ISSN 1807-1783                atualizado em 14 de setembro de 2010   


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O padre e a moça “de portas adentro”: um estudo de caso acerca do cotidiano e da vida privada nas Minas Setecentistas.

por Mayara Amanda Januário

Sobre a autora[1]

A chamada história da vida privada tem sido entendida erroneamente como uma história menor, desprovida de questionamentos e por isso pouco relevante. Afinada com as temáticas do homossexualismo, sexualidade, infância, feminismo, entre outras, estabelece recortes curiosos e suscitam temáticas até então ignoradas ou pouco estudadas pela historiografia. Legitimada pela Nova História Cultural, é fato que a história da vida privada, em suas minúcias, particularidades e detalhamentos compõe narrativas que, além de interessantes, ultrapassam o caráter de narrativa pura e simples. É neste sentido que os estudos de caso na historiografia atual têm contribuído e muito na construção de novas abordagens e no questionamento de elaborações já consagradas. Ao realizarmos a partir de um plano geral uma incursão vertical podemos emergir as especificidades dos agentes históricos, a complexidade de seus elementos e a riqueza de detalhes que num primeiro momento ou num estudo esquemático não são contempladas. Dar vida e voz a estes indivíduos não é tarefa fácil. Por vezes as fontes se esgotam e nossas questões mais pontuais permanecem sem resposta. Contudo, quando generosas, nos guiam por um interessante labirinto que, passo a passo, revelam exemplarmente de que é feita a História: de indivíduos sim, mas com nome e sobrenome, com desejos, anseios, famílias, enfim, com uma pulsante vida irredutível a denominações genéricas e plurais.

Do ponto de vista metodológico, a micro-história avança nas pesquisas historiográficas por romper com as práticas generalistas e por alcançar com maior propriedade o homem enquanto sujeito histórico. Os esforços da micro-história têm como horizonte dar realidade ao universo humano em seu comportamento, de forma que seus personagens têm voz ativa, ao passo que em outro tipo de análise, ficariam ocultos. Como pontua Levi, a micro-história possui uma função especial, nas direções apontadas pela Nova História ao refutar o relativismo, aliando interpretações de textos e de acontecimentos. O espaço local, elevado à categoria central de estudo, constitui-se uma nova possibilidade de análise no quadro das interdependências entre agentes e fatores determinantes de experiências históricas escolhidas pelo historiador. Tomar este método de análise implica em considerar detalhes aparentes e sutis, deslocando dos grandes contornos e das linhas gerais, valorizando e dotando de significado relações plurais em seus diversos elementos constitutivos.

Ao eleger o específico como circunscrição de análise, como escala própria de observação, contudo, não abandonamos as margens, as normas, que, regra geral, ultrapassam o espaço local e lhe conferem maior abrangência. A escrita da história local costura ambientes intelectuais, ações políticas, processos que envolvem comunidades regionais e globais. Sendo assim, o exercício historiográfico incide na descrição dos mecanismos de apropriação, adaptação, resposta e criação, às normas que tangem o universo particular. Em especial no entendimento da história do cotidiano, cada estudo pormenorizado avança na compreensão dos acontecimentos da vida humana na sua integralidade, desde os fatos mais originais até os mais ordinários. Enquanto território, esboça também um espaço e tempo construídos por um processo de socialização, capaz de formar traços de identidade, de dialogar com o diferente, de produzir simbolismos. Neste cenário, que é lugar de todas as ações humanas, cada estudo de caso se torna um contributivo sem igual ao panorama já traçado, uma vez que a cada indivíduo é delegado o papel de agente histórico, que dialoga necessariamente com a totalidade.[2]

Como já nos demonstrou Mary del Priore, no esforço de se delinear a trajetória do amor no Brasil, no período colonial os impulsos apaixonados encontravam seu espaço de liberdade longe da reserva dos lares burgueses, em que o amor-paixão era reprimido ao ponto da extirpação dos vícios luxuriosos. Sem negar a herança Portuguesa na experiência da afetividade, a colônia tropical e suas peculiaridades desenvolveram códigos distintos daqueles que a história dos sentimentos em países como França e Inglaterra nos mostrou. Nos domínios coloniais, o que se observa é o atrelamento entre sentimento e sociabilidade das camadas mais tradicionais, em que o amor, em sua forma mais livre, fora somente encontrado nas senzalas. Neste sentido, é importante considerar que, as esferas do público e do privado, além de se comporem como nebulosos conceitos, relacionavam-se de forma muitas vezes complexas e contraditórias. Contraditório, o amor desregrado admitiu significados torpes, quando assimilado a inferioridade moral, manifestação própria das classes baixas. Concomitante, o amor corroborado pelas instituições acreditava-se bem pintado pela família burguesa, expresso na imagem do pai provedor e da mulher submissa. As relações de poder escravistas reproduziam-se no casamento, e a submissão feminina figurava a expressão máxima e harmônica do amor conjugal. Entre os espaços dos discurso e do exercício da vida prática; em meio aos agentes que são ativos do processo histórico e com ele contribuem com originalidade, estudar o caso do Padre José Rodrigues Pontes e a jovem Policena tendo como norte seu amor proibido contribui para a construção do universo da vida privada, sensível termômetro das imersões morais e dos valores compartilhados entre toda a sociedade colonial, num estudo capaz de agregar à literatura já existente detalhes ainda desconhecidos ou corroborar aqueles já evidenciados. Tendo como fontes abundantes registros paroquiais e inquisitoriais foi possível reconstituir com propriedade este maravilhoso universo da vida privada, ao alcançar o particular enquanto território capaz de lançar luz às sutilezas de um enamoramento proibido nas Minas Gerais do Século XVIII.

