqueologia Subaquática hoje no mundo?

Robert Grenier: Bom, primeiro, em 1975 a UNESCO publicava um livrinho chamado

“A Arqueologia Subaquática, uma disciplina emergente” porque, na época, não tínhamos experiência nenhuma. Hoje, pelo menos no Canadá, já alcançamos uma certa maturidade. Mas globalmente, as coisas estão bem desiguais. Existem lugares onde as pessoas nem sabem o que é, outros onde as pessoas acham que é caça ao tesouro. Há também lugares onde as coisas estão começando a se organizar, como o Brasil e a Argentina, por exemplo. 

H-H: E o Brasil ?

Robert Grenier: Bom, acho que faz uns quinze anos que o Brasil está envolvido. O Brasil sempre chamou minha atenção porque observando o mapa do Atlântico Sul, percebe-se que ele avança muito no oceano e que, portanto, é um país que deve ter sido muito freqüentado pelos barcos, como a Nova Escócia no Canadá. Portanto, é normal que haja muitos naufrágios. É também um país cuja História política é muito desigual, cuja mentalidade é igual à dos caubóis. O Brasil se formou avançando sobre a floresta. É um país rico e, eu diria, português. Os portugueses são um povo bem peculiar. Eu gosto muito deles. É um povo empreendedor, mas não estruturado como os espanhóis ou os franceses. Portanto, são pessoas que desenvolvem coisas muito rapidamente mas nem sempre dentro de uma estrutura rigorosa. Daí vêm as riquezas e os problemas! Bom, mas para o Brasil, tenho duas percepções: de um lado a percepção do arqueólogo canadense e do outro a percepção do presidente do Comitê Científico. Como presidente, eu tento desenvolver a Arqueologia Subaquática, protegê-la e convencioná-la. Sob esse aspecto, o Brasil é um marco muito importante. Se a gente perder o Brasil nesta batalha, será uma enorme derrota. Existem outros paises com  problemas como o Honduras, o Panamá, mas eles são muito pequenos. O Brasil além do tamanho continental, ele se une a África através da língua portuguesa, formando um sistema colonial de grande importância. Então é importante para a comunidade internacional ter o apoio do Brasil. O problema é solúvel mais não vai ser fácil porque, para mim, a legislação brasileira é a pior do mundo. Existe uma lei da UNESCO que se opõe à comercialização dos bens culturais submersos. Tem objetos que se encontravam nos navios que a gente não encontra mais na terra. Por exemplo, no Mediterrâneo, encontramos uma série de explicações sobre tipos de comércios dos quais havíamos totalmente perdido o rastro na terra. Como os livros, os naufrágios possuem essas explicações, e tudo isso está ameaçado a ser levado embora, perdido. Eu acho que a comunidade tem que fazer alguma coisa aqui, porque se todo mundo se unir, mais cedo ou mais tarde, o governo vai se mexer. É um pouco paradoxal porque aqui, as equipes estão unidas. O Brasil é um país cheio de riquezas, cheio de potencial, mas também, atualmente, cheio de turbulências. Mas a equipe brasileira é muito forte, o Gilson escolheu pessoas apaixonadas pelo que fazem. E ele está certo porque sem essa paixão ficamos muito mais vulneráveis aos ataques e diante das tentações.

Então o Brasil é tudo isso... pode-se dizer que o Brasil parece com o livrinho da UNESCO de 1975, não é mais bebê, mas ainda está na infância.