O padre e a moça

José Rodrigues Pontes, nascido na Vila de São José del-Rei [3] era filho de um capitão reinol de mesmo nome de Tereza Maria de Jesus. Os membros de sua família viviam prosperamente de seus negócios e ganhos dos cargos de honra que o pai José Rodrigues Pontes exercia na vila. Possivelmente moravam em uma casa situada na rua que desce da Igreja Matriz, contavam com o conforto de uma boa morada, com forro e assoalho, quintal, cozinha e uma outra construção aos fundos, repleta de pertences.[4] Em São João del-Rei, o pequeno Pontes aprendera gramática latina na vila de São José; sendo estudante muito moço, atirou por acaso em um negro que não lhe possuía e este veio a falecer, pelo tiro ou outra enfermidade. Afora este episódio, pouco é possível saber sobre a infância e juventude de nosso personagem. Segundo testemunhas, tratava-se de um sujeito bastante devoto, solteiro, que não havia prometido casamento a nenhuma moça. Não possuía culpa no juízo, mas estivera envolto em conflitos de inimizade com Gonçallo da Candalaria, que o infamou, e o boticário Manoel Antônio. De todo modo, aparentava uma vida sem sobressaltos, sem defeito no sangue, na religião e na saúde. Conjecturações à parte, o fato é que anos mais tarde, o pequeno Pontes fora encaminhado ao seminário, a fim de que se tornasse padre.

Em 1785, aos 27 anos José Rodrigues Pontes fora ordenado padre em 17 de dezembro em Mariana, gozando dos privilégios e status que isto significava. Tornara-se, nas palavras de Saint-Hilaire, um homem polido de certa instrução. Em 1786, em sua vila natal, registra-se o que pode ser um de seus primeiros batizados realizados, feitos sob licença, aos seus conterrâneos de diferente cor e condição.

Em Conceição da Barra, freguesia de São João del-Rei tornou-se capelão por volta de 1796. O viajante Augusto de Saint- Hilaire, integrando a missão Francesa que percorreu as nascentes do rio São Francisco no primeiro quartel do século XIX, registrou com primor o espírito deste arraial: um povoado construído no alto de um morro pouco elevado, numa extensão de terras montanhosas, com muitas matas e poucas pastagens, rodeado por morros tão pouco arredondados e vales estreitos e profundos[5]. Compondo a paróquia de São João del-Rei, sua fundação também esteve ligada a exploração aurífera as margens do Rio das Mortes, no século anterior, mas que agora encontrava-se decadente. Neste cenário descolorido, ele ainda registrara: o que se vê são muitos homens de cor, e as paragens dos burros impede que seus habitantes morram esfomiados. As negras sobrevivem vendendo seus serviços mais encantadores, como em muitos arraiais das Minas Gerais. Das casas, contabilizara uma centena, pequenas, baixas e quadradas. Algumas delas de telhas, outras mais simplórias, de palha, isoladas umas das outras, desconfortáveis e em ruínas, agora em situação de miséria e abandono.

Em 1726 quando, acredita-se, teria sido encontrada a imagem de Nossa Senhora da Conceição por um lenhador, erigiu-se uma modesta Igreja para devoção a santa, construída seguindo os caminhos deixados no sertão, aberto por Fernão Dias. Tamanha fé observada naqueles tempos, causava bastante admiração, como também observou Saint-Hilaire. Em torno desta capela, se desenvolveria todo o futuro município, paragem do chamado caminho velho. Mais do que mera expressão do catolicismo, as capelas representavam e funcionavam como mecanismos de configuração e de dispositivos de poder. Nas Minas Setecentistas, os homens bons da terra, agentes de uma rede familiar e clientelista, costumavam fundar e instituir capelas sob a aprovação episcopal, e com alguns bens, terras e rendimentos tinham condição de manter capelas onde houvesse necessidade. A disposição dos fiéis como um todo, não se limitava ao núcleo doméstico das capelas particulares do senhor e seus agregados e passaria a influenciar todo o redor, sem contudo deixar de hierarquizá-lo.[6] Instituía-se o espaço de sociabilidade do Antigo Regime por excelência. Subordinada à matriz do Pilar, a proliferação de pequenas capelas filiais como esta sugerem uma adaptação, em termos de organização religiosa, às condições sociais e econômicas das Minas.

É nesta pequeno arraial que o então padre José Rodrigues Pontes, sendo capelão curado na ermida de Nossa Senhora da Conceição, exerceu suas funções sacerdotais ao longo de cinco anos, entre 1792 e 1797. No cotidiano destas capelas, a regra geral era que o vigário garantisse a permanência dos capelães, que o representava em suas posses, direitos e taxas. Isto porém não desobrigava os habitantes dos lugares, unidos ou não por laços corporativos, confrarias, irmandades ou famílias tradicionais, de contribuir materialmente na manutenção de seus templos, seja por livre iniciativa, ou quando realizassem seus batizados, funerais e casamentos. Também não estavam impossibilitados os meios para que os capelães aproveitassem suas oportunidades econômicas e políticas e fizessem negócios lucrativos e mundanos, inserindo-se em diversas atividades produtivas que lhes convinham. O fato é que os capelães eram importantes figuras de poder locais, e estes muitas vezes utilizavam seu capital religioso e simbólico que detinham. Caso fossem parentes dos provedores materiais da Igreja, eles mesmos eram indivíduos ativos nas estratégias ou táticas familiares, assentados nos ritos da igreja, arrumando casamentos e compadrios. Não bastante, se exímios, os capelães costumavam forjar certa autonomia, equilibrando-se entre os poderes de seus superiores eclesiásticos e os leigos da sua capela.

Em sua atuação na freguesia, o capelão Pontes batizou muitos de seus paroquianos, casou e ministrou os sacramentos de tantos outros. Inúmeros escravos, livres, expostos, e brancos, alguns destes titulares de postos militares. Raras vezes, alforriava escravos em sua pia batismal. O fato é que, de certo, boa parte da vila passara de algum modo pela mãos e autoridade do sacerdote, uma vez que o batismo era também o registro civil da existência de alguém. Nos fins do século XVIII, a freguesia contava com aproximadamente 1.791 habitantes, sendo que 172 deles eram menores e ao restante de 1619 eram ministradas comunhões e confissões[7]. Em muitas destas cerimônias que realizou, guardou cuidadosamente os preceitos tridentinos e as constituições, que reorganizava e melhor controlava a população católica. Ao ministrar os sacramentos, respeitara aos chamados ”tempos proibidos” que impediam uniões nos períodos da Quaresma e do Advento, períodos em que as cerimônias eram sensivelmente reduzidas.

Como determinavam as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia, a presença da testemunha no matrimônio é imperativo para a validade do casamento. O pároco e as testemunhas legitimam e certificavam a união, civil e religiosa. A carência das testemunhas ou do pároco poderia levar ao impedimento da cerimônia. Nesta matéria, Pe. Pontes era esmerado em sua função, não faltando as testemunhas exigidas pelos preceitos. Mostrava-se irrepreensível em sua conduta. Também fora zeloso em seus registros, excedendo até mesmo o modelo proposto pelo Concílio de Trento e reafirmado pelas Constituições Primeiras, adicionando às informações de certos padrinhos e madrinhas sua respectiva filiação ou ligação. Sem dúvida, conhecia-os de perto.

Entre as missas dominicais, rezas, sacramentos e festividades, mais do que um lugar do exercício religioso, as capelas favoreciam práticas socialmente compartilhadas. Na América Portuguesa, no que diz respeito aos espaços oficiais, a sociabilidade seguia os parâmetros da metrópole, encontrando seus espaços nas festas e cerimônias religiosas, na pompa das procissões de Corpus Christi, no segredo do confessionário, ou no apagar das luzes na Paixão de Cristo. No Brasil colonial, as Igrejas e outros lugares de culto e celebrações eram principais espaços de convívio social onde religiosidade e sociabilidade se confundiram e se interpenetraram. É na esfera do vivido, do concreto, do cotidiano e da sociabilidade aí forjada que afloravam os sentimentos, as alianças, os amores, uniões e a convivência colonial. No contexto em que o público e o privado não eram bem definidos, os moradores do Arraial de Conceição da Barra, mais do que meros paroquianos, eram bastante próximos do Padre Pontes. Seja porque tal proximidade pressupunha certas regalias, seja porque a religião era de umas das únicas esferas possíveis para a sociedade se relacionar.

Residindo no arraial de Conceição da Barrra, a família Souza Almeida era mais uma no meio de tantas outras nas Minas Gerais dos Setecentos. Em geral, As famílias mineiras não eram necessariamente patriarcais e nucleares e poderiam estabelecer relações muito mais complexas, com seus filhos sendo criados por parentes, mulheres chefiando seus fogos, filhos ilegítimos por todos os lados e maridos ausentes[8]. Nossas famílias, barrocas em essência, gozavam de uma dinâmica peculiar, e ainda que estivessem chefiadas pelo pai, seus membros não estavam a sombra dele, sendo também vivos e atuantes nesta esfera da sociedade, podendo ser autônomos até mesmo na ausência deste. No sentido tradicional, o papel das famílias na realidade colonial parecia bem determinado, uma vez que estruturava toda a sociedade, estabelecia uma colonização efetiva e se enquadrava bem aos ditames da moral. Nestes aspectos a família Souza Almeida era uma família clássica, tipo buscado com esforços pelo ideal cristão.

Bernardo Antônio de Souza Almeida, um licenciado, possivelmente da ocupação de furriel,[9] casado com Ana Felícia de Jesus, tiveram por filhos José Antônio de Almeida Guerra, Mariana Angélica, Ana Joaquina, Joaquim José de Sousa, Policena Xantipa, Maria Felícia, Luiz Manoel de Sousa e o pequeno Bernardo Antônio de Sousa. Livres, porém de posses medianas, a princípio a família não era em nada extraordinária. À esposa daqueles tempos, cabia o cuidado da casa e dos filhos, e seu sentimento para com o esposo deveria ser antes, de tudo, movido pelo respeito. Em geral era muito mais jovem que seus maridos e na maioria das vezes não era o amor que as levava ao altar. Vicissitudes a parte, a devotada esposa de Bernardo se apartara de seu convívio, falecendo em 1787, deixando alguns de seus filhos menores.

Ao que sabemos, Bernardo e seus filhos viviam em uma confortável casa murada, feita em pedra, com forro e assoalho de madeira, que contava ainda com um espaço externo extenso, como um pasto salpicado por árvores frutíferas e uma fonte de água em seu interior. Nos tempos em que privacidade e domesticidade eram coisas diferentes,[10] o cuidado com a casa, seus espaços e divisões sugerem uma maior experiência de um universo particularizado e uma tendência à diferenciação individual[11].

A casa nos fins do século XVIII, cada vez mais o espaço da família, em geral tende a perder seu caráter de lugar público, separando-se da vida profissional e do universo urbano. Atribui-se à casa uma maior importância na sociabilidade cotidiana, na proteção e domesticação das mulheres e dos filhos. Seus quintais, sempre produtivos, deveriam abastecer com diversidade as mesas dos mineiros. Neste sentido a família Souza Almeida possivelmente passava seus dias num agradável ambiente doméstico, tendo a disposição algumas frutas para comer sob as sombras das árvores, observando os pequenos a correr e brincar pela grandiosidade de seu quintal, usufruindo da comodidade básica de seu mobiliário e alguns poucos escravos servindo-lhes .

Nos modos de criar-se uma família daqueles tempos, as filhas de Bernardo e Ana Felícia foram encaminhadas para o casamento, um dos filhos destinados para a carreira do sacerdócio e ao outro filho mais novo estivera resguardado o nome do pai, como costumeiro. Todas estas escolhas, estratégias de vida que muitas famílias mineiras recém-enriquecidas ofereciam a sua prole, construíam uma imbricada teia na manutenção de suas condições sociais ou ascensão das mesmas. Assim sendo, as filhas casaram-se da seguinte maneira: Ana Joaquina Sousa com Domingos Dias em 1779, cerimônia celebrada pelo já citado Pe. Antônio Caetano de Almeida Vilas Boas, Mariana Angélica com Joaquim Afonso em 1793, Maria Felícia com Manoel Costa em 1797, tendo seu irmão padre como testemunha e Joaquina Josefa com Domingos Costa Silva em 1799.[12] Trava-se de uma família nuclear, sem dúvida, mas não sem as nuances de uma típica família gerada no bojo das relações da sociedade mineira, como ainda veremos. Em 1795 já contavam com uma neta, a inocente Cândida, filha de Mariana Angélica,[13] membros que não se apartaram da Vila e poderiam ser presenças diárias constantes do restante da família.

São muitos os registros de batismo dos membros da família em que se apadrinha algum escravo ou um negro forro. O mesmo vale para as jovens filhas, em especial Policena, muitas vezes a eleita madrinha entre a comunidade negra e mestiça da freguesia. Em São João del-Rei o compadrio constituía-se de forma geral para todos os grupos da sociedade um meio de ascensão, uma aliança que os levaria a patamares mais elevados do que o da mãe e da criança batizada, principalmente quando tratava-se de pequenas escravarias. Entre 1736 e 1850 entre os filhos das escravas predominaram os padrinhos livres, representando 63% no total.[14] Considerando-se que nessa região tendiam a predominar unidades escravistas de pequeno porte, pode-se supor que isto seria uma explicação variável para a escolha majoritária de compadres livres para os filhos dos pais cativos.

Este tipo de apadrinhamento beneficiaria tantos os afilhados quanto seus pais. Tais redes ali traçadas forjavam uma trama de proteção paralela ao poder instituído, em que o batizado, rito cotidiano e de experiência coletiva, se constituía um importante dispositivo para o alargamento das relações, provedor de favorecimentos e signo de distinção social. Aos eleitos padrinhos ou madrinhas, nas relações entre brancos e negros, implicitamente se atribuía ou se ratificava o papel do compadre na sociedade, alguém de certo modo, mais importante e influente do que o escravo.

Na ausência física de mulheres na cerimônia de batismo de pessoas livres, Renato Venâncio faz algumas colocações que servem como parâmetro para a população escrava.[15] Segundo o mesmo, a escolha da madrinha possui um papel diferente, já que a falta desta denotava a desvalorização das mulheres e sua dificuldade na manipulação e utilização de prestígio e riqueza. Estas por vezes, poderiam ser substituídas por Nossa Senhora, que em troca protegia a mãe na hora do parto, livrando-a de uma possível morte. A madrinha possuía um papel secundário em relação ao padrinho e sua escolha por vezes estava atrelada a ele. Se Policena foi escolhida madrinha nas senzalas, há que se considerar quem a acompanhava majoritariamente na pia batismal: seu pai e seu irmão sacerdote, estes sim, capazes de oferecer algum proveito aos afilhados.

Deste modo, se família Souza Almeida não era a preferida entre seus iguais nas relações de compadrio, era porque na verdade, só poderiam oferecer alguma regalia a seus inferiores sociais. Não sendo nomes notáveis e favorecidos na freguesia, são exemplos significativos de como teciam suas estratégias e alternativas de sobrevivência, respondendo no cotidiano e nas conjunturas adversas as maneiras sob as quais se tornavam e se reinventavam enquanto agentes históricos. Em 1795 nosso sacerdote batizara Cândida, a neta da família, e um pequeno escravo, cujos padrinhos foram Joaquim José de Souza, o também padre, e Policena Xantipa, de apenas treze anos na época. Os encontros em trono da pia batismal não pararam aí. Entre 1796 e 1797 os membros da família Souza Almeida e o Pe. Pontes se encontraram nesta condição mais três vezes, uma delas, a mais significativa, batizando o cativo Joaquim, filho de Geralda crioula, ambos propriedades de nosso clérigo. A este inocente apadrinharam mais uma vez a dupla Joaquim José de Souza e Policena Xantipa, bem registrado por Pontes como os “filhos do Licenciado Bernardo Antônio Sousa Almeida”[16].

Não bastante, por intentar tornar-se padre, Joaquim José de Sousa fora assim mencionado por seu capelão: tratava-se de um homem regular na vida, religioso, ia aos jubileus, era assíduo aos sacramentos e acompanhava-o quando levava o santíssimo aos enfermos. “[…] Com zelo me ajudava nas ocupações de capelão[…]”,[17]afirmou José Rodrigues Pontes em 09 de Abril de 1797. Tais registros, sensíveis termômetros das relações sociais estabelecidas na colônia, apontam-nos para uma relação já consolidada entre o Pe. Pontes e a família Souza Almeida muito antes do período pronunciado por ele, quando interrogado pela Santa Inquisição em 1806. Compadres, companheiros de estima mútua e atividades ligadas, cujos laços se estreitariam de forma cada vez mais perigosa.

De certo modo, enquanto compadres, estenderam as afinidades muito além das relações entre o religioso e seus paroquianos. Aos moldes da época, consideravam-se mutuamente, protegiam-se uns aos outros, alargavam suas famílias e estabeleciam laços complexos no cotidiano. No século XVIII, ser padrinho era tornar-se parente espiritual dos pais do batizado. Mais do que isto, nas incertezas do cotidiano, muitas vezes as mineiros transgrediam a norma, chegando à institucionalização de certos mecanismos, como se tornar padrinho do próprio filho natural, para ocultar a relação proibida. No caso de alforrias concedidas na pia batismal, por exemplo, o sintomático financiamento direto ou indireto deste direito pelos padrinhos reflete a importância do compadrio em sociedades escravistas, constituindo-se como uma importante escolha para os anseios de liberdade.

Sendo o batizando cativo, é razoável que a escolha de suas relações de compadrio não dependesse exclusivamente da vontade de sua mãe também escrava. Há que se pesar a também o papel do senhor neste processo. Talvez a opção pelo nome Joaquim, mesma alcunha que do padrinho, seja bastante expressiva neste sentido: uma imbricada teia de relações entre escravos, senhores e padrinhos, que sugere proximidade e intimidade manifestas e ratificadas na pia batismal. O gesto assinala para o significado tão importante da construção de redes parentais dilatadas e tão necessárias no Antigo Regime nos trópicos, bebendo das nuances desta nova realidade, reproduzindo e alimentando as relações de “reciprocidades hierárquicas”, fazendo dos parentes rituais membros da família escolhida. Forjada solidariedade doméstica tão cara e necessária para a sobrevivência coletiva. Enfim, é importante salientar que a escolha dos compadres se caracterizam na busca de um controle social de sua escravaria, em que seus escravos fossem apadrinhados por testemunhas livres e forras, de maneira tal que através dessas redes de laços de solidariedade e ajuda mútua, os cativos fossem se aproximando do universo social dos livres abrindo a possibilidade de obter a alforria, e ao mesmo tempo tivessem suas vidas controladas pelos senhores através do medo de desintegração familiar que poderia acontecer por meio da venda ou da partilha da herança familiar dos senhores.

O fato é que redes de sociabilidade tramadas no bojo das experiências cotidianas só podiam residir justamente nas práticas coletivas, dentro das igrejas, das vendas e demais espaços que congregassem os indivíduos. Neste sentido, o habitual, como o batizado, é a expressão da coletividade, e pode portanto ser bem quisto por ela; se diferenciando e muito do que se chamava de “viver de portas a dentro”: termo e prática altamente pejorativa.

Porém, ao atentar para o conceito de privacidade daqueles tempos, entendendo que nas realidades da colônia não havia de forma definida as dimensões público e privado, não fora absurdo, e sim recorrente ao longo da História, os amores gerados dentro das igrejas, confessionários, missas, festas religiosas, calçado portanto nas sociabilidades já mencionadas. Na ausência de esferas privadas, tais lugares ofereciam as condições necessárias ao fazer-se da intimidade, e criavam-na por excelência.

De portas adentro

Entre as idas à ermida e convívio doméstico a distância foi curta. Em torno de um ano, foi o tempo que demorou para que os já bastante conhecidos José Rodrigues Pontes e a família Souza Almeida coabitassem, fazendo-o em “caridade ao padre então tornado órfão recentemente”, foi o que o mesmo afirmou à Santa Inquisição. Agora no seio doméstico, sem demora se afeiçoaria à jovem Policena. Solteira e também órfã de mãe, a madrinha bem quista na escravaria, “moça casadoura” como suas irmãs. Também estaria destinada ao matrimônio?

Tendo as sociabilidades cotidianas coloniais aberto o caminho para semelhantes tratos amorosos, não se pode perder de vista os sentidos de que são dotados tais modos análogos. “Viver de portas adentro”, ou como também se dizia, “viver como casados”, são vocábulos prenhes de eufemismo para as tão temidas relações concubinárias.[18] Como bem observou Bluteau,[19] viver portas a dentro é sinônimo também de intimidade. Não é de chocar que se assemelhe a conjugalidade e vida marital, ainda que coabitada aos demais membros da família. Sabedouro destas questões, o Pe. Pontes apenas sugeriria futuramente aos inquisidores que fora acolhido na casa por aquela família em tempos de sua desgraça pessoal.

A naturalidade do corpo despido, a miscigenação, a pressuposta imoralidade e sexualidade aflorada dos modos brasílicos, nem sempre podem ser entendidas como práticas repletas de erotização. A alusão sistemática ao corpo impede que se entenda a lógica mais sutil, como a sedução do namoro de “escarrinho”, ou feito em janelas, a troca de presentes, os galanteios e a erotização de partes do corpo diferenciadas. Cabe ao estudioso debruçar-se, num exercício de alteridade, sobre as nuances que matizam a idéia de sexualidade explícita que marcaria a sociedade brasileira colonial e que perduraria como sua marca mais intensa. Sem desconsiderar as tensões desta temática, como a violência própria de um sistema escravista, a dominação e a misoginia, a sexualidade não esteve livre de conflitos, nem tampouco pode ser estudada dissociada deles, sendo portanto seu condicionante mais presente. Neste sentido, se a moral insistia em reprimir os amantes, estes paralelamente criavam condições e ofereciam alternativas para viverem e experimentarem suas vontades, distanciando-se do ideal da Igreja do amor contido, por vezes celibatário, ou simplesmente destinado ao matrimônio e a procriação. Os casais encontravam seus espaços de intimidade nas camas, que eram raras, mas sobretudo nas redes, esteiras, matos, jardins e quintais. O pobre mobiliário não era impedimento as relações sexuais, nem tampouco os muros baixos motivo de constrangimento aos que preferissem fazê-lo ao ar livre, na sombra do pomar, na varanda, sempre expostos aos olhares indiscretos e as conversações da urbanidade. Entre o profano e o sagrado, o público e o privado, a sexualidade se reinventava.

No convívio da família Souza Almeida, o Pe. Pontes se surpreende afeiçoado a Policena, a filha solteira do licenciado Bernardo, “permanecendo em sua companhia por várias horas, experimentando por parte da moça igual correspondência afetuosa.”[20] Não há qualquer referência de que Policena fosse belíssima ou até mesmo uma mulher extraordinária: as fontes por vezes são bastante silenciosas quando se trata de mulheres. Nossa misteriosa moça e seu padre, “exaltavam suas chamas de concupiscência” até que se tornaram públicos e notórios, motivo de escândalo no arraial, causando alvoroço entre os habitantes de Conceição da Barra, casando ocultamente até que foram implicados com a Santa Inquisição.

Se uma das facetas do Pe. Pontes fora a de padre zeloso transformado em amante exacerbado, tão logo tendo ignorado os preceitos mais caros mal aprendidos no seminário, nosso clérigo abrira assim as portas para a “libertinagem” e as paixões mundanas. Além do mais, houve quem dissesse que o Pe. Pontes já havia sondado para se casar uma viúva moradora no Tamanduá, uma filha do Capitão Francisco Fernandes Medela e uma dita Josefa, filha de Maria Tereza Angélica de Gouveia, oferecendo a esta última a considerável quantia 3 mil cruzados e 8 escravos por escritura pública. Relatos duvidosos, condutas nem tanto. August de Saint-Hilaire não pode deixar de notar o mar de corrupção moral sob o qual os clérigos mineiros estavam mergulhados, malgrado a tentativa Tridentina em discipliná-los. Nesta teatralização hierárquica do Antigo Regime, nosso sacerdote não cumprira muito bem seu papel de viver exemplarmente e sem motivo de escândalo. Fora um sujeito dúbio, sem contudo ser contraditório por completo. José Rodrigues Pontes: um agente histórico dividido entre o amor e o sacrilégio, implicado pela Inquisição nos anos subsequentes.[21] Mas isto já é outra história.[22]

À guisa de uma conclusão

Alterar o foco de uma interpretação geral para um estudo de caso, aos moldes e métodos da micro-história, implica em compreender os limites e o contexto em que a análise particularizada está inserida. O caso do padre Pontes somente pode ser entendido em plenitude quando situado em seu tempo. Os clérigos das Minas Setecentistas por várias vezes foram apontados como devassos e quase sempre, incorreram em delitos morais ou até mesmo de fé, se envolvendo em contendas com a justiça eclesiástica ou o Santo Tribunal. O concubinato grassava solto, e os filhos de padres não foram incomuns. A própria sociedade tolerava implicitamente tais práticas, aos legitimar os afilhados como herdeiros cabais, caso fossem considerados filhos naturais de seus pais sacerdotes, em seus testamentos abertos no fim da vida. Também não era infreqüente um padre admitir um filho que tenha tido antes de sua ordenação, e ainda que a admissão não fosse explícita, muitos expostos foram criados como filhos por estes clérigos e de fato eram.

Mecanismos mais frouxos para a ilícita experiência sexual destes sacerdotes existiam e não foram ignorados. O celibato não era observado como devido, houve até quem dissesse que a fornicação com mulheres livres não era pecado e não levaria ninguém ao inferno. Por detrás do cenário armado e dos personagens atuando no grande espetáculo que fora o Antigo Regime, havia clérigos afeitos a luxúria e aos modos mais torpes, sem que isto comprometesse a ordem por completo, já que a sociedade vivia de aparências. A corrupção dos costumes não era um problema grave desde que permanecesse implícita, num acordo tácito em que os modos de vida eram constantemente dissimulados em favor de uma moralidade superficial, que pouco ganhou os corações e mentes dos mineiros do Antigo Regime.[23] Como bem observara Antonil, “qualquer um que cruzasse a Mantiqueira ali deixava sepultada sua consciência”. Daí o esforço tamanho em se moralizar o clero mineiro e seus paroquianos, que experimentavam um verdadeiro trópico dos pecados, ainda que transgredir não fosse uma ação consciente. Há que se pesar que alguns deles poderiam não estar mal intencionados ao se unirem com uma mulher e com ela formarem uma família perene, até mesmo com filhos. Não fossem os imperativos morais, viveriam maritalmente aos moldes do costume, só faltando o casamento para ratificar a união.

Sendo que a moral era bastante rasa na esfera do vivido, o celibato não obteve a funcionalidade que fora delegado quando instituído. Ao ser ignorado, não se ocupou como elemento de distinção entre leigos e clérigos, que se assemelhavam bastante nos modos sexuais. Se o plano de profissionalização do clero da igreja Tridentina neste aspecto malogrou, deve-se pesar contudo que sacerdotes e indivíduos laicos não se tornaram por isto dois grupos em intersecção. A distinção social promovida pela ordenação se encarregaria muito mais de estabelecer esta diferenciação que a Igreja tanto buscava. Os clérigos se situavam em outro nível da estratificação social, embora não pela fé, tampouco pelos costumes. Como homens do mundo, viviam para o próprio mundo, não se comprometendo profundamente com os ditames morais e legais, sem com que isto estabeleça necessariamente uma contradição. A própria habilitação clerical mineira dos setecentos fora bastante concessória quanto aos quesitos de ascendência e de comportamentos, respondendo sempre às demandas do teatro das aparências. A imoralidade dos sacerdotes daqueles tempos não pode ser vista como absurdo completo ou como fracasso total dos preceitos religiosos, a relação é dúbia e responde a questões de natureza prática, como a formação dos sacerdotes nos trópicos, ligada a um ofício entendido e exercido muito mais como mundano do que religioso.

Também as disposições do período se fazem sentir nos modos dos mineiros nos fins dos setecentos. A dessacralização do mundo inaugurada pelas luzes logo resvalam em certa medida nos mineiros mais atualizados, famintos por leituras ditas depravadas que corroborassem seus modos infames. Às raias da heresia, sacerdote e leigos não se fizeram de rogados ao se apropriarem da ilustração em idéias que desautorizavam a Igreja e seus preceitos reguladores, esboçando-se contrários manifestos a estes ditames. Ou pode-se dizer também que nas Minas as consciências foram tropicalizadas, e a moral de todo modo, adaptou-se neste ambiente. Desta forma, não parece absurdo que, entre encontros na pia batismal, confissões, e demais celebrações litúrgicas padres e moças apaixonados pintavam no cotidiano as cores da vida privada.

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Arquivo do Museu Regional de São João del-Rei:

Inventários:

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Testamentos:

Joaquim José de Sousa, caixa nº137.

Arquivo Eclesiástico da Matriz de Nossa Senhora do Pilar

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Processos de Habilitação De Genere, Vitae et Moribus

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[1] Graduada em História pela UFSJ. Ano de Obtenção 2010.

[2] LACERDA FILHO, Mozart. Nova História Cultural e Micro-História - uma breve Reflexão sobre suas Origens. Disponível em: http://www.revistamuseu.com.br/artigos/art_.asp?id=5619 (acesso 25 fev 2010)

[3] CINTRA, Sebastião. Efemérides de São João del- Rei .2 ed. Belo Horizonte: Imprensa oficial. 1982, p.521.

[4] AEAM. Processo de Habilitação De genere, Vitae et Moribus. José Rodrigues Pontes, armário 08, pasta 1295.

[5] SOBRINHO, Antônio Gaio. Memórias de Conceição da Barra de Minas. São João del-Rei, 1990, p. 69.

[6] ANDRADE, Francisco Eduardo de. A conversão do sertão capelas e a governamentalidade nas Minas Gerais. Varia história. [online]. 2007, vol.23, n.37, pp. 151-166. ISSN 0104-8775.

[7] Mapa da população de freguezia de São João del-Rey de que é vigário colado Antonio Caetano de Almeida Vilas- Boas. Apud: SOBRINHO, Antônio Gaio. op.cit, p. 209.

[8] FIGUEIREDO, Luciano.Barrocas famílias. São Paulo, Editora Hucitec, 1997.

[9] Segundo Bluteau, esta ocupação do exército trata do aposentos, camas, mantimentos, munições e demais pertences do regimento. BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez e latino. Coimbra : Collegio das Artes da Companhia de Jesus, 1712. pág 181.

[10] VAINFAS, Ronaldo. Moralidades Brasílicas: deleites sexuais e linguagem erótica na sociedade escravista. In: Laura de Mello e Souza (Org.). Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa. Coleção História da Vida Privada no Brasil. São Paulo. Cia das Letras, 1999, Vol.I.

[11] ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2 ed., Rio de Janeiro: LTC, 1981.

[12] Banco de dados dos livros de casamento da Paróquia de São João del-Rei (1729- 1811).

[13] Banco de dados dos livros de batismo da Paróquia de São João del-Rei (1729-1850).

[14] BRÜGGER, Sílvia Maria. Minas patriarcal: família e sociedade – São João Del Rei, séculos XVIII e XIX. Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2002.

[15] VENÂNCIO, Renato Pinto. A madrinha ausente: condição feminina no Rio de Janeiro – 1750-1800. In: Iraci del Nero da Costa (org). Brasil: História Econômica e Demográfica: São Paulo: IPE-USP, 1986, p.97.

[16] Arquivo Eclesiástico da Matriz de Nossa Senhora do Pilar. Conceição da Barra, registro de batizados e casamentos, (1790-1815)( 1817/1825) , fol 30v.

[17] AEAM. Processo de Habilitação De Genere, Vitae et Moribus. Joaquim José de Sousa, armário 06, pasta 0984.

[18] Para Pollyanna Mendonça, viver “de portas adentro”, termo bastante pejorativo para o período colonial, significa coabitação e uma implícita relação familiar entre padres e suas concubinas, com direito à prole e paternidade admitida. O peso delegado às relações duradouras deve-se ao compromisso sacramental do sacerdote e a igreja, necessariamente excludente quanto ao matrimônio, o que tornava uniões presumidas ameaças eminentes para as obrigações eclesiásticas. Apesar de haver uma diferença jurídica entre as relações de concubinato e o casamento formal de clérigo, que serão julgadas por foros distintos, a postura repressora da igreja relaciona-se à proximidade cotidiana dessas duas formas de relacionamento, embora a segunda fosse menos observada. Diferente dos eventuais delitos contra a castidade, o concubinato era assimilado ao matrimônio, uma vez que não era raro dar origem a uma família, filhos e obrigações domésticas, causando escândalo e ameaçando a ordem social. MENDONÇA, Pollyanna Gouveia. Sacrílegas famílias: conjugalidades clericais no bispado do Maranhão no século XVIII. Niterói-Rio de Janeiro, 2007. Dissertação (Mestrado em História) - Programa de Pós Graduação em História, Universidade Federal Fluminense.

[19] BLUTEAU, Raphael. op. cit. p 628.

[20] Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Inquisição de Lisboa, processo 12571.

[21] Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Inquisição de Lisboa, processo 12571.

[22] JANUARIO, Mayara. Entre o amor e o sacrilégio: o casamento do padre José Rodrigues Pontes. Monografia. Bacharelado em História. UFSJ, 2009.

[23] ARAÚJO, Emmanuel. O teatro dos vícios - transgressão e transigência na sociedade urbana colonial. Rio de Janeiro, José Olympio, 1993